
OS ESPINHOS DO MAL

V. C. ANDREWS

A SAGA DOS FOXWORTH


NOTA:

     Este livro foi digitalizado  por Vera Lcia Figueiredo para uso exclusivo de deficientes
visuais.

     Fevereiro de 2005




OS ESPINHOS DO MAL
V. C. ANDREWS
A SAGA DOS FOXWORTH
Autora de "O Jardim dos Esquecidos" e "Ptalas ao Vento"

Francisco Alves

        DAS CINZAS DO MAL, CHRIS E CATHY CONSTRURAM UM LINDO LAR PARA SEUS ESPLNDIDOS FILHOS...

        Jory, de quatorze anos, era to bonito,
to delicado. E Bart possua uma imaginao
to brilhante para um menino de nove anos.
        Ento, acenderam-se luzes na casa vizinha
abandonada. E em breve a Velha Senhora de
Negro passou a observ-los com olhos intrometidos, protegida por seu esquisito e velho mordomo. Logo a mulher de manto negro
convidou Bart para tomar sorvete com bolinhos e lhe pediu para trat-la por "Vov".
        E a transformao de Bart comeou...
        Uma transformao brotada do "livro de
segredos" que o esqueltico velho mordomo
lhe deu... e alimentada pela insinuao de
fatos terrveis relativos a seus pais... uma
transformao que o levou a cometer atos
chocantes de violncia, autodestruio e perversidade.
        E agora, enquanto o menino estremece no
limite entre a sanidade e a loucura, seus pais angustiados, seu irmo impotente, uma velha obsecada e vingativa, e o poderoso mordomo aguardam o clmax de um horror
que floriu no sto muitos anos atrs, um horror cujos espinhos ainda esto molhados de sangue e cujas pontas queimam como fogo...

Os Espinhos do Mal

A SAGA DOS FOXWORTH
de V. C. Andrews

O Jardim dos Esquecidos

Ptalas ao Vento

Os Espinhos do Mal

V. C. Andrews

Os Espinhos do Mal

Traduo de LUIZ HORCIO DA MATTA

Francisco Alves

Copyright (c) 1981 by Virginia Andrews
Ttulo original: If there be thorns

Reviso: Maria Jos e Graciette da Silva Paulo - Maria Goretti Lanza Brando

1981

Impresso no Brasil
Printed in Brazil

Todos os direitos desta traduo reservados  LIVRARIA FRANCISCO ALVES EDITORA S.A.
Rua Sete de Setembro, 177 - Centro
20050 - Rio de Janeiro - RJ

Para Mary, para John

#7
PRLOGO

        No final da tarde, quando as sombras j eram compridas, sentei-me imvel e
silenciosa perto de uma das esttuas de mrmore de Paul. Escutei esttuas que sussurravam
para mim um passado que eu nunca conseguiria esquecer; faziam insinuaes matreiras sobre o futuro que eu tentava ignorar. Cintilando fantasmagoricamente  luz plida 
da lua que surgia, arrependimentos fugidios diziam-me que eu poderia e deveria ter agido de modo diferente. Mas sou o que sempre fui: uma pessoa governada por instintos. 
Parece-me que jamais conseguirei mudar.
        Hoje, encontrei um fio prateado em meus cabelos, lembrando-me de que em breve eu poderia ser av, e estremeci. Que tipo de av seria eu? Que tipo de me 
era eu? Na doura do crepsculo, esperei que Chris viesse juntar-se a mim para dizer-me com o azul verdadeiro de seus olhos que no estou esmaecendo, desbotando; 
que no sou apenas uma flor de papel, mas uma flor de verdade.
        Ele passou o brao por cima de meus ombros e recostei a cabea na posio que me pareceu mais cmoda, ambos sabendo que nossa 
estria est quase terminando e que Bart e Jory nos daro o melhor ou o pior de tudo que ainda est por acontecer.
  Agora,  a estria dele, de Bart e de Jory, e eles a relataro como a conheceram.


PRIMEIRA PARTE

#11
JORY

    Sempre que papai no me ia buscar de carro na escola, um nibus escolar amarelo deixava-me num local isolado, e eu pegava minha bicicleta na ravina mais prxima, 
onde a escondia todas as manhs antes de tomar o nibus.
     Para chegar em casa, era obrigado a percorrer uma estrada estreita e sinuosa, onde no existiam casas, at passar pela enorme manso abandonada que me atraa 
invariavelmente o olhar, fazendo-me imaginar quem teria residido ali e por que motivo a haviam abandonado? Ao avistar a manso, eu diminua automaticamente a velocidade,
sabendo que logo estaria em casa.
     A meio hectare daquela manso ficava nosso lar, isolado e solitrio numa estrada que tinha mais curvas que um labirinto de
quebra-cabeas, daqueles que conduz o rato ao pedao de queijo. Residamos em Fairfax, no Condado Marin, cerca de trinta quilmetros ao norte de So Francisco. No 
outro lado das montanhas havia uma
floresta de sequias e, tambm, o oceano. Nossa casa era fria, s vezes lgubre. O nevoeiro rolava em grandes ondas sopradas pelo vento e muitas vezes encobria o 
panorama durante o dia inteiro, tornando
tudo frio e soturno. O nevoeiro era fantasmagrico, mas tambm romntico e misterioso.
    Por mais que eu gostasse do meu lar, tinha vises vagas e perturbadoras de um jardim sulino cheio de gigantescas magnlias das quais pendiam parasitas barbas-de-velho. 
Lembrava-me de um homem alto cujos cabelos escuros j se tornavam grisalhos; um homem que me chamava de filho. No me recordava to bem de seu rosto quanto me lembrava 
da gostosa sensao de calor e segurana que ele me proporcionava. Creio que uma das coisas mais tristes do crescimento e da idade  que ningum tem tamanho ou fora 
suficiente para pegar-nos no colo, abraar-nos com fora e dar-nos outra vez aquela
sensao de segurana.
     Chris era o terceiro marido de minha me. Meu verdadeiro pai morreu antes de eu nascer; chamava-se Julian Marquet e todos no
#12
mundo do bal o conheciam de nome. Quase ningum fora de Clairmont, na Carolina do Sul, sabia a respeito do Dr. Paul Scott Sheffield, que fora o segundo marido de 
minha me. Naquele mesmo estado sulino, na cidade de Greenglenna, residia minha av paterna, Madame Marisha.
    Era ela quem me escrevia uma carta por semana; e todos os anos amos visit-la no vero. Parece-me que ela desejava tanto quanto eu que me tornasse o bailarino 
mais famoso que o mundo j conhecera. E, dessa forma, eu provaria a ela, bem como ao resto do mundo, que meu pai no vivera e morrera em vo.
    Minha av no era, absolutamente, uma velha senhora comum com setenta e quatro anos de idade. Outrora fora muito famosa e no permitia que ningum se esquecesse 
disso por um segundo que fosse. Era uma regra que eu jamais a chamasse de vov quando outras pessoas pudessem ouvir e, talvez, adivinhar-lhe a idade. Certa vez, 
segredou-me que eu poderia cham-la de Mame, mas isso no me pareceu direito, pois eu j possua uma me a quem amava muito. Portanto, chamava-a simplesmente de 
Madame Marisha, ou Madame M., como todo mundo costumava fazer.
    Nossa visita anual  Carolina do Sul era longamente aguardada durante os invernos e rapidamente esquecida logo que estvamos de
volta, confortavelmente acomodados em nosso pequeno vale, onde se aninhava nossa comprida casa de sequia. "Seguros no vale onde o vento no sopra", dizia freqentemente 
minha me. Na verdade, com
demasiada freqncia - como se o sopro do vento a perturbasse profundamente.
    Cheguei  alameda curva que dava acesso  nossa casa, estacionei a bicicleta e entrei. Nem sinal de Bart ou de Mame. Diabo! Corri  cozinha, onde Emma estava 
preparando o jantar. Ela passava a maior parte do tempo na cozinha, o que explicava sua silhueta "agradavelmente rechonchuda". Tinha um rosto comprido e azedo, a 
menos
que estivesse sorrindo; felizmente, sorria o tempo quase todo. Era capaz de ordenar que a gente fizesse isto ou aquilo e, com seu
sorriso, eliminar o incmodo da tarefa - coisa que meu irmo Bart se recusava a admitir. Eu desconfiava que Emma cuidava mais de Bart que de mim porque ele sempre 
entornava o leite quando se servia, ou largava o copo no cho. No conseguia segurar coisa alguma com firmeza, nem evitar esbarrar em tudo, derrubando mesas e abajures. 
Se havia um fio de extenso em qualquer lugar da casa, Bart sem dvida tropearia nele e cairia - ou derrubaria a batedeira, o liquidificador, o rdio ou qualquer 
outro aparelho.
    - Cad o Bart? - perguntei a Emma, que descascava batatas para servir com o rosbife que estava no forno.
    - Vou-lhe dizer uma coisa, Jory: ficarei satisfeita quando aquele menino permanecer na escola o mesmo tempo que voc. Detesto
#13
v-lo entrar na cozinha. Sou obrigada a parar o que estou fazendo -, para vigi-lo e adivinhar no que ele vai esbarrar ou tropear. Graas a Deus ele tem aquele 
muro para sentar-se. A propsito, - que fazem vocs em cima daquele muro?
    - Nada - respondi.
    No queria dizer a ela quantas vezes nos esgueirvamos at a manso abandonada no terreno vizinho do outro lado do muro e brincvamos l. ramos proibidos de 
entrar na propriedade, mas nossos pais no podiam ver e saber tudo.
    - Cad Mame? - indaguei a seguir.
    Emma informou que Mame voltara cedo para casa, aps cancelar sua aula de bal, o que eu j sabia.
    - Metade dos alunos esto resfriados - expliquei. - Mas onde est ela?
    - Jory, no posso ficar de olho em todo mundo, e ainda saber o que eu estou fazendo. H poucos minutos, ela disse algo a respeito
de ir ao sto procurar fotos antigas. Por que no sobe at l para ajud-la a procurar?
    Era a maneira delicada de Emma dizer que eu a estava atrapalhando. Encaminhei-me para a escada do sto, que ficava escondida na outra extremidade do amplo closet 
que servia para guardar roupas de cama e mesa, no corredor dos fundos. No momento em que atravessava nossa sala de estar ntima, ouvi a porta da frente abrir-se 
e fechar-se. Para minha surpresa, avistei Papai absolutamente imvel no saguo, uma estranha expresso pensativa nos olhos azuis, fazendo-me
relutar em cham-lo e interromper-lhe as reflexes. Parei, indeciso.
     Depois de largar a maleta negra de mdico, ele se dirigiu a seu quarto. Teve que passar diante da rouparia, cuja porta estava entre-aberta. Parou, escutando 
como eu o leve som da msica de bal que descia do sto. Por que minha me estava l em cima? Danando l outra vez? Sempre que eu lhe perguntava por que danava 
num lugar to empoeirado, ela explicava que se sentia "compelida" a danar l em cima, a despeito do calor e da poeira. "No conte nada disso a seu pai", advertira 
ela diversas vezes. Depois de minhas indagaes, ela deixara de ir ao sto - e agora l estava novamente.
    Desta vez, resolvi subir. Desta vez, ouviria as desculpas que ela apresentaria a ele. Pois Papai a apanharia de surpresa!
    Nas pontas dos ps, segui-o pela escada estreita e ngreme. Ele parou diretamente sob a lmpada nua que pendia da cumieira do
sto. Cravou os olhos em Mame, que continuou a danar como se no o visse ali. Levava na mo um pano de p e fingia limpar isto ou aquilo, imitando Cinderela e, 
certamente, no a Princesa Aurora da Bela Adormecida, que era a msica que soava no antiquado toca-discos.
#14
    Puxa! o corao de meu padrasto pareceu saltar-lhe aos olhos. Dava a impresso de estar assustado e pressenti que minha me o
magoava pelo simples fato de danar no sto. Que esquisito. No entendi o que se passava entre eles. Eu tinha quatorze anos, Bart nove, e estvamos ambos longe, 
muito longe de sermos adultos. O amor que eles nutriam um pelo outro parecia-me muito diferente do amor que eu via entre os pais dos poucos amigos que possua. Parecia
um amor mais intenso, mais tumultuoso, mais apaixonado. Sempre que julgavam que ningum os observava, fitavam-se nos olhos e davam a impresso de terem necessidade 
de estender as mos para se tocarem quando passavam um pelo outro.
     Agora, que me tornava adolescente, eu comeava a prestar mais ateno ao que se passava entre os modelos mais significativos que possua. Refleti freqentemente 
a respeito das diferentes facetas que tinham meus pais. Uma para as vistas do pblico, outra para Bart e eu, e a terceira, mais ardorosa, que mostravam apenas um 
ao outro.
(Como poderiam saber que seus dois filhos nem sempre eram bastante discretos para se virarem e sarem como deviam?)
     Talvez fosse o modo de ser de todos os adultos, especialmente os pais.
    Papai continuou a observar fixamente enquanto Mame girava em rpidas piruetas que abriam em leque seus compridos cabelos louros, formando um semicrculo. Ela 
usava malha branca e sapatilhas da mesma cor; fiquei embevecido ao v-la danar, manipulando o pano de limpeza como uma espada que dardejava contra os velhos mveis 
de criana para os quais Bart e eu j crescramos demais. Espalhados pelo cho e pelas prateleiras estavam brinquedos quebrados, carros e velocpedes, pratos que 
Mame ou Emma tinham partido e que ela pretendia colar algum dia. Com cada golpe do pano de limpeza, ela erguia zilhes de dourados gros de poeira. Frenticos
e enlouquecidos, eles lutavam para pousar novamente antes que ela voltasse a atacar e os colocasse em debandada.
    - Partam! - gritava ela, como uma rainha a seus escravos. - Sumam-se para sempre! No me atormentem mais! 
    E continuava a girar, to depressa que fui obrigado a me voltar para acompanh-la com os olhos, ou ficaria tonto s de observar. Ela limpou a cabea, a perna, 
fazendo fouettes com mais percia que
qualquer bailarina que eu j vira num palco. Selvagem e desvairada, girava cada vez mais rpido! Mais rpido! Seguia o ritmo da msica, usando o pano de limpeza 
como parte da ao, tornando o trabalho caseiro to dramtico que tive mpetos de tirar os sapatos, pular para o centro do sto, juntar-me a ela e ser o parceiro 
que meu verdadeiro pai fora outrora. Entretanto, s consegui permanecer de p nas sombras arroxeadas e difusas, assistindo a algo que eu pressentia no dever presenciar.
#15
    Papai engoliu o n que se deve ter formado em sua garganta. Mame parecia to linda, to jovem e suave. Tinha trinta e sete anos to velha em idade mas to jovem 
em aparncia, to capaz de ferir-se
facilmente por uma palavra menos bondosa. Exatamente como qualquer bailarina de dezesseis anos no seu curso de dana.
    - Cathy! - exclamou Papai, arrancando a agulha do disco de modo que a msica cessou repentinamente. - PARE! O que est fazendo?
    Ela escutou e sacudiu os braos esguios e alvos numa imitao de medo, aproximando-se dele com os passinhos chamados bourres.
Mas apenas por um ou dois segundos, antes de recomear uma srie de piruetas em torno dele, circundando-o - e limpando-o com o
pano de p!
    - PARE COM ISSO! - berrou ele, agarrando o pano e jogando-o para longe.
    Segurou-a pela cintura, prendendo-lhe os braos ao longo do corpo, enquanto ela corava at ficar com o rosto muito vermelho. Ele afrouxou o abrao o suficiente 
para que os braos dela batessem como asas quebradas de um pssaro, at que ambas as mos se ergueram at o pescoo. Acima das alvas mos cruzadas, os olhos azuis 
de minha me se tornaram grandes e muito escuros. Seus lbios cheios comearam a tremer e devagar, muito devagar, com terrvel relutncia,
ela foi obrigada a olhar na direo apontada pelo dedo de Papai.
     Tambm olhei e fiquei surpreso ao ver duas camas armadas na parte do sto que em breve seria remodelada. Papai prometera a ela que teramos um quarto de recreao 
l em cima. Mas duas camas gmeas no meio de todos aqueles trastes imprestveis? Por que?
     Ento, mame disse em voz rouca e assustada:
   - Chris? Est em casa? No costuma chegar to cedo...
   Ele a pegara em flagrante e senti-me aliviado. Agora, ele poderia dar jeito nela, dizer-lhe que no voltasse a danar naquele ambiente seco e poeirento capaz 
de faz-la desmaiar. At mesmo eu pude perceber
que ela encontrava dificuldades para arranjar alguma desculpa.
    - Cathy, eu trouxe aquelas camas para c, mas como conseguiu arm-las? - quis saber Papai. - Onde arranjou colches?
    Ento, sobressaltou-se pela segunda vez, ao avistar a cesta de piquenique entre as duas camas.
    - Cathy! - rugiu, olhando-a com fria. - A histria tem que se repetir? No podemos aprender e nos beneficiarmos com os erros
alheios? Precisamos fazer tudo novamente?
     Novamente? De que ele estava falando?
   - Catherine - prosseguiu Papai no mesmo tom frio e duro -, no fique a parada, fazendo-se de inocente, como uma criana m
apanhada roubando. Por que aquelas duas camas esto armadas aqui, arrumadas com 
#16
lenis limpos e cobertores novos? Por que a cesta de piquenique? J no vimos o bastante esse tipo de cesta pelo resto de nossas vidas?
    E ali estava eu, pensando que ela arrumara as camas para que pudssemos descansar depois de danarmos, como fizramos algumas vezes. E a cesta de piquenique 
era, afinal, apenas mais uma cesta como tantas outras.
    Aproximei-me um pouco deles e me ocultei atrs de um pilar que subia at uma das vigas. Havia algo triste e doloroso entre eles; algo novo, fresco, como uma 
ferida que se recusasse a cicatrizar. Minha me parecia envergonhada e repentinamente sem jeito. O homem que eu chamava de papai estava confuso; pude perceber que 
desejava tom-la nos braos, perdo-la.
    - Cathy, Cathy - implorou, angustiado. - No seja como ela em tudo!
    Mame ergueu bem a cabea, jogou os ombros para trs e, com orgulho arrogante, encarou-o at que ele baixou os olhos. Afastou do rosto os cabelos compridos e 
sorriu para encant-lo. Estaria fazendo
tudo aquilo para obrig-lo a parar de fazer perguntas que ela no desejava responder?
    Senti um frio estranho na obscuridade embolorada do sto. Um arrepio percorreu-me a espinha, dando-me vontade de fugir e me esconder. E envergonhando-me de 
espionar - Bart gostava disso, mas eu no.
     Entretanto, como poderia eu fugir sem atrair a ateno deles? Tinha que permanecer no esconderijo.
    - Olhe para mim, Cathy. Voc j no  a ingnua jovem e delicada. E isto no  um brinquedo. No existe motivo para aquelas
camas estarem aqui. E a cesta de piquenique s serve para aumentar meus temores. Que diabo anda voc planejando?
    Ela abriu os braos como se fosse abra-lo, mas ele a empurrou para longe e continuou a falar:
    - No tente bancar a sedutora quando estou quase vomitando de nojo. Todos os dias eu me indago como sou capaz de voltar para
casa e no me sentir farto de voc; como continuo a sentir o que sinto h tantos anos, mesmo depois de tudo o que aconteceu.
No obstante, ano aps ano continuo a am-la, a precisar de voc, a confiar em voc. No transforme meu amor em algo horrvel!
    A fisionomia de minha me toldou-se, confusa. Tenho certeza de que o mesmo ocorreu comigo. Ele no a amava de verdade? Era isso que queria dizer? Mame olhou 
outra vez para as camas, como se espantada por v-las ali.
#17
    - Ajude-me, Chris! - exclamou, engasgada, aproximando-se dele e tornando a abrir os braos.
    Ele a afastou, sacudindo a cabea. Ela implorou:
    - Por favor, no balance a cabea, no se porte como se no compreendesse! No me lembro de ter comprado aquela cesta -
palavra de honra! Na outra noite, sonhei que vim aqui preparar aquelas camas, mas quando subi hoje e avistei ali pensei que voc
fosse o responsvel.
    - CATHY! EU NO COLOQUEI AS CAMAS ALI!
    - Saia das sombras. No consigo v-lo no lugar onde est.
    Ela ergueu as mos pequenas e brancas, parecendo afastar teia de aranha invisveis. Em seguida fitou as mos como se estas a houvessem trado - ou estaria mesmo 
vendo teias de aranha presas nos dedos.
    Assim como papai, tornei a olhar em volta. Nunca antes o sto estivera to limpo. O assoalho fora varrido e encerado, as caixas de trastes velhos cuidadosamente 
empilhadas. Mame tentara tornar o ambiente acolhedor, pendurando nas paredes lindas fotografias de flores.
    Papai fitava Mame como se estivesse louca. Imaginei o que ele estaria pensando e por que motivo no conseguia atinar com o
que a afligia, pois era o melhor mdico do mundo. Estaria tentando decidir se ela apenas fingia ter-se esquecido? Ou aquela expresso vaga e perturbada nos aterrorizados 
olhos de mame significava para ele algo diferente? Deve ter sido isto, pois ele disse baixinho, num tom bondoso:
    - Cathy, no precisa parecer amedrontada. Voc j no est mais nadando num oceano de falsidade, ou  irremediavelmente arrastada por um redemoinho. No se est 
afogando. No est afundando, No est sofrendo um pesadelo. No precisa agarrar-se a pedaos de palha quando me tem a seu lado.
    Ento, tomou-a nos braos e ela se deixou cair de encontro a ele, arquejando como se quisesse evitar afogar-se.
    - Voc est bem, querida - disse Papai, afagando-lhe as costas, tocando-lhe o rosto, enxugando as lgrimas que comeavam a correr.
     Ergueu-lhe carinhosamente o queixo antes de baixar lentamente os lbios para os dela. O beijo durou uma eternidade, fazendo-me
prender a respirao.
   - A av est morta. Foxworth Hall incendiou-se at os alicerces. 
   Foxworth Hall? O que era aquilo?
   - No, Chris. Escutei-a subindo a escada h pouco tempo. E voc sabe que ela tem medo de lugares pequenos, confinados... como poderia subir a escada?
#18
    - Voc estava dormindo quando a escutou?
    Estremeci. De que diabo estavam falando? De que av?
    - Sim - murmurou mame, os lbios movendo-se sobre o rosto de Papai. - Creio que tive pesadelos depois de tomar banho
e deitar-me no ptio de nosso quarto. Nem mesmo me recordo de haver subido at aqui. No sei por que vim, ou por que dancei aqui,
a menos que esteja ficando louca. s vezes, sinto que sou ela e me odeio por isso!
    - No, voc no  ela. mame est a muitos quilmetros de distncia, onde jamais nos poder magoar novamente. A Virgnia fica a cinco mil quilmetros daqui e 
o passado j passou, acabou. Sempre que estiver em dvida, faa-se uma pergunta: se conseguimos
sobreviver ao pior, no  razovel que consigamos suportar o melhor?
    Tive, ao mesmo tempo, mpetos de fugir e de ficar. Senti que eu tambm me afogava no mar de falsidade deles, apesar de no entender o que diziam. Vi duas pessoas, 
meus pais, como estranhos que eu no conhecia - mais jovens, menos fortes, menos confiveis.
    - Beije-me - murmurou mame. - Acorde-me e coloque em fuga os fantasmas. Diga que me ama e sempre me amar, no importa o que eu fizer.
    Papai fez tudo que ela pediu. Quando conseguiu convenc-la, ela quis danar com ele. Recolocou a agulha no disco e a msica voltou a encher o ambiente.
    Encolhido, sentindo-me rgido e  minsculo, observei papai tentar os difceis passos de bal que teriam sido to fceis para mim. Ele no possua suficiente 
percia ou graa para fazer par com uma bailarina
do quilate de mame. Era embaraoso at mesmo, v-lo tentar. Logo ela trocou o disco, colocando uma msica que ele era capaz de danar.

     "Danando no escuro,
     At a msica acabar,
     Estamos danando no escuro..."

     Agora Papai estava confiante, segurando-a contra si, os rostos colados enquanto ambos deslizavam pelo sto.
    - Tenho saudade das flores de papel que costumavam balanar quando passvamos por elas danando... - disse ela baixinho.
    - E, l embaixo, os gmeos assistiam  pequena televiso em preto e branco no canto do quarto - replicou Papai, os olhos fechados, a voz suave e sonhadora. - 
Voc tinha apenas quatorze anos e eu j a amava, para minha grande vergonha.
    Vergonha? Por que?
     Ele nem mesmo a conhecia quando ela tinha apenas quatorze anos. Franzi a testa,  procurando lembrar-me de onde e quando se
#19
haviam conhecido. Mame e sua irm caula, Carrie, tinham fugido de casa depois que os pais morreram num acidente de automvel.
Haviam tomado um nibus para o sul e uma bondosa negra chamada Henny as levara  casa do patro, o Dr. Paul Sheffield, que generosamente as acolhera e lhes dera 
um bom lar. Mame voltou a estudar bal e conheceu Julian Marquet - o homem que era meu pai.
Nasci pouco depois que ele morreu. Ento, Mame se casou com papai Paul. E Papai Paul era o pai de Bart. Passou-se muito, muito
tempo antes que ela conhecesse Chris, que era o irmo mais moo de papai Paul. Portanto, como poderia ele am-la quando ela tinha apenas quatorze anos? Haviam mentido 
para ns? Oh, diabo, oh, diabo...!
     Agora, porm, a dana terminou e a discusso recomeou:
   - Muito bem, sente-se melhor, voltou ao normal - disse Papai. - Quero que prometa solenemente que se algo me acontecer, seja amanh ou daqui a muitos anos, jure 
por Deus que jamais ocultar Bart e Jory no sto a fim de ficar livre para arranjar outro
casamento!
    Atordoado, vi mame erguer repentinamente a cabea antes de dizer com voz engasgada:
   -  isso que pensa de mim? Maldito seja por me julgar to semelhante a ela! Talvez eu tenha armado as camas. Talvez tenha
trazido a cesta para c. Mas nunca me passou pela cabea... Chris, voc sabe que eu seria incapaz disso!
     Isso o que? O que?
     Ele a obrigou a jurar. Forou-a realmente a pronunciar as palavras enquanto os olhos azuis o encaravam acesos de raiva.
    Molhado de suor, com o corpo doendo, senti-me furioso e terrivelmente desiludido com papai, que deveria pensar de outro modo.
Mame no faria aquilo. No podia fazer! Ela me amava. E amava Bart, tambm. Embora s vezes o fitasse com olhos toldados, nunca,
jamais nos ocultaria no sto.
    Papai deixou-a no centro do sto e avanou para pegar a cesta de piquenique. Em seguida, destrancou a janela, abriu a tela e atirou a cesta para longe. Observou-a 
cair no solo antes de virar-se para tornar a encarar raivosamente Mame:
    - Talvez estejamos aumentando os pecados de nossos pais ao vivermos juntos como vivemos. Talvez, no final, tanto Jory como
Bart venham a sofrer - portanto, esta noite, quando estivermos na cama, no me venha com aquela conversa de adotarmos outra criana.
Simplesmente no temos o direito de envolver outra criana na embrulhada que criamos! No entende, Cathy, que ao armar aquelas camas aqui em cima voc planejava 
inconscientemente o que fazer, caso nosso segredo seja descoberto? 
#20
    - No - protestou ela, abrindo as mos num gesto impotente. - No faria isso. Seria incapaz de...
    - Voc precisa falar srio! - bradou ele. - No importa o que acontecer, ns... ou melhor, voc no colocar seus filhos no
sto para salvar-se ou para me salvar.
    - Odeio voc por julgar que eu o faria!
    - Estou procurando ser paciente. Estou tentando acreditar em voc. Sei que ainda tem pesadelos. Sei que ainda  atormentada por tudo que aconteceu quando ramos 
jovens e inocentes. Entretanto, precisa amadurecer o bastante para encarar-se honestamente. Ainda no aprendeu que muitas vezes o subconsciente mostra o caminho 
da
realidade?
    Voltou para abra-la, reconfort-la e beij-la, amaciando a voz, enquanto ela se agarrava desesperadamente a ele. (Por que precisava sentir-se to desesperada?)
    - Cathy, meu corao, afaste de si os temores instilados pela cruel av. Ela desejava que acreditssemos no inferno e nos eternos tormentos da vingana. No 
existe inferno a no ser o que ns mesmos criamos para ns. No existe cu seno o que construmos juntos. No destrua minha crena, meu amor, com seus atos "inconscientes". 
No sei viver sem voc.
    - Ento, no v visitar sua me neste vero.
    Ele ergueu a cabea e olhou por cima de mame, a fisionomia cheia de sofrimento. Escorreguei-me silenciosamente para o cho,
sentando-me para observ-los. O que se passava? Por que me sentia subitamente amedrontado?

BART

     - "E, no stimo dia, Deus descansou" - leu Jory enquanto terminei de alisar firmemente a terra sobre as sementes de
amor-perfeito plantadas em homenagem ao aniversrio de minha tia Carrie e meu tio Cory, no dia cinco de maio. Os pequenos tios que eu no chegara a conhecer. Ambos 
mortos h muito, muito tempo. Papai morreu antes que eu nascesse. Em nossa famlia as pessoas morrem com facilidade. (Imagino por que gostavam tanto de amores-perfeitos? 
Pequenas flores insignificantes, com caras de lua-cheia.) Gostaria que mame no considerasse to importante, prestarmos homenagem s pessoas mortas, em suas datas 
natalcias.
#21
   - Sabe do que mais? - perguntou Jory, como se nove anos fosse uma idade imbecil e ele j fosse um grande adulto. - No comeo,,
quando Deus criou Ado e Eva, eles viviam no Jardim do den sem usar qualquer tipo de roupas. Ento, um dia, uma malvada serpente falante lhes disse que era pecado 
andarem nus, de modo que Ado colocou uma folha de parreira.
    Puxa... gente nua que no sabia que nudez era pecado.
    - O que colocou Eva? - perguntei, olhando em volta na esperana de avistar alguma folha de parreira.
    Jory continuou a ler naquele tom cantante que me levava de volta aos velhos tempos em que Deus cuidava de todo mundo - at mesmo de pessoas nuas que conseguiam 
conversar com serpentes. Jory se afirmava capaz de colocar as estrias bblicas em msica "mental", o que me enraivecia e amedrontava - ele danava ao som de msica 
"mental" que eu no conseguia escutar! Fazia-me sentir estpido, invisvel, mais idiota que maluco.
    - Jory, onde encontramos folhas de parreira?
    - Por que?
    - Se eu tivesse uma, tiraria todas as roupas e usaria a folha.
    Jory riu.
    - Essa  boa, Bart! S existe um modo de um menino usar uma folha de parreira - e voc ficaria encabulado.
    - No ficaria!
    - Ficaria, sim!
    - Nunca me encabulo!
    - Ento, como pode saber o que ? Alm disso, alguma vez voc viu papai usar uma folha de parreira?
    - No... - mas refleti que, desde que jamais vira uma folha de parreira, como poderia saber se j vira ou no papai usando uma? Comentei isso com meu irmo.
    - Oh, voc saberia! - respondeu ele, zombando de mim com outra gargalhada.
     Depois sorriu, pulando para galgar todos os degraus de mrmore num longo salto que no pude deixar de admirar. Fui obrigado
a acompanh-lo  distncia. Gostaria de ser gracioso como ele. Gostaria de poder danar e encantar todo mundo, para que gostassem de mim. Jory era maior, mais velho, 
mais esperto... mas... espere um momento! Talvez eu conseguisse tornar-me mais esperto, j que no podia ser maior que ele. Minha cabea era grande. Tinha que haver 
um crebro grande dentro dela. Com o tempo, eu ficaria mais alto, alcanaria Jory e o ultrapassaria. Ora, eu ficaria mais alto que
papai; mais alto que o gigante na estria "Joo e o p de feijo" - e aquele gigante era mais alto que qualquer pessoa!
#22
    Nove anos... eu gostaria de ter quatorze.
     L estava Jory, sentado no ltimo degrau, esperando que eu o alcanasse. Insultuoso. Detestvel. Deus certamente no fora generoso comigo ao distribuir coordenao 
neuro-muscular. Lembrei-me de cinco anos antes, quando eu tinha apenas quatro, e Emma deu a cada um de ns um pintinho todo coberto de macia penugem amarela, que 
no parava de piar. Eu nunca sentira algo to gostoso em toda a minha vida. L estava eu, amando o pintinho, segurando-o, farejando-lhe o cheiro de beb antes de 
coloc-lo carinhosamente no cho - e macacos me mordam se o pinto no caiu morto!
    - Voc apertou - disse papai, que conhecia aqueles assuntos. - Preveni-o para no segurar com fora. Pintinhos so frgeis e devemos segur-los com cuidado. 
Tm o corao muito prximo  superfcie... portanto, da prxima vez tome muito cuidado com as mos, est bem?
    Pensei que Deus fosse fulminar-me ali mesmo, embora, em ltima anlise, a maior parte da culpa lhe coubesse. No era minha culpa se ele no me fizera com as 
terminaes nervosas chegando at a
superfcie da pele, como todo mundo. No era minha culpa se eu no sentia dor como todo mundo - era dele! Ento, estremeci, com
medo que ele me fizesse alguma coisa. Mas quando ele me perdoou, uma hora depois, fui ao pequeno cercado onde o pintinho de Jory andava de um lado para outro, solitrio. 
Peguei-o, dizendo-lhe que agora ele tinha um amigo. Rapaz, como nos divertimos, um correndo atrs do outro. De repente, apenas duas horas de brincadeira... o segundo 
pinto tambm caiu morto!
     Detesto coisas rgidas e frias. Por que ele desistiu to depressa?
   - O que h com voc? - gritei. - No apertei! Minhas mos no o seguraram! Tive cuidado... portanto, pare de fingir-se de
morto e levante-se, ou papai vai pensar que o matei de propsito!
    Certa vez, eu vira papai tirar um homem do mar e salvar-lhe a vida bombeando a gua para fora e soprando ar para dentro, de modo
que fiz o mesmo com o pinto. Ele continuou morto. Em seguida, massageei-lhe o corao; depois, rezei. Ainda assim, ele permaneceu
morto.
     Eu no prestava. No servia para nada. No conseguia permanecer limpo. Emma dizia que vestir-me com roupas limpas era desperdiar seu precioso tempo. Eu no 
conseguia segurar um prato ao sec-lo. Brinquedos novos se partiam pouco depois de me chegarem s mos. Sapatos novos ficavam parecendo velhos dez minutos depois 
de estarem em meus ps. No era minha culpa se eles se arranhavam to depressa. As pessoas simplesmente no sabiam fabricar sapatos bons,  prova de arranhes. Nunca 
houve dia em que meus joelhos no tivessem cascas de feridas ou estivessem cobertos de bandaids. #23
Quando jogava beisebol, eu tropeava e caa entre as bases. Minhas mos no sabiam como apanhar corretamente a bola no ar, de modo que meus dedos se dobravam para 
trs e cheguei a fraturar dois deles. Ca de rvores trs vezes. Uma vez quebrei o brao direito, outra o esquerdo. Na terceira vez, sofri apenas arranhes. Jory 
nunca quebrou nada.
     No era de espantar que mame sempre nos dissesse para no irmos  propriedade vizinha,  imensa casa velha com tantas
escadas, pois sabia que mais cedo ou mais tarde eu rolaria pelos degraus e partiria todos os ossos do corpo!
    - Que pena que voc no tenha muita coordenao - murmurava Jory, levantando-se em seguida para gritar: - Bart, pare de correr como uma menina! Incline o corpo 
para a frente, use as pernas como mbolos! Ponha todo o corao nisso e v em frente! Esquea
esse negcio de cair! Se voc me alcanar, dou-lhe minha bola super-veloz!
    Rapaz, a coisa que eu mais desejava no mundo era aquela bola! Jory sabia atir-la em curva. Quando a jogava contra latas arrumadas em cima do muro, acertava-as 
uma aps outra. Eu nunca atingia o alvo visado - mas acertava muita coisa que nem via, como vidraas e pessoas.
    - No quero mais sua velha bola super-veloz - arquejei.
    Mas eu a desejava. Era melhor que a minha; estavam sempre dando a ele coisas melhores que as minhas.
    Jory me olhou compadecido, dando-me vontade de chorar. Eu detestava comiserao!
    - Pode ficar com ela, mesmo se no ganhar a corrida. Eu aceitarei a sua. No pretendo ofender seus sentimentos. Desejo apenas que pare de ter medo de fazer tudo 
errado. Ento, talvez acerte... s vezes, ter raiva ajuda a vencer.
    Ele sorriu e acho que se mame estivesse por perto acharia que o brilho daqueles dentes alvos era encantador. Meu rosto fora feito Para ficar carrancudo.
    - No quero sua bola velha - repeti, recusando-me a ser conquistado por algum bonito, gracioso, dcimo-quarto membro de uma longa linhagem de bailarinos russos 
que se casavam com bailarinas.
    O que havia de to especial nos bailarinos? Nada, nada! Deus sorrira para as pernas de Jory, fazendo-as bonitas, enquanto as minhas pareciam gravetos nodosos 
sempre prontos para sangrar.
    - Voc me detesta, no ? Quer que eu morra, no quer?
    Ele me lanou um prolongado olhar esquisito.
    - No, no o detesto e no desejo que morra. At gosto que seja meu irmo, embora desajeitado e dedo-duro.
#24
    - Muitssimo obrigado.
    - Sim... no h de que. Vamos olhar a casa.
    Todos os dias depois da escola amos ao alto muro branco e nos sentvamos nele; algumas vezes, entrvamos no casaro
abandonado. Logo as aulas terminariam e nada teramos a fazer o dia inteiro seno brincar. Era agradvel saber que o casaro estava ali,  nossa espera. A velha 
casa assombrada, com muitos quartos, corredores ,
cheios de esquinas, bas abarrotados de tesouros escondidos, tetos altos, quartos de formatos esquisitos, emendados uns nos outros, s vezes uma srie de aposentos 
que pareciam esconder-se uns aps outros.
    L viviam aranhas que teciam teias nos lustres extravagantes. Camundongos corriam por toda parte, tendo centenas de filhotes para cuidar. Insetos de jardim invadiam 
a casa, trepavam pelas paredes e andavam pelo cho. Pssaros desciam pelas chamins e batiam loucamente as asas ao procurarem uma sada. s vezes, esbarravam nas 
paredes e vidraas e ns os encontrvamos mortos, coitadinhos. Ocasionalmente, Jory e eu chegvamos em cima da hora e abramos portas e janelas, para que pudessem 
escapar.
     Jory achava que algum deveria ter abandonado o velho casaro s pressas. Metade da moblia ainda estava ali,  acumulando poeira e mofo, exalando odores desagradveis 
que faziam Jory franzir o nariz. Eu farejava o ar, procurando adivinhar o significado daquele cheiro, Era capaz de permanecer imvel e quase escutar os fantasmas 
conversarem; do teto desciam leves murmrios, como se os fantasmas
desejassem sussurrar segredos aos nossos ouvidos.
    - Nunca diga a ningum que os fantasmas falam com voc, pois pensaro que est maluco - advertia Jory.
    J tnhamos uma pessoa louca na famlia: a me de papai, que estava internada num hospital de loucos na Virgnia. Todo vero,
amos ao Leste visit-la e ver as velhas sepulturas da famlia. Mame no entrava no comprido prdio de tijolos onde pessoas bem vestidas passeavam pelos gramados 
verdejantes; ningum suspeitaria de
que eram loucas se os enfermeiros trajados de branco no se mantivessem por perto delas.
     Todo vero, quando papai voltava de sua visita  me, mame perguntava:
   - Ento, ela est melhor?
   E papai parecia triste ao responder:
   - No, no houve grande progresso, mas haveria, se voc a perdoasse.
   Aquilo sempre abalava Mame, que agia como se desejasse ver aquela av presa no hospcio pelo resto da vida.
#25
    - Oua-me bem, Christopher Doll! - replicava Mame em tom spero. -  exatamente o contrrio, lembra-se? Ela  quem deveria ajoelhar-se e implorar - deveria 
suplicar o nosso perdo!
    No ltimo vero, no framos ao Leste para as visitas de costume. Eu detestava as velhas sepulturas, a velha Madame Marisha com suas roupas negras e o coque 
de cabelos pretos e brancos - e, mesmo agora, pouco me importava se duas velhas do Leste nunca mais recebessem visitas nossas. E quanto s pessoas que estavam naqueles 
tmulos - que l ficassem, sem flores! Havia gente morta demais em nossa vida, complicando-a.
    - Vamos, Bart! - chamou Jory.
    J trepara na rvore em nosso lado do muro e estava sentado num galho,  minha espera. Consegui subir na rvore e me
acomodei ao lado dele, que insistiu para que eu me encostasse no tronco. - por precauo.
    - Sabe de uma coisa? - indagou Jory, com ar sonhador. - Algum dia ainda comprarei para mame uma casa grande como aquela. De vez em quando, ouo-a conversar 
com papai a respeito de casas grandes, de modo que acho que ela deseja possuir uma casa maior que a nossa.
    - Sim, eles conversam mesmo a respeito de casas grandes.
    - Eu gosto mais da nossa - disse Jory, enquanto comecei a bater com os calcanhares contra o muro, que tinha tijolos sob o reboco branco descascado.
    Mame comentara que os tijolos aparecendo sob o reboco acrescentavam
ao muro "um interessante contraste de textura". E eu fazia o possvel para tornar o muro mais interessante.
    Mas era verdade que numa casa grande, como aquela no terreno vizinho, as pessoas podiam perder-se no escuro e passar dias vagando pelos aposentos e corredores. 
Nenhum dos banheiros funcionava. No havia gua. Pias malucas sem gua, um estpido depsito
de frutas sem frutas e uma adega sem garrafas. 
    - Ora, seria bom se uma grande famlia viesse morar ali, no  mesmo? - disse Jory, desejando, como eu, que pudssemos ter muitos e muitos amigos com os quais 
brincarmos. Quando voltvamos da escola, tnhamos apenas um ao outro.
    - Se tivessem dois meninos e duas meninas, seria perfeito - continuou Jory, sonhador. - Seria timo termos todas as garotas morando ao lado.
    timo, claro. Aposto que ele rezava para que Melodie Richarme se mudasse para o velho casaro. Ento, poderia v-la todos os dias - abra-la e beij-la, como 
eu o vira fazer algumas vezes. Garotas! Elas me enojavam.
#26
    - Detesto garotas!... Quero meninos! - protestei, amuado.
    Jory riu, respondendo que eu tinha apenas nove anos e que logo gostaria mais das garotas que dos meninos.
    - Por que os braos de Melodie so ricos? (*)
    - No entende que est parecendo um idiota? o sobrenome dela no quer dizer nada.
    Exatamente quando eu ia replicar que o idiota era ele, porque todos os sobrenomes deviam ter um significado - do contrrio, para que us-los? -, dois caminhes
chegaram  alameda de acesso  velha manso. Puxa! Ningum ia l seno ns dois.
     Permanecemos sentados na rvore, observando os operrios apontarem de um lado para outro, fazendo isto e aquilo. Um deles subiu no telhado cor-de-laranja que
mame dizia chamar-se "de telhas romanas" e comeou a examin-lo. Outros entraram na casa com escadas e latas que pareciam conter tinta. Alguns carregavam enormes
rolos de papel de parede. Ainda outros examinavam as janelas e alguns verificavam os arbustos e rvores.
    - Ei! - exclamou Jory, parecendo muito perturbado. - Algum deve ter comprado a casa. Aposto que viro morar nela quando
a reforma terminar.
    Eu no queria vizinhos que perturbassem a privacidade de mame e Papai. Eles sempre comentavam que era bom no ter vizinhos
prximos para "perturbar nossa privacidade".
    Ficamos sentados na rvore at o escurecer. Depois, voltamos  nossa casa e no comentamos o assunto com nossos pais - pois quando dizemos algo em voz alta significa 
que  verdade. Os pensamentos
no contam.
    O dia seguinte foi domingo e fomos fazer um piquenique em Stinson Beach. Ento, chegou a tarde de segunda-feira. Jory e eu
tornamos a subir no muro, observando toda a atividade na propriedade vizinha. O dia estava frio e havia nevoeiro, mas  conseguamos enxergar o bastante para nos 
incomodarmos. No mais poderamos ir  velha casa e t-la s para ns dois. Onde brincaramos agora?
    - Ei, vocs a, garotos! - gritou, em outro dia, um homem corpulento, quando estvamos apenas observando. - O que fazem
a em cima?
    - Nada! - berrou Jory.
    (Eu nunca falava com desconhecidos. Jory sempre zombava de mim, comentando que eu nunca falava muito, exceto comigo mesmo).

____________
     (*) N.T.: Bart entendia que o sobrenome de Melodie Richarme era composto pelas palavras rich (rico) e arm (brao.).

#27
    - No me digam que no esto fazendo nada, quando eu os vejo daqui! Esta casa  propriedade particular - portanto, mantenham-se fora do terreno ou tero que 
acertar contas comigo!
    Era um homem de verdade, com aparncia feroz; suas roupas de trabalho eram surradas e sujas. Quando se aproximou, vi os dois
maiores ps de minha vida, e as botas mais sujas. Fiquei satisfeito pelo muro ter trs metros de altura, colocando-nos em vantagem sobre ele.
    - Claro que brincamos um pouco na casa - disse Jory, que no tinha medo de ningum. - Mas no estragamos nada. Deixamos tudo como encontramos.
    - Bem, de agora em diante, tratem de ficar longe! - rosnou o homem, olhando raivosamente para Jory e, depois, para mim. - Uma ricaa comprou a casa e no quer 
moleques por aqui. E no pensem que podero abusar por ela ser uma velha e morar sozinha, pois vai trazer os criados!
    Criados. Puxa!
     Os ricos podem ter tudo que querem - murmurou o gigante ao afastar-se. - Faa isto, faa aquilo, quero isso para ontem...
Dinheiro... oh, meu Deus, o que eu no daria para ter dinheiro!
    Tnhamos apenas Emma e no ramos realmente ricos. Jory dizia que Emma era uma tia solteirona, no propriamente uma parenta, nem empregada. Para mim, ela era 
apenas algum que eu conhecera a minha vida inteira, algum que no gostava de mim tanto quanto gostava de Jory. Eu tambm no gostava dela, de modo que pouco me 
importava.
    Semanas se passaram. As aulas  terminaram. Os operrios continuavam no casaro. A essa altura, mame e papai j haviam percebido e no estavam muito  satisfeitos 
com vizinhos que eles no
pretendiam visitar, nem acolher em nossa casa. Tanto Jory como eu procurvamos adivinhar por que motivo nossos pais no desejavam receber amigos.
    - Por amor - sussurrava Jory. - Ainda esto em lua-de-mel. Lembre-se de que Chris  o terceiro marido de mame e eles ainda
no se cansaram um do outro. Ainda esto florescendo.
    Florescendo? Eu no via flor nenhuma.
    Jory passara para o penltimo ano do ginsio com distino e louvor. Eu passara para a quinta srie aos trancos e barrancos.
Detestava a escola. Detestava aquela velha manso que, agora, parecia nova. Os bons tempos dos fantasmas tinham terminado para sempre; nunca mais nos divertiramos 
l.
    - Trataremos de aguardar uma oportunidade de nos esgueirarmos at l para ver a tal velha - disse Jory num sussurro, a fim de que os jardineiros que aparavam 
os arbustos e podavam as rvores no nos escutassem.
#28
    A velha manso possua uma extensa rea de terra, dez ou mais hectares. Isto exigia muito trabalho de limpeza, uma vez que os
operrios no telhado estavam sempre deixando cair coisas. O quintal estava entulhado de papis, pregos velhos, pedaos de madeira restantes da reforma, alm dos 
detritos soprados pelo vento atravs do gradil de
ferro que separava a alameda de acesso do trecho de estrada que Jory chamava de "recanto dos namorados".
    O detestvel mestre-de-obras catava latas de cerveja vazias ao se encaminhar para ns, carrancudo apenas por ver-nos, quando nada fazamos de errado.
    - Quantas vezes terei que preveni-los, garotos? - berrou ele. - No me obriguem a repetir!
    Apoiando os enormes punhos na cintura, fitou-nos raivosamente.
     - J lhes disse que no subam no muro... agora, fora da!
    Jory relutava em descer do muro quando no havia mal algum em apenas ficarmos sentados e observarmos.
    - Esto surdos? - gritou o homem.
    Num relance, o rosto de Jory se transformou de bonito em malvado.
    - No! No estamos surdos! Moramos aqui. O muro fica na divisa das propriedades; portanto,  to nosso quanto dela.  o que
afirma Papai. Assim, ficaremos aqui sentados e olharemos pelo tempo que desejarmos. E no se atreva a nos mandar "fora daqui" outra vez!
    - Atrevidinho, hem?
    E o homem se afastou sem ao menos olhar para mim, que tambm era atrevido - por dentro.

APRESENTAES

    Hora do caf da manh. Mame conversava com Papai a respeito de uma das suas bailarinas. Bart, sentado em frente a mim,
carrancudo, remexia o cereal frio no prato. No gostava muito de comer, exceto guloseimas que Papai dizia lhe fazerem mal.
    - Chris, acho que Nicole no escapar desta - disse Mame, preocupada, franzindo a testa. -  terrvel que os automveis machuquem tanta gente. E ela tem uma 
filhinha com apenas dois anos de idade. Visitei-a h Poucas semanas. Francamente, lembrou-me muito Carrie quando tinha essa idade.
#29
    Papai meneou distraidamente a cabea, o olhar ainda fixo no jornal matutino. A cena entre eles no sto ainda no me saa da
cabea, especialmente  noite, quando eu no conseguia dormir. s vezes, sentava-me sozinho em meu quarto e tentava recordar-me do que permanecia oculto nos escuros 
recessos de minha mente. Algo importante, eu tinha certeza; mas no conseguia lembrar.
     Mesmo enquanto os ouvia falando de Nicole e sua filhinha, eu pensava naquela cena no sto, tentando imaginar-lhe o significado
e quem seria a av de quem eles tinham medo. Alm disso, como poderiam conhecer-se quando Mame tinha apenas quatorze anos?
    - Chris - implorou Mame, seu tom obrigando Papai a deixar de lado a seo de esportes do jornal. - No me escuta quando
estou falando. Nicole no tem parentes... Ouviu isto? Nem mesmo algum tio ou tia que cuide de Cindy se ela morrer. E voc sabe
que ela nunca se casou com aquele rapaz a quem amava.
    - Hummm - respondeu Papai, antes de morder a torrada. - No se esquea de regar o gramado hoje.
    Ela franziu a testa, realmente aborrecida. Papai no a escutava como eu.
    - Acho que foi um grande erro vendermos a casa de Paul e nos mudarmos para c. As esttuas dele simplesmente no parecem
combinar com este cenrio.
    Aquilo chamou a ateno de Papai.
    - Cathy, juramos no ter arrependimento de nada. E existem na vida coisas mais importantes que possuir um jardim tropical onde as plantas crescem  vontade.
    -  vontade? Paul tinha o jardim mais bem cuidado que conheci! 
    - Voc bem sabe o que quero dizer.
    Silncio por um instante. Mame voltou ao assunto de Nicole e da menina de dois anos que iria para um orfanato se a me morresse. Papai replicou que certamente 
algum se apressaria em adotar a criana, caso Nicole morresse. Levantou-se para vestir o palet esporte.
    - Pare de olhar a coisa pelo lado mais negro. Nicole talvez se recobre.  jovem, forte, basicamente saudvel. Mas, se est to preocupada, passarei por l e 
conversarei com os mdicos que cuidam
dela.
    - Papai - disse Bart, que passara a manh inteira carrancudo. - Ningum aqui conseguir me obrigar a ir ao Leste neste vero! No vou e ningum pode me obrigar!
    -  verdade - respondeu Papai, dando um peteleco no queixo de Bart e remexendo-lhe brincalhonamente os cabelos escuros j
despenteados. - Ningum pode obrigar voc a ir. Apenas espero que voc prefira ir conosco a ficar em casa sozinho.
#30
    Inclinou-se para beijar Mame..
    - Dirija com cuidado.
    Todo dia Mame dizia a mesma coisa quando Papai saa de casa. Ele sorriu e prometeu que guiaria com cuidado. Seus olhos
Se encontraram, dizendo coisas que eu at certo ponto conseguia entender.
    - Era uma vez uma velha que morava num chinelo - cantarolou Bart. - Tinha tantos filhos que j no sabia o que fazer...
    - Bart, precisa ficar a sentado, fazendo baguna? Se no vai terminar de comer, pea licena e saia da mesa.
    - Peter, Peter, Comedor de Abboras, tinha uma esposa e no podia sustent-la; colocou-a numa casca de abbora e tratou dela muito bem...
    Oh, Deus, quase dez anos de idade e ainda cantando versos infantis! Bart pegou seu velho suter predileto, jogou-o por cima dos ombros e, ao faz-lo, derrubou 
uma caixa de leite. O leite escorreu para o cho, onde Trevo logo comeou a lamb-lo como um gato. Mame estava to encantada com uma foto da filhinha de Nicole 
que nem notou o leite entornado.
     Foi Emma quem limpou tudo e olhou furiosamente para Bart, que lhe mostrou a lngua e saiu com a maior calma.
    - Com licena, Mame - disse eu, levantando-me de um salto para acompanhar Bart ao quintal.
    Mais uma vez galgamos o muro, sentando-nos para observar, ambos desejosos que a velha ricaa se mudasse depressa. Quem sabe,
talvez ela tivesse netos?
    - J sinto saudades da velha casa - reclamou Bart. - Detesto as pessoas que se mudaro para ela.
    Passamos o dia matando o tempo, plantando novas sementes, arrancando mais ervas daninhas. Logo comecei a imaginar de que maneira passaramos um vero inteiro 
sem entrar ao menos uma vez no velho casaro.
    Ao jantar, Bart mostrou-se amuado, pois tambm ele sentia falta do casaro. Olhou raivosamente para o prato cheio.
    - Alimente-se bem, Bart - disse Papai. - Do contrrio, talvez no tenha energias para divertir-se na Disneylndia.
    O queixo de Bart caiu.
    - Disneylndia? - seus olhos escuros se dilataram de alegria. - Vamos l, de verdade? No vamos ao Leste visitar as velhas sepulturas?
    - A Disneylndia  parte do seu presente de aniversrio - explicou Papai. - Faremos a festa l e, depois, voaremos para a Carolina
do Sul. Agora, no reclame. Precisamos levar em considerao as necessidades das outras pessoas, assim como as suas. A av de Jory gosta de v-lo ao menos uma vez 
por ano e, j que no fomos no ano passado, ela estar #31
aguardando com ansiedade redobrada a
visita do neto. Alm disso, h minha me, que tambm necessita de uma famlia.
    Dei-me conta de olhar para minha me, que parecia em brasas. Todos os anos ela ficava assim quando se aproximava a poca de
visitarmos a me "dele". Refleti que era uma pena ela no compreender por que motivo as mes eram to importantes. Fora rf durante
tanto tempo que talvez j houvesse esquecido - ou talvez sentisse cimes.
    - Rapaz, eu prefiro ir  Disneylndia a ir para o Cu! - declarou Bart. - Nunca, nunca me cansarei da Disneylndia.
    - Eu sei - replicou Papai em tom seco.
    Mas logo que Bart se deu conta de que receberia o presente de seus sonhos, recomeou a reclamar contra ter que ir ao Leste.
    - Papai, Mame... eu no vou! Duas semanas  tempo demais para visitar velhas sepulturas e velhas avs!
    - Bart - interps Mame severamente. - No falte ao respeito com os mortos. Seu prprio pai  uma daquelas pessoas cuja
sepultura voc no quer visitar. E sua tia Carrie tambm est l. Voc vai visitar os tmulos e tambm Madame Marisha - quer queira quer no! E se tornar a abrir 
a boca, no ir  Disneylndia!
    - Mame - disse um Bart obediente, agora desejoso de fazer as pazes. - Por que seu pai, que est morto em Gladstone, Pa....
    - Diga Pensilvnia e no Pa.
    - Por que a fotografia dele se parece tanto com o Papai que temos atualmente?
    O sofrimento relampejou nos olhos de Mame. Falei, detestando a mania que Bart tinha de interrogar todo mundo:
    - Puxa, Dollanganger  mesmo um nome e tanto! Aposto que voc ficou satisfeita ao livrar-se dele.
    Ela se voltou para fitar uma grande foto do Dr. Paul Sheffield e depois disse em voz baixa:
    - Sim, foi um dia maravilhoso quando me tornei Sra. Sheffield.
    Ento, Papai pareceu perturbado. Escorreguei-me mais fundo no forro de veludo da cadeira. Ao meu redor, no ar, arrastando-se no assoalho, ocultando-se nas sombras, 
estavam pedaos de um passado que eles recordavam e eu no conseguia lembrar. Quatorze anos, e eu ainda no sabia o que era a vida. E no compreendia meus pais.

    Afinal, chegou o dia em que a reforma da 
manso foi completada. Ento, vieram as faxineiras para limpar as janelas e o assoalho. E jardineiros para passar ancinhos, cortar a grama, aparar novamente
os arbustos. E l estvamos ns, o tempo todo, espiando pelas janelas e correndo de volta ao muro para subir numa rvore, esperando no sermos apanhados. Tornvamos 
a #32
sentar-nos no topo do muro, bem comportados, como se jamais fssemos capazes de  desobedecer as regras impostas por nossos pais.
    - Ela vem a! - murmurou Bart, excitadssimo. - A velha chegar a qualquer momento!
    A manso fora reformada de modo to grandioso que espervamos ver a qualquer momento uma famosa estrela do cinema, a esposa de um presidente, algum muito importante. 
Certo dia, quando papai estava trabalhando e Mame sara para fazer compras, deixando Emma na cozinha, como sempre, vimos uma enorme e comprida limusine negra entrar 
vagarosamente na alameda de acesso  manso vizinha. Um carro mais antigo vinha logo atrs, mas, mesmo assim,
era um automvel luxuoso. Duas semanas atrs a alameda era de concreto velho e rachado; agora, era de asfalto negro e liso. Cotuquei
Bart para diminuir-lhe a excitao.  nossa volta, as folhagens formavam um toldo que nos ocultava e, ainda assim, nos permitia ver tudo perfeitamente.
    Devagar, bem devagar, o chauffeur parou o comprido e luxuoso automvel. Ento, saltou, rodeou o carro e abriu a porta para deixar sair os passageiros. Observamos, 
prendendo a respirao. Logo a veramos - aquela mulher rica, to rica que podia comprar tudo! 
    O chofer era jovem e tinha um ar elegante e lampeiro. Mesmo  distncia podamos perceber que era bonito, mas o velho que desceu da limusine nada tinha de bonito. 
Pegou-me de surpresa. O mestre-de-obras no falara numa senhora e criados?
    - Olhe - segredei para Bart. - Aquele deve ser o mordomo. Nunca imaginei que mordomos andassem no mesmo carro que os
patres.
    O frgil e idoso mordomo estendeu a mo para ajudar uma velha a desembarcar do banco traseiro. Ela o ignorou e, em vez disso,
tomou o brao do chofer. Estava toda de negro, coberta da cabea s pontas dos ps, como uma mulher rabe. Seria uma viva? Uma
muulmana? Parecia to misteriosa.
    - Detesto vestidos negros que se arrastam no cho. Detesto velhas que cobrem a cabea com vus negros. Detesto fantasmas.
    Eu s conseguia olhar, fascinado, refletindo que a mulher se movimentava graciosamente sob o manto negro. Mesmo de nosso esconderijo, notei que ela s sentia 
desprezo pelo velho e frgil mordomo. Puxa... intrigas.
    Ela olhou ao redor, para todos os lados. Passou longo tempo olhando em nossa direo, para o muro branco, para o telhado de nossa casa. Eu sabia que ela no 
podia ver muito. Inmeras vezes, eu me postara onde ela estava agora e olhara para casa, vendo apenas a cumieira de nosso telhado e a chamin. S quando  ela subisse 
ao segundo andar da manso, conseguiria ver o interior de alguns de nossos aposentos. Era melhor eu #33
dizer a mame para plantar mais algumas rvores grandes perto do muro branco.
    Ocorreu-me ento o motivo pelo qual dois dos operrios poderiam ter derrubado vrios grandes eucaliptos que antes existiam no terreno da velha: talvez ela fosse 
bisbilhoteira e quisesse enxergar nossa casa. Por outro lado, era mais provvel que no quisesse rvores to grandes perto da manso.
    Agora, o segundo carro parou atrs do primeiro. Dele saltou uma empregada de uniforme preto com um elegante avental branco e uma touquinha ornada de renda branca. 
Atrs dela, vieram dois criados
trajando uniformes cinzentos. Estes comearam a carregar para dentro da manso inmeras malas, caixas de chapus, plantas em vasos e coisas semelhantes. Durante 
todo o tempo, a mulher coberta com o manto negro permaneceu imvel, fitando nossa chamin. Imagino o que ela estaria vendo.
    Um imenso caminho de mudanas amarelo chegou e comeou a descarregar mveis elegantes. E a mulher ainda continuava l fora, deixando que as empregadas decidissem 
onde colocar a moblia. Afinal, quando uma das criadas no parava de entrar e sair para lhe fazer perguntas, ela deu meia-volta e desapareceu no interior da manso. 
Todos os criados a acompanharam.
    - Bart, veja aquele sof que os homens esto carregando para a casa! J viu um sof to elegante?
    H muito tempo Bart perdera o interesse pela mudana. Agora, observava atentamente a lagarta preta e amarela que avanava,
ondulante, ao longo de um galho fino pouco abaixo de seus sujos sapatos de tnis. Pssaros lindos cantavam por toda parte. O cu muito azul estava cheio de nuvens 
semelhantes a flocos de algodo. O ar era fresco, gostoso, perfumado pelos pinheiros e eucaliptos - e Bart olhava para a nica coisa feia ao alcance da vista: uma 
maldita lagarta chifruda!
    - Detesto coisas feias que rastejam com chifres na cabea - murmurou ele consigo mesmo. Eu sabia que ele sempre detestava saber o que havia no interior das coisas. 
- Aposto que tem uma gosma verde por baixo dessa bela penugem colorida. Maldito dragozinho no galho, pare de vir na minha direo. No se aproxime ou eu o mato!
    - Pare com essa conversa idiota. Veja aquela mesa que os homens carregam agora. Rapaz, aposto que aquela cadeira veio de algum castelo na Europa!
    - Mais dois centmetros e uma coisa feia vai morrer! 
    - Sabe de uma coisa? Aposto que aquela velha  boazinha. Qualquer pessoa que tenha tanto bom-gosto em mveis deve ser boa.
    - Mais um centmetro... e voc morre! - disse Bart  lagarta.
#34
     medida que o sol se punha, o cu tornou-se cor-de-rosa e largas faixas violeta surgiram para dar maior beleza ao crepsculo.
    - Bart, veja o pr do sol. J viu cores mais lindas? Para mim as cores so como msica. Consigo ouvi-las cantar. Aposto que se Deus me cegasse e ensurdecesse 
neste exato momento, eu continuaria a ouvir a msica das cores e a v-las mentalmente. E danaria na escurido, sem saber que no havia luz.
    - Conversa de maluco - murmurou Bart, os olhos ainda pregados no verme peludo que se aproximava cada vez mais do tnis mortfero erguido acima dele. - Cego quer 
dizer negro
como piche. Sem cores. Sem msica. Sem nada. Morte  silncio.
    - Surdo... s-u-r-d-o - no morto.
    Naquele momento, Bart esmagou a lagarta com o tnis. Depois, pulou da rvore e limpou a gosma da sola no novo gramado da velha.
    - Acaba de cometer uma maldade, Bart Winslow! As lagartas passam por uma etapa chamada metamorfose. A espcie que voc acaba de esmagar transforma-se na mais 
linda de todas as borboletas. Portanto, voc no matou um drago, mas uma fada - a que mais
ama as rosas.
    - Conversa estpida de bailarino - foi a opinio de meu irmo, embora ele conseguisse parecer ligeiramente assustado. - Posso compensar - acrescentou, embaraado, 
olhando nervosamente em volta. - Vou preparar uma armadilha e pegar uma lagarta viva. Ficarei com ela como mascote e esperarei que se torne uma fada. Depois a libertarei.
    - Ei, eu estava apenas brincando. De agora em diante, porm, no mate insetos que no estejam devorando as rosas.
    - Se eu encontrar alguns nas rosas, posso mat-los todos? 
    Era curiosa a necessidade que Bart sentia de matar todos os insetos. Certa vez eu o pegara arrancando, uma por uma, as pernas de uma aranha, antes de esmag-la 
entre o indicador e o polegar. Ento,
o sangue negro lhe atraiu a ateno.
    - Os insetos sentem dor?
    - Sim, mas no se preocupe com isso - respondi. - Mais cedo ou mais tarde, voc tambm sentir dor. Portanto, no chore.
    Era apenas um verme cabeludo, no uma fada. Agora, vamos para casa.
    Tive pena de Bart por que sabia que ele era sensvel quanto ao fato de no sentir dor como eu, embora Deus saiba que devia
alegrar-se por isso. 
    - NO! No quero ir para casa. Quero ver o interior da casa da velha!
    No mesmo instante, Emma saiu ao quintal para tocar a sineta anunciando o jantar e ns corremos para casa.
#35
    No dia seguinte, voltamos ao muro. Os carregadores tinham terminado a mudana depois de irmos para a cama. No mais havia
movimento de caminhes. Eu passara a maior parte da manh e o incio da tarde na aula de bal de mame, enquanto Bart ficara em casa para brincar sozinho. E os dias 
de vero eram compridos. Ele sorriu, satisfeito por ter novamente minha companhia.
    - Pronto? - indaguei.
    - Pronto! - confirmou ele.
    Tendo decidido previamente nosso curso de ao, subimos o muro e descemos no outro lado, utilizando-nos de uma rvore em
crescimento. Estvamos em terreno onde framos proibidos de pisar, mas, certo ou errado, tratava-se de terreno que considervamos nosso, pois nos pertencera em primeiro 
lugar. Esgueiramo-nos como duas
sombras libertadas. Bart olhava para os arbustos aparados em forma de animais! Que esquisito! Um galo lampeiro ao lado de uma gorda galinha deitada no ninho. Bem 
feito, realmente bem feito. Quem poderia supor que aquele velho mexicano fosse to habilidoso com a tesoura de podar?
    - No gosto de arbustos que parecem animais - queixou-se Bart. - No gosto de olhos verdes. Os olhos verdes so maus, Jory... eles nos observam!
    - Sssh, cale a boca. Olhe bem onde pisa. Coloque os ps onde eu pisar.
    Olhei por cima do ombro e vi que o cu assumira uma colorao escura de ameixa, com faixas vermelhas que pareciam sangue derramado. Logo a noite cairia e a lua 
nem sempre era um rosto amistoso.
    - Jory - veio o sussurro de Bart, que me puxou pela fralda da camisa. - Mame no disse que estivssemos em casa ao anoitecer?
    - Ainda no escureceu.
    Mas quase. A manso que era de um branco cremoso durante o dia estava azulada  luz do crepsculo, assumindo uma aparncia
 assustadora.
    - No gosto de casa velha que agora parece casa nova.
    Bart e suas idias.
    - Deve ser mesmo hora de voltarmos para casa.
    Resisti aos seus puxes. Desde que viramos to longe, podamos perfeitamente ir at o fim. Colocando o dedo nos lbios, sussurrei:
    - Fique onde est.
    Esgueirei-me sozinho at a nica janela acesa naquela enorme casa com tantas janelas.
    Em vez de fazer o que eu mandara, Bart viera em meus calcanhares. Tornei a adverti-lo e depois trepei num pequeno carvalho
cuja resistncia era apenas suficiente para suportar meu peso. Subi o bastante para olhar o interior da casa. A princpio, nada vi seno um enorme salo mal iluminado,
#36
cheio de caixotes ainda no esvaziados.
Um abajur alto e gordo bloqueava-me a viso e fui obrigado a debruar-me para longe do tronco a fim de enxergar melhor. Consegui
distinguir um vulto difuso, trajando um manto negro, sentado numa cadeira de balano de madeira nua que parecia bastante
desconfortvel em comparao com os macios e luxuosos sofs e poltronas que eu vira sendo levados para dentro da manso. Seria uma
mulher sob o manto negro? ... A mesma que eu vira fora da casa?
     Os homens rabes tambm usam vestidos, de modo que poderia tratar-se do frgil mordomo. Todavia, quando avistei uma mo branca e esguia, usando muitos anis 
faiscantes, compreendi que era a dona da manso. Alterando minha posio na rvore, procurei um posto de observao melhor. Ento, o galho que sustentava meu peso
estalou. A mulher l dentro ergueu a cabea e olhou na minha direo.
     Tinha os olhos muito abertos e assustados. Pensei com meus botes que pessoas numa sala iluminada no conseguiam olhar para o escuro e enxergar. Meu corao 
batia em ritmo triplicado e prendi a respirao. Pequenos insetos alados me zumbiam em volta da cabea e comearam a picar-me a pele.
    Abaixo de mim, Bart se impacientava. Balanou a rvore frgil. Tentei segurar-me e, ao mesmo tempo, fazer sinal a Bart para
que parasse com aquilo. Felizmente, naquele momento uma criada abriu a porta e entrou no salo com uma grande bandeja de prata
carregada com muitas travessas cobertas com tampas. 
    - Depressa! - reclamou Bart como um gato assustado. - Quero voltar para casa!
    De que ele tinha medo? Era eu que estava prestes a cair da rvore. O rudo de loua e talheres sendo retirados da bandeja e colocados sobre a mesa cobriu o barulho 
que Bart estava fazendo. To logo a criada saiu do salo, a mulher de negro retirou o vu.
    Comeou a comer. Sozinha, beliscava a comida. Exatamente quando tive certeza de que ela no ouvira qualquer barulho que
indicasse que algum a espionava, o galho fraco da rvore fez o rudo de rachar-se.
    A mulher virou a cabea. Era minha oportunidade de v-la sem o vu. E eu a vi. Realmente a vi! Mas, na realidade, no lhe vi o nariz, os lbios, os olhos; vi 
apenas as sries de cicatrizes irregulares
em cada lado do rosto. Um gato a teria arranhado e provocado aquelas cicatrizes? Senti-me repentinamente penalizado de uma velha que era obrigada a sentar-se sozinha 
 mesa, sem apetite para comer nada com prazer. No me parecia justo algum levar uma vida to solitria e sem amor. Tambm no era justo que o destino mostrasse 
como a idade era capaz de roubar a beleza de algum que poderia ter sido to linda quanto minha me - algum dia.
#37
     - Jory...?
        - Sssh...!    
    A mulher continuou a olhar e, de repente, baixou depressa o vu sobre o rosto.
    - Quem est a fora? - perguntou ela. - V embora, seja l quem for! Se no for embora, chamarei a polcia! 
    Aquilo foi o bastante. Pulei para o solo, agarrei Bart pela mo e comecei a correr. Ele tropeou e caiu, atrasando-me como sempre. Levantei-o com um puxo e 
continuei a correr, obrigando-o a correr
mais do que seria capaz sem meu auxlio. Ele arquejou:
    - Jory! No corra tanto! O que voc viu? Depressa, diga-me... viu um fantasma ?
    Pior que isso. Eu vira como minha me poderia ser daqui a trinta anos, se vivesse o suficiente para ser devastada pelo tempo.

    - Onde estavam vocs dois?
    Mame nos bloqueou a passagem quando tentamos esgueirar-nos at o banheiro para lavar-nos antes que ela tivesse oportunidade de ver nossas roupas sujas e amarrotadas.
    - Viemos do jardim dos fundos - respondi, sentindo-me culpado. Ela percebeu de imediato e ficou desconfiada.
    - Diga a verdade. Onde estavam?
    - L nos fundos...
    - Jory, vai tornar-se evasivo como Bart?
    Abracei-a e apertei o rosto de encontro  maciez do seio. J era crescido demais para proceder assim, mas tive a repentina necessidade de sentir-me seguro e 
reconfortado.
    - Jory, querido, o que h de errado?
    Nada estava errado. Na verdade, eu no sabia o que me perturbava. Eu j vira velhice antes: minha av Marisha - mas ela sempre fora velha.
    Naquela noite, sonhei com Mame: era um lindo anjo que lanou um encantamento sobre o mundo inteiro, para evitar que as pessoas envelhecessem. Vi senhoras de 
duzentos anos de idade parecendo to jovens e bonitas quanto se tivessem vinte - todas menos uma velha de preto, sozinha numa cadeira de balano.
    Ao amanhecer, Bart esgueirou-se para a minha cama e se aninhou contra minhas costas, observando comigo o nevoeiro cinzento que escondia as rvores, fazia sumir 
a grama dourada, eliminava todos os sinais de vida e dava ao mundo l fora uma aparncia morta.
     Bart falava sozinho:
   - A terra est cheia de gente morta. De animais e plantas mortos tambm. Produz todo aquele material que papai chama de humo.
#38
     Morte. Meu meio-irmo Bart era obsecado pela morte e tive pena dele. Senti-o aconchegar-se mais a mim enquanto observvamos o nevoeiro que era parte to integrante 
de nossa vida.
    - Jory, ningum nunca gosta de mim - queixou-se ele.
    - Gostam, sim.
    - No, no gostam. Gostam mais de voc.
    - Isso  porque voc no gosta deles e demonstra no gostar.
    - Por que voc gosta de todo mundo?
    - No gosto. Mas sou capaz de exibir um sorriso e fingir, mesmo quando no gosto. Talvez fosse melhor aprender a usar uma
mscara de vez em quando.
    - Por que? No  Noite das Bruxas.
    Ele me perturbava. Como aquelas duas camas no sto me perturbavam. Como aquela coisa estranha surgia com tanta freqncia entre meus pais, lembrando-me que 
eles sabiam algo que eu no sabia.
    Fechei os olhos e decidi que tudo sempre se resolvia da melhor maneira.

SAIR  CAA

    Eles olhavam para mim, mas no me viam. No sabiam quem eu era. Para eles, eu era apenas uma coisa que se sentava  mesa e
tentava engolir o que me colocavam no prato. Meus pensamentos giravam por toda parte, mas eles no me liam a mente, no me compreendiam, absolutamente. Eu ia  manso 
vizinha, pois fora convidado. E quando fosse, lembrar-me-ia de pronunciar meus "s" - estavam sempre me dizendo para pronunciar os "S". Eu faria tudo certo, tudo, 
para a velha senhora da manso.
     Precisava ir sozinho e no contar a Jory. De todo modo, Jory no precisava de amigos. Tinha suas aulas de bal, com garotas bonitas por todos os lados, o que 
era suficiente. Com Melodie, era mais que suficiente. Eu... eu no tinha ningum, exceto pais que no me compreendiam. To logo tivesse licena para deixar a mesa, 
correria para o jardim enquanto Jory continuasse a comer sua pilha de panquecas
cobertas com acar de bordo derretido. Porco, eis o que ele era... um maldito suno!
    Dia quente. Sol brilhante demais. Sombras compridas no solo. Muro branco to malditamente alto - teria aquele muro sabido previamente que eu viria, que era desajeitado, 
que "eles" desejavam dificultar as coisas para mim? No foi to difcil subir na rvore.
     O terreno era to extenso que cansou minhas pernas curtas. Gostaria de possuir pernas compridas e bonitas, como Jory. Sempre caindo, sempre me machucando, mas
#39
nunca sentindo dor. Papai ficou espantado
logo que descobriu isso.
    - Bart, voc precisa tomar precaues contra infeces, porque suas terminaes nervosas no chegam  pele. Pode machucar-se gravemente e nem perceber. Portanto, 
trate sempre de lavar os cortes e arranhes com gua e sabo e depois conte a mim ou  sua me, para podermos aplicar desinfetantes.
     Lavar com gua e sabo afastava os germes. Para onde iriam eles? ...subiam ao cu ou desciam ao inferno?... Que aparncia
teria um germe? Monstros, afirmava Jory; monstros feios e muito pequenos. Um bilho deles caberiam na cabea de um alfinete. Eu gostaria de ter olhos como um microscpio.
    Lancei outro prolongado olhar ao jardim da velha e depois saltei, fechando os olhos para no ver o solo bater em mim. Ca bem
no centro de uma touceira de roseiras. Mais cortes e arranhes para acrescentar  minha coleo. Mais germes, tambm. No me importava. Agachei-me bem, apertando 
os olhos contra o sol, e tentei focalizar todos os perigosos animais selvagens que se ocultavam em locais escuros e misteriosos - como aquele.
     Olhe ali, atrs daquele arbusto grande... um tigre! Ergui a espingarda e apontei cuidadosamente. O tigre balanou o rabo comprido, faiscou os olhos amarelos 
e lambeu os beios, pensando que logo me teria para o almoo. Apertei com fora o gatilho. BANG! BANG! BANG! Te peguei! Morto como uma pedra!
     Pendurando a espingarda no ombro, avancei cautelosamente pelas perigosas trilhas da selva. Ignorando uma laranja e um gato
branco que miava "lastimosamente". (Lastimosamente era uma das palavras novas que eu era obrigado a empregar. Uma palavra nova a cada dia e papai nos dava uma lista 
de sete palavras por semana insistindo em que usssemos a palavra do dia ao menos cinco vezes em nossas conversas. Eu no precisava de um vocabulrio maior. J
sabia muito "bem como falar).
    Uma cano me veio  cabea. De um filme sobre a Academia militar de West Point, que eu assistira pela televiso na noite anterior. A cano estava certa:

     Existe algo de bom, bom, bom.
     Num soldado...

    Marchando ao ritmo da cano em minha cabea, levei a espingarda ao ombro com ar marcial, queixo erguido, peito estufado.
Marchei at a porta principal da manso da velha. Ento, bati com fora, usando a aldrava de bronze que era uma cabea de leo com a boca escancarada.
#40
    Minha atitude militar perfeita era to admirvel que eu tinha certeza de que a velha ficaria impressionada. Mdicos nada tinham de especial. Nem bailarinos. 
Mas um general de cinco estrelas - isto era impressionante! Ningum tinha um nome mais comprido que o meu: General Bartholomew Scott Winslow Sheffield. Nem mesmo 
Jory Janus Marquet Sheffield era to comprido, to retumbante. Esperamos at que o inimigo saiba quem est encarregado da guerra.
     Aquele velho mordomo cadavrico deveria ter atendido  porta, mas quem o fez foi a prpria velha, em pessoa. Eu a avistara algumas vezes no jardim. Abriu uma 
fresta da porta e, como uma avarenta, permitiu que uma comprida cunha de sol incidisse sobre o assoalho.
    - Bart...? - sussurrou, a um tempo surpresa e satisfeita.
    Estaria realmente to satisfeita por ver-me? Ora, ela ainda nem me conhecia.
    - Que maravilha, Bart! Eu esperava que voc viesse.
    - Afaste-se, Madame! - ordenei. - Est cercada por minhas tropas.
    Engrossei a voz num tom rspido, a fim de deix-la morta de susto.
    - No adianta resistir.  melhor desistir e erguer uma bandeira branca. Todas as probabilidades lhe so contrrias.
    - Oh, Bart - disse ela com uma risadinha tola. - Foi muita delicadeza sua aceitar meu convite. Sente-se e converse comigo. Fale-me
a respeito de voc, de sua vida. Diga-me se  feliz, se seu irmo  feliz, se gostam do lugar onde moram, se amam seus pais. Quero
saber tudo!
    Usando o calcanhar, fechei com fora a porta atrs de mim, como fazem todos os generais. BANG! Ver os olhos azuis da velha
sorrirem quando seus lbios continuavam ocultos pelo maldito vu negro causou-me uma sensao esquisita. Minha empedernida compostura militar desapareceu por encanto. 
Por que ela usava aquele vu assustador?
    - Senhora - repliquei com voz fraca, sentindo-me outra vez jovem e tmido. - Chamou-me ontem por cima do muro. Disse-me
que desejava que eu viesse visit-la quando me sentisse solitrio. Vim s escondidas...
    - Veio s escondidas? - indagou ela em tom estranho. - Precisa fugir de seus pais? Eles o castigam com freqncia?
    - No - respondi. - No adiantaria. No conseguiriam machucar-me com surras; no poderiam matar-me de fome, porque no
gosto de comer.
    Baixei a cabea, acrescentando:
    - Mame e Papai disseram-me para no incomodar velhas ricas que moram em casas assombradas nos terrenos vizinhos.
#41
    - Oh! - suspirou ela. - E vocs tm muitas casas assombradas nos terrenos vizinhos, abrigando velhas ricas?
    - Claro que no, Madame - repliquei.
    Em seguida, andei displicentemente at uma janela da bonita sala de estar, de onde podia olhar para fora e ver quem chegava ou
saa. Recostei-me na parede e tirei do bolso os apetrechos para enrolar um cigarro de palha, enquanto a velha se sentava numa cadeira de balano para observar-me. 
Viu-me soprar anis de fumaa, sorrindo de leve quando eles lhe danavam em torno da cabea. O estpido vu se inflava e murchava, acompanhando-lhe a respirao. 
Imaginei que talvez ela dormisse com aquele troo enrolado na cabea e no rosto.
    - Bart, costumo ouvir voc e seu irmo conversando no quintal. s vezes, uso uma escada para espiar por cima do muro... espero que no se importem.
    No respondi. Continuei a soprar anis de fumaa na cara dela.
    - Fale, por favor, Bart... Sente-se e relaxe-se, fique  vontade, sinta-se em casa. Quero que esta casa seja um lar para vocs, sempre aberta a voc e Jory. 
Levo uma vida to solitria; tudo que tenho  John Amos, meu mordomo, e eu mesma. Ter uma famlia de verdade residindo na propriedade vizinha  deveras reconfortante. 
Pode me dizer tudo o que tiver vontade - tudo.
    No havia nada a dizer - mas ali estava uma pessoa adulta disposta a escutar-me. Sobre que poderamos conversar?
    - As pessoas no deveriam espionar meu irmo e eu.
    - Eu no estava espionando - disse ela depressa. - Apenas cuidando das roseiras que sobem pelo muro e precisam ser podadas... e no podia evitar escut-los, 
no  mesmo?
    Espi. Eis o que ela era. Esmaguei a ponta do cigarro com o salto empoeirado de minha bota. O sol incidia-me novamente sobre
os olhos, obrigando-me a baixar a aba do chapu. O maldito sol provocava-me sede.
    - Madame, pediu-me para vir e aqui estou... portanto, vamos ao que interessa.
    - Bart, se voc aceitar uma cadeira, logo tomaremos refrescos. Est vendo aquele cordo de campainha? A copeira trar sorvete e bolo. Ainda falta muito para 
a hora do almoo, de modo que voc no perder o apetite.
    Bem poderia demorar-me mais um pouco. Deixei-me cair numa poltrona macia e fixei o olhar nos ps dela, que mal eram visveis.
Estaria usando saltos altos? Sandlias? Unhas pintadas? Ento, entrou pela porta uma bonita copeira mexicana carregando uma bandeja cheia de guloseimas. Puxa! A 
copeira sorriu para mim, inclinou a cabea para a patroa e tornou a sair. Educadamente, aceitei o que ela me ofereceu - no o bastante de cada coisa - e comi. No 
gostava
#42
da comida que me fazia bem; no tinha gosto. To logo terminei de comer as guloseimas, levantei-me para sair.
    - Muito obrigado, dona, por conversar com um vaqueiro desacostumado a este tipo de hospitalidade. Agora, preciso ir andando...
    - Est bem, se precisa mesmo ir - disse ela com ar tristonho.
     Tive pena dela, vivendo sozinha com os criados, sem filhos como eu.
    - Volte amanh, se quiser, e traga Jory com voc. Terei o que desejarem...
    - No quero trazer Jory!
    - Por que no?
    - Voc  meu segredo! Ele faz tudo. Eu nunca fao nada! Ningum gosta de mim.
    - Eu gosto.
    Puxa! Ela me fazia sentir bem. Estudei-lhe o rosto, mas s pude enxergar os olhos azuis.
    - Por que gosta de mim? - indaguei, maravilhado - Ningum mais gostava.
    - Eu no apenas gosto de voc, Bart Winslow - declarou ela de modo estranho. - Eu o amo.
    - Por que?
    No acreditei nela. As mulheres apaixonavam-se  primeira vista por Jory, nunca por mim.
    - Outrora, tive dois filhos, agora no tenho - disse ela com os olhos baixos, numa voz triste e tensa. - Ento, desejei ter outro filho com meu segundo marido, 
mas no pude.
    Ergueu os olhos para encarar-me.
    - Portanto, quero que voc tome o lugar do terceiro filho que no pude ter. Sou muito rica, Bart. Posso dar-lhe tudo o que voc desejar.
    - O que eu desejo no fundo do corao - bem no fundo?
    - Sim, poderei dar-lhe tudo o que se pode comprar com dinheiro.
    - Nem tudo pode ser comprado?
    - Infelizmente, no. Eu costumava pensar que sim, mas agora sei que o dinheiro no pode comprar as coisas mais importantes, coisas que eu costumava ter como 
certas e no levava a srio... oh, se eu pudesse recomear a vida, como seria diferente! Cometi tantos erros, Bart. Quero fazer tudo certo com voc, para voc, e 
se precisa
manter-me como seu segredo, talvez algum dia... bem, vamos deixar isso para depois. Voc voltar?
    Soava to digna de pena que me deixava nervoso. Arrastei os ps, embaraado, e decidi que era melhor sair dali depressa, antes que ela tentasse beijar-me.
#43
    - Tenho que voltar ao acampamento, Madame. Meus homens esto pensando que me feri ou morri. Mas lembre-se bem: est cercada e no conseguir ganhar esta guerra!
    - Eu sei - respondeu ela numa voz to tristonha... - Jamais ganhei qualquer jogo que tentei. Sempre fui derrotada quando julgava dispor de todos os trunfos.
    Exatamente como eu! Senti muita pena dela. 
    - Madame, jogue suas cartas direito e virei visit-la todos os dias. Talvez at mesmo duas ou trs vezes por dia.
    - Muito obrigada, Bart! Basta voc dizer que cartas devo jogar e eu as colocarei sobre a mesa  sua espera.
    Tive uma idia, ento. Muitas e muitas coisas eu desejava e jamais ganhava. No queria livros, jogos, brinquedos ou outras coisas comuns. Precisava possuir uma 
coisa e olhei para a velha, esperanoso... talvez ela me desse o que eu queria.
    - Como se chama?
    - Volte e eu lhe direi.
    Eu voltaria. Macacos me mordam se conseguisse manter-me afastado dali.
    Voltei para casa e ningum chegou a notar minha presena. Mame continuava a falar sobre a menininha que ela adotaria se sua aluna predileta, Nicole, morresse. 
Oh, Deus, no permita que Nicole morra, rezei silenciosamente.
    - Jory, vamos jogar bola.
    - No posso. Mame vai levar-me  aula da tarde. Os pais de Melodie me levaro para jantar esta noite e, depois, iremos ao cinema. 
    Ningum me levava a lugar nenhum - exceto meus pais. No tinha amigos. Nem animal de estimao. O maldito Trevo gostava
mais de Jory, ganindo como se estivesse machucado quando eu lhe pisava no rabo por acidente ou tropeava nele, que estava sempre em meu caminho.
    Alguns dias mais tarde, dirigi-me outra vez  porta dos fundos. 
    - Aonde vai ? - perguntou Mame, que estivera olhando a fotografia da menininha que desejava adotar.
     No lhe bastavam dois filhos - precisava tambm de uma filha. De uma garotinha tola e chata.
    - Responda, Bart. Aonde vai?
    - A lugar nenhum.
    - Toda vez que lhe pergunto o que faz ou onde vai, voc responde que no foi a lugar nenhum ou no fez nada. Agora, quero escutar a verdade.
    Jory riu e abraou-a.
    - Ora, Mame, a essa altura voc j devia conhecer Bart. Quando ele sai pela porta dos fundos, est em toda parte. Nunca vi um garoto to louco por fazer de 
conta. #44
Ele  isto, aquilo, a nica coisa que ele no ...  ele mesmo.
    A fora que empreguei em meus olhos maldosos e penetrantes deveria ter feito Jory calar-se, mas ele prosseguiu:
    - Ele prefere a fantasia  realidade. Isso  tudo, Mame.
    No era verdade. Eu apenas me entediava, nada mais. No conseguia tudo o que desejava da vida real e em minhas brincadeiras de
faz-de-conta eu fazia tudo certo e conseguia tudo o que queria. Ento, Jory e Mame comearam a rir e fui deixado de fora outra vez. Furioso. Eles me faziam furioso.
     Malditos todos os que zombavam de mim! Todavia, odiar todo mundo fazia-me sentir mal e o faz-de-conta fazia-me feliz. O que teria eu a perder se fosse  casa 
dela? Nada, absolutamente nada.
     Arriscando a vida nas profundezas mais escuras de selvas perigosas, abri caminho at a casa dela. Avancei bravamente, com esforo, encarando repetidamente a 
morte apenas para chegar at ela... escalando aquela rvore escorregadia que me queria fazer cair. Galgando o alto muro para chegar a ela. Atravs de vento e neve, 
de granizo e chuva, os ps congelando, quase cego, lutei denodadamente para avanar at ela.
    Tropecei at a casa pela quinta vez em trs dias. E l estava ela, sorrindo por detrs do vu, amando-me como nenhuma outra pessoa me amava. Senti-me feliz e 
quente por dentro quando ela me chamou, abrindo os braos para mim. Voei para ela, abraando-a com fora, ansioso por sentar-me em seu colo e ser acariciado, mimado. 
Ela precisava
de mim. Queria amar-me como se eu lhe pertencesse. Seu colo no me queimava, como eu temera que acontecesse. No era to ruim
ser beijado no rosto - mas causava uma sensao de secura. Maldito vu!
    Porque ela me amava - e eu agora a amava tambm - reservara uma sala exclusivamente para mim, contendo todos os presentes que me dera: dois trens eltricos em 
miniatura, com todos os acessrios, carros e caminhes de brinquedos, os mais variados tipos de jogos. Tudo aquilo para eu brincar - na casa dela, no na minha. 
    O tempo passava. Eu comeava a am-la cada vez mais, dia a dia. Ento, numa tera-feira, encontrei o furtivo mordomo velho,
John Amos, na sala predileta dela, remexendo nas coisas e resmungando algo a respeito de uma tola que logo ficaria sem dinheiro. No
gostei de v-lo mexendo nos objetos dela. No gostei de ouvi-lo falar mal dela pelas costas.
    - Caia fora daqui! - berrei com meu vozeiro de adulto. - Diga  senhora que estou aqui e informe o cozinheiro de que hoje vou querer sorvete de chocolate com 
bolinhos de baunilha e no de maizena.
#45
     Ele apresentava uma aparncia horrvel.
   - Pode-se confiar em poucos durante algum tempo, mas nunca se pode confiar na maioria das pessoas. Sinta-se feliz se tiver ao
menos uma pessoa em quem possa confiar o tempo todo.
     O que significaria aquilo? Franzi a testa e tentei afastar-me. No gostava da dentadura postia que estava sempre escorregando, de modo que ele precisava empurr-la 
de volta ao lugar; os dentes
postios estalavam uns contra os outros, como se no se ajustassem s gengivas.
    - Voc gosta dela, no ? - indagou ele, sorrindo matreiramente, sacudindo a cabea na vertical e depois na horizontal, de
modo a confundir-me. - Quando desejar saber toda a verdade sobre quem  voc - e quem  ela - venha procurar-me.
    O som dos passos da senhora na escada colocou-o em fuga.
     Horripilante. Causava-me repulsa e medo. Eu sabia quem eu era - na maior parte do tempo.
     Sozinho, agora. Nada para fazer. Sentei-me e cruzei as pernas, como Papai costumava fazer, recostando-me para acender um charuto
- o que Papai nunca fazia. (Mame no gostava de homens que fumavam). At onde eu conseguia ver, nada havia de errado com
fumar, refleti com meus botes, soprando no ar quatro perfeitos anis de fumaa... que flutuaram em direo ao oceano Pacfico. Iriam parar no Japo, sobre o Monte 
Fuji.
    - Bom-dia, Bart querido. Fico to satisfeita por v-lo.
    Ela entrou e sentou-se na cadeira de balano.
    - J conseguiu meu pnei?
    Ela replicou em voz preocupada:
    - Querido, sei que lhe prometi um pnei, como a coisa que mais deseja no fundo do corao, mas prometi sem saber quanta
dificuldade um pnei pode causar.
    - Voc prometeu! - gritei.
     Estaria depositando minha confiana na pessoa errada? Em algum que deixava de cumprir suas promessas?
    - Querido, um pnei precisa de cocheira e, alm disso, faz a gente cheirar mal. Quando voc voltasse para casa, seus pais e Jory logo perceberiam que teria uma 
mascote em minha casa.
    Em lugar de responder, comecei a chorar.
    - Toda a minha vida desejei um pnei - solucei. - Toda a minha vida... e agora ficarei velho sem possuir um...
    Solucei mais e mais. Ento, baixei a cabea e me encaminhei  nossa casa, para nunca mais voltar.
    - Bart... existe um lindo cachorro, muito grande, que no tem mau cheiro e no trair nosso segredo. Um So Bernardo - um
co to grande que voc poder cavalg-lo como se fosse um pnei.
#46
Se voc o mantiver limpo e bem penteado, no o trair com odores animais...
    Virei-me lentamente para encar-la.
    - No existem ces do tamanho de pneis!
    - No?
    - NO! Est querendo zombar de mim. No gosto mais de voc! Vou para casa e nunca mais voltarei... at que voc tenha um pnei que eu possa batizar de Ma.
    - Querido, pode batizar seu cachorro de Ma - embora ele no coma mas - e apenas imagine quanta inveja Jory sentiria se voc tivesse um co mais maravilhoso 
que o dele.
    Voltei-me para a porta, desgostoso.
     - S os muito ricos podem dar-se ao luxo de sustentar um So Bernardo, Bart.
    Como se eu fosse um alfinete e ela um im, virei-me a contra-gosto. Ela me pegou no colo, acomodando-me ali. No foi to ruim, afinal.
    - Pode me chamar de Vov.
    - Vov.
    Era gostoso ter, finalmente, uma av. Aninhei-me melhor no colo dela e esperei que me chamasse de Nenm, mas ela continuou a
balanar a cadeira, cantando uma cantiga de ninar. Coloquei o polegar na boca. Era gostoso ser abraado e beijado, sentir-me seguro e amado. E ela no cheirava a 
naftalina, afinal.
    - Voc  feia por detrs desse vu? - indaguei, sempre curioso a respeito de sua aparncia. O vu era quase transparente, mas
no o bastante.
    - Acho que voc pensaria assim, mas outrora j fui muito linda - como sua me.
    - Conhece minha me? - perguntei.
    A porta se abriu e minha bela copeira predileta entrou com um prato de sorvete e biscoitos de maizena ainda quentes do forno.
    - Agora, coma um biscoito e apenas esse pouquinho de sorvete, a fim de poder voltar depois do almoo.
    Acrescentou que eu no deveria enfiar bocados to grandes na boca porque isso era contrrio s boas maneiras e, alm disso, fazia mal a meu aparelho digestivo.
    Eu tinha boas maneiras. Mame passava o tempo todo a me ensinar. Por algum motivo, senti-me bastante furioso para pular do
colo dela, imaginando o que John Amos teria para me contar. Quando tropecei em direo  porta, John Amos surgiu repentinamente no corredor, sorrindo como uma assombrao. 
Curvou-se um pouco e colocou-me nas mos um livrinho com capa de couro vermelho.
#47
    - Sinto que no est muito confiante em si mesmo - murmurou ele, produzindo uma srie de sons sibilantes, como uma cobra. -
J  tempo de saber exatamente quem voc . Aquela senhora que o mandou cham-la de "vov" , realmente, sua av de verdade!
    Oh, meu Deus! Eu nem imaginava possuir uma av de verdade. Julgava que minhas avs estavam mortas ou num manicmio.
    - Sim, Bart, ela  sua av e no apenas isso: foi casada com seu pai - seu verdadeiro pai.
    Fiquei sem saber o que pensar, exceto que estava muito feliz por ter uma av genuna s para mim, como Jory tinha a sua. E ela no estava morta nem era louca.
    - Agora, escute-me bem, rapaz, e nunca mais voltar a sentir-se fraco ou ineficaz. Leia um pouco desse livro todos os dias e
ele lhe ensinar a ser como seu bisav, Malcolm Neal Foxworth. Nunca existiu neste mundo homem mais esperto que seu bisav -
o pai de sua av, que fica sentada na cadeira de balano e usa aquele vu negro.
    - Ela  bonita por baixo do vu - repliquei, no gostando do que ele dizia nem da expresso de seu rosto. - Nunca vi o rosto, mas posso perceber pela voz que 
ela  bonita - mais bonita que voc!
    Ele fez uma carranca mas logo disfarou, sorrindo.
    -  Muito bem, seja como voc quiser. Mas depois de ler esse livro, escrito por seu falecido bisav, compreender que no se deve confiar nas mulheres, especialmente 
nas mulheres bonitas. Elas possuem meios - meios astuciosos de induzir os homens a fazerem
o que elas querem. Voc logo descobrir isso, quando se tornar adulto. Um homem to bonito como foi seu verdadeiro pai, mas ela o agarrou e transformou num escravo, 
num co de estimao, como est fazendo com voc.
    Eu no era um co de estimao! Eu no!
    - Ele foi o segundo marido dela, Bartholomew Winslow, e era oito anos mais moo que ela. No teve juzo. Julgou que poderia us-la - mas foi ela quem o usou. 
Quero salvar voc dela, para que no termine como seu pai: morto.
    Morto. Quase todo mundo em nossa famlia estava morto. No me surpreendi com nada do que ele disse; s no sabia que as mulheres
eram to ruins. Sempre desconfiara disso, mas nunca tivera certeza. Deveria prevenir Jory.
    - Agora, se quiser salvar sua alma eterna do fogo eterno, do inferno, voc ler esse livro e se tornar forte e poderoso como seu bisav. Ento, as mulheres 
nunca mais tornaro a domin-lo. Voc as dominar.
    Olhei para seu rosto comprido e esqueltico, para o bigodinho fino e os dentes amarelados, atravs dos quais ele no apenas sibilava como tambm, s vezes,
#48
assoviava. Era mais feio que qualquer outra
pessoa que eu j vira antes. Mas escutara Emma dizer mais de uma vez que "quem ama o feio, bonito lhe parece". Portanto, julguei que no haveria mal em experimentar 
meu bisav e ler o pequeno livro de couro vermelho, escrito em caligrafia antiquada.
     No sou muito dado  leitura. No , absolutamente, o meu tipo de diverso. Mas quando estava no celeiro, perto da cocheira que logo serviria de lar para o 
meu pnei, acomodei-me num monte de feno. Desejava tanto aquele pnei que chegava a doer. No me importava realmente que ele cheirasse mal e causasse muitas dificuldades. 
Abri o livro, que parecia muito velho.

     "Estou iniciando este dirio no dia mais amargo de minha vida: o dia em que minha amada me fugiu de casa e me abandonou em troca de outro homem. Abandonou 
tambm meu pai. Lembro-me de como me senti quando ele me contou o que ela fez, do quanto chorei, do quanto
me senti perdido sem ela. Que solido ir para a cama sem ter me para beijar-me e escutar minhas oraes. Eu tinha cinco anos. E, at partir, ela sempre dizia que 
eu era a pessoa mais importante em sua vida. Como foi capaz de abandonar-me, seu nico filho? Que coisa malvada a possuiu para que voltasse as costas ao filho que 
a amava?"
     "Naquela poca, eu era to inocente, to ingnuo. Quando li as palavras do Senhor, comecei a compreender que desde Eva as mulheres sempre traram os homens, 
de um ou outro modo, at mesmo as mes. Corrine, Corrine - como comecei a detestar esse nome!"

     Engraado. Senti-me esquisito ao erguer os olhos daquele dirio vermelho com sua caligrafia mida e apertada que, s vezes, aumentava no final da pgina, como 
se ele quisesse utilizar todo o espao disponvel.
Eu tambm sempre receara que minha me pudesse partir de uma hora para outra, sem qualquer motivo, exceto no querer mais
ficar perto de mim. E eu ficaria sozinho com um padrasto que certamente no seria capaz de amar-me como se eu fosse realmente seu
filho. Jory ficaria bem, pois tinha a sua dana e era tudo que lhe importava.
    - Gostou do livro? - perguntou John Amos, que entrara furtivamente no celeiro e estava de p nas sombras, observando-me com
olhos midos e brilhantes.
    - Claro,  um bom livro - consegui responder, embora me sentisse mal por dentro e temesse que Mame tambm pudesse fugir com
#49
um homem que no fosse mdico. Ela passava o tempo todo desejando que Papai no fosse mdico e pudesse ficar mais tempo em casa.
    - Agora, leia um pouco do livro todos os dias - aconselhou John Amos, que talvez gostasse mesmo de mim, apesar do rosto malvado. - Aprender tudo sobre as mulheres 
e o modo de control-las.
    Eu conseguia escut-lo melhor quando no podia v-lo bem.
    - E aprender a controlar no apenas as mulheres, como todas as pessoas. Esse livrinho vermelho em suas mos evitar que cometa os erros cometidos por tantos 
outros homens. Lembre-se disso quando se cansar de l-lo. Lembre-se que o dever imposto por Deus aos homens  dominar as mulheres, que so basicamente fracas e estpidas.
    Puxa! Eu no imaginara que mame fosse fraca ou estpida. Julgava-a forte e maravilhosa. Exatamente como minha av era boa e generosa... e, sob certos aspectos, 
muito melhor que minha prpria me, que sempre parecia por demais ocupada para incomodar-se comigo.
    - Malcolm era o tipo de homem que as pessoas tomam como exemplo, Bart, o tipo de homem que todo mundo respeitava e temia.
Quando algum consegue inspirar essa espcie de respeito, torna-se reverenciado - como um deus. No precisa falar com sua av a respeito desse livro. Seria melhor 
nada dizer a respeito e continuar simplesmente fingindo que a ama tanto quanto antes. Nunca deixe as mulheres saberem o que voc est pensando. Guarde seus pensamentos 
francos para voc mesmo.
    Talvez ele tivesse razo. Talvez se eu lesse o livro at o fim, terminasse mais esperto que Jory e o mundo inteiro me tomasse como exemplo.
    Naquela noite, sorri na cama, abraando o dirio de Malcolm de encontro ao corao. Ali estava o instrumento que eu poderia
utilizar para tornar-me o homem mais rico do mundo - exatamente como Malcolm Neal Foxworth, que vivera num lugar longnquo chamado Foxworth Hall.
    Agora, eu possua dois amigos: minha velha av sempre vestida de negro e John Amos, que conversava comigo mais que o papai jamais o fizera. Rapaz, era mesmo 
estranho como desconhecidos entraram em minha vida e comearam a dar-me mais que meus prprios pais!

ACAR E TEMPEROS

     Mame comprara uma escola de bal que ainda trazia o nome da proprietria original. Mantivera o nome, Escola de Bal Marie DuBois, e levava os alunos a pensar 
que ela era Marie DuBois. Posteriormente, explicou a Bart e a mim que era mais fcil que trocar o nome da escola, alm de ser mais lucrativo. Papai parecia concordar.
#50
    A escola situava-se no ltimo pavimento de um prdio de dois andares em San Rafael, no muito distante do consultrio mdico
de Papai. Eles freqentemente almoavam juntos ou passavam a noite em So Francisco, de modo a poderem ir ao teatro ou ao cinema
sem precisarem fazer o trajeto de ida e volta. Emma estava conosco, de modo que no nos importvamos muito com a ausncia deles, exceto ocasionalmente, quando eu 
me sentia deixado de lado ao v-los chegar to alegres e radiantes. Aquilo me fazia pensar que no ramos to importantes para eles quanto gostvamos de crer.
     Uma noite, inquieto e no conseguindo dormir, esgueirei-me silenciosamente para fora do quarto com a idia de ir beliscar alguma coisa na cozinha. Nada mais 
que isso. No instante em que pisei no corredor, escutei o som das vozes de meus pais. Alto. Discutiam. E raramente falavam asperamente um com o outro.
     Fiquei sem saber o que fazer, se ficava ali ou retornava a meu quarto. Ento, lembrei-me da cena no sto e senti que, para minha proteo, e de Bart tambm, 
precisava saber do que se tratava.
     Mame ainda usava o bonito vestido azul que usara para jantar fora com Papai.
    - No sei por que voc insiste em fazer objeo! - esbravejou ela, andando de um lado para outro e lanando a papai olhares furiosos. - Sabe to bem quanto eu 
que Nicole no vai ficar boa. E se esperarmos at ela morrer, o estado ter a custdia de Cindy e seremos obrigados a lutar como loucos para adot-la! Vamos agir 
agora. A posse representa nove dcimos da lei e a senhoria de Nicole no quer mais ser incomodada pela criana. Chris, por favor, decida-se! 
    - No - replicou friamente papai. - Temos dois filhos e isso  o bastante. Existem outros jovens casais que ficaro encantados por adotar Cindy. Casais que no 
tm tanto a perder como ns quando a agncia de adoes comear a investigar...
    Mame abriu os braos:
    - Pois  exatamente isso que estou dizendo! Se tivermos a posse de Cindy antes de Nicole morrer, a agncia no ter motivos
para investigar. Irei esta noite e colocarei Nicole a par de nossos planos. Tenho certeza de que ela concordar e assinar todos os
documentos legais que forem necessrios.
    - Catherine - interps meu padrasto em tom firme. - Voc no pode ter tudo o que deseja. Nicole pode muito bem recuperar-se
dentro de algumas semanas e, mesmo que fique permanentemente aleijada, ainda desejar ficar com a filha.
    - Mas que tipo de me poder ser ela?
    - No nos cabe decidir quanto a isso.
    - Ela no pode ficar boa! Voc sabe disso e eu tambm... alm do mais, Christopher Doll, j fui ao hospital conversar com Nicole e ela quer que eu fique com 
a menina. Assinou os documentos que
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levei e Simon Daughtry me acompanhou. Ele  advogado e levou tambm a secretria. Portanto, o que pode fazer voc, agora, para
impedir-me?
    Parecendo chocado, meu padrasto levou a mo ao rosto, enquanto mame prosseguia:
    - Christopher, pare de esconder-se por detrs da mo. Mostre o rosto e reconhea o que voc me obrigou a fazer. Voc estava l
na noite em que Bart nasceu - l, com seus olhos suplicantes dizendo-me que Paul no seria suficiente e que, no final, seria voc o vencedor. Se voc no estivesse 
l, implorando com esses malditos olhos azuis, eu no teria permitido que os mdicos me convencessem a assinar aqueles documentos e autorizar minha esterilizao! 
Eu teria
gerado outro filho, mesmo que isso me matasse. Mas voc estava l e eu cedi - por sua causa, diabo! Por sua causa!
    Soluando, deixou-se cair ao cho e ficou encolhida, de lado, os dedos enfiando-se no espesso pelo do tapete. Seus compridos
cabelos louros se abriam num leque dourado, acolchoando-lhe o rosto, enquanto ela continuava a chorar, amaldioando papai e a si mesma pelo que estavam fazendo.
    O que estavam fazendo?
    Rolou no tapete, deitando-se de costas, com os braos bem abertos. Papai descobriu o rosto e olhou para ela, parecendo profundamente magoado.
    - Tem razo, Christopher! Voc sempre tem razo! Houve apenas uma vez em que tive razo, mas aquela nica vez poderia ter salvo a vida de Cory.
    Soluando, desviou o rosto violentamente para no encarar papai, que se ajoelhara a seu lado e tentava abra-la. Bateu nele, fazendo-me prender a respirao, 
engasgado.
    - Voc tambm tinha razo quando me disse para no me casar com Julian! Aposto que ficou muito satisfeito quando nosso
casamento resultou num miservel fracasso. Aposto que se deleitou quando Julian ficou parado e permitiu que Yolanda Lange destrusse tudo o que possuamos. Tudo 
aconteceu exatamente como voc previu, deixando-o to satisfeito. Ento, Bart morreu sufocado no incndio que queimou Foxworth Hall at os alicerces. Voc tambm 
riu por dentro naquela ocasio?... satisfeito por ver-se livre dele? Pensou que eu correria direto para seus braos, esquecendo-me de tudo o que devia a Paul? Duvidava 
que eu amasse Paul?
    A voz dela se ergueu num grito agudo.
    - Quando Paul e eu ramos amantes, nunca me passou pela cabea consider-lo velho demais para mim, at que voc comeou a fazer comentrios sobre a idade dele. 
Talvez eu nunca tivesse dado a menor ateno a Amanda e ao que ela me contou, se voc no
#52
me tivesse grilado tanto em relao a casar-me com um homem vinte e cinco anos mais velho que eu.
    Encolhi-me ainda mais. Envergonhado de ficar e escutar; temeroso de levantar-me e ir embora, agora que j ouvira tanto. Mame
estava tensa, como se tivesse guardado aquilo tudo durante muito tempo, pronta para jogar na cara de papai  primeira oportunidade adequada - que surgira agora. 
Ele recuou ante a violncia do ataque.
    - Lembra-se da tarde em que me casei com Paul? - berrou ela. - Lembra-se? Pense no momento em que voc me entregou a aliana que ele me colocou no dedo. Hesitou 
por tanto tempo que o pastor teve que apress-lo em surdina. E, durante o tempo todo, voc implorava com o olhar. Eu resisti naquela ocasio, como deveria ter resistido 
aps a morte de Paul. Voc desejava que ele morresse em breve, a fim de ter a SUA oportunidade? Um desejo auto-realizvel, Christopher Doll! VOC VENCEU! VOC SEMPRE 
VENCE! SENTA-SE E ESPERA, ENQUANTO FAZ O POSSVEL PARA ESTRAGAR-ME A VIDA! BEM, AQUI ESTOU EU! EXATAMENTE ONDE VOC ME DESEJAVA!... Na sua cama, portando-me como 
sua esposa! VOC EST GOSTANDO? EST?
    Soluando, esbofeteou-o com fora.
    Ele recuou sob a fora do golpe, mas no disse uma palavra. Ainda assim, ela no terminara:
    - No entende que eu jamais teria procurado Bart se voc no estivesse sempre por perto, intrometendo-se entre Paul e eu,
envergonhando-me do que mame fez a voc e a mim? Fui obrigada a tomar Bart dela - era a nica maneira de castig-la pelo que fez a
ns. E agora, depois de tudo que Paul fez por ns, voc nem mesmo tem a decncia e generosidade de acolher uma pobre menininha
que em breve ser rf? Mesmo depois que abri o caminho legal, de modo que no haver qualquer investigao por parte das autoridades? Voc ainda me deseja s para 
si, achando que dois filhos so suficientes para atrapalhar nossa privacidade e que outra criana poderia fazer desmoronar nosso castelo de cartas roubadas.
    - Cathy, por favor... - gemeu papai.
    Ela o esmurrou com os pequenos punhos cerrados e depois tornou a gritar:
    - Talvez voc tenha dito a Paul que poderia ter sexo s para que ele sofresse outro ataque cardaco! 
    Ento, derreou-se, as lgrimas escorrendo pelo rosto, os midos olhos azuis fitando papai. Este, porm, limitou-se a permanecer imvel, agachado sobre os calcanhares, 
como se congelado por tudo o que ela dissera.
    Tive vontade de chorar, por ele, por ela, por Bart e por mim. Embora estivesse longe de compreender o bastante.
#53
    Meu padrasto comeou a tremer incontrolavelmente, como se o inverno tivesse entrado inesperadamente em nossa sala de visitas. Teria Mame dito a verdade? Era 
ele quem estava por trs de todas tantas mortes em nossa famlia? Fiquei tambm amedrontado, assustado, pois o amava.
    - Meu Deus, Catherine - disse ele afinal, levantando-se - tomando a direo de seu quarto. - Vou arrumar minhas malas e partir desta casa imediatamente, se  
isso que voc quer. E espero que esteja satisfeita. Desta vez, voc venceu!
    Num nico salto gracioso, ela se ps de p e correu atrs dele. Segurou-lhe o brao, obrigando-o a virar-se, e o enlaou com fora pela cintura, agarrando-se 
a ele.
    - Chris! - exclamou. - Desculpe-me! Sinto muito, muitssimo. No quis dizer uma s palavra do que disse. Foi crueldade, eu
sei. Eu o amo; sempre o amei; minto, engano, digo qualquer coisa para conseguir o que desejo. Jogo a culpa em cima de qualquer
pessoa. No consigo admitir que ela me caiba. No fique to magoado, to trado. Tem razo em negar-me a filha de Nicole, pois sempre acabo magoando todas as pessoas 
que amo. Eu destruo aquilo de que mais gosto. Se eu fosse o tipo certo de pessoa, teria encontrado as palavras adequadas para dizer a Carrie, mas nada de certo fiz 
por
ela ento, como tambm nada de certo fiz por Julian. 
    Continuou agarrada a ele, que permanecia imvel como um tronco alto e ereto nos braos dela, nada fazendo para retribuir toda a paixo que ela derramava sobre 
ele atravs de palavras, beijos e abraos. Mame pegou-lhe uma das mos inertes e tentou esbofetear o prprio rosto com ela. No conseguindo, esbofeteou-se com a 
mo livre.
    - Por que no me bate, Chris? Deus sabe que lhe dei bastante motivo para isso esta noite. E no preciso ter Cindy, no quando tenho voc e meus filhos...
    Pude perceber que meu padrasto se sentia impotente contra toda a angstia que Mame demonstrava. O comportamento dramtico de mame o encurralara a um canto 
da sala e ele desejava permanecer ali o tempo suficiente para raciocinar sobre sua posio. Mas ela
insistia, exigindo dele uma reao, at que comeou a gritar outra vez:
    - O que h com voc, agora, Christopher Doll? Fica a parado, como um pedao de pau, sem dizer uma palavra, tentando julgar-me segundo sua prpria tica. Reconhea 
a verdade: eu no tenho tica nenhuma! Voc quer convencer-se de que sou apenas uma atriz representando um papel, como nossa me representou o dela. Mesmo agora, 
aps todos estes anos, voc no sabe distinguir quando estou representando e quando no estou. Sabe por que?
     - Sua voz assumiu um tom custico, cnico:
     - Desde que jamais se incomodou em analisar o meu pattico caso, vou faz-lo para voc. Christopher, voc tem medo de me
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encarar com honestidade. No quer saber como realmente sou. Se eu no estiver representando e esta minha faceta, que lhe estou mostrando agora, for verdadeira - 
ento, voc  incapaz de se admitir um tolo. Ento, voc descobriria que baseou seu amor imenso, altrusta, numa mulher impiedosa, exigente e totalmente egosta. 
Vamos, veja a verdade! No sou uma deusa, nunca fui e jamais serei! Chris, voc tem sido um tolo toda a sua vida adulta, tentando transformar-me em algo que no 
sou - o que faz tambm de voc um mentiroso. No  mesmo?
    Mame riu quando ele empalideceu.
    - Olhe para mim, Christopher! De quem o fao lembrar-se?
     Ela se afastou um pouco e o fitou em silncio durante longo tempo, aguardando. Quando papai se recusou a responder, mame
disse: 
     - Vamos logo, diga - sou como ela, no  mesmo? Era assim que ela estava naquela ltima noite em Foxworth Hall, quando os
convidados se apinhavam em torno da rvore de Natal e, na biblioteca, ela gritava como estou gritando agora! Gritando que seu pai a espancara para for-la a fazer 
o que fez. Que pena voc no estar l! Portanto, grite comigo, Chris! Bata-me! Grite como estou
gritando e mostre que  humano!
    Devagar, muito devagar, papai estava perdendo a calma. Tive muito medo do que poderia acontecer em seguida. Tive vontade de entrar correndo na sala e interromper 
o que se passava, pois se ele erguesse a mo para agredi-la, eu correria para defend-la. Jamais permitiria que ele batesse em minha me.
    Ser que ela escutou minhas preces silenciosas? Largou papai e tornou a escorregar-se para o cho. Fiquei muito confuso por v-los brigando, para valer. E por 
que o nome Foxworth Hall fazia ressurgir
temores ocultos que eu no desejava que viessem  luz? E quem era a tal ela de quem mame tanto gritava? E onde estivera papai
Paul naquela ocasio? Naquele tempo to distante em que Mame ainda no conhecia o irmo mais moo dele? Ou, ao menos, era o
que me diziam. Pais mentiam?
    Foxworth Hall - por que me soava familiar?
    Ele se ajoelhou mais uma vez ao lado dela e, desta vez, tomou-a nos braos com grande ternura e ela no ops resistncia. Papai cobriu-lhe o rosto com beijos 
rpidos, os lbios tentando abafar as palavras que continuavam a brotar dela.
    - Chris, como consegue continuar a me amar, quando sou uma megera? Como pode continuar a compreender por que sou to m,
com tanta freqncia? Sei que sou to ruim quanto ela, mas daria minha vida para desmanchar o mal que ela nos fez.
    Sem dizer uma palavra, ele a fitou nos olhos at que a respirao de ambos comeou a ficar ofegante. Entre eles, aquela paixo
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que estava sempre pouco abaixo da superfcie incendiou-se, inflamou-se, e algo eltrico percorreu-me a pele, tambm.
    Temendo ver demais, esgueirei-me silenciosamente de volta ao meu quarto, tendo ainda na mente a viso de ambos rolando pelo cho. Rolando sem parar, virando-se, 
agarrando-se, ambos frenticos
e a ltima coisa que escutei foi um zipper sendo aberto. No sei se dele ou dela. No obstante, matutei a respeito. Alguma mulher abria, por livre e espontnea vontade, 
o zipper das calas de um homem - mesmo que fosse sua esposa?
    Corri para o jardim. No escuro, perto do muro branco, junto a uma plida esttua nua de mrmore, ca de joelhos no solo e chorei.
    A primeira coisa que vi ao erguer os olhos foi a esttua "O Beijo", de Rodin. Apenas uma cpia, mas muito me disse a respeito dos adultos e seus sentimentos.
    Eu fora uma criana que acreditava que a integridade de meus pais era impecvel, seu amor uma fita brilhante e macia de cetim
imaculado. Agora, a fita estava manchada, rasgada e no mais brilhava. Teriam eles discutido muitas vezes e eu no me lembrava?
Procurei recordar. Parecia-me que eles nunca tinham discutido to terrivelmente; apenas pequenos conflitos que logo eram resolvidos.
    - Voc  grande demais para chorar. disse com meus botes. Quatorze anos era uma idade quase adulta. Alguns fios de cabelo j
brotavam acima de meus lbios e em outros locais do corpo. Fungando, engasgando-me para conter os soluos, corri para o muro branco e trepei no carvalho. Uma vez 
em cima do muro, sentei-me no meu lugar predileto e olhei para a enorme manso branca, que parecia fantasmagrica ao luar. Pensei, pensei muito a respeito de Bart 
e de quem
seria o seu pai. Por que meu irmo no tinha o nome de Papai Paul? Naturalmente, um filho devia receber o mesmo nome que o pai. Por
que Bart, em vez de Paul?
    Enquanto eu observava e refletia, o nevoeiro vindo do mar comeou a cobrir a paisagem, adensando-se e envolvendo a manso at que no mais consegui avist-la. 
Por toda parte a densa nvoa cinzenta se estendia. Estranha, assustadora, misteriosa.
    Do terreno ao lado vinham esquisitos sons abafados. Estaria algum chorando ali? Grandes soluos magoados, entremeados com
gemidos e curtas preces que imploravam perdo.
    Oh, meu Deus! Estaria a pobre velha chorando exatamente como minha me? O que fizera ela? Todo mundo teria um passado vergonhoso a esconder? Eu me tornaria igual 
a eles, quando crescesse?
    - Christopher! - soluou a mulher.
    Espantado, virei-me e tentei descobrir onde ela estava. Como sabia o nome de Papai? Ou possua seu prprio Christopher?
     De uma coisa, eu tinha certeza: algo obscuro e ameaador ingressara em nossas vidas. Bart se comportava de modo mais estranho do que o costume. Algo, ou algum, 
#56
tinha que o estar influenciando de uma maneira sutil, que eu no conseguia perceber direito. O que estava transformando Bart nada tinha a ver com Mame e Papai. 
Se eu no conseguia entend-los, Bart muito menos poderia faz-lo. Contudo, sem importar o que havia entre meus pais e o que se passaria
com Bart, eu sentia o peso do mundo sobre os ombros, que ainda no tinham fora suficiente para tanto.

    Certa tarde, apressei-me propositalmente a voltar cedo para casa depois da aula de bal. Queria descobrir o que Bart fazia sozinho quando no estava em casa. 
Ele no se achava em seu quarto, nem no jardim. Portanto, restava apenas um lugar onde meu irmo poderia estar: na propriedade vizinha.
    No tive dificuldades para encontr-lo. Para minha grande surpresa, Bart estava no interior da manso, sentado no colo da velha
que jamais usava roupas que no fossem negras. 
    Prendi a respirao. O pequeno patife comodamente encolhido no colo coberto de preto. Aproximei-me furtivamente da janela
da sala que a velha parecia preferir s demais. Ela cantava baixinho, Bart fitava o rosto encoberto pelo vu. Seus grandes olhos escuros estavam cheios de inocncia 
antes de assumirem repentinamente uma expresso ladina e adulta.
    - Voc no me ama de verdade, no  mesmo? - indagou ele, com voz mais esquisita.
    - Oh, amo, sim - respondeu a velha suavemente. - Amo voc mais do que j amei algum antes.
    - Mais do que seria capaz de amar Jory?
    Por que, diabo, ela me amaria?
    A mulher hesitou, desviou o rosto e replicou:
    - Sim... voc  muito, muito especial para mim...
    - Sempre me amar mais que aos outros?
    - Sempre, sempre... Bart, meu querido amor, quando vier visitar-me outra vez, voc encontrar  sua espera... aquilo que mais deseja neste mundo.
    - Acho melhor eu encontrar mesmo! - retrucou Bart num tom duro, que me surpreendeu.
    De repente, meu irmo parecia muitos anos mais velho. Todavia, estava sempre mudando o modo de falar, de andar. Representando, sempre fazendo de conta.
    Eu voltaria para casa e contaria tudo a Mame e Papai. Bart precisava realmente de amigos da sua idade, no de uma velha. No
era saudvel para um menino no ter companheiros de sua idade para brincar. Por outro lado, porm, tentei imaginar por que razo meus pais nunca convidavam seus 
amigos a visitar-nos, como todos os outros pais 
#57
costumavam fazer de vez em quando. Vivamos sozinhos, isolados dos vizinhos - at que aquela velha muulmana, ou seja l o que ela fosse, viera roubar o afeto de 
meu irmo. Devia sentir-me satisfeito por ele; em vez disso, fiquei apreensivo.
   Afinal, Bart levantou-se e disse:
   - At logo, Vov.
     Com sua voz normal de menino - mas que diabo quis ele dizer com "vov"?
    Esperei pacientemente at ter certeza de que Bart estava em nosso quintal antes de circundar o velho casaro e bater com fora  porta da frente. Esperava ver 
o velho mordomo aproximar-se a passos arrastados pelo comprido corredor que desembocava no saguo, mas foi a prpria velha quem espiou pelo olho-mgico e perguntou 
quem batia.
    - Jory Marquet Sheffield - respondi orgulhosamente, como faria meu pai.
    - Jory - murmurou a velha, abrindo a porta logo em seguida. - Entre - convidou alegremente, afastando-se para dar-me
passagem.
    Tive a impresso de avistar nas sombras algum que se escondeu rapidamente.
    - Fico imensamente feliz por receber sua visita. Seu irmo esteve aqui e acabou com o nosso suprimento de sorvete, mas posso
oferecer-lhe uma coca-cola e bolo, ou salgadinhos.
    No era de espantar que Bart no comesse a boa comida de Emma - aquela velha o empanturrava de porcarias.
    - Quem  voc? - perguntei raivosamente. - No tem o direito de dar guloseimas a meu irmo!
    Ela recuou, parecendo magoada e humilde.
    - Tento convenc-lo a esperar at depois das refeies, mas ele insiste. E, por favor, no me julgue mal antes de dar-me uma
oportunidade de me explicar. 
    Com um gesto, convidou-me a tomar assento em uma das elegantes salas de visitas. Embora eu desejasse recusar, tive a curiosidade despertada. Segui-a at o que 
deveria ser a sala mais grandiosa fora de um palcio francs! Um grande piano de cauda para concertos, sofs para duas pessoas, poltronas de brocado, uma escrivaninha,
uma vasta lareira de mrmore. Ento, virei-me para examin-la com ateno.
    - Voc tem nome?
    Confusa, ela conseguiu responder em voz sumida:
    - Bart me chama... de Vov.
    - Voc no  av dele - declarei. - Quando lhe diz que , confunde-o. E Deus  testemunha, minha senhora, que se existe algo de que meu irmo no necessita  
ainda mais confuso.
#58
   O rubor se espalhou lentamente pela testa da velha.
   - No possuo netos. Sou solitria, preciso de algum... e Bart parece gostar de mim...
    Fui dominado pela piedade, de modo que mal consegui dizer o que planejara previamente. No obstante, repliquei:
    - No creio que vir aqui seja bom para Bart, senhora. No seu lugar, eu procuraria desencoraj-lo. Bart precisa de amigos da sua idade...
    E nesse ponto minha voz sumiu, pois como poderia eu dizer-lhe que era velha demais? E que duas avs, uma na clnica para loucos
e outra louca por bal, eram mais que o bastante? 

    No dia seguinte, Bart e eu fomos informados de que Nicole morrera durante a noite e que dali em diante a filha dela, Cindy, seria nossa irm. Meu olhar se cruzou 
com o de Bart. Papai fitava o prato, mas no comia. Virei a cabea, espantado, quando escutei o choro de uma criana pequena.
    -  Cindy - explicou Papai. - Sua me e eu estvamos junto de Nicole quando ela morreu. Suas ltimas palavras foram um
pedido para que tomssemos conta de sua filha. Quando pensei em vocs dois poderem ficar sozinhos no mundo, como Cindy, compreendi que eu poderia morrer sentindo-me 
mais em paz se soubesse que meus filhos teriam um bom lar... portanto, permiti que sua me dissesse o que vem desejando dizer desde que Nicole sofreu o acidente..
    Mame entrou na cozinha. Carregava no colo uma menininha com cachos louros e grandes olhos azuis quase da mesma cor que
os seus.
    - Jory, Bart, ela no  adorvel? - indagou, beijando o rostinho rechonchudo e rosado, enquanto os grandes olhos azuis da
menina pulavam de Bart para mim e vice-versa.
    - Cindy tem exatamente dois anos, dois meses e cinco dias de idade. A senhoria de Nicole ficou satisfeita por ver-se livre do que considerava uma pesada carga 
- disse Mame com um sorriso alegre. - Lembra-se de quando nos pediu uma irmzinha, Jory? Na
ocasio, eu lhe expliquei que no podia ter mais filhos. Bem, como pode ver, s vezes Deus age de forma misteriosa. Por dentro, choro por Nicole, que deveria viver 
at os oitenta. Mas quebrou a espinha e tinha ferimentos internos mltiplos. No terminou a frase. Eu sabia que era terrivelmente triste algum to jovem e bonita 
quanto Nicole Nickols, de dezenove anos, ter que morrer para que tivssemos a irm que eu mencionara apenas de passagem havia tanto tempo.
#59
    - Nicole era sua paciente, Papai? - indaguei.
    - No, filho, no era. Mas desde que era nossa amiga e aluna de sua me, fomos notificados de que no estava reagindo ao tratamento. Corremos ao hospital para 
estarmos com ela. Suponho que nenhum de vocs dois escutou o telefone tocar por volta de quatro horas desta madrugada.
    Olhei para minha nova irm. Estava muito bonita, num macaco que lhe cobria tambm os ps. Os cachos sedosos emolduravam-lhe o rosto. Agarrada  minha me, olhou 
para os desconhecidos antes de desviar a cabea e ocultar-se de nossos olhares.
    - Voc costumava fazer isso, Bart - comentou Mame com um sorriso carinhoso. - Pensava que, escondendo o rosto, ns no
conseguamos v-lo apenas porque voc no conseguia nos ver.
    - Leve-a daqui! - berrou Bart, o rosto transformado numa mscara vermelha de fria. - Leve-a embora! Coloque-a no tmulo, com a me! No quero irm! Eu a odeio! 
Odeio!
    Silncio. Ningum conseguiu falar aps tal exploso.
     Ento, enquanto Mame parecia chocada demais at mesmo para respirar, Papai estendeu o brao para controlar Bart, que se ergueu de um salto para agredir Cindy! 
A menina comeou a chorar e Emma olhou furiosamente para Bart.
    - Bart, jamais escutei algo to feio e cruel - declarou Papai, erguendo Bart no ar e sentando-o em seu joelho. Bart lutou,
contorceu-se, tentou fugir, mas no conseguiu escapar. - V para seu quarto e permanea l at aprender a ter um pouco de compaixo pelos outros. Sentir-se-ia muito 
feliz se estivesse na situao de Cindy.
    Resmungando baixinho, Bart saiu pisando firme e bateu a porta do quarto.
    Virando-se, Papai pegou a maleta negra e se preparou para sair. Lanou um olhar de admoestao  Mame:
    - Agora, entende por que fui contra adotarmos Cindy? Voc sabe to bem quanto eu que Bart sempre foi muito ciumento. Uma
criana to bonita e jovem como Cindy no levaria dois dias no orfanato antes que algum casal felizardo a escolhesse.
    - Sim, Chris; voc tem razo, como sempre. Se Cindy fosse entregue  custdia das autoridades, seria adotada por outros - e voc e eu passaramos o resto da 
vida sem uma filha. Como as coisas esto, tenho uma menininha que me parece muito semelhante a Carrie.
    Papai fez uma careta, como se sentisse uma repentina pontada de dor. Mame foi deixada  mesa com Cindy no colo e, pela primeira vez desde que eu conseguia me 
lembrar, ele saiu sem se despedir dela com um beijo. E ela no recomendou: "Tome cuidado!"
    Cindy encantou-me num piscar de olhos. Ia de um lado para outro, querendo tocar em tudo e, depois, sentir o gosto. Uma gostosa
#60
sensao de ternura me invadia ao ver a menininha to bem cuidada, to amada e mimada. As duas juntas pareciam me e filha. Ambas vestidas de rosa, com fitas cor-de-rosa 
nos cabelos louros. S que Cindy usava meias brancas com rendas.
    - Jory a ensinar a danar quando voc tiver idade para isso. 
   Sorri para mame ao passar por ela a caminho da aula de bal. Mame levantou-se depressa para entregar Cindy a Emma e juntou-se a mim no seu carro, ainda estacionado 
em nossa ampla garagem.
   - Jory, creio que Bart logo aprender a gostar um pouquinho de Cindy, voc no acha?
   Tive vontade de responder que no, que Bart jamais gostaria da menina, mas limitei-me a assentir com a cabea, sem deixar Mame
perceber o quanto eu estava preocupado com meu irmo. 
     Encrencas, encrencas, fervam e dobrem...
   - Jory, o que voc resmungou agora?
   Puxa, nem percebi ter falado em voz alta.
   - Nada, Mame. Apenas repeti algo que escutei Bart dizer para si mesmo ontem  noite. Ele chora dormindo, Mame. Chama por
voc, gritando porque fugiu com seu amante - sorri e me esforcei por parecer despreocupado. - E eu nem mesmo sabia que voc tinha um amante...
    Ela ignorou meu comentrio jocoso.
    - Jory, por que no me contou antes que Bart tem pesadelos?
    Como poderia eu dizer-lhe a verdade? Que ela estava por demais encantada com Cindy para dar ateno a qualquer outra pessoa?
E que nunca, jamais deveria dar mais ateno a algum que no fosse Bart. Nem mesmo a mim.

    - Mame! Mame! - escutei Bart gritar dormindo naquela noite. - Onde est voc? No me deixe sozinho! Mame, por favor,
no me abandone! No o ame mais que a mim. No sou mau, no sou realmente mau... apenas no consigo evitar fazer o que fao s vezes... Mame... Mame....!
     S loucos no conseguem evitar fazer o que fazem. Uma pessoa louca em nossa famlia j era o suficiente. No precisvamos de
outra vivendo sob o nosso teto.
     Portanto... cabia-me salvar Bart de si prprio. Cabia-me endireitar algo errado que se iniciara muito tempo atrs. E nos recessos profundos e sombrios de minha 
mente existiam lembranas vagas e perturbadoras de algo que me afligira anos antes, quando eu era jovem demais para compreender. Jovem demais para juntar as peas 
do quebra-cabeas.
#61
    O problema era que vinha pensando tanto no passado que agora ele estava despertando e eu conseguia lembrar-me de um homem com
cabelos escuros, um homem diferente de Papai Paul. Um homem que mame costumava chamar de Bart Winslow - e estes eram os dois
primeiros nomes de meu meio-irmo.

O DESEJO DO MEU CORAO

     Garotinha maliciosa, aquela Cindy. No se importava com quem a visse nua. No se importava com quem a sentava no "troninho".
No se importava com ser decente ou limpa. Pegava meus carrinhos de brinquedo e os mastigava.
    O vero j no era to gostoso. Nada para fazer. Nenhum lugar para ir, exceto a manso vizinha. A velha vive prometendo o pnei e este nunca aparece. Est me 
enganando, fazendo-me de bobo. Vou mostrar uma coisa a ela. Faz-la ficar l sentada, sozinha o tempo todo, sem visit-la. Vou castig-la. Ontem  noite, escutei 
mame
contando a Papai que viu a velha de preto trepada numa escada encostada no muro.
    - E ela estava olhando para mim, Chris. Olhando de verdade! 
    Papai riu.
    - Ora, Cathy, que mal podem fazer os olhares dela?  uma desconhecida em terra estranha. No teria sido amistoso de sua parte acenar e dizer al... ou, talvez, 
apresentar-se?
    Ri comigo mesmo. Vov no teria respondido. Era tmida diante de qualquer desconhecido, exceo feita a mim. Eu era o nico em quem ela confiava.
    Mais um dia de ser malvado com Cindy trouxe-me como castigo a proibio de ir a qualquer lugar; no podia sair do meu quarto. Mas sou esperto e fugi s escondidas, 
correndo para a casa vizinha,
onde as pessoas gostam de mim.
   - Onde est meu pnei? - berrei quando vi o celeiro ainda vazio. - Voc me prometeu um pnei - portanto, se no me der um, direi a Mame e Papai que voc est 
tentando roubar-me deles!
   Ela deu a impresso de encolher-se dentro do feio manto negro e as mos plidas e esguias subiram  garganta para torcerem um grosso colar de prolas que ela 
costumava manter escondido.
   - Amanh, Bart. Amanh voc ter o desejo de seu corao.
   Encontrei Amos no caminho de casa. Ele me conduziu a seu esconderijo secreto e sussurrou a respeito de "aes masculinas".
#62
    - Mulheres como ela nascem ricas e jamais tm necessidade de crebro - disse John Amos, os olhos midos duros e apertados. - Oua bem, rapaz, e jamais se apaixone 
por uma mulher estpida. E todas as mulheres so estpidas. Quando lidar com mulheres, voc precisa faz-las saber quem  o patro desde o incio - e jamais deix-las 
esquecer isso. Agora, vamos  sua lio de hoje. Quem  Malcolm Neal Foxworth?
    - Meu bisav, que morreu e se foi deste mundo, mas, no obstante, continua poderoso - respondi, no chegando a entender bem o que dizia.
    - O que mais era Malcolm Neal Foxworth?
    - Um santo. Um santo que merece um lugar de honra no cu. 
    - Correto. Mas diga tudo. No omita nada.
    - Nunca nasceu um homem mais esperto que Malcolm Neal Foxworth.
    - Isso no  tudo o que lhe ensinei. Voc devia saber mais a respeito dele, pela leitura do dirio. Tem lido diariamente? Ele
escreveu fielmente aquele livro durante toda a vida. Li-o uma dzia de vezes, ou mais. Ler  aprender e crescer. Portanto, jamais deixe de ler o dirio de seu bisav 
at se tornar to esperto e sabido quanto ele.
     - Esperto e sabido no so a mesma coisa?
   - No, claro que no! Sabido  no permitir que as pessoas desconfiem do quanto somos espertos.
    - Por que Malcolm no gostava da me dele? - perguntei, embora soubesse que ela fugira de casa. Mas isso me faria odiar
minha me?
    - Gostar da me dele? Deus do cu, menino! Malcolm era louco pela me at ela fugir com o amante e deixar Malcolm com o
pai, que era ocupado demais para lhe dar ateno. Se continuar a ler o dirio, rapaz, logo descobrir o que voltou Malcolm contra as mulheres, todas as mulheres. 
Continue a ler e amplie seu conhecimento. A sabedoria de Malcolm ser sua. Ele lhe ensinar a no confiar em que uma mulher esteja presente quando voc necessitar 
dela.
    - Mas mame  uma boa me - defendi debilmente, j no tendo tanta certeza de que isso era verdade.
     A vida era to "tortuosa". (Nova palavra para hoje: tortuosa).
   - Agora, Bart - dissera Papai de manh cedo, escrevendo a palavra cuidadosamente em letras de forma e explicando-me seu exato significado -, quero que voc e 
Jory  encontrem um jeito de encaixar tortuosa pelo menos cinco vezes em suas conversas de hoje.
Significa afastado do caminho reto; torto, errado, injusta: .......... T-O-R-T-U-O-S-A.
#63
     Soletrou-a para mim. Deus do cu, eu certamente detestava viver num "mundo tortuoso". As malditas palavras do vocabulrio novo ensinavam-me agora o quanto todo 
mundo era capaz de ser tortuoso.
     - Agora, vou deix-lo sozinho para que possa ler um pouco mais as palavras de Malcolm - disse John Amos antes de retirar-se arrastando os ps, com o corpo ligeiramente 
inclinado para a frente e para um lado.
     Abri o dirio na pgina onde estava o marcador de couro.

     "Hoje eu quis apenas experimentar um pouco do fumo de meu pai, de modo que enchi o cachimbo que encontrei no escritrio, sa furtivamente para o quintal e fui 
fumar atrs da garagem.
     "No sei como ele descobriu, a menos que algum dos criados me tenha delatado, mas o fato  que soube. Seus olhos duros lanaram chispas e ele me mandou tirar
toda a roupa e ficar nu. Encolhendo-me de medo, chorei quando ele me surrou com uma correia e depois me colocou de castigo no sto at eu aprender os ensinamentos 
do Senhor e me redimir de meus pecados. Enquanto estava l em cima, encontrei velhas fotos de minha me quando era apenas garota. Como era linda, de aparncia to 
delicada e inocente! Odiei-a! Quis que morresse naquele instante, onde quer que se encontrasse. Quis que
sofresse como eu estava sofrendo, com cortes sangrando nas costas, quase sufocado naquele sto quente e
     abafado.
     "Encontrei muitas coisas naquele sto: espartilhos com rendas, de modo que uma mulher ficava protuberante na frente, induzindo os homens a acreditarem que 
ela possua mais do que a natureza realmente lhe dera. Compreendi que jamais me deixaria iludir por qualquer mulher, por mais linda que fosse. Pois fora a beleza 
que me colocara no sto, fora a beleza que me surrara as costas - na, verdade, meu pai no tinha culpa do que
     fizera. Ele tambm sofria, como eu.
     "Agora, eu compreendia que tudo o que ele costumava dizer-me era verdade: no se pode confiar em nenhuma mulher. E, em especial, nas que possuem rostos bonitos 
e corpos sedutores".

    Erguendo os olhos, fitei o vcuo, no vendo o celeiro cheio de feno, mas a linda e doce face de minha me. Seria tambm ela
tortuosa? Algum dia fugiria com seu "amante" e me abandonaria para lutar sozinho contra 
#64
um padrasto que no gostava de mim tanto quanto gostava de Jory e Cindy?
     O que faria eu, ento? Minha av me acolheria?
     Perguntei a ela posteriormente.
   - Sim, meu amor, eu o acolherei. Cuidarei de voc, lutarei por voc, pois  o verdadeiro filho de meu segundo marido, Bart Winslow. J no lhe contei isso antes? 
Confie em mim, acredite em mim e mantenha-se afastado de John Amos. Ele no  o tipo de amigo adequado para voc.
     Filho do segundo marido dela. Significaria isso que mame tambm fora casada com ele? Passava todo o tempo asando-se com algum! Fechei os olhos e pensei em 
Malcolm, que h muitos anos jazia em sua cova. A cadeira de balano da velha continuava a ranger. E a terra cai sobre meu caixo, na sepultura. Escuro, agora.
Abafado. Confinado e frio. Cu... onde ficava o Cu?
    - Bart, seus olhos esto vidrados.
    - Estou cansado, Vov. To cansado...
    - Logo voc ter o desejo de seu corao.
    Dinheiro. Eu queria dinheiro, pilhas e mais pilhas de notas verdes. Naquele momento, algum bateu  porta da frente. Pulei do colo dela e me escondi.
    Jory entrou correndo, seguido por Amos, que lhe abrira a porta.
    - Onde est meu irmo? - quis saber ele, correndo os olhos pela sala. - No gosto do que est acontecendo com ele e acredito que tem alguma relao com a presena 
dele aqui...
    - Jory - disse minha av, estendendo a mo com os dedos cobertos de jias faiscantes. - No me olhe assim. No fao mal a Bart. Apenas dou-lhe um pouco de sorvete 
aps as refeies. Sente-se
e vamos conversar um pouco. Mandarei trazerem refrescos.
    Ignorando-a, Jory correu direto para mim com o faro de um co de caa e me arrancou de trs das palmeiras plantadas em vasos.
    - No, muito obrigado, senhora - replicou ele friamente. - Minha me me d tudo o que preciso comer - e o que a senhora
est fazendo aqui  transformar meu irmo. Portanto, faa o favor de no permitir que ele volte.
    Os lbios quase invisveis de minha av se apertaram e vi lgrimas em seus olhos quando fui arrastado dali. Em nosso quintal,
Jory sacudiu-me com fora.
    - No se atreva a voltar l, Bart Sheffield! Ela no  sua av! Voc a olha como se gostasse mais dela que de mame!

     Havia quem dissesse que Bart Winslow Scott Sheffield no era to alto como os outros meninos de nove anos. Contudo, to logo completei dez anos, compreendi 
que, no vero, cresceria com a rapidez de um p de
#65
feijo. Quando voltasse  Disneylndia, teria inspirao suficiente para crescer at o tamanho de um gigante.
    - Por que parece to solene, querido? - indagou minha av quando me aninhei novamente em seu colo no dia seguinte.
    O pnei ainda no chegara.
    - No virei mais visitar voc - repliquei amuado. - Papai me dar um pnei como presente de aniversrio, quando eu lhe disser novamente que desejo um. No precisarei 
mais do seu.
    - Bart, voc no falou com seus pais a meu respeito, falou?
    - No, senhora.
    - Se mentir, Deus o castigar.
Claro, por que no? Todo mundo mentia.
    - Nunca disse nada a ningum - resmunguei. - Mame e Papai no gostam de mim. Tm Jory. E, agora, tm tambm Cindy.
Isso  o bastante para eles.
    Ela lanou um olhar em volta, prestando especial ateno s portas laterais, que estavam fechadas e trancadas. Ento, sussurrou:
    - Bart, vi voc conversando com John. J lhe pedi que se mantivesse afastado dele.  um velho malvado, capaz de ser muito cruel.
No se esquea disso. 
     Bolas, em quem poderia eu confiar? Ele dizia o mesmo a respeito dela. Antes, eu julgava poder confiar em qualquer pessoa de nossa famlia. Agora, estava aprendendo 
que as pessoas nem sempre so o que aparentam ser superficialmente. No amavam, no se importavam o bastante, em especial quando se tratava de mim. Talvez apenas 
Vov realmente se importasse comigo - ela e John Amos. Ento fiquei confuso outra vez. Seria John Amos meu amigo de verdade? Se ele fosse, minha av no podia ser. 
Era preciso escolher. Qual deles? Como se tomavam decises importantes como aquela? Ento,
quando vov me abraou e recostei a cabea em seu seio macio, tive certeza de que era ela quem mais me amava. Era minha av de
verdade.
     Mas... se no fosse?
     Eu vira minha av uma dzia de vezes, ou mais. John Amos era meu amigo apenas h poucos dias. Talvez se tivesse esperado por
mim sete vezes consecutivas isso me mostrasse que ele me daria sorte e seria bom para mim. Sete vezes consecutivas de qualquer coisa significava boa sorte. Cinco 
vezes de conversar comigo em seu sinistro esconderijo j me haviam ensinado que as mulheres eram traioeiras e tortuosas.
    - Bart, meu querido - murmurou minha vov, pousando os lbios secos em meu rosto, perto da orelha. - No precisa parecer to assustado. Basta apenas afastar-se 
de John Amos e no acreditar em qualquer coisa que ele lhe diga.
#66
     Acariciou-me o rosto e senti-a sorrir.
    - Agora, se voc correr at o celeiro e der uma espiada l dentro, encontrar uma coisa que qualquer menino adoraria Possuir. E os que no Possuem o invejaro.
    Comeou a dizer algo mais, mas eu lhe pulei do colo, corri atravs da sala e continuei a correr at chegar ao celeiro. Puxa vida! Todos os dias eu trazia uma 
ma no bolso, alimentando a esperana. Todos os dias eu trazia cubos de acar de Mame, alimentando a esperana. Todas as noites eu rezava para possuir aquele 
pnei que tanto desejava. Aquele pnei me amaria mais que todo mundo! Corri at o celeiro sem tropear ou cair uma nica vez. Ento, estaquei e
esbugalhei os olhos. AQUILO no era um pnei!
     Era apenas um co. Um enorme cachorro peludo que sacudia o rabo, cujos olhos j me fitavam com adorao - e eu no tinha nada para captar sua afeio. Tive 
vontade de chorar. O co usava coleira e estava preso por uma corda a um toco no cho do celeiro.
Balanava-se todo, como se feliz por ver-me - e eu o detestava.
     Ela veio correndo atrs de mim, toda ofegante e ansiosa.
    - Bart, querido, no fique desapontado. Eu realmente queria dar-lhe um pnei, mas como lhe expliquei, se o fizesse voc Voltaria para casa cheirando a cavalos; 
Jory e seus pais descobririam tudo e nunca mais permitiriam que voc voltasse a visitar-me.
    Deixei-me cair de joelhos e baixei a cabea. Queria morrer. Comera todo aquele sorvete, suportara todos aqueles beijos e
abraos... e nem assim ela me dera um pnei!
    - Voc mentiu para mim - engasguei-me, com lgrimas nos olhos. - Voc me fez perder todos os meus dias visitando-a, quando
poderia ter feito algo melhor.
    E l recomecei eu a no pronunciar os S. No crescera tanto, afinal.
    - Bart, querido, voc nada compreende a respeito de ces So Bernardo! - exclamou ela, tomando-me nos braos. - Esse co
ainda  um filhote e repare como  grande. Crescer at ficar do tamanho de um pnei. Ento, voc poder sel-lo e mont-lo no jardim. E sabe que nas montanhas utilizam 
essa raa de ces para salvar pessoas que se perdem na neve ? Amarram um barrilete de conhaque no pescoo do co e este, sozinho,  capaz de encontrar um homem perdido 
e salvar-lhe a vida. Um co como esse. O So Bernardo  o co mais herico do mundo.
    No acreditei nela. Ainda assim, senti-me obrigado a observar o filhote com maior interesse. - seria mesmo um filhote? Ele forou a trela, tentando alcanar-me 
e eu gostei um pouco mais dele por comportar-se assim.
#67
    - Ele crescer mesmo at o tamanho de um pnei?
    - Bart, ele tem apenas seis meses e j  quase to grande como alguns pneis!
    Ela riu e me pegou pela mo, puxando-me para o interior do celeiro.
    - Veja - disse, apontando para uma sela vermelha com cabeada, freio e rdeas da mesma cor. Depois, indicou uma pequena
charrete vermelha.
    - Voc pode mont-lo ou atrel-lo  charrete... e ter um co, ou pnei, para qualquer tipo de trabalho, como desejar. S
precisa usar a imaginao.
    - Ele morde?
    - No, claro que no. Querido, olhe para ele, note como est feliz por ver um menino. Estenda a mo e deixe-o farejar a palma.
Trate-o com bondade, alimente-o bem, mantenha-lhe o plo livre de embaraos e carrapichos, e possuir no s o co mais lindo do mundo como tambm o melhor amigo 
de sua vida.
    Temerosamente, estendi devagar a mo - e o filhote lambeu-a como se fosse sorvete. Beijos molhados. Ri, pois senti ccegas.
    - V embora, Vov - ordenei.
    Ela recuou, relutante, enquanto me ajoelhei diante do pnei a fim de poder dizer-lhe o que ele era.
    - Agora, escute aqui e no se esquea do que vou dizer - declarei. - Voc no  um co, mas um pnei. No est destinado a carregar barris de conhaque para pessoas 
perdidas na neve - est destinado a carregar s eu e mais ningum! meu pnei - e s meu!
    Ele me fitou como se estivesse confuso, tombando a cabea cabeluda para um lado e sentando-se nas patas traseiras.
    - No se sente assim! - berrei. - Cavalos no se sentam, s os ces!
    - Bart - veio a voz suave de minha av. - Lembre-se: seja bondoso.
    Ignorei-a. Mulheres no contavam em aes masculinas como aquela. John Amos me ensinara isso. Os homens mandam no mundo e as mulheres tm que ficar quietas e 
caladas.
     Eu precisava lanar mo de um encantamento para transformar um filhote de cachorro num pnei. As bruxas malvadas no teatro sabiam como faz-lo. Pensei muito 
em todas as bruxas que eu vira no teatro e nos bals e, afinal, julguei saber exatamente o que fazer.
     Precisava de um comprido nariz adunco e de um queixo comprido e pontudo, olhos encovados e longos dedos ossudos, com unhas
negras de cinco centmetros de comprimento. A nica coisa que eu possua eram olhos negros, malvados e penetrantes - talvez isso
bastasse. Eu sabia muito bem fazer olhares malvados.
#68
    Ergui os braos acima da cabea, crispei os dedos em garras, encurvei a espinha e lancei meu feitio:
    - Eu te batizo Ma! Com esta poo mgica que te dou e com este feitio que te lano, fao de ti um pnei!
    Dei-lhe a poo mgica, que era uma ma.
     - Agora tu s meu, todo meu! Nunca bebers ou comers se no for eu quem te der gua e comida! Nunca amars ningum exceto eu! Corrers para mim e morrers 
quando eu morrer! MEU, MA, MEU! AGORA E PARA SEMPRE... MEU!
    O poder de minha magia fez Ma farejar a fruta que eu lhe ofereci. Ganiu com ar infeliz e virou o focinho para um lado,
mostrando-se mais interessado no acar que eu guardava para mais tarde.
    - Agora, deixe de ganir e tente comer tudo - ralhei, dando uma dentada na ma para ensinar a ele como fazer.
     Mais uma vez, estendi a ma para meu pnei comer. Mais uma vez, ele virou de lado a gigantesca cabea branca e dourada. Parte
de seu plo tinha cor de ouro avermelhado e era bonito. Tornei a morder a ma e mastiguei-a, mostrando-lhe que comida gostosa ele estava desprezando.
    - Bart - chamou minha av, meio engasgada. - Talvez eu tenha cometido um engano. Devolverei o co  loja de animais e
comprarei para voc o pnei que desejava.
    Olhei da velha para minha nova mascote e, depois, para nossa casa, refletindo bastante. Minha famlia certamente sentiria o cheiro de cavalos, se pneis cheiram 
a cavalos. E cheiro de cachorro pareceria natural; convencer-se-iam de que Trevo finalmente aprendera a confiar em mim - quando, na verdade, jamais permitia que 
me
aproximasse dele.
    - Vov, vou ficar com este pnei-filhote de co e ensinar-lhe tudo a respeito de como se comportar como um cavalo. Se ele no
aprender at eu ir para a Disneylndia, voc poder devolv-lo - e nunca mais poderei voltar a visitar voc.
    Ento, rindo e feliz, joguei-me no feno e brinquei com meu pnei-filhote de co - o nico pnei-filhote de co no mundo inteiro. Seu corpo grande e quente era 
gostoso em meus braos, gostoso de verdade.
    Ao olhar para minha av, compreendi que John Amos estava errado. As mulheres no eram ms e tortuosas; senti-me feliz por ter
descoberto, afinal, que o tortuoso era John Amos, que Mame e Vov eram as melhores coisas de minha vida - depois de Ma.
    - Vov, voc  mesmo minha av de verdade e meu pai de verdade foi seu segundo marido?
#69
    - Sim,  verdade - disse ela de cabea baixa. - Mas  segredo. Fica apenas entre ns dois. Prometa-me no contar a ningum.
    Deu a impresso de curvar-se, parecendo triste, mas eu estava to feliz por dentro que sentia vontade de explodir. Um pnei-filhote de co e uma av de verdade 
que fora casada com meu verdadeiro pai. Puxa! Afinal eu comeava a ter sorte.
    E recomecei a pronunciar os S. O carinhoso Ma e minha av tinham-me feito aquilo, permitindo-me dizer corretamente as palavras no plural. Tinham conseguido 
em apenas um dia, enquanto Mame e Papai vinham tentando h anos.
     Logo descobri que comer tem muito a ver com amar. Quanto mais comida eu dava a Ma, mais ele me amava. E sem precisar do auxlio de novos feitios, ele era 
meu, s meu. Quando eu chegava de manh, corria para mim, pulando, girando em crculos, sacudindo a cauda, lambendo-me o rosto. Quando o atrelei  nova charrete 
de pnei, ele corcoveou como um cavalo de verdade. E tambm tentou por todas as maneiras livrar-se da sela que lhe coloquei. Rapaz! Valia a pena esperar at que 
Jory recebesse uma carga do tipo de magia que eu era capaz de produzir.
    - Logo farei onze anos - disse eu a Vov certo dia, na esperana de dar-lhe algumas idias.
    - Dez - corrigiu ela. - Voc completar dez anos.
    - Onze! - berrei, insistindo. - Passei todo o ano completando dez anos. Agora, tem que ser onze.
    - Bart, no desperdice a vida com fantasias vs. O tempo passa bastante depressa. Agarre-se  juventude, continue como  agora.
    Continuei a acariciar a cabea de Ma.
    - Vov, conte-me a respeito de seus filhos. 
    Ela pareceu entristecer-se outra vez - no pelo rosto, que eu no conseguia ver, mas pelo modo como curvou os ombros.
    - Um foi para o cu - murmurou com voz rouca. - O outro fugiu.
    - Para onde foi ele? - indaguei, pensando que talvez eu tambm fugisse para l.
    - Para o Sul - replicou ela simplesmente, curvando ainda mais os ombros.
    - Tambm vou para o sul. Detesto aquele lugar!... cheio de velhas sepulturas e de velhas avs. Uma est trancada num hospital
de malucos. A outra  uma velha bruxa de cara malvada. Voc  minha melhor av.
    Pois a essa altura eu j sabia que ela no podia ser a me louca de Papai, mas a me de meu verdadeiro pai. E as mulheres trocam de nome quando trocam de marido, 
por isso... S ento me dei conta de que nem mesmo conhecia o nome ou o sobrenome dela.
#70
     - Corrine Winslow - disse ela, ainda cabisbaixa, quando indaguei.
    Eu podia ver-lhe um pouco do rosto, onde o nariz afastava o vu negro das bochechas. Um pouco de cabelo tambm aparecia. Cabelos
macios, grisalhos, com mechas de louro brilhante. Senti pena dela. Ia sofrer de verdade quando eu fosse embora.
    - Vou  Disneylndia, Vov. Ficarei l uma semana e terei uma festa, com mais presentes de Mame, Papai, Jory e Emma. Depois, voaremos todos juntos para o Leste 
e passaremos duas miserveis semanas, apenas visitando...
    - J sei - interrompeu ela, com um sorriso na voz. - Duas semanas jogadas fora visitando velhas sepulturas e velhas avs. Mas divirta-se, de qualquer forma.
    Debruou-se para beijar-me e abraar-me com fora.
    - Enquanto voc estiver viajando, cuidarei bem de Ma. 
    - NO! - berrei, aterrorizado ante a possibilidade de Ma gostar mais dela que de mim quando eu voltasse. - Deixe minha
mascote em paz. Ele  meu. No d comida a ele e no o faa mais seu que meu.
    Ela concordou em proceder como eu desejava. Em seguida, contei-lhe que daria um jeito de ir  Disneylndia e depois fugir de volta para cuidar de Ma. Ainda 
no sabia ao certo como conseguiria isso - e, pelo jeito de vov, ela tambm no sabia.
    Mais tarde, fui brincar com Ma no celeiro. John Amos postou-se ali perto, alto e esqueltico, enquanto eu rolava no feno.
Tornou a fazer um sermo sobre a maldade das mulheres e como elas induziam os homens ao "pecado".
    - Ningum faz nada de graa - declarou ele. - Nem por um segundo imagine que ela no tem planos maldosos para voc, Bart
Winslow.
    - Por que me chama assim?
    -  o seu nome, no ?
    Sorri, muito orgulhoso por informar que eu tinha o nome mais comprido do mundo.
    - Isso no importa - replicou ele, impaciente. - Preste ateno, menino. Ontem voc me perguntou a respeito do pecado e quis que eu lhe explicasse exatamente 
o que era, mas precisei planejar os termos. Pecado  o que homens e mulheres fazem juntos quando trancam a porta do quarto.
    - O que h de to ruim no pecado?
    Ele fez uma carranca, mostrando os dentes, e tornei a afundar-me no feno, desejando que ele se fosse e me deixasse sozinho com Ma.
    - Pecado  o que as mulheres usam para tornar o homem fraco. Voc precisa encarar certos fatos. Dentro de cada homem h um toque de fraqueza, de falta de tutano, 
e as mulheres sabem como encontr-lo tirando as #71
roupas e utilizando os prazeres terrenos para minarem a fora do homem atravs do desejo. Observe sua me, note como ela sorri para seu pai, como ela pinta o rosto 
e as mos, como usa roupas sumrias, e perceba como os olhos de seu padrasto brilham quando voc vir isso, saiba que eles esto a caminho de pecar.
    Engoli em seco, um tanto magoado por dentro. No queria que meus pais cometessem coisas ruins, que obrigassem Deus a castig-los.
    - Agora, escute novamente as palavras de Malcolm: "Chorei muito durante cinco anos depois que minha me se foi e me deixou
sozinho com meu pai, que me odiava por ter sido gerado por ela. Ele me contou que, durante todo o tempo em que foi casado com
minha me, esta foi infiel, enganando-o com muitos amantes. Ento, ele passou a ser incapaz de me amar. No suportava minha proximidade. Portanto, senti muita solido 
ao crescer trancado naquele casaro, sem algum que gostasse de mim. Repetidamente, meu pai afirmava que jamais conseguiria casar-se outra vez, por minha causa. 
Nenhuma de suas amantes gostava de mim. Mas todas me temiam. Podem apostar que eu no lhes deixava dvidas quanto  minha opinio. Eu sabia que elas queimariam no 
fogo eterno do inferno".
    - O que  uma amante? - perguntei.
    Por vezes, Malcolm me entediava.
    - Uma alma desamparada a caminho do inferno - replicou Amos, cujo olhar parecia queimar-me. - E no pense que pode fazer
uma viagem de frias e deixar Ma aos cuidados de outra pessoa. Quando aceitamos o amor de um animal, esse animal torna-se nossa responsabilidade pelo resto da 
vida. Ns lhe damos comida, gua, trato e exerccio - ou Deus nos far sofrer!
    Estremeci e olhei para o meu pnei-filhote de co, que corria atrs do prprio rabo.
    - Existe fora em seus olhos escuros, Bart. A mesma espcie de fora que Malcolm possua. Deus enviou voc para completar uma
misso inacabada. Malcolm jamais descansar na sepultura at que todos os filhos do Demnio sejam atirados ao fogo do inferno!
    - Fogo do inferno - repeti devidamente.
    - Dois j esto l... ainda faltam trs.
    - Ainda faltam trs.
    - Sementes daninhas se reproduzem e multiplicam incessantemente.
    - Incessantemente.
    - E quando voc cumprir seu dever, Malcolm descansar em paz.
    - Descansarei em paz.
    - O que voc disse?
#72
    Fiquei confuso. s vezes, eu fazia de conta que eu era Malcolm. John Amos sorriu por algum motivo e pareceu satisfeito. Ento, tive permisso para voltar  minha 
casa.
    Jory correu para interrogar-me.
    - Onde esteve? O que foi fazer l? Vi voc conversando com o velho mordomo. O que lhe disse ele?
    Jory fez-me sentir como um rato diante de um leo. Ento, lembrei-me do dirio de Malcolm e de como ele enfrentava situaes
semelhantes. Afivelei no rosto uma mscara de frieza.
    - John Amos e eu temos segredos que no so da sua conta.
    Jory esbugalhou os olhos. Eu me afastei calmamente.
    Sob uma enorme rvore frondosa, Mame empurrava Cindy num balano para bebs. Garotinhas novas tinham que ser amarradas
para no carem.
    - Bart -chamou Mame. - Onde esteve?
    - Em lugar nenhum! - repliquei, malcriado.
    - Bart, no gosto desse tipo de resposta.
    Parei e resolvi agir como Malcolm, obrigando-a a encolher-se ante meu olhar malvado. Ao invs disso, para minha surpresa, constatei que ela usava uma blusa sumria, 
tipo suti, que no lhe chegava  cintura e deixava  mostra o umbigo acima do short. Mostrava a pele nua! Pecado tinha relao com nudez. Na Bblia, o Senhor ordenara 
a Ado e Eva que vestissem roupas e cobrissem a carne pecaminosa. Seria minha me to pecadora como aquela malvada Corrine que fugira com o "amante"?
    - Bart, no me olhe como se no soubesse quem eu sou.
     Veio-me  mente uma das frases da Bblia que John Amos estava sempre citando. Pouco a pouco, eu ia aprendendo o que Deus esperava das pessoas que criara.
    - Previna-se, mame. O Senhor a ver quando eu no a vejo. E castigar.
    Mame quase deu um salto. Ento, engoliu em seco e perguntou com voz engasgada:
    - O que voc disse?
    Vejam s como treme, pensei comigo mesmo. Virei a cabea para fitar raivosamente todas as esttuas nuas naquele amaldioado jardim do pecado. Gente maldosa e 
despida no deixava Malcolm descansar em paz na sua cova.
    Mas eu a amava; era minha me; s vezes, entrava para dar-me um beijo de boa-noite e ficava para ouvir minhas oraes. Antes de
Cindy chegar, ela era melhor e passava mais tempo comigo. Alm disso, no parecia estar apaixonada por um "amante".
    Fiquei sem saber o que fazer.
    - Estou com sono, mame - declarei.
#73
    Afastei-me dali, sentindo-me insatisfeito comigo mesmo e com o resto do mundo. E se o que Malcolm escrevera e John Amos citava fosse verdade? Seria ela maldosa 
e pecadora, induzindo os homens a se comportarem como animais? Ma no era mau nem pecaminoso. Nem mesmo Trevo, apesar de no gostar de mim.
    No interior do quarto de Jory, parei diante do seu aqurio de cento e vinte litros. O ar produzia uma corrente de pequenas bolhas que estouravam na superfcie 
como o champanhe que mame me deixara provar certa vez.
    Peixes bonitos morriam no meu aqurio. Os peixes no aqurio de Jory nunca morriam. Meu aqurio vazio continha apenas gua e um navio pirata de brinquedo que 
derramava jias de imitao numa imitao do fundo do oceano. No aqurio de Jory cresciam algas
que entravam e saam de um pequeno castelo. Os peixes de Jory nadavam entre recifes de coral.
    Jory fazia tudo melhor que eu. No me agradava ser Bart. Bart precisava permanecer em casa e esquecer a Disneylndia, agora que
tinha responsabilidades.
    Um animal de estimao podia constituir uma carga pesada, muito pesada!
    Atirei-me na cama e olhei para o teto. Malcolm j no necessitava mais de sua fora e poder, nem do crebro esperto que tambm era sabido. Estava morto e seus 
talentos de nada serviam. Ningum conseguiu obrigar Malcolm a fazer o que no queria, depois que ele cresceu. Eu no queria mais ser um menino. Desejava ser um homem, 
como Malcolm, o poderoso, o mago das finanas.
     Obrigaria as pessoas a pularem quando eu falasse. A tremerem quando eu olhasse. A se encolherem quando eu me movesse. O dia
estava chegando. Eu sentia.

SOMBRAS

    - Jory - disse Mame, quando pegamos nossas maletas de mo e as levamos para o carro. - No consigo entender o que est
acontecendo com Bart neste vero. No  o mesmo menino. O que acha voc que ele faz fora de casa, sozinho, o tempo todo?
    Senti-me pouco  vontade. Desejava proteger Bart e deix-lo ter como amiga a velha senhora da manso vizinha; no podia
revelar a Mame que a mulher se dizia av de Bart. 
    - No se preocupe com Bart, mame - tranqilizei. - Continue a divertir-se com Cindy.  uma garotinha linda, como voc
deve ter sido.
#74
    Ela sorriu e me beijou o rosto.
    - Se meus olhos no me enganam, existe uma outra garotinha linda que voc tambm admira.
    Senti o rubor aquecer-me o rosto. No conseguia despregar os olhos de Melodie Richarme. Era muito linda, com cabelos louros um pouco mais escuros que os de minha 
me, mas seus olhos azuis eram igualmente suaves e brilhantes. Refleti que jamais amaria uma pequena que no tivesse olhos azuis. Naquele instante, Melodie apareceu,
correndo para o carro do pai, espantando-me com o modo pelo qual j se tornava uma mulher. Puxa! Parecia milagrosa a maneira pela qual garotinhas de peitos chatos 
surgiam, da noite para o dia, com seios arredondados, cinturas finas e quadris cheios; de repente, ficavam dez vezes mais interessantes.
    Mal chegamos em casa, Mame mandou-me procurar Bart. 
     - Voc diz que ele est no quintal da vizinha. No quero que vocs incomodem uma velha reclusa, embora eu gostasse muito que
ela deixasse de subir na escada para me observar por cima do muro.
    Trepando, pulando, chamando, procurei at encontrar Bart no velho celeiro que outrora fora o que costumavam chamar de "casa das carruagens". Agora, havia baias 
vazias, onde antes ficavam os cavalos, e Bart estava numa delas, usando um ancinho para puxar o feno poeirento. Arregalei os olhos, no acreditando no que vi. Com
Bart, estava um filhote de So Bernardo. O co era quase do tamanho de meu irmo. Era bastante fcil perceber que se tratava de um
filhote, pois era brincalho, correndo, pulando e emitindo os sons caractersticos dos ces de pouca idade.
    Bart largou o ancinho e ralhou com o cachorro:
    - Pare de pular assim, Ma! Os pneis s pulam obstculos... Agora, trate de comer esse feno, ou no lhe darei feno limpo amanh.
    - Bart - chamei baixinho, encostando-me na parede do celeiro e sorrindo ao ver que ele pulou de susto. - Ces no comem feno.
    O rosto de meu irmo ficou muito vermelho.
    - V embora! Saia daqui! No tem o direito de entrar!
    - Nem voc.
    - Trate de sair daqui - soluou Bart, jogando longe o ancinho e abraando o enorme filhote de co. - Este cachorro  meu; devia
ser um pnei - portanto, fao-o ao mesmo tempo de co e de pnei. No ria nem pense que sou maluco.
    - No penso que seja maluco - repliquei, com um n na garganta por v-lo to perturbado.
    Era realmente uma pena que eu tivesse mais afinidade que ele com animais. Os bichos pareciam adivinhar que Bart lhes pisaria no rabo ou tropearia neles. Na 
verdade, nem mesmo eu me sentia  vontade deitado no cho quando Bart estava por perto.
#75
    - Quem lhe deu o cachorro?
    - Minha av - respondeu Bart, com os olhos cheios de orgulho. - Ela me ama, Jory; na verdade, ela me ama mais que mame. E me ama mais que sua velha Madame Marisha 
ama voc!
    Eis o problema com Bart: mal eu me sentia chegado a ele, esbofeteava-me o rosto, deixando-me arrependido de permitir-me ter alguma preocupao com ele.
    No acariciei a cabea do belo filhote de So Bernardo, embora ele me fizesse festas. Deixei Bart agir a seu modo; talvez desta feita ele arranjasse realmente 
um amigo.
    Bart sorriu para mim, feliz, quando tomamos o caminho de casa.
    - No est zangado comigo? - perguntou.
    Claro que eu no estava.
    - No me delatar, Jory?  importante no contar  Mame ou Papai.
    No me agradava guardar segredos de meus pais, mas Bart foi insistente; alm disso, que mal havia em uma senhora bondosa dar
a Bart alguns presentes e um cachorro? Ela o fazia sentir-se amado e feliz.
    Na cozinha, Emma enfiava colheradas de cereais na boca aberta de Cindy. Mame vestira Cindy com um novo macaco azul-claro e uma blusa branca bordada com coelhinhos 
cor-de-rosa. Mame fizera pessoalmente o trabalho de bordado. Os cabelos de Cindy
tinham sido escovados at brilharem como ouro com tons prateados; uma fita de cetim azul atava o rabo-de-cavalo atrs da cabea. Estava to limpa e fresca que senti 
vontade de abra-la, mas limitei-me a sorrir. Tinha juzo bastante para no fazer demonstraes de carinho quando Bart estava por perto e sentia cimes. Por estranho 
que possa parecer, Cindy ficava muito mais fascinada por Bart que por mim. Talvez por ele no ser to maior que ela.
    Meu irmo deixou-se cair numa cadeira da cozinha, que quase tombou para trs sob o impacto. Emma olhou para ele, carrancuda.
    - V lavar as mos e o rosto, Bart Winslow, se pretende comer  minha mesa.
    - A mesa no  sua - resmungou ele ao encaminhar-se para o banheiro, passando as mos sujas nas paredes e deixando compridas
manchas escuras.
    - Bart! - ralhou Emma, rspida. - Tire essas mos imundas das paredes!
    - As paredes no so dela - resmungou Bart.
    Levou uma eternidade para lavar as mos e, quando voltou, tinha limpado apenas as palmas. Olhou com repugnncia para a sopa e os sanduches que Emma preparara.
#76
    - Coma, Bart, ou acabar sumindo - disse Emma. 
    Eu j estava no segundo sanduche e no segundo prato de sopa de legumes feita em casa, preparando-me para atacar a sobremesa,
enquanto Bart ainda mordiscava metade do seu primeiro sanduche, sem ter tocado no prato de sopa.
    - O que acham de sua nova irmzinha? - perguntou Emma, limpando os lbios sujos de Cindy e retirando o babador manchado de comida. - No  uma boneca viva?
    - Sim,  mesmo engraadinha - concordei.
    - Cindy no  nossa irm! - inflamou-se Bart. - No passa de um beb porcalho que ningum quis, exceto nossa me!
    - Bartholomew Winslow... jamais permita que eu o escute falar assim novamente! - replicou Emma, lanando a Bart um prolongado
olhar de reprovao. - Cindy  uma menina linda, to parecida com sua me que bem poderia ser filha dela.
    Bart continuou a fazer carranca para Cindy, para mim, para Emma e at mesmo para a parede.
    - Detesto cabelo louro e lbios vermelhos que parecem molhados o tempo todo - resmungou ele baixinho, antes de botar a
lngua para Cindy, que riu e bateu palmas. - Se Mame no perdesse tanto tempo em mim-la, enrolando-lhe o cabelo e comprando-lhe
roupas novas, ela seria feia.
    - Cindy nunca ser feia - negou Emma, olhando para a menininha com bvia admirao. 
    Ento, debruou-se para beijar-lhe o rostinho lindo.
     O beijo provocou outra das piores carrancas de Bart. 
     Fiquei sentado, tenso, temeroso. Toda manh, eu acordava sabendo que seria obrigado a encarar um irmo que se tornava cada vez mais esquisito. E eu o amava; 
eu amava meus pais e macacos me mordam se no estava comeando a amar Cindy, tambm. De
algum modo, eu precisava proteger todos eles - contra qu, eu no sabia, nem mesmo era capaz de imaginar.

CRIANA TROCADA

    Ao diabo com Jory e Emma, pensei ao atravessar o quente deserto do Arizona. Ainda bem que eu tinha Ma para me amar, assim como minha av - do contrrio, estaria 
numa situao triste. L estava a minha dama de negro, com os braos bem abertos para
receber-me, e fui muito mais beijado e abraado do que Cindy jamais seria.
#77
    Ela me serviu uma tigela de sopa. Deliciosa, com queijo derretido por cima.
    - Por que no posso contar a meus pais o quanto gosto de voc e o quanto voc me ama? Seria timo.
    No lhe revelei, porm, que eu pensava que ela no era realmente minha verdadeira av e s dizia isso para me agradar. De certo modo, isso me fazia am-la mais, 
pois os parentes devem amar-se uns aos outros. Os desconhecidos, no.
     Antes de responder minha indagao, ela colocou bem no centro de uma das mesas um grande caminho basculante. Era estranho que
parecesse to triste, at mesmo amedrontada, quando um segundo antes dava a impresso de estar bastante feliz.
    - Hoje em dia, seus pais me detestam, Bart - murmurou com voz sumida. - Por favor, no lhes diga nada a meu respeito. Mantenha-me como o seu segredo.
   Arregalei os olhos.
   - Voc j os conheceu?
   - Sim, h muito, muito tempo, quando ainda eram muito jovens.
   Puxa:
   - O que voc fez para eles a odiarem?
     Todo mundo, ou quase todo mundo, odiava-me, de modo que no me surpreendeu que algum fosse capaz de odi-la.
    Ela me segurou a mo.
    - Bart, s vezes at mesmo os adultos cometem erros. Eu cometi um erro terrvel, pelo qual venho pagando muito caro. Todas as
noites, rezo a Deus que me perdoe; rezo para que meus filhos me perdoem. No encontro paz quando me olho no espelho; assim, oculto meu rosto de mim mesma, dos outros, 
e fao questo de sentar-me em cadeiras de balano incmodas, de modo a jamais esquecer, por
um nico segundo, todo o mal que causei queles a quem eu mais amava.
    - Para onde foram seus filhos?
    - Voc j esqueceu? - soluou ela, com lgrimas nos olhos. - Fugiram de mim. Isso me di tanto, Bart! Nunca fuja de seus pais.
    Ora, eu no pretendia fugir deles. O mundo l fora era grande demais. Ameaador demais. Seguro - eu precisava permanecer onde estivesse seguro. Corri para abra-la 
e depois fui brincar com o novo caminho. Foi ento que John Amos entrou mancando na sala, os olhos lacrimosos cheios de fria.
    - Madame! No se desenvolve a fora dos jovens satisfazendo-lhes todos os caprichos. A senhora j deveria ter aprendido isso.
    - John - replicou ela, altiva -, jamais torne a entrar nesta sala sem bater antes. Mantenha-se em seu lugar.
#78
    Dura. Minha av era durona. Sorri para John Amos, que recuou resmungando baixinho a respeito de ela no lhe dar lugar nenhum,
muito menos o que ele merecia. Esqueci-a no instante em que ele saiu da sala, deixando-me dominar pelo encanto de meu novo caminho
basculante e tentando descobrir seu  mecanismo de funcionamento. No demoraria a descobrir - e talvez minha curiosidade equivalesse  maldade, pois tudo que me davam 
acabava quebrado dentro de uma hora.
    Minha av suspirou, parecendo infeliz, quando meu caminho se desmontou em pedaos.

    Os longos dias de vero passavam-se lentamente, com John Amos ensinando-me um bocado de coisas importantes a respeito de ser poderoso e temido como Malcolm, 
que tudo sabia sobre como ser ladino e esperto. A seu prprio modo, John Amos era fascinante, com seu esquisito andar arrastado, pernas finas mais nodosas que as 
minhas, respirao sibilante, fala assoviada, bigodinho ralo e uma calva onde s existia um fio de cabelo, branco. Algum dia, eu arrancaria aquele fio branco. Por 
que minha av no gostava dele? Era a patroa, poderia despedi-lo, mas no o fazia. Existia algo duro e mau entre eles.
     Eu era feliz vivendo entre eles, abenoado por um lado por minha av, com todos os seus belos presentes, abraos e beijos, e por outro lado por John Amos, que 
me ensinava como ser um homem poderoso, capaz de fazer as mulheres cumprirem suas ordens. E agora, que eu tinha algum que me amava por mim mesmo, no importando 
o quanto eu fosse malvado ou desajeitado, comecei a sentir aquele tipo especial de magia compartilhado por Mame e Jory. Tive a impresso de que eu, tambm, conseguia 
ouvir a msica das cores do poente, de que o limoeiro produzia o som de leves acordes de
harpa. Eu tinha Ma, meu pnei-filhote de co. E, o melhor de tudo, a Disneylndia estava  minha espera e o dia de meu aniversrio se aproximava.
    Agora, que me tornava brilhante como Malcolm, tentava imaginar uma maneira de conservar o amor de Ma enquanto  permanecesse afastado por trs semanas. Aquilo 
me acordava durante a noite.
Preocupava-me o dia inteiro. Quem  alimentaria Ma e me roubaria seu amor enquanto eu estivesse ausente? Quem?
     Voltei ao muro e examinei um caroo de pssego que ainda no lanara razes. Devia estar crescendo e no estava. Em seguida,
verifiquei minhas sementes de ervilha-de-cheiro. As idiotas continuavam como antes. No produziam nada.
     Maldito. Eu era amaldioado. Olhei raivosamente para a parte do jardim cuidada por Jory. Todas as suas plantas estavam em pleno florescimento. No era justo 
que nem mesmo as plantas crescessem para mim.
#79
Engatinhei at o local onde estavam plantados os gernios de Jory. Meus joelhos esmagaram petnias e portulacceas. O que
faria Malcolm, se fosse eu? Arrancaria todas as flores de Jory, cavaria buracos com os dedos em seu prprio jardim e ali plantaria os brotos?
   Um por um, enchi meus buracos com os gernios de Jory. Os talos se recusavam a ficar verticais, mas arrumei-os de modo a se
apoiarem uns nos outros - e agora meu jardim tambm tinha plantas em flor. Esperteza. Tortuoso, furtivo - mas tambm esperto.
    Olhei para meus joelhos sujos de terra e vi que rasgara as calas novas na casa de cachorro que comeara a construir para Trevo. Era minha maneira de desculpar-me 
por tropear nele com tanta freqncia. No momento, Trevo estava l em cima, na "varanda", observando-me com ateno, com medo de dormir enquanto eu estivesse por 
perto. Eu no precisava dele. Precisara antes, mas agora tinha um co de estimao muito melhor.
    Os insetos mordiam-me o rosto. Esfreguei os olhos sem me importar se minhas mos estavam cobertas de graxa por mexerem na
oficina que papai tinha na garagem. Emma no gostaria de ver que meu novo bluso estava todo manchado de graxa e at mesmo mame
notaria o rasgo da gola at a cintura. Mordi os lbios. 
    Sbados eram dias de diverso e eu no estava divertido. Ao contrrio de Jory, nada para fazer. Eu no nascera para danar; apenas para me sujar e arranhar. 
Mame tinha Cindy. Papai tinha os pacientes. Emma tinha a cozinha e a limpeza da casa. Ningum se
incomodava se eu estava entediado. Lancei a Trevo um olhar cheio de dio.
    - Tenho um co melhor que voc! - berrei.
    Ele recuou para perto da casa e se escondeu sob uma cadeira.
    -  Voc no sabe como salvar pessoas perdidas na neve! Tambm no sabe usar uma sela vermelha, ou comer feno!
    Todo dia eu dava a Ma um pouco mais de feno, misturado  rao para ces, de modo que ele se acostumasse a gostar mais de
feno que de carne.
    Trevo parecia envergonhado. Esgueirou-se ainda mais para baixo da cadeira e lanou-me outro daqueles seus olhares tristonhos, que
me faziam mal aos nervos. Ma nunca fazia aquilo.
    Suspirei, levantei-me, esfreguei os joelhos e as mos. Hora de visitar Ma. A caminho, tive a ateno distrada pelo muro branco, que precisava de mais textura. 
Pegando uma pedra, comecei a bater no muro para tirar mais reboco branco. Puxa! E se o muro continuasse para sempre? Poderia at mesmo acabar na China, contendo 
as hordas de mongis. O que seriam os mongis? Macacos? Sim, a palavra soava a macaco - uma espcie de macacos malvados e enormes, que devoravam pessoas que se encontrassem 
nos "paroxismos" de alguma coisa. Eu gostaria de ser enorme #80
como King Kong, para poder pisar nas coisas que detestava.
    Primeiro, pisaria nos professores, depois nas escolas - e tambm evitaria esmagar as igrejas. Malcolm respeitava Deus e eu no queria que Deus se zangasse comigo. 
Eu pegaria estrelas no cu e as enfiaria nos dedos, como anis de brilhantes iguais aos de minha av. Usaria a lua como boina. Deixaria o sol em paz, pois ele era 
capaz de me queimar a mo... todavia, se pegasse o edifcio Empire State, poderia us-lo como porrete e enxotar o sol para fora de nosso
universo! Ento, tudo ficaria negro como breu. No existiria mais dia e a noite reinaria para sempre. O negro era como a cegueira, ou a morte.
    - Bart - chamou uma voz suave, sobressaltando-me.
    - V embora! - ordenei.
    Estava-me divertindo sozinho. E o que fazia ela naquela escada, outra vez? Espionando-me? Tornei a sentar-me no cho, cotucando o solo com um graveto.
    - Bart - chamou ela novamente. - Ma est esperando que voc lhe d de comer e precisa de gua fresca. Voc prometeu ser
um dono bondoso. Uma vez que fez um animal am-lo e confiar em voc, tem obrigaes para com ele.
    Hoje, os olhos dela no estavam cobertos; o vu escondia o rosto apenas do nariz para baixo.
    - Quero botas de cowboy, uma nova sela genuna de cowboy, feita de couro verdadeiro e no de imitao, um chapu, uma jaqueta de couro de veado, perneiras de 
couro, esporas, e ervilhas para cozinhar na fogueira do acampamento.
    - O que  isso que voc acaba de desenterrar?
    Ela estendeu a cabea, para ver melhor. Era engraada: uma cabea acima do muro, sem corpo.
     Puxa!... Veja o que estava enterrado no solo: ossos. O que fora feito da pele? E das macias orelhas brancas?
    Comecei a tremer, com muito medo ao tentar explicar: 
    - Tigre. Eu estava aqui na outra noite, indefeso, usando apenas meu pijama, quando surgiu do escuro um tigre devorador de gente, com olhos verdes e maus. Rosnou 
e depois saltou sobre mim. Queria devorar-me. Mas peguei minha espingarda, bem em cima da
hora, e dei-lhe um tiro no olho!
    Silncio. O silncio indicava que ela no acreditava em mim. Quando falou, sua voz tinha um tom penalizado:
    - Bart, isso no  um esqueleto de tigre. Estou vendo um pedao do couro. Era a minha gatinha branca? A gatinha perdida que
acolhi e tratei? Bart, por que matou minha gatinha?
#81
    - NOOO! - berrei. - Eu no mataria um gatinho! Jamais! Gosto de gatinhos. Isto era um tigre, no muito grande. Os ossos velhos esto aqui h muitos anos, desde 
antes de eu nascer. 
    No obstante, pareciam realmente ossos de um gatinho. Esfreguei os olhos, para que ela no visse as lgrimas.
    Malcolm no choraria assim. Seria duro. Eu no sabia o que fazer. O velho John Amos, no outro lado do muro, vivia dizendo que
eu deveria ser como Malcolm e odiar todas as mulheres. Decidi que era melhor comportar-me como Malcolm do que como eu, que no
prestava para nada. No adiantaria tentar ser King Kong, Tarz ou mesmo o Super-Homem; ser Malcolm era muito melhor, pois eu tinha o seu livro de instrues a respeito 
de como imit-lo corretamente.
    - Bart, est ficando muito tarde. Ma est faminto e espera por voc.
    Cansado, to cansado.
    - J vou - respondi em tom fatigado.
    Puxa, fingir-me de adulto era muito cansativo. Era ruim agir como um velho; melhor ser novamente menino. Velho significava no ter folga no trabalho e tentar 
ganhar dinheiro sem divertir-me. Levei um tempo para chegar l, agora que obrigava minhas pernas a andarem devagar. Nvoa por todo lado. O vero no era to
quente para os velhos. Mame. Mame. onde est voc? Por que no vem quando preciso de voc? Por que no responde quando chamo?
No me ama mais. Mame? Mame. por que no me ajuda?
    Prossegui tropeando, tentando pensar. Ento, encontrei a resposta: ningum conseguia gostar de mim, pois meu lugar no era ali, nem l. Eu no tinha lugar nenhum.

#83
SEGUNDA PARTE

#85
ESTRIAS DE MALDADE

   Devorei meu toucinho, ovos mexidos com coalhada e cebolinha, e uma terceira fatia de torrada, enquanto Bart continuava a mordiscar como se no tivesse dentes. 
Sua torrada esfriou -  espera de que Bart bebericasse o suco de laranja como se estivesse tomando veneno. Um velho moribundo em seu leito de morte talvez tivesse 
mais apetite que ele.
   Bart lanou-me um olhar hostil antes de fixar os olhos em mame. Fiquei abalado. Sabia que ele amava mame - como podia olh-la daquela maneira?
   Algo muito estranho se passava na cabea de Bart. Onde estava o meu irmo tmido e introvertido? Gradativamente, transformava-se num menino agressivo, desconfiado, 
cruel. Agora, fitava Papai como se este houvesse cometido algum erro grave - mas era mame o alvo de seus olhares mais fulminantes.
     No sabia ele que possua a melhor me do mundo? Tive mpetos de gritar isso, de obrig-lo a voltar a ser como antes, resmungando sozinho ao tropear em busca 
de caa grossa, travando batalhas,
conduzindo manadas de gado. O que fora feito de todo o humor e admirao que ele tinha por mame? To logo surgiu uma oportunidade,
encurralei Bart contra o muro do jardim.
    - O que h de errado com voc, Bart? Por que olha to feio para mame?
    - No gosto mais dela.
    Abaixou-se, abriu os braos na horizontal e transformou-se num avio humano. Isso era normal - para Bart.
    - Abram caminho! - ordenou. - Pista livre para o jato que decola rumo a lugares distantes!... temporada de caa aos cangurus
na Austrlia!
    - Bart Sheffield, por que est sempre desejando matar alguma coisa?
    As asas baixaram, o motor do avio entrou em pane; Bart fitou-me, confuso. O bom menino que ele fora no incio do vero voltou a surgir em seus olhos escuros.
#86
   - No vou matar cangurus de verdade. Apenas capturar um dos menores e guard-lo no bolso para esperar que cresa.
     Bobo. Bobo!
   - Em primeiro lugar, voc no tem uma bolsa com uma teta para o bichinho mamar.
    Sentei-o com fora num banco.
    - Bart, j  tempo de termos uma conversa de homem para homem. O que o perturba, rapaz?
    - Numa grande casa iluminada, situada no topo de um morro muito alto, enquanto a noite prosseguia e a neve continuava a cair,
as chamas vermelhas e amarelas se elevavam cada vez mais! Os flocos de neve ficavam rosados. E dentro daquela enorme casa estava uma senhora muito velha, que no 
conseguia falar nem andar. E meu verdadeiro pai, que era advogado, correu para salv-la. No conseguiu!... E morreu queimado!... Queimado!... Queimado!
    Fantstico. Louco. Tive pena dele.
    - Bart - comecei cautelosamente -, voc sabe que no foi assim que papai Paul morreu.
    Por que coloquei as coisas naqueles termos? Bart nascera apenas alguns anos antes da morte de papai Paul. Quantos anos? Eu quase me podia lembrar dos pensamentos 
que tive naquela poca. Poderia perguntar a Mame, mas, de algum modo, no desejava perturb-la ainda mais. Portanto, conduzi Bart de volta  nossa casa.
    - Bart, seu verdadeiro pai morreu sentado na varanda da frente, enquanto lia o jornal. No morreu num incndio. Tinha uma
doena cardaca que resultou numa trombose das coronrias. Papai nos contou tudo isso, lembra-se? 
    Vi os olhos castanhos de Bart se abrirem muito, as pupilas dilatadas, antes que ele explodisse num terrvel ataque de fria:
    - No me refiro quele pai! Falo de meu verdadeiro pai! Um pai advogado, alto e forte, que nunca sofreu do corao!
    - Bart, quem lhe contou essa mentira?
    - Queimado! berrou ele, girando como um homem cego pela fumaa, tentando encontrar a sada. - John Amos me contou como foi. O mundo inteiro se incendiou, numa 
noite de Natal, quando a rvore pegou fogo. As pessoas gritavam e pisavam nas que caam! E a maior, mais grandiosa de todas as manses atraiu meu pai de verdade 
para uma cilada e ele morreu, morreu, morreu!
    Rapaz, eu j escutara o bastante. Ia direto para dentro de casa, contar a meus pais.
    - Oua uma coisa, Bart: a menos que voc pare de ir ao vizinho escutar mentiras e estrias malucas, contarei tudo a mame e papai - sobre voc e sobre o que 
acontece l.
    Ele fechara os olhos com fora, como se tentasse ver uma cena gravada a fogo em sua mente. Parecia olhar para dentro de si
#87
mesmo enquanto descrevia tudo para mim com maiores detalhes. De repente, arregalou os olhos, numa expresso selvagem, louca.
    - Cuide de seus prprios assuntos, Jory Marquet, se no quiser levar na cabea!
    Abaixou-se para pegar um taco de beisebol e desferiu um violento golpe, que certamente me teria estourado os miolos se eu no me esquivasse a tempo.
    - Se delatar minha av e eu, vou mat-lo quando estiver dormindo!
    Fez a declarao em voz alta, fria e seca, desafiando-me com o olhar.
    Engolindo em seco, senti o medo arrepiar-me os cabelos da nuca. Sentir medo dele? No. Era impossvel. Enquanto eu o observava, ele perdeu repentinamente o ar 
de bravata e comeou a respirar com
dificuldade, levando a mo ao corao. Sorri, conhecendo-lhe o segredo: era sua maneira de evitar um confronto real.
    - Muito bem, Bart - repliquei com frieza. - Agora, dar-lhe-ei o que merece. Vou direto ao vizinho, falar com aqueles velhos que lhe enchem a cabea de lixo.
    Sua representao de velho doente foi abandonada com rapidez. Seus lbios se entreabriram de ansiedade. Olhou para mim com ar de splica, mas girei nos calcanhares 
e me afastei, jamais imaginando que ele fizesse alguma coisa. Bam! Ca de cara no cho, com um peso nas costas. Bart me atacara por trs. Antes que tivesse tempo 
de
cumpriment-lo por ser rpido e certeiro, para variar, ele comeou a me esmurrar o rosto.
    - No ficar to bonito quando eu terminar!
    Afastei-o da melhor maneira possvel, antes de perceber que ele desferia os golpes com os olhos cerrados, esmurrando cegamente,
como uma criana, e soluando ao faz-lo. E juro que, por mais que desejasse, fui incapaz de bater em meu irmo menor.
    - Ficou com medo, hem? - rosnou ele, encrespando o lbio superior, parecendo muito satisfeito consigo mesmo. - Creio que
agora j sabe quem manda aqui, no ? Voc no tem nem uma parcela da coragem que pensei que tivesse, no  mesmo?
    Empurrei-o com fora e ele caiu de costas, mas macacos me mordam se fui capaz de brigar com um beb como ele, que s tinha
foras quando estava furioso.
    - Voc precisa de uma boa surra, Bart Sheffield, e talvez caiba a mim aplic-la. A prxima vez que resolver agir assim comigo,  melhor pensar duas vezes - ou 
talvez voc acabe sem coragem.
    - Voc no  meu irmo - soluou ele, perdendo toda a agressividade. - apenas meio-irmo e isso  o mesmo que nada.
    Engasgou-se com as prprias emoes e esfregou os punhos nos olhos, chorando mais alto.
#88
    - Voc ver! Aquela velha est enfiando maluquices na sua cabea e isso  a coisa de que voc menos necessita. Ela o est voltando contra sua prpria famlia 
- e vou l dizer exatamente isso a ela!
    - No se atreva! - gritou ele, sem lgrimas, voltando a ficar furioso. - Farei algo terrvel! Farei! juro que farei! Se voc for l, vai se arrepender!
    Sorri ironicamente.
    - Voc e mais quem me obrigaro a arrepender-me?
    - Eu sei o que voc quer - replicou ele, voltando a ser apenas uma criana. - Quer meu pnei-filhote de co. Mas ele no gostar de voc - no! Voc quer que 
minha av goste mais de voc que de mim, mas ela no gostar! Voc quer tirar tudo de mim -
mas no pode!
    Senti pena dele, mas j negligenciara bastante meu dever.
    - Ora, v tomar sua mamadeira! - retruquei.
    E, com isso, afastei-me. Bart correu gritando atrs de mim, berrando que me obrigaria a arrepender-me de magoar algum que no podia revidar.
    - E voc vai chorar, Jory! - preveniu ele. - Voc vai chorar mais do que j chorou em toda a sua vida!
    A estrada estava malhada de sol e sombras. Logo Bart e sua fria ficaram muito para trs de mim. O sol incidia com fora sobre minha cabea e ouvi s minhas 
costas o rudo de pequenas patas correndo. Voltei-me para ver que Trevo tentava alcanar-me. Esperando-o, ajoelhei-me para segur-lo quando ele me pulou nos braos, 
lambendo-me o rosto com a mesma devotada adorao que me dedicava desde que eu tinha trs anos de idade.
     Trs anos de idade. Lembrava-me de onde mame e eu morvamos naquela poca, nas montanhas Blue Ridge da Virgnia, num pequeno chal aninhado contra as encostas. 
Lembrei-me de um homem alto, de olhos escuros, que me dera no s Trevo como tambm um gato chamado Calico e um papagaio que batizamos de Boto de Ouro. Calico saiu 
uma noite e nunca mais voltou. E Boto de Ouro morrera quando eu tinha sete anos; "Voc gostaria de ser meu filho?" A voz do homem me soou na memria. Aquele homem, 
que se chamava... como era mesmo o seu nome? Bart? Bart Winslow? Oh, meu Deus, estaria eu apenas comeando a compreender algo que me escapara  lembrana at agora? 
Seria meu meio-irmo Bart filho daquele homem e no de Papai Paul? Por que motivo mame batizaria o beb com o nome do homem que no era seu marido?
    - Agora, voc tem que voltar para casa, Trevo - disse eu e ele pareceu entender. - J tem onze anos e no deve andar por a
no sol de meio-dia. Volte para seu lugar fresco predileto e espere por mim, est bem?
#89
     Sacudindo a cauda, ele se virou, obediente, e partiu de volta para casa, olhando freqentemente para trs, a fim de verificar se eu me virava para poder vir 
novamente em meu encalo. Esperei at que ele sumiu de vista na curva da estrada. Ento, tomei outra vez o caminho da enorme velha manso. O passado distante me 
ecoava na cabea como tambores abafados, recordando-me de eventos que eu havia esquecido. O bal na vspera de Natal e o homem bonito que me dera meu primeiro trem 
eltrico. Fechei a porta s lembranas, 
desejoso de manter minha me sagrada, meu amor por Papai Paul intacto e meu respeito por Chris tambm intocvel. No, no me
permitiria recordar demais.
    Amantes surgiam e sumiam na vida de todo mundo, disse comigo mesmo, se os bals fossem estrias verdadeiras apenas um pouco
exageradas. E, como faria meu pai, caminhei ousadamente at o gradil de ferro e exigi, pelo interfone, que me deixassem entrar. Os
portes se abriram silenciosamente, como grades de uma priso, convidando-me a avanar. Quase corri pela curva alameda de acesso at parar diante da grande porta 
dupla da manso, onde toquei a
campainha e, depois, bati com fora a aldrava de bronze.
     Esperei, impaciente, que aquele velho e trpego mordomo mexeriqueiro aparecesse. Os portes de ferro se haviam fechado s minhas costas. Tive a impresso de 
estar entrando numa armadilha. Sim, exatamente como Bart e sua imaginao, que tanto o divertia, eu usara meu meio ambiente de bal para escrever aquele roteiro. 
Sentia-me como um prncipe miservel e indesejvel, que no possua a senha mgica. S Bart a conhecia.
     Confuso e arrependimento mesclavam-se para minar minha determinao. A manso no parecia o castelo de alguma rainha malvada
dos contos de fada, mas apenas a enorme residncia antiquada de uma velha solitria que precisava tanto de Bart quanto ele
necessitava dela. Mas no podia ser sua av, simplesmente no podia. Aquela av estava muito longe, na Virgnia, trancafiada por ter cometido algo terrvel n um 
passado longnquo.
    O silncio me envolvia, sufocando-me, fazendo que me sentisse velho. Minha casa era cheia de rudos da cozinha, msica, os latidos de Trevo, o choro de Cindy, 
os berros de Bart, as ordens de Emma. Nem mesmo um pio emanava da manso. Troquei nervosamente o peso do corpo de um p para outro, pensando que talvez fosse melhor 
desistir da idia de confrontar-me com a velha. Ento, avistei de relance uma sombra escura por detrs de uma das janelas guarnecidas de finas cortinas. Estremeci. 
Quase bati em retirada. Mas, naquele instante, a porta se entreabriu o bastante para permitir que o mordomo colocasse um olho lacrimoso na fresta.
    - Pode entrar, mas no se demore - disse ele em tom nada hospitaleiro. - A senhora  frgil e se cansa com facilidade.
#90
    Perguntei o nome dela, cansado de referir-me e pensar nela como "velha" ou "mulher de negro". Minha pergunta foi ignorada. O mordomo me intrigava, com aquele 
andar arrastado, uma leve sugesto de manqueira, a bengala de bano que batia no assoalho duro e polido, a calva rosada e brilhante. Seu fino bigode branco caa 
em
compridos fios em cada lado dos lbios severos. Contudo, por mais velho que fosse, por mais frgil que parecesse, ainda conseguia ter um ar sinistro, assustador 
.
    Fez sinal para que eu prosseguisse, mas hesitei. Ento, ele sorriu cinicamente, exibindo dentes grandes demais, regulares demais, amarelos demais. Empertiguei 
os ombros e o segui corajosamente, pensando que conseguiria colocar as coisas nos devidos lugares e nossas vidas voltariam a ser to felizes quanto eram antes que 
eles viessem
Ocupar a manso, que outrora era s nossa.
    No sabia que existiam suspeitas em mente. Julguei que se tratasse apenas de curiosidade.
     A sala que a velha sempre usava voltou a surpreender-me, embora eu no soubesse definir exatamente o motivo. Talvez fosse o
fato de ela manter as cortinas fechadas num dia to lindo de vero. As venezianas atrs das cortinas estavam fechadas, lanando barras de luz no tecido. As venezianas 
e cortinas isolavam o ambiente do calor reinante l fora, tornando a sala inesperadamente fria. No existia necessidade real de condicionamento de ar na regio onde 
morvamos. A proximidade do Pacfico mantinha o clima fresco,
transformando o uso de suteres  noite numa necessidade irrefutvel, mesmo em pleno vero. Aquela casa, porm, era desusadamente fria.
    Mais uma vez, a velha estava na cadeira de balano de madeira nua, olhando para mim. Sua mo magra fez uma espcie de aceno de boas-vindas, a fim de atrair-me 
para mais perto dela. Compreendi instintivamente que ela constitua uma ameaa para meus pais, para a minha prpria segurana e, acima de tudo, para a sanidade mental 
de Bart.
    - No precisa ter medo de mim, Jory - disse ela num tom suave. - Meu lar pertence a voc tanto quanto a Bart. Voc ser
sempre bem-vindo aqui. Sente-se, para conversarmos um pouco. Toma um pouco de ch comigo, e uma fatia de bolo?
    Seduzido, nossa palavra de ontem para acrescentar ao nosso crescente vocabulrio, no qual Papai tanto insistia. "O mundo
pertence aos que sabem falar bem e as fortunas so ganhas pelos que sabem escrever bem", dizia ele.
     Confesso que ela me seduzia, aquela mulher na dura cadeira de pau, parecendo to velha e, no obstante, to altaneira.
    - Por que no abre as venezianas, afasta as cortinas e deixa entrar um pouco de luz e ar? - indaguei.
#91
    Seus gestos nervosos colocaram em jogo os reflexos faiscantes das muitas jias que usava. Rubis, esmeraldas e brilhantes nos seus dedos refratavam todas as cores 
do espectro. As jias pareciam to inadequadas quando ela usava o simples vestido negro e cobria a cabea com vrias camadas de vu negro de gaze. Hoje, porm, seus 
olhos estavam  mostra - azuis, muito azuis. Olhos azuis que me pareciam to familiares.
    - Luz demais incomoda-me os olhos - explicou ela num leve sussurro grave, enquanto eu continuava a fit-la.
    - Por que?
    - Por que a luz me incomoda os olhos?
    - Sim.
    Ela suspirou de leve.
    - Vivi por longo tempo afastada do mundo, trancada num pequeno quarto e, ainda pior que isso, trancafiada dentro de mim mesma. Quando uma pessoa  obrigada a 
defrontar-se consigo mesma pela primeira vez na vida, encolhe-se ante o choque. Eu me encolhi quando olhei, pela primeira vez, para meu prprio mago, ao fitar um 
espelho que havia em meu quarto. E senti medo. Portanto, hoje vivo em salas cheias de espelhos, mas cubro o rosto para no ver
demais. Mantenho meus aposentos na  obscuridade a fim de no mais admirar o rosto que eu costumava adorar.
    - Ento, livre-se dos espelhos.
    - Como voc faz parecer fcil. Mas  jovem. Os jovens sempre julgam que tudo  fcil. No quero livrar-me dos espelhos.
Desejo-os onde esto, para me lembrarem constantemente do que eu fiz. As janelas fechadas, a atmosfera abafada, so um castigo para mim, no para voc. Se quiser, 
Jory - prosseguiu ela, quando permaneci
calado -, abra as janelas, afaste as cortinas; deixe entrar a luz do sol e eu tirarei meus vus para que voc veja o rosto do qual me escondo. Mas voc no achar 
agradvel. Minha beleza se foi, mas  uma perda insignificante em comparao com tudo o mais que possu e perdi, com todas as coisas s quais eu deveria ter-me agarrado 
com valentia.
    - Valentia? - repeti.
    A palavra no me era muito familiar ou significativa; apenas um termo que sugeria bravura.
    - Sim, Jory, eu deveria ter protegido com valentia o que me pertencia. Eu era tudo que eles tinham e os desamparei. Julguei que
eu estava certa e eles errados. Convencia-me todos os dias de que estava certa. Resisti s suas penosas splicas e, ainda pior, naquela ocasio eu nem mesmo julgava 
que fossem dignos de pena. Dizia a mim mesma que estava fazendo todo o possvel porque lhes levava de tudo. Cresceram para desconfiarem de mim, para me detestarem, 
e isso doeu - doeu muito mais que qualquer dor que eu tenha sentido.
#92
Odeio-me por ser fraca, to covarde, to tolamente intimidvel, quando deveria ter fincado o p e resistido, revidado. Eu deveria ter pensado apenas neles e esquecido 
o que desejava para mim. Minha nica
desculpa  que, na poca, eu era jovem; e Os jovens so egostas, mesmo em se tratando de seus prprios filhos. Pensei que minhas
necessidades fossem maiores que as deles. Pensei que a hora deles chegaria e, ento, poderiam agir como bem entendessem. Senti que era minha ltima oportunidade 
de ser feliz. Tinha que agarr-la depressa, antes que a idade me roubasse os atrativos; e eu amava um homem mais moo que eu. No lhe podia contar a respeito deles.
    Eles? De quem ela estava falando?
    - De quem? - perguntei com voz sumida, desejando, por algum motivo, que ela no me contasse nada - ou, pelo menos, no demais.
    - De meus filhos, Jory. Meus quatro filhos, de meu primeiro marido, com o qual me casei quando tinha apenas dezoito anos. Ele era proibido para mim, mas eu o 
quis, apesar de tudo. Julguei que nunca tornaria a encontrar um homem to maravilhoso... mas
encontrei.
    Eu no queria escutar a estria dela. Mas ela me implorou que ficasse. Sentei-me na beirada de uma das elegantes cadeiras.
    - Portanto - prosseguiu ela -, coloquei meu medo  frente de tudo, permitindo que meu amor por um homem me tornasse cega s necessidades deles. Ignorei o que 
desejavam - a liberdade - e agora, como resultado, choro todas as noites at conseguir adormecer.
    O que podia eu dizer? No entendia do que ela falava. Conclu que devia ser louca e no era de espantar que Bart tivesse um procedimento to maluco. Ela se debruou 
para ver-me melhor.
    - Voc  um rapaz excepcionalmente bonito. Suponho que j saiba disso.
    Meneei afirmativamente a cabea. Durante toda a minha vida ouvira comentrios a respeito de minha beleza, meu talento, meu
encanto. Mas o que importava era o talento, no a beleza. Na minha opinio, beleza sem talento era intil. Eu sabia, tambm, que a
beleza desbota com o passar dos anos; no obstante, amava a beleza.
    Olhando em volta, percebi que aquela mulher amava a beleza tanto quanto eu, mas, ainda assim...
     - Que pena ela ficar sentada no escuro e recusar-se a aproveitar de tudo o que foi feito para tornar este lugar belo - murmurei
distraidamente, sem querer.
    Ela escutou e respondeu sem entonao:
    - Para me castigar ainda mais.
    No repliquei, limitando a ficar sentado enquanto ela continuava a falar interminavelmente de sua vida como uma pobre menina rica, que cometera o erro de casar-se 
#93
com seu meio-tio, trs anos mais velho que ela, e fora deserdada por isso. Por que me contava a estria de sua vida? Pouco me interessava. O que tinha o seu passado 
a ver
com Bart? Ele era o motivo de minha presena na manso.
    - Casei-me pela segunda vez. Meus quatro filhos me odiaram por fazer isso.
    Fitou as mos cruzadas no colo e depois comeou a girar as jias cintilantes, uma por uma.
    - As crianas sempre pensam que a vida  fcil para os adultos. Isso nem sempre  verdade. Filhos pensam que uma me viva
precisa apenas deles.
    Suspirou e prosseguiu:
    - Acham que podem dar-lhe amor suficiente, porque no compreendem que existem todos os tipos de amor e  duro para uma mulher viver sem um homem aps ter sido 
casada.
    Ento, quase como se tivesse esquecido minha presena, sobressaltou-se ao ver-me ali.
    - Oh, fui pssima anfitri. Jory, o que gostaria de beber e comer?
    - Nada, obrigado. Vim apenas para lhe dizer que no deve encorajar Bart a voltar aqui. No sei o que diz a ele, ou o que ele
faz aqui, mas volta para casa com a cabea cheia de idias estranhas, parecendo muito desorientado.
    - Desorientado? Voc emprega palavras difceis para um rapaz to jovem.
    - Meu pai insiste para que aprendamos uma palavra nova todos os dias.
    As mos nervosas da mulher subiram ao pescoo para torcerem um colar de grandes prolas, com fecho de brilhantes em forma de
borboleta.
    - Jory, se eu lhe fizesse uma pergunta hipottica, voc me daria resposta - uma resposta franca?
    Levantei-me para sair.
    - Na verdade, prefiro no responder perguntas...
    - Se sua me ou seu pai algum dia o desapontassem, lhe falhassem de algum modo, at mesmo grave... voc seria capaz de
encontrar no corao um meio de perdo-los?
    Claro, claro, pensei bastante depressa, embora no conseguisse imaginar um deles falhando comigo, com Bart ou com Cindy. Recuei at a porta, o que me permitiria 
sair enquanto ela aguardava minha resposta.
    - Sim, Madame, creio que seria capaz de perdoar-lhes qualquer coisa.
#94
   - Assassinato? - perguntou ela depressa, levantando-se tambm. - Seria capaz de perdoar-lhes isso? No homicdio premeditado, mas acidental?
    Ela era louca, exatamente como seu mordomo. Desejei sair dali e depressa! Adverti-a uma vez mais para mandar meu irmo de volta para casa:
   - Se deseja que Bart permanea mentalmente so, deixe-o em paz!
    Os olhos dela se toldaram de lgrimas antes que ela assentisse e baixasse a cabea. Eu a magoara e sabia disso. Precisei endurecer o corao para no pedir desculpas. 
Ento, exatamente quando eu ia
sair, um entregador bateu  porta. Abri-a e afastei-me para permitir que ele carregasse para o interior da casa um enorme caixote oblongo. Foram necessrios dois 
homens para despregar a tampa do caixote.
    - No se v, Jory - implorou a mulher. - Fique! Eu gostaria que voc visse o contedo desse caixote.
    Que diferena fazia? Mas fiquei, sentindo a mesma curiosidade que a maioria das pessoas em relao ao contedo de uma caixa fechada.
    O velho mordomo veio batendo a bengala pelo corredor, mas ela o mandou embora:
    - John! Eu no o chamei. Por favor, permanea em sua parte da casa at ser chamado.
    Ele lhe lanou um fulminante olhar de ressentimento e regressou  sua toca, onde quer que fosse esta.
    A esta altura, o caixote j estava aberto e os dois homens removiam a palha que protegia o contedo. Ento, ergueram um enorme objeto, enrolado numa colcha cinzenta, 
de seu nicho no interior do
caixote.
   Era como aguardar o lanamento de um navio. Fiquei um tanto ofegante de expectativa, ainda mais porque a mulher tinha uma certa expresso no rosto... como se 
mal conseguisse esperar que eu visse
o contedo do caixote. Iria fazer-me um presente, como dava a Bart tudo que ele desejava? Bart era o menininho mais ambicioso do undo, necessitando do dobro da afeio 
que a maior parte das pessoas exigia.
   Ento, engasguei-me e recuei.
   Os homens tinham desembrulhado um quadro pintado a leo.
   L estava minha linda me, num vestido branco formal, parada no penltimo degrau, com a mo esbelta apoiada num magnfico
pilar de corrimo. Formando uma cauda atrs dela, metros e metros de cintilante tecido branco. A escada curva subia graciosamente,
desaparecendo em nuvens atravs das quais o artista conseguira habilmente criar a
#95
impresso de ouro e faiscantes pedras preciosas, sugerindo uma manso palacial.
    - Sabe de quem  esse retrato? - perguntou ela quando os homens terminaram de pendur-lo no lugar, numa das salas que ela
no parecia utilizar com freqncia. Meneei a cabea, confuso e incapaz de falar.
    O que estava ela fazendo com o retrato de minha me?
    Ela esperou que os dois homens sassem. Eles sorriram, satisfeitos com a gorjeta que receberam. Eu ofegava, escutando minha prpria respirao pesada e imaginando 
por que razo me sentia to atordoado.
    - Jory - disse a mulher, voltando-se novamente para mim -, esse  um retrato de mim, encomendado por meu segundo marido
pouco depois que nos casamos. Eu tinha trinta e sete anos quando posei para ele.
    No retrato, a mulher se parecia exatamente com minha me na atualidade. Engoli em seco, desejando fugir, sentindo uma repentina vontade de ir ao banheiro, mas, 
ao mesmo tempo, querendo ficar.
Desejava escut-la explicar, embora estivesse paralisado de medo do que ela poderia dizer-me.
    - Meu segundo marido, Bartholomew Winslow, era mais moo que eu, Jory - disse ela depressa, como se quisesse certificar-se de que eu a ouviria antes de levantar-me 
e fugir dali. - Mais tarde, quando minha filha tinha idade suficiente, seduziu-o e roubou de mim o amor de Bart, s para me castigar, magoando-me com o filho que 
teve dele. O filho que eu no podia gerar. Voc bem pode adivinhar quem  esse filho, no pode?
    Ergui-me de um salto e recuei, estendendo as mos para afastar de mim outras informaes que eu no desejava conhecer. 
    - Jory, Jory, Jory - entoou ela. - No se lembra mais de mim? Recorde-se da poca em que morava nas montanhas da Virgnia.
Pense naquela pequena agncia dos correios e na rica dama de casaco de peles. Na ocasio, voc tinha cerca de trs anos. Avistou-me
e, sorrindo, veio alisar o casaco, dizendo-me que eu era linda... lembra-se?
    - No! - gritei, com mais energia do que sentia. - Eu nunca a vi antes em minha vida, at voc vir morar aqui! E todas as louras de olhos azuis se parecem um 
pouco!
    - Sim - concordou ela, desanimada. - Suponho que voc tenha razo. Apenas julguei que seria divertido ver sua expresso. No devia ter aplicado o truque em voc. 
Sinto muito, Jory. Perdoe-me.
    Eu no suportava fitar aqueles olhos azuis. Tinha que ir embora.
     Sentia-me infeliz ao caminhar lentamente de volta para casa. Se ao menos no tivesse ficado l... Se o retrato no fosse entregue
#96
enquanto eu me encontrava com a mulher... Por que motivo tinha o pressentimento de que ela era uma ameaa maior para minha me que para meu padrasto?... o que conseguira 
eu, afinal?... Foi mesmo voc, mame, quem roubou o amor do segundo marido dela?
Foi? No fazia sentido, quando Bart tinha o mesmo nome que ele? Tudo que a velha dissera confirmava as suspeitas que se vinham
insinuando em minha mente durante tantos anos. As portas comeavam a abrir-se, deixando entrar lembranas frescas que quase me pareciam inimigas.
   Subi os degraus da varanda que Mame costumava chamar, em tom de brincadeira, de "o tipo de varanda sulina de Paul". Certamente no se parecia com a espcie de 
ptio comum na Califrnia.
    Naquele dia, havia algo diferente no ptio. Se eu estivesse menos perturbado, talvez percebesse imediatamente o que estava
faltando. Na verdade, demorei vrios minutos para compreender que Trevo no estava ali. Olhei em volta, preocupado, chamando-o.
    - Pelo amor de Deus, Jory - chamou Emma da janela da cozinha. - No grite to alto. Acabo de colocar Cindy na cama para um cochilo e voc acabar acordando a 
menina. Vi Trevo h poucos minutos, correndo para o jardim atrs de uma borboleta.
    Naturalmente. Fiquei aliviado. Se algo fazia meu velho poodle comportar-se como um filhote era o vo de uma borboleta amarela.
Juntei-me a Emma na cozinha e perguntei:
    - Emma, h muito tempo estou para lhe fazer uma pergunta: em que ano Mame se casou com o Dr. Paul?
    Ela estava debruada, verificando o interior da geladeira e resmungando
sozinha:
    - Eu podia jurar que ainda havia aqui um pouco de galinha frita que sobrou do jantar de ontem. J que vamos jantar hoje fgado
acebolado, guardei o resto da galinha para Bart. Pensei que seu irmo cheio de frescuras talvez comesse as coxas que sobraram.
    - No se lembra do ano em que eles se casaram?
    - Voc tinha pouco mais de um ano, naquela poca - respondeu ela, ainda remexendo na geladeira.
    Emma era sempre vaga quanto a datas, incapaz de lembrar-se de seu prprio aniversrio. Talvez propositalmente.
    - Conte-me outra vez como Mame conheceu o irmo mais moo do Dr. Paul... voc sabe, o padrasto que temos agora.
     - Sim, lembro-me de Chris; era to bonito, alto e queimado de sol. Mas no mais bonito que o Dr. Paul era a seu prprio jeito, um homem maravilhoso, seu padrasto 
Paul. To bondoso e corts...
    - Engraado que Mame no tenha se apaixonado por um irmo mais moo, em vez do mais velho - voc no acha esquisito?
#97
    Emma endireitou-se e levou a mo s costas, que, segundo ela, doam o tempo todo. Em seguida, enxugou as mos no imaculado avental branco.
    - Certamente espero que seus pais no se atrasem esta noite. Agora, corra para chamar Bart, antes que seja tarde demais para ele
tomar banho. No gosto que sua me o veja to sujo.
    - Emma, voc no respondeu minhas perguntas.
    Dando-me as costas, ela comeou a picar pimentes verdes.
    - Jory, quando precisar de respostas, v perguntar a seus pais. No venha a mim. Talvez voc me considere membro da famlia,
mas sei que minha posio  de amiga. Portanto, v buscar Bart e deixe-me terminar de preparar o jantar.
    - Por favor, Emma, no s por minha causa, mas por Bart tambm. Preciso fazer alguma coisa para endireitar Bart e como
posso faz-lo sem conhecer todos os fatos?
    - Jory - replicou ela com um sorriso carinhoso -, trate apenas de sentir-se feliz por possuir pais to maravilhosos. Voc e Bart tm muita sorte. Espero que 
Cindy cresa para compreender o quanto foi abenoada no dia em que sua me resolveu que precisava de uma filha.
    L fora, o dia se aproximava do fim. Por mais que procurasse, no consegui encontrar Trevo. Sentei-me nos degraus dos fundos e
olhei tristemente para o cu que assumia uma tonalidade rosada com brilhantes faixas alaranjadas e roxas. Sentia-me Imensamente desolado e sobrecarregado, desejoso 
de que todo aquele mistrio e confuso desaparecessem. Trevo, onde estava Trevo? At aquele momento, eu nunca percebera o quanto ele significava em minha vida,
quanta falta eu sentiria dele quando se fosse para sempre. Por favor, Deus, no permita que ele se v para sempre!
   Olhei uma vez mais para nosso quintal e depois decidi entrar e telefonar para os jornais, oferecendo uma recompensa por um co perdido - uma recompensa to grande 
que algum traria Trevo de volta.
   - Trevo! - gritei. - Hora da bia!
     Meu chamado trouxe Bart, tropeando, da cerca viva, as roupas rasgadas e imundas. Seus olhos escuros pareciam estranhamente
assustados.
   - Por que est gritando?
   - No consigo encontrar Trevo - respondi. - E voc sabe que ele nunca se afasta daqui.  um co caseiro. Li no outro dia a respeito de gente que rouba ces para 
vend-los como cobaias aos laboratrios cientficos. Bart, eu desejaria morrer se algum fizesse
tamanha maldade a Trevo.
    Ele me fitou com uma expresso chocada.
    - No fariam isso... fariam?
#98
    - Bart, preciso encontrar Trevo. Se ele no voltar logo, ficarei doente, o bastante para morrer. Suponha que tenha sido atropelado?
    Vi meu irmo engolir em seco e comear a tremer.
    - O que h de errado?
    - Matei um lobo, ali atrs. Matei mesmo. Dei um tiro bem no olho vermelho de um grande lobo malvado. Ele avanou para mim,
lambendo os beios, mas fui mais esperto, agi depressa e o matei com um tiro.
    - Ora, pare com isso, Bart! - retruquei, impaciente, comeando a ficar realmente irritado com algum que nunca dizia a
verdade. - No existem lobos nesta regio e voc sabe muito bem disso.

    Procurei pelas vizinhanas at meia-noite, chamando por Trevo. As lgrimas embargavam-me a voz e toldavam-me a viso. Tinha a mais forte premonio de que Trevo 
nunca mais voltaria para casa.
    - Jory - disse Papai, que me auxiliava na busca -, vamos dormir e voltaremos a procur-lo de manh, se ele no voltar para
casa durante a noite. E no fique acordado na cama, preocupando-se. Trevo pode ser um cachorro velho, mas at mesmo os velhos so
capazes de se sentirem romnticos numa noite de luar.
    Oh, diabo! Aquilo no fazia muito sentido. Havia muito tempo que Trevo deixara de correr atrs de cadelas. Agora, tudo que ele desejava era deitar-se num lugar 
onde Bart no pudesse tropear nele nem pisar-lhe o rabo.
    - V dormir, Papai, e deixe-me continuar a procur-lo. S tenho aula de bal s dez horas, de modo que no preciso dormir tanto quanto voc.
    Ele me abraou rapidamente, desejou-me sorte e foi para seu quarto. Uma hora mais tarde, cheguei  concluso de que se tratava
de um esforo intil. Trevo estava morto. Era a nica coisa que poderia mant-lo afastado de casa.
    Resolvi que devia contar a meus pais o que eu suspeitava.
    Parei ao lado da cama, olhando para eles. O luar entrava pela janela, incidindo em seus corpos. Mame estava meio virada de lado, de modo a poder aninhar-se 
perto de Papai, que estava deitado de costas. A cabea de Mame repousava no peito nu de Papai, cujo brao esquerdo a enlaava, com a mo pousada no quadril dela. 
As cobertas estavam puxadas apenas o suficiente para encobrir-lhes a nudez, o que me fez recuar, sentindo-me muito envergonhado. Eu no devia estar ali. O sono parecia 
torn-los vulnerveis, mais jovens, comovendo-me mas causando-me tambm uma profunda sensao de
vergonha. H muito tempo, Papai me ensinara os fatos da vida, de modo que eu sabia o que #99
homens e mulheres faziam para terem filhos - ou apenas por diverso.
     Solucei e virei-me para sair.
    -  voc, Chris? - perguntou Mame, meio adormecida, rolando para ficar deitada de costas.
    - Estou aqui, querida. Durma - murmurou ele, sonolento. A av no nos pode pegar agora.
     Imobilizei-me, espantado. Ambos pareciam crianas. E, mais uma vez, aquela "av".
    - Estou assustada, Chris, com muito medo. Se algum dia eles descobrirem, o que diremos? Como poderemos explicar?
    - Shhh... - veio o sussurro dele. - De agora em diante, a vida ser boa para ns. Apegue-se  sua f em Deus. J fomos ambos
suficientemente castigados; Deus no nos punir mais.
    Correr, correr, tive que correr depressa para meu quarto e jogar-me na cama. Sentia-me oco por dentro, um vazio total em vez da confiana e amor que eu costumava 
sentir. Trevo se fora. Meu pequeno, querido, inofensivo poodle, que nunca fizera nada de mau. E Bart dera um tiro num lobo.
     O que faria Bart em seguida? Sabia o que eu sabia? Era por isso que se comportava to estranhamente? Lanando olhares malvados a Mame, como se desejasse mago-la 
? As lgrimas me voltaram aos olhos, pois a memria no pode ser reprimida para sempre. Eu sabia agora que Bart no era filho do Dr. Paul. Bart era filho do segundo 
marido da velha, que tinha o mesmo nome de meu meio-irmo - o homem alto e esbelto que s vezes me povoava os sonhos junto com o Dr. Paul e meu prprio pai, o qual 
eu s conhecia por fotografias.
    Nossos pais haviam mentido para ns dois. Por que no nos disseram a verdade? Seria a verdade to feia que eles no podiam
revel-la a ns? Tinham to pouca f em nosso amor por eles?
     Oh, Deus, o segredo deles devia ser to terrvel que jamais poderamos perdo-los!
    E Bart era capaz de ser perigoso. Eu sabia disso. Dia a dia, o fato se tornava cada vez mais evidente. De manh, eu correria a procurar mame ou papai e contaria 
tudo. Mas a manh chegou e fui incapaz de dizer uma s palavra sobre o assunto. Agora, eu compreendia por que motivo Papai insistia para que aprendssemos uma palavra 
nova por dia. Era necessrio empregar palavras especiais para transmitir idias sutis e eu ainda no possua cultura suficiente para expressar meus conturbados pensamentos, 
que desejavam tranqilizar meus pais. E como poderia eu tranqiliz-los quando Bart estava diante de mim, os olhos escuros expressando dureza e maldade?
     Oh, Deus, se est em algum lugar no cu, olhando para baixo, oua minha prece. Permita que meus pais tenham a paz de que
#100
necessitam, a fim de no precisarem sonhar com avs malvadas. Certo ou errado, o que quer que tenham feito, sei que procederam da
melhor maneira que puderam.
    Por que coloquei as coisas naqueles termos?
    Segurana era uma palavra que perdera toda a substncia. Como pessoas mortas que no passavam de meras sombras em minha
memria; nada to concreto quanto o dio de Bart, que crescia a cada dia.

LIES

     Julho. O meu ms.
   - Concebido no fogo, nascido no calor - disse John Amos quando lhe contei que em breve chegaria o meu dcimo aniversrio.
     No entendi o que ele quis dizer, nem me importei. Estaria na Disneylndia dentro de poucos dias. Hurra! Ao diabo com Jory por
no parecer feliz, estragando minha alegria com aquela cara de tristeza s porque um tolo cozinho velho no voltava para casa quando ele chamava.
      Eu fazia planos para que Ma ficasse bem cuidado at eu poder fugir de volta para ele aps visitar a Disneylndia. John Amos me agarrou quando fui ver Ma 
e me levou para seu quarto em cima da garagem. Olhei em volta, achando que o ambiente tinha um cheiro azedo, velho, como remdio.
    - Bart, sente-se naquela cadeira e leia para mim, em voz alta, o dirio de Malcolm. Pois o Senhor o castigar se disser que est
lendo o livro e no estiver.
    Eu j no precisava de John Amos como antes, de modo que o encarei desdenhosamente. O tipo de desdm que Malcolm mostraria para com um velho encurvado e manco, 
que no conseguia falar sem sibilar, assoviar ou cuspir. Contudo, sentei-me e li o dirio de capa vermelha de Malcolm.

     "Minha juventude foi desperdiada em prazeres terrenos e, ao aproximar-me dos trinta anos, compreendi que o que faltava em minha vida era outro objeto alm 
do
dinheiro. Religio. Eu precisava de religio e de redeno para todos os meus pecados, pois, a despeito dos juramentos
feitos na infncia, eu regredira a ponto de desejar mulheres e, quanto mais pecaminosas fossem, mais elas me pareciam agradar. No existia viso que me causasse 
mais prazer que uma mulher altiva e bela humilhada e obrigada a
#101
fazer coisas obscenas que contrariavam as regras da decncia. Eu sentia prazer em surr-las, deixando-lhes verges vermelhos na pele clara e imaculada. Via o sangue 
- sangue delas - e isso me excitava. Foi ento que compreendi que precisava de Deus. Tinha que salvar minha
     alma eterna do inferno".
   
     Ergui os olhos, cansado de tentar adivinhar o significado de todas aquelas palavras complicadas que nada me diziam.
    - V o que Malcolm lhe diz, menino? Ele lhe diz que, no importa o quanto voc odeie as mulheres, ainda assim  possvel extrair delas algum prazer - mas a um 
preo, menino, um preo muito, muito alto. Infelizmente, Deus instilou na humanidade os desejos sensuais - voc deve tentar reprimir os seus quando se aproximar 
da idade adulta. Plante bem fundo em sua cabea, de modo a jamais esquecer: no final, as mulheres sero sua runa e destruio. Eu sei. Elas me destruram, fazendo-me 
permanecer um servo quando poderia ter subido muito mais na vida.
    Levantei-me e sa, enjoado de John Amos. Ia procurar minha av, que me amava mais do que Deus jamais me amaria. Mais do que qualquer outra pessoa. Ela me amava 
por mim mesmo. Amava-me tanto que chegava a inventar mentiras, como eu, a ponto de me dizer que era minha av de verdade, quando eu sabia que isso era impossvel.

    Sbado era o melhor dia da semana. Meu padrasto ficava em casa e fazia Mame feliz. Ela contratara alguma assistente idiota para
ajud-la aos sbados na escola de bal, agora que precisava gastar tanto tempo embonecando Cindy, como se algum se importasse com a aparncia da garotinha. Jory 
tinha que ir  aula de bal tambm
aos sbados, para poder encontrar-se com sua estpida namorada. Voltava ao meio-dia, para estragar todos os meus planos. Eu tinha muitos planos para me encher o 
tempo. Cuidar de Ma. Sentar-me no colo de Vov e deixar que ela cantasse para mim. Ora, as manhs passavam rpidas como raios, com tudo o que eu tinha a fazer.
    John Amos dava-me mais lies a respeito de como ser igual a Malcolm e macacos me mordam se no estava dando resultado. Eu sentia o poder de Malcolm crescer 
cada vez mais. 
    Naquela tarde, Cindy estava numa piscina de plstico novinha em folha. A velha no era suficientemente boa para ela. A fedelha
precisava ter tudo novo, at mesmo um mai com listras vermelhas e brancas, e duas alas vermelhas para segur-lo no lugar. E lacinhos que ela tentava desfazer!
#102
    Jory se ergueu de um pulo e correu  casa para pegar sua mquina fotogrfica. Depois, voltou correndo para fotografar Cindy. Aps tirar vrias fotos, jogou a 
mquina para Mame e disse:
    - Tire minha fotografia com Cindy.
    Claro, ela ficou feliz de tirar a fotografia dele com Cindy. No se deram o incmodo de me convidar. Talvez eu tivesse exagerado um pouco em fazer caretas, desviar 
a cabea ou botar a lngua para fora. Todo mundo estava sempre comentando que Bart certamente sabia como estragar uma fotografia perfeita.
    Os malditos arbustos me cercavam por todos os lados, arranhando-me as pernas e braos. Insetos rastejavam em mim. Eu
detestava insetos! Matava-os com tapas enquanto apertava os olhos para ver a garotinha mimada espadanar gua, divertindo-se muito mais do que eu jamais conseguira 
numa piscina.
    Quando tentassem levar-me para o Leste, da Disneylndia, eu fugiria sorrateiramente e pegaria uma carona para voltar para casa
e cuidar de Ma - era o que Malcolm faria. Os mortos no sentiriam minha falta. No se importariam se eu no estivesse l para
colocar flores em seus tmulos. A horrvel av de Jory ficaria satisfeita com minha ausncia.
    Corri para onde podia trepar numa rvore, pular o muro e correr ao celeiro para visitar Ma, que estava ficando enorme. Enfiei um biscoito para ces na boca 
de Ma. Desapareceu numa frao de segundo. Ma pulou e me derrubou.
    - Agora, coma esta cenoura - servir como escova para limpar seus dentes!
    Ma farejou a cenoura. Sacudiu o rabo. Pulou e bateu com a pata na cenoura. Ma ainda no sabia brincar como pnei.
     Logo atrelei Ma  minha nova charrete de pnei e corremos por toda parte.
    - Upa! - berrei. - Vamos pegar aqueles ladres de gado! Mais depressa, cavalo malandro, se queremos chegar em casa antes
da bia! 
    Avistei um movimento nas colinas. Virei-me e vi ndios que se aproximavam a todo galope - ndios escalpeladores! Os ndios nos perseguiram loucamente at conseguirmos 
despist-los nas colinas, que logo se transformaram num deserto. Cansados e sedentos, meu cavalo e eu procuramos um oasis. Vi uma miragem.
     L estava ela, a mulher da miragem do oasis. Usando esvoaantes trapos negros, os ps descalos sujos de areia, feliz por acolher-nos de volta ao mundo dos 
vivos...
    - gua - arquejei. - Preciso gua fresca, limpa... 
     Afundei-me numa cadeira elegante e estendi as pernas finas e compridas, caladas com botas poeirentas e surradas. Bati nas perneiras de couro para tirar a areia.
#103
    - Traga cerveja - ordenei  garonete do bar.
     Ela me trouxe uma cerveja espumante e escura, gelada, muito melada. A cerveja me bateu no estmago como uma cascavel, fazendo-me dobrar em dois e olhar furiosamente 
para a moa.
    - O que faz uma moa boazinha como voc numa espelunca como esta?
    - Sou a professora local, Sam Malcriado. No se lembra?
     Por detrs do vu, ela pestanejou e baixou as plpebras.
    - Na poca das vacas magras, uma dama tem que fazer o possvel para sobreviver .
    Ela fazia o meu jogo. Ningum gostava de jogar comigo. Era bom encontrar uma parceira.
    Sorri, muito amistoso.
    - Cuide bem de Ma. Ele est to limpo que no pode morrer.
    - Voc joga muito duro, querido. E no  saudvel pensar tanto em morte. Venha sentar-se no meu colo e lhe cantarei uma
cano.
    Gosto. Como se fosse tratado como um beb. Aninhado em seu colo macio, a cabea encostada em seu peito, ela me cantando ao
ouvido. Cada balano da cadeira mergulhava-me num transe mais profundo. Olhei para cima e tentei enxergar atravs do vu. Estaria eu comeando a gostar mais dela 
que de Mame? Percebi, ento, que os vus estavam presos a pequenas travessas enfiadas em seus cabelos, pois hoje ela deixara a cabea descoberta. Tinha cabelos 
cor de prata, com mechas douradas.
     No queria que Mame envelhecesse e ficasse com cabelos grisalhos. Ela j me abandonava cada dia que cuidava de Cindy; abandonado-me para que outros me tomassem 
o lugar. Por que Cindy tivera que surgir e estragar minha vida?
    - Mais, por favor - murmurei quando ela parou de balanar. - Voc gosta de mim mais que Madame M. gosta de Jory? - perguntei.
    Se ela respondesse que sim, muito, muito mais, eu poderia ir em frente.
    - A av de Jory gosta muito dele?
    Seria inveja na voz dela? Senti raiva - ela percebeu e comeou a cobrir-me o rosto de beijos. Beijos secos, por causa daquele
vu.
    - Vov, preciso contar-lhe uma coisa.
    - timo... mas lembre-se de pronunciar os "S". Conte-me tudo, tenho o resto da vida para escutar.
    Afastou-me o cabelo do rosto e tentou arrum-lo. No conseguiu.
    - Dois dias antes de meu aniversrio, partiremos para a Disneylndia. Passaremos uma semana l e depois voaremos para onde
esto os tumulos. Temos que visitar cemitrios, comprar flores e coloc-las ao #104
sol, onde podem morrer. Detesto sepulturas. Detesto a av de Jory, que no gosta de mim porque no sei danar.
    Ela me beijou outra vez.
    - Bart, diga a seus pais que j houve sepulturas demais em sua vida. Diga-lhes novamente o quanto isso lhe causa infelicidade.
    - Eles no me escutam - respondi desanimado. - No me perguntam o que desejo, como voc. Dizem simplesmente o que tenho
que fazer.
    - Tenho certeza de que o escutariam se voc lhes contasse a respeito de seus sonhos com a morte. Ento, compreendero que j o levaram com demasiada freqncia 
a cemitrios. Diga-lhes apenas a verdade.
    - Mas... mas...- gaguejei, infeliz. - Quero ir  Disneylndia! 
    - Conte a eles, como eu disse, e cuidarei de Ma.
    Fiquei frentico. Uma vez que entregasse Ma aos cuidados de outra pessoa, ele nunca mais tornaria a ser meu, totalmente meu.
Solucei, porque a vida era to impossvel. E meu plano para fugir tinha que dar certo, tinha que dar...
    Continuamos balanando na cadeira. Ela disse que estvamos num veleiro, singrando mar revolto rumo a uma linda ilha chamada
paz. Perdi o costume de andar em terra  firme, de modo que ao chegarmos  ilha no consegui ficar de p ou equilibrar-me. Ela
desapareceu. Fiquei sozinho, totalmente sozinho. Como se estivesse em Marte - e, l na Terra, Ma esperava por mim. Pobre Ma.
No final, ele teria que morrer.
    Creio que acordei... Onde estava ? Por que todo mundo era to velho? Mame... por que cobriu o rosto de preto?
    - Acorde, querido. Acho melhor voltar para casa antes que seus pais fiquem alarmados. Tirou um bom cochilo, de modo que
deve sentir-se melhor agora.

    Na manh seguinte, eu estava no quintal, tentando terminar a casa de cachorro que comeara a construir para Trevo. O pobre Trevo, sempre deveria ter possudo 
sua prpria casa; ento, no teria fugido  procura de uma. Peguei na oficina de Papai um martelo, pregos, serrote, madeira, e levei tudo comigo para o quintal. 
Comecei a
trabalhar. O maldito serrote no sabia cortar reto. A casa vai ficar torta. Se Trevo reclamar, dou-lhe um pontap. Peguei o pedao de madeira com beiradas tortas 
e o coloquei no telhado. Maldito prego! No ficou parado e me fez dar uma martelada no dedo. O estpido martelo no viu meus dedos! Continuei a martelar. Era timo 
eu no sentir pequenas dores, do contrrio estaria chorando. Ento, acertei para valer o
#105
polegar; e doeu. Puxa, eu estava sentindo dor, como qualquer menino normal.
    Jory saiu correndo de casa, gritando para mim:
    - Por que est fazendo uma casa para Trevo, quando ele sumiu h duas semanas? Ningum respondeu nossos anncios. Sem dvida, a esta altura ele j morreu e, mesmo 
que volte para casa, dormir aos ps de minha cama, lembra-se?
    Bobo. Eis o que ele queria dizer de mim: bobo. E Trevo poderia voltar... Pobre Trevo.
    Arrisquei um olhar de esguelha e vi Jory enxugar as lgrimas nos olhos.
    - Depois de amanh, partiremos para a Disneylndia e voc deve estar muito feliz - disse ele com voz rouca.
    Estaria eu muito feliz? Meu polegar inchado comeou a doer um pouco. Ma morreria de solido.
    Ento, tive uma idia. John Amos me dissera que as preces operam milagres e Deus estava l em cima, no cu, zelando pelos animais idiotas na terra - e pelas 
pessoas, tambm. Mame e Papai sempre recomendavam que eu no fizesse pedidos em minhas oraes, s bnos para as outras pessoas, no para mim. Portanto, assim 
que Jory se afastou, larguei o martelo e corri para um lugar onde pude ajoelhar-me e rezar pelo meu pnei-filhote de co e por Trevo. Em seguida, fui visitar Ma, 
rolando com ele sobre a grama dourada, eu rindo e ele tentando relinchar e latir ao mesmo tempo. Lambia-me o rosto com beijos molhados. Retribu os beijos. Quando 
ele levantou a pata traseira e fez pontaria nas rosas, tirei as calas e tambm urinei. Fazamos tudo juntos.
    Naquele momento, veio-me  cabea exatamente o que fazer.
    - No se preocupe, Ma. Passarei apenas uma semana na Disneylndia, antes de voltar para perto de voc. Esconderei seus biscoitos de pnei-co embaixo do feno 
e deixarei a torneira pingando no seu balde. Mas no se atreva a comer ou beber qualquer coisa que John Amos lhe der. Ou minha av, tambm. No permita que ningum 
o suborne com guloseimas.
    Ma sacudiu o rabo, dizendo-me que seria bonzinho e obedeceria minhas ordens. Ele fizera uma grande pilha de coc. Peguei-a e amassei-a com os dedos, deixando-o 
saber que eu agora era parte dele e ele era realmente meu. Limpei as mos na grama; vi as formigas virem correndo e as moscas comearem a trabalhar. No era de espantar 
que nada durasse muito.
    - Hora das lies, Bart - chamou John Amos do celeiro, a cabea calva brilhando ao sol.
    Senti-me capturado, deitado no feno e olhando para ele em p junto de mim. Tinha cheiro de velho e azedo.
#106
    - Tem lido fielmente o dirio de Malcolm? - quis saber ele. 
    - Sim, senhor.
    - Est aprendendo o caminho do Senhor e fazendo devidamente suas oraes?
    - Sim, senhor.
    - Aqueles que seguem os passos do Senhor sero julgados com justia, da mesma forma que aqueles que no os seguem. Deixe-me dar um exemplo: Era uma vez uma linda 
menina, que nasceu com uma colher de prata na boca e tinha tudo que o dinheiro pode comprar - mas dava ela valor a tudo que possua? No, no dava! Quando cresceu, 
passou a tentar os homens com sua beleza. Exibia sua semi-nudez aos olhos deles. Era alta e poderosa, mas o Senhor a viu e castigou-a, embora tenha levado algum 
tempo para isso. O Senhor,
por intermdio de Malcolm, obrigou-a a rastejar e suplicar por alvio; e, no final, Malcolm venceu-a. Malcolm sempre vencia todo mundo, no final - e voc tambm 
deve vencer!
    Puxa, ele certamente era capaz de contar estrias chatas! Tnhamos gente nua no jardim e eu no me sentia tentado. Suspirei,
desejando que ele tivesse outros assuntos alm de Deus e Malcolm... e uma maldita menina linda.
    - Previna-se contra a beleza das mulheres, Bart! Cuide-se contra a mulher que lhe mostrar o corpo sem roupas. Acautele-se de todas as mulheres que esto  espreita 
para destrui-lo e seja como Malcolm: esperto!
    Afinal, ele me liberou. Fiquei satisfeito de haver terminado de me fingir de Malcolm. Tudo o que precisei fazer para sentir-me realmente bem foi rastejar sorrateiramente 
pelo solo, escutando os rudos da selva na densa folhagem onde se ocultavam os animais selvagens. Animais perigosos, prontos para devorar-me. Sobressaltei-me. Ergui-me 
de um pulo. No! No podia ser o que eu estava pensando.
Simplesmente no era justo que Deus enviasse um dinossauro. Mais alto que um arranha-cu. Mais comprido que um trem. Precisava fugir dali depressa, encontrar Jory 
e contar-lhe o que havia em nosso quintal.
    Um rudo na selva,  minha frente! Estaquei, sem flego. 
    Vozes. Cobras falantes?
    - Chris, no me importa o que voc diz. No  necessrio voc visit-la outra vez neste vero. Bastante  bastante. Voc j fez o possvel para ajud-la e no 
conseguiu. Portanto, trate de esquec-la
e concentre-se em ns, na sua famlia.
    Dei uma espiada por detrs de um arbusto. Meus pais estavam na parte mais bonita do jardim, onde cresciam as rvores maiores. Mame, ajoelhada, calcava o humo 
em volta das roseiras. Tinha o polegar verde. Ele tambm.
#107
    - Cathy. ser que voc tem que ser uma criana para sempre? - perguntou ele. - Ser que nunca vai conseguir aprender a perdoar
e esquecer? Talvez voc possa fazer de conta que ela no existe, mas eu no posso. Fico pensando que somos a nica famlia que lhe
resta.
    Puxou Mame para ajud-la a levantar-se e cobriu-lhe os lbios com a mo quando ela abriu a boca para interromp-lo.
    - Muito bem, continue a alimentar seu dio. Eu, porm, sou mdico; jurei solenemente fazer o possvel pelos que sofrem. As doenas mentais podem ser mais devastadoras 
que as molstias fsicas.
Quero v-la curada. Quero que ela saia daquele lugar - portanto, no me olhe com raiva nem me venha dizer mais uma vez que
ela nunca foi louca, que est apenas fingindo. Tinha que ser louca, para fazer o que fez. E, ao que sabemos, os gmeos talvez nunca chegassem a ser altos. Como Bart. 
Ele no tem a altura normal de um menino com a sua idade.
    Oh, eu no tinha?
    - Cathy, como poderei me sentir bem comigo mesmo, ou com qualquer coisa, se negligenciar minha prpria me?
    - Muito bem! - esbravejou Mame. - V visit-la! Jory, Bart, Cindy e eu ficaremos com Madame Marisha. Ou podemos voar at Nova York, onde visitarei velhos amigos 
at que voc esteja pronto para tornar a reunir-se a ns.
    Com um sorriso torto, acrescentou:
    - Isto , se ainda deseja reunir-se a ns.
    - Para onde mais eu poderia ir seno para voc? Quem se importa que eu viva ou morra, a no ser voc e nossos filhos? Cathy, pense bem nisso: no dia em que eu 
der as costas  minha me, estarei tambm dando as costas a todas as mulheres, inclusive voc.
    Ento, ela caiu nos braos dele e fizeram todo aquele negcio meloso de amor que eu detestava. Recuei, ainda de gatinhas, pensando no que Mame dissera e tentando 
adivinhar por que ela odiava tanto a prpria me. Senti um pouco de enjo no estmago. E se minha av da manso vizinha fosse mesmo a me de meu padrasto, realmente 
louca, amando-me s porque era obrigada? E se John Amos dizia mesmo a verdade?
    Era to difcil entender. Corrine era realmente filha de Malcolm, como me dissera John Amos? Seria ela quem "tentara" John
Amos? Ou seria que Malcolm odiava algum linda e semi-nua? s vezes, eu ficava confuso aps ler o dirio de Malcolm; ele voltava repentinamente  infncia e escrevia 
sobre suas lembranas mesmo depois de ser adulto, como se a infncia fosse mais importante que a idade adulta. Que esquisito. Eu mal podia esperar por crescer.
   Escutei-os novamente, vindo na minha direo. Rastejei depressa para baixo da sebe mais prxima.
#108
   - Eu o amo, Chris. tanto quanto voc me ama. s vezes, penso que ambos amamos demais. Acordo  noite se voc no estiver ao meu lado. No quero que voc seja 
mdico, mas um homem que fique em casa todas as noites. Quero que meus filhos cresam, mas cada dia que passa os aproxima mais de nosso segredo e tenho muito medo 
que nos odeiem e no compreendam.
    - Compreendero - disse ele.
    Como podia ter tanta certeza de que eu compreenderia, se no conseguia entender mesmo as coisas mais simples, muito menos algo to ruim que fazia Mame acordar 
durante a noite?
    - Cathy, temos sido maus pais? No temos feito o melhor que podemos? Depois de viverem conosco desde a infncia, como
podero deixar de compreender? Explicar-lhes-emos como foi, daremos a eles todos os fatos, de modo que vero a coisa como ns a vivemos. Ao faz-lo, ficaro maravilhados 
- como s vezes eu fico - de termos sobrevivido sem perdermos o juzo.
    John Amos tinha razo. Eles tinham que estar pecando, ou no teriam tanto medo de que no compreendssemos. E qual era o segredo? O que eles ocultavam?
    Permaneci sob a sebe at muito depois que meus pais entraram em casa. Possua tocas prediletas, que cavara profundamente nas sebes, e quando me achava dentro 
delas sentia-me como um animalzinho do mato, com medo de tudo que fosse humano e que me
mataria, se possvel. 
    Malcolm povoava minha mente - ele e seu crebro to sbio e ladino. Pensei em John Amos, que me ensinava a respeito de Deus,
da Bblia e do pecado. S quando pensei em Ma e em minha av comecei a sentir-me bem. No muito bem, s um pouco.
     Colei-me ao solo e passei a farejar em volta, procurando algo que enterrara ali na semana anterior, ou um ms atrs. Olhei tambm no pequeno lago de peixes 
que Papai fazia questo que tivssemos, a fim de podermos ver como nasciam os peixinhos. Eu vira peixes minsculos sarem dos ovos e os pais nadarem como loucos, 
querendo devorar os prprios filhos!
    Fitei a gua. L estava meu rosto, parecendo muito engraado, contornos irregulares, cabelos levantados em pontas - no encaracolados e bonitos como os de Jory. 
Havia algo vermelho escuro em minha cara - uma cara feia, que no combinava com o belo jardim onde os pssaros vinham banhar-se num elegante chafariz. Eu sangrava 
lgrimas. Molhei a mo na gua dos peixes e lavei o rosto. Depois, sentei-me para pensar. Foi ento que vi o sangue em minhas pernas - muito sangue, que secava num 
grande cogulo escuro em meu joelho. Na verdade, no importava muito, pois no doa.
    Como foi que me feri? Relembrei meu rastejar e segui o trajeto com o olhar. Aquela tbua com o prego enferrujado - teria
#109
cravado o prego no joelho? Engatinhei at a tbua e senti o sangue pegajoso na beirada. Papai chamava buracos de pregos na pele de
orifcios" e creio que eu tinha um.
    - Ora,  muito importante que um orifcio, uma ferida penetrante, sangue livremente - explicara ele.
    Minha ferida no sangrava livremente.
     Coloquei o dedo na ferida e esfreguei o sangue, para que escorresse. Gente esquisita e diferente, como eu, podia fazer coisas
horrveis como aquela, ao passo que gente fresca como Mame ficaria enojada. O sangue em minha ferida era quente e grosso, exatamente como aquele coc parecido com 
um pudim que Ma costumava fazer e que eu esmagara com os dedos para torn-lo unicamente meu; mas causava uma sensao gostosa.
    Talvez eu no fosse to esquisito, afinal, pois de repente comecei a sentir dor de verdade. Dor forte.
    - BART! - berrou Papai da varanda dos fundos. - Venha imediatamente para casa! A menos que deseje levar uma surra!
    Quando estavam na sala de jantar, no podiam ver-me entrar sorrateiramente pela porta de correr da sala de estar ntima - e
foi exatamente o que fiz.
    No banheiro, lavei as mos e vesti o pijama, para esconder o joelho ferido. Depois, quieto e obediente, juntei-me ao resto da famlia  mesa.
    - Bem, j era tempo - disse Mame, que estava muito bonita.
    - Bart, por que insiste em criar encrencas toda vez que nos sentamos para comer? - perguntou Papai.
    Baixei a cabea, sem arrependimento, apenas no me sentindo bem. O joelho estava mesmo latejando de dor e o que John Amos
dissera a respeito de Deus castigar os desobedientes devia estar certo. Eu fora julgado e meu fogo do inferno era um orifcio de prego no joelho.
    No dia seguinte, voltei ao jardim, escondendo-me num de meus lugares especiais. Passei o dia inteiro sentado l, satisfeito com minha dor, que significava que 
eu no era excepcional, mas um menino normal. Estava sendo castigado como todos os pecadores, que sempre sentiam dores. No queria jantar. Precisava visitar Ma. 
No me lembrava se j estivera ou no no celeiro. Bebi um pouco de gua do lago dos peixes, lambendo a superfcie como um gato.
    Mame passara o dia inteiro arrumando as bagagens, sorrindo at mesmo de manh cedo, quando arrumou minhas roupas numa mala, em primeiro lugar.
    - Bart, tente comportar-se bem hoje, para variar. Venha fazer as refeies no horrio e Papai no precisar bater em voc antes da hora de ir para a cama. Ele 
no gosta de castig-lo, mas precisa dar um
#110
jeito de lhe incutir disciplina. E tente comer melhor. No aproveitar a Disneylndia se estiver doente. 
    O pr do sol tingiu o cu azul de cores lindas. Jory correu para o quintal a fim de observar as cores que ele dizia serem como msica. Jory era tambm capaz 
de "sentir" as cores, que o tornavam alegre, triste, solitrio e "mstico". Mame era outra que conseguia "sentir" as cores. Agora, que eu estava conhecendo a capacidade 
de sentir
dor, talvez logo aprendesse a sentir tambm as cores.
     A noite comeou a cair de verdade. O escuro podia trazer os fantasmas. Emma tocou a campainha a fim de me chamar para o jantar. Eu desejava muito ir, mas no 
pude.
     Algo podre estava no oco da rvore atrs de mim. Virei-me e engatinhei para fora da toca, olhando para o escuro buraco na rvore. Ovos podres l dentro! Ufa! 
Enfiei a mo devagar, tateando  procura do que no conseguia enxergar. Algo rgido, frio, coberto de plos! A coisa morta tinha no pescoo uma coleira com pontas 
que me arranharam a mo - seria arame farpado? Aquela coisa podre seria Trevo?
   Solucei, transido de medo.
     Eles pensariam que eu matara Trevo.
   Sempre pensavam que eu fazia tudo que era mau. E eu amava Trevo, no duro. Sempre desejei que ele gostasse mais de mim que de Jory. Agora, o pobre Trevo jamais 
moraria naquela bela casa de cachorro que eu terminaria algum dia.
    Jory veio pela alameda principal do jardim, chamando-me e procurando por mim.
    - Saia de onde est, Bart! No crie encrencas, agora que estamos de partida.
    Encontrei uma nova cova, que ele ainda no conhecia, e deitei-me de bruos.
    Jory se foi. Em seguida, veio Mame.
    - Bart! - chamou ela. - Se no vier logo... Por favor, Bart. Estou arrependida do tapa que lhe dei esta manh.
    Funguei, procurando conter as lgrimas de auto-comiserao. Por mero acidente, eu derramara uma caixa inteira de detergente na
lavadora de pratos, querendo ajudar. Como poderia adivinhar que uma caixinha pequena era capaz de produzir um verdadeiro oceano
de espuma? As bolhas de sabo encheram a cozinha.
     Desta vez, veio Papai:
   - Bart, entre para jantar - disse num tom de voz normal. - No precisa ficar amuado. Sabemos que foi um acidente. Est perdoado. Compreendemos que voc quis apenas 
ajudar Emma. Portanto, entre.
    Continuei sentado, com remorso de faz-los sofrer ainda mais. A voz de Mame demonstrara pnico, como se ela me amasse -
#111
mas como poderia ela me amar, se eu fazia tudo errado? No merecia o seu amor.
    A dor no joelho estava muito pior. Talvez eu tivesse ttano. Os colegas na escola tinham-me contado tudo sobre a maneira pela qual o ttano faz as pessoas trincarem 
os dentes, de modo que no podem comer e os mdicos tm que arrancar os dentes da frente para enfiarem pelo buraco um tubo atravs do qual o doente chupa sopa.
Em breve a ambulncia chegaria ruidosamente  nossa casa e, comigo l dentro, tocaria a sirene at o hospital de Papai. Levar-me-iam
para a sala de emergncias e um cirurgio mascarado gritaria: "Vamos cortar essa perna podre e fedorenta!" Amputariam a perna acima do joelho e eu ficaria com um 
toco cheio de veneno que acabaria me levando para o caixo.
     Seria enterrado naquele cemitrio em Clairmont, na Carolina do Sul. Tia Carrie estaria a meu lado e, afinal, teria algum pequeno como ela para lhe fazer companhia. 
Mas eu no seria Cory. Eu era eu mesmo, a ovelha negra da famlia - ou assim John Amos me chamara certa vez, quando se zangou comigo por brincar com a sua dentadura.
    Deitado de costas, os braos cruzados sobre o peito, fiquei exatamente como Malcolm Neal Foxworth, olhando para cima  espera da chegada do inverno e, depois, 
do vero - que traria consigo mame, Papai, Jory, Cindy e Emma de visita  minha sepultura. Dentro da cova, eu sorriria rigidamente, no permitindo que eles
soubessem que eu gostava muito mais da mortfera parasita barba-de-velho que das fedorentas rosas com espinhos agudos.
    Minha famlia se retiraria. Eu ficaria preso dentro da terra, no escuro, para o resto da eternidade. Quando, afinal, eu estivesse na terra fria, sob a neve, 
no seria obrigado a fazer de conta que era
Malcolm Neal Foxworth. Imaginei Malcolm quando era velho. Frgil, cabelos ralos, manco como John Amos, e s um pouco menos feio que John Amos, que era muito feio.
     Em cima da hora, eu resolveria todos os problemas de Mame; e Cindy poderia viver em paz para sempre.
     Agora, que eu estava morto.

FERIMENTOS DE GUERRA

    A hora do jantar chegou e passou. A hora de dormir se aproximava e Bart ainda no aparecera. Tnhamos todos procurado por
ele, mas fui eu quem mais persistiu na busca. Era eu quem o conhecia melhor.
#112
    - Jory - disse Mame -, se voc no o encontrar dentro de dez minutos, chamarei a polcia.
    - Eu o encontrarei - afirmei, soando muito mais confiante do que realmente me sentia.
    No gostava do que Bart estava fazendo a nossos pais. Estes faziam o melhor possvel por ns. No se divertiriam muito visitando
a Disneylndia pela quarta vez. Era um presente para Bart e este era por demais idiota para entender isso.
     Alm disso, era mau. Mame e Papai deviam castig-lo severamente e no fazer-lhe a vontade, como costumavam. Ele aprenderia,
afinal, que eles se importavam o bastante para castig-lo pelas maldades cometidas.
    No obstante, quando eu lhes mencionara o assunto uma ou duas vezes, ambos haviam explicado que tinham aprendido da pior
maneira possvel a respeito de pais rigorosos e cruis. Na ocasio, achei
estranho que ambos tivessem o mesmo tipo de pais desalmados, mas minha professora costumava dizer que era mais comum os plos
iguais se atrarem, em vez dos opostos. E bastava-me olhar para eles para perceber que isso era verdade. Ambos tinham o mesmo tom
de cabelos louros, a mesma cor nos olhos azuis, as mesmas sobrancelhas escuras e clios compridos, negros e curvos - embora Mame usasse maquilagem e Papai brincasse 
com ela, pois achava que isso no era necessrio.
     No, eles no castigariam Bart severamente, nem mesmo quando ele era malvado, pois tinham aprendido por experincia prpria o mal que isso poderia causar.
     Puxa, como Bart gostava de falar em maldade e pecado! Um novo tipo de conversa, como se ele andasse lendo a Bblia e tirando
dela a mesma espcie de idias que alguns pregadores berravam dos plpitos. Era at mesmo capaz de citar trechos da Bblia - algo do Cntico dos Cnticos de Salomo, 
sobre o amor de um irmo pela irm cujos seios eram...
     Ora, eu nem gostava de pensar naquele tipo de coisa. Deixava-me nervoso - ainda mais nervoso que quando Bart dizia o quanto odiava tmulos, velhas, cemitrios 
e quase tudo o mais. dio era uma emoo que ele tinha com freqncia, pobre menino.
     Procurei-o em sua cova nos arbustos e vi um pedao rasgado de sua camisa. Mas ele no estava ali agora. Peguei uma tbua destinada
 casa de cachorro que Bart estava  construindo e olhei para a  ponta do prego, enferrujada e suja de sangue.
     Teria ele se ferido no prego e se arrastado para morrer em algum lugar? Morte era o nico assunto no qual ele falava ultimamente, excluindo meno aos que j 
estavam mortos. Bart estava sempre rastejando e engatinhando, farejando o solo como um co, at mesmo urinando como um co. #113
Puxa, era mesmo um garotinho confuso!
    - Bart, aqui  Jory. Se quer passar a noite aqui fora, eu permitirei e no contarei a nossos pais... mas faa ao menos algum rudo para eu saber que est vivo.
    Nada.
    Nosso quintal era grande, cheio de arbustos, rvores e sebes floridas que Mame e Papai tinham plantado. Circundei um arbusto de camlia. Oh, Deus... seria aquilo 
o p descalo de Bart?
     L estava ele, meio escondido debaixo da sebe, com apenas as pernas estendidas para fora. Eu no o vira antes porque aquele no
era o local onde costumava esconder-se. Agora estava escuro de verdade e o nevoeiro dificultava ainda mais a viso.
     Puxei-o delicadamente de baixo da sebe, imaginando por que motivo ele no reclamava. Olhei para o rosto corado e febril, os olhos
toldados fitando-me inexpressivamente.
    - No me toque - gemeu ele. - Estou quase morto... quase. 
    Peguei-o no colo e corri. Ele chorava, dizendo que a perna doa...
    - Jory, no quero morrer. No duro.
    Quando Papai o pegou no colo e colocou no carro, Bart estava inconsciente.
    - No posso acreditar - disse Papai. - A perna est inchada, o triplo do tamanho normal. S rezo para que no tenha gangrena.
    Eu sabia a respeito da gangrena - era capaz de matar as pessoas! 
    No hospital, Bart foi levado imediatamente para a cama e outros mdicos vieram examinar-lhe a perna. Tentaram obrigar Papai a sair do quarto, pois era contra 
a tica mdicos tratarem de pessoas da famlia. Demasiado envolvimento emocional, presumi.
    - No! - protestou violentamente Papai. - Ele  meu filho e vou ficar para ver o que fazem por ele!
    Mame chorava o tempo todo, ajoelhada e segurando a mo inerte de Bart. Eu me sentia doente por dentro, tambm, pensando que no fizera o suficiente para ajudar 
meu irmo.
    - Ma, Ma - choramingava Bart sempre que entreabria os olhos. - Preciso de Ma.
    - Chris - perguntou Mame -, ele no pode comer uma ma?
    - No. No pode comer nessas condies.
    Em que terrvel estado se encontrava Bart. O suor lhe banhava a testa, o corpo pequeno e magro ensopava os lenis. Mame comeou a soluar de verdade.
#114
    - Tire sua me deste quarto - ordenou-me Papai. - No quero que ela assista a tudo isto.
    Enquanto Mame chorava na sala de espera na extremidade do corredor, voltei furtivamente ao quarto particular onde Bart estava e vi Papai injetar-lhe penicilina 
no brao. Prendi a respirao.
    - Ele  alrgico  penicilina? - indagou um mdico.
    - No sei - respondeu Papai com seu jeito calmo. - Nunca teve antes uma infeco grave. A esta altura, no h muito que
possamos fazer exceto correr o risco. Aprontem tudo para o caso de haver alguma reao.
    Virou-se e viu-me encolhido no canto, tentando manter-me fora do caminho dos outros.
    - Filho, fique perto de sua me. Nada pode fazer aqui para ajudar.
    No consegui mover um msculo. Por algum motivo - talvez remorso por negligenciar meu irmo - tinha que ficar e v-lo vencer a doena. Logo Bart piorou ainda 
mais. Papai franziu a testa, fez sinal para uma enfermeira e dois outros mdicos entraram no quarto. Um deles inseriu um tubo na narina de Bart. Em seguida, ocorreu 
algo to horrvel que nem consegui acreditar: verges vermelhos e salientes brotaram por todo o corpo de Bart. Vermelhos como fogo. E coavam, pois os dedos dele 
se moviam de um vergo para outro. Ento, Papai ergueu Bart e o colocou numa maca, para que dois
serventes pudessem lev-lo do quarto.
    - Papai! - exclamei. - Para onde vai essa maca? Eles no vo cortar a perna de Bart, vo?
    - No, filho - respondeu ele calmamente. - Seu irmo est sofrendo uma violenta reao alrgica. Temos que agir depressa e
fazer uma traqueotomia antes que os tecidos da garganta se inflamem e cortem a passagem do ar.
    - Chris - chamou o mdico que empurrava um dos lados da maca. - Tudo bem. Tom abriu uma passagem de ar. No h necessidade de traqueotomia.
    Passou-se um dia e Bart no melhorou. Parecia provvel que se coaria at ficar com o corpo todo ferido e morreria de um outro tipo de infeco. Com um horror 
fascinado, permaneci l at muito tarde, observando os dedos curtos e inchados de meu irmo se mexerem convulsivamente no esforo intil de aliviar o tormento da 
coceira. O corpo inteiro estava cor de escarlate. Pude perceber que o estado de Bart era muito grave pela expresso no rosto de Papai e
pelas atitudes dos outros mdicos que rodeavam a cama. Ento, as mos de Bart foram amarradas com ataduras, a fim de no poderem coar. Em seguida, seus olhos se 
inflamaram tanto que pareciam dois enormes ovos de gansos, s que vermelhos. Os lbios incharam, projetando-se sete centmetros alm da posio normal.
#115
    No consegui acreditar que tudo aquilo pudesse ocorrer devido apenas a uma reao alrgica.
    - Oh! - exclamou Mame, agarrando-se com fora a Papai, os olhos grudados em Bart.
    Tive a impresso de que ele estava doente h uma eternidade. Passou-se o segundo dia e Bart ainda no melhorou. Passou seu dcimo aniversrio num leito de hospital, 
delirante e desvairado, sua
quarta viagem  Disneylndia cancelada, nossa viagem de volta  Carolina do Sul adiada por mais um ano.
    - Vejam - disse Papai, apontando, uma expresso de esperana surgindo no rosto fatigado. - Os verges esto diminuindo.
    O segundo obstculo fora ultrapassado. Julguei que, agora, Bart melhoraria depressa. No foi assim. Sua perna inchou ainda mais - e logo se constatou que ele 
era alrgico a todos os antibiticos disponveis no hospital.
    - O que vamos fazer? - chorava Mame, com tamanha ansiedade que comecei a temer pela sade dela.
    - Estamos fazendo tudo o que  possvel - foi tudo que papai disse.
    - Oh, Senhor, por que me abandonaste? - murmurou Bart em seu delrio.
    As lgrimas me escorriam pelo rosto, pingando como gotas de chuva na camisa.
    - O Senhor no o abandonou - disse Papai.
    Ajoelhou-se ao lado da cama de Bart e rezou, segurando com fora a mozinha de meu irmo, enquanto Mame dormia numa cama colocada no quarto, para seu uso. Ela 
no sabia que os comprimidos que Papai lhe dera eram tranqilizantes, e no aspirina para
sua dor de cabea. Estava por demais perturbada para sequer reparar na cor do remdio.
    Papai pousou a mo em minha cabea.
    - V para casa dormir, filho. J fez tudo o que era possvel aqui.
    Levantei-me devagar, rgido por ter permanecido tanto tempo na mesma posio, e me encaminhei para a porta. Quanto lancei a
Bart um ltimo e prolongado olhar, Papai se acomodava na cama, atrs e minha me.
   No dia seguinte, Mame teve que correr da aula de bal para o hospital, deixando-me sozinho para aquecer os msculos  msica
de piano.
   - A vida continua, Jory. Esquea um pouco os problemas de seu irmo, se puder. Junte-se a ns mais tarde.
   Mal ela saiu, algo me veio  cabea. Ma! Claro! Bart no queria uma ma... queria o seu co - o seu pnei-filhote de co!
#116
   Em menos de dez minutos, tirei a malha de dana e fui a uma cabine telefnica ligar para Papai.
    - Como est Bart? - indaguei.
    - No muito bem, Jory. No sei como contar  sua me, mas o especialista que est cuidando de Bart deseja amputar-lhe a perna antes que a infeco possa enfraquec-lo 
ainda mais. No posso permitir isso... mas, ainda assim, no queremos perder Bart.
    - No deixe que amputem! - quase berrei. - Diga a Bart... obrigue-o a escutar... que vou para casa cuidar de Ma. Por favor,
no cortem a perna de Bart!
    S Deus sabia o quanto Bart se sentiria ainda mais inferior se perdesse a perna.
    - Jory, seu irmo jaz na cama e se recusa a cooperar. No procura melhorar. Parece que deseja morrer. No podemos aplicar-lhe qualquer antibitico e a febre 
est aumentando. Mas concordo com voc. Deve existir algo que possamos fazer para baixar a febre.

    Pela primeira vez na vida, peguei uma carona para casa. Uma delicada senhora deixou-me no sop da colina e corri o resto do caminho. Quando Bart soubesse que 
Ma estava bem, ficaria bom. Procurava castigar-se, da mesma forma que esmurrava um tronco de rvore quando quebrava alguma coisa. Solucei, compreendendo que meu 
irmo menor era mais importante para mim do que eu julgava. O garotinho biruta que no gostava muito de si mesmo... Escondendo-se em suas brincadeiras de "faz-de-conta", 
contando estrias inventadas para impressionar todo mundo. Havia muito tempo, Papai me
dissera: "... finja acreditar nas estrias dele, Jory." Talvez tivssemos fingido demais.
    Prendi a respirao ao ver Ma no celeiro da manso. Estava acorrentado a uma estaca cravada no solo, com uma tigela de rao para ces fora de seu alcance.
     O plo espesso e embaraado contava a estria de sua fome. O pobre co estava arquejante e sujo, olhando-me com ar de splica. Quem fizera aquilo? Ma arranhara 
o cho com as patas em seus esforos para chegar  comida e agora, ainda no passando de um filhote crescido demais, ofegava, deitado no cho do celeiro, cuja porta 
fora trancada cruelmente.
    - Tudo bem, rapaz - disse eu, tranqilizando-o, ao pegar gua fresca para ele.
    Ma bebeu com tanta avidez que fui obrigado a faz-lo parar. Eu conhecia um pouco de primeiros socorros. Os animais, como as pessoas, deviam beber aos poucos 
aps um prolongado perodo de sede. Em seguida, soltei Ma e fui  prateleira de suprimentos, pegando o que me pareceu melhor em meio a uma comprida fila de latas. 
Ma #117
morria de fome cercado por abundncia. Quando passei a mo pelo flanco coberto de plos emaranhados e sem lustro, pude sentir as costelas. O co, antes to bonito, 
estava magro e sujo.
     Depois que ele comeu e bebeu bastante, escovei-lhe o espesso manto de plos. Ento, sentei-me no cho de terra e segurei-lhe a
grande cabea no colo.
    - Bart voltar para voc, Ma. E prometo-lhe que vir com duas pernas. No sei quem lhe fez isto, mas pode apostar que vou descobrira.
    O que mais me preocupava era a terrvel suspeita de que a prpria pessoa que mais amava Ma fosse quem o castigara e deixara
faminto. Bart tinha um modo deveras estranho de raciocinar. A seu ver, se Ma realmente sofresse durante sua ausncia, ficaria dez
vezes mais satisfeito e grato ao v-lo de volta.
     Seria Bart capaz de tamanha crueldade?
   L fora, o dia de julho estava moderadamente quente. Ao me aproximar da manso, escutei as vozes baixas de duas pessoas. A velha vestida de negro e o sinistro 
velho mordomo, ambos sentados num ptio verdejante de belas palmeiras plantadas em vasos e samambaias em grandes urnas de pedra.
    - John, creio que devemos ir mais uma vez verificar o cachorro de Bart. Ficou to satisfeito por ver-me hoje de manh que no
consegui entender por que estava to faminto. Precisa mesmo mant-lo acorrentado daquela maneira? Parece-me uma crueldade, num dia to bonito como hoje.
    - Madame, no  um dia bonito - replicou o mordomo de aparncia malvada, bebericando uma cerveja escarrapachado numa espreguiadeira. - Como a senhora insiste 
em usar roupas pretas,  natural que sinta mais calor que as outras pessoas.
    - No pedi sua opinio sobre minhas roupas. Quero saber por que motivo mantm Ma acorrentado.
    - Por que ele poderia fugir  procura do jovem dono - replicou o mordomo, sarcstico. - Creio que a senhora no pensou nisso.
    - Voc podia trancar a porta do celeiro. Vou ver Ma novamente. Pareceu-me to magro, to desesperado.
    - Madame, se quer preocupar-se, faa-o com algo mais importante. Preocupe-se com seu neto, que est prestes a perder a perna.
    Ela comeara a levantar-se da cadeira, mas, ao ouvir aquilo, afundou-se outra vez nas almofadas.
    - Oh... Ele piorou? Emma e Martha tornaram a conversar hoje de manh?
    Suspirei, sabendo que Emma gostava de trocar mexericos e no devia faz-lo. Todavia, no acreditei que ela realmente dissesse coisas importantes. Nunca me revelara 
segredos. E Mame nunca tinha tempo para escut-la.
#118
    - Claro que conversaram - resmungou o velho mordomo. - J ouviu falar em alguma mulher que no goste de conversar? Aquelas
duas usam escadas todos os dias, para trocarem mexericos. No obstante, quem ouve Emma falar julga que o mdico e a mulher so
perfeitos.
    - John, o que descobriu Martha a respeito de Bart? Diga-me!
    - Bem, Madame, parece que o garoto conseguiu espetar um prego enferrujado no joelho e agora est com gangrena - o tipo
que exige a amputao do membro, ou o paciente morre.
    Do meu esconderijo, olhei para os dois que conversavam sentados, uma muito perturbada e o outro totalmente  despreocupado, quase divertido com a reao da patroa.
    -  mentira! - gritou a mulher, erguendo-se de um pulo. - John, voc mente para me torturar ainda mais. Sei que Bart ficar bom. O pai dele saber o que fazer 
para cur-lo. Sei que saber. Tem que saber...
    Ento, comeou a chorar. Tirou o vu e enxugou as lgrimas. Vi-lhe o rosto de relance, no notando tanto as cicatrizes, desta vez, mas apenas a expresso de 
sofrimento. Gostaria realmente tanto de
Bart? Por que haveria de gostar? Seria realmente av de Bart?... No, no podia ser. A av dele estava internada num manicmio da Virgnia.
    Avancei, a fim de que minha presena fosse notada. A mulher pareceu surpresa por ver-me. Ento, lembrou-se do rosto descoberto e recolocou depressa o vu.
    - Bom dia - disse eu, dirigindo-me unicamente  mulher e ignorando o mordomo, ao qual no conseguia deixar de detestar. -
Escutei o que disse seu mordomo, Madame, e ele s tem razo at certo ponto. Meu irmo est muito doente, mas no tem gangrena.
E no perder a perna. Meu pai  muito bom mdico para permitir que isso acontea.
    - Jory, tem certeza de que Bart ficar bom? - indagou ela, muito preocupada. - Ele me  muito querido... nem consigo explicar o quanto...
    Engasgou-se e baixou a cabea, torcendo convulsivamente as mos magras cheias de anis.
    - Sim, Madame - respondi. - Se Bart no fosse alrgico  maioria dos remdios que os mdicos lhe ministraram, a infeco j estaria debelada - mas, a longo prazo, 
isso no far diferena, pois meu pai saber o que fazer para cur-lo. Meu pai sempre sabe
o que fazer.
    Virei-me para o mordomo e tentei assumir uma atitude de autoridade adulta:
    - E quanto a Ma, no precisa ficar acorrentado num celeiro quente, com todas as janelas fechadas. E no precisa que a gua e
#119
a comida sejam colocadas fora de seu  alcance. No sei o que se passa aqui, nem por que motivo voc gosta de fazer um cachorro bom como aquele sofrer - mas acho 
melhor tratar bem dele se no quer que eu o denuncie  Sociedade Protetora dos Animais!
    Girei nos calcanhares e comecei a me afastar. 
    - Jory! - chamou a mulher de negro. - Fique! No saia agora. Quero saber mais a respeito de Bart.
    Virei-me para encar-la.
    - Se deseja ajudar meu irmo, s h uma coisa que pode fazer: deixe-o em paz! Quando ele voltar, invente alguma boa desculpa e
diga-lhe que no pode ser incomodada - mas no o magoe. 
    Ela tornou a falar, pedindo-me para ficar e falar, mas segui meu caminho, pensando que fizera algo para proteger Bart - embora no soubesse contra o que.
    Naquela mesma noite, a febre de Bart subiu muito. Os mdicos mandaram que ele fosse enrolado numa coberta trmica que funcionava como refrigerador. Observei 
meu pai e minha me, vendo-os trocando olhares, tocando-se, fortalecendo-se mutuamente. Por estranho que parea, ambos se voltaram para pegar cubos de gelo e esfreg-los 
nos membros e no peito de Bart. Agiam como se fossem uma s pessoa, sem necessidade de palavras. Engasguei-me e baixei a cabea, comovido por aquele tipo de amor 
e compreenso. Tive mpetos de tomar a palavra e contar-lhes a respeito da mulher da manso, mas prometera a Bart guardar segredo. Meu irmo encontrara a primeira 
pessoa amiga em sua vida, bem como o primeiro animal capaz de toler-lo; no obstante, quanto mais tempo eu ocultasse
o que sabia, mais meus pais poderiam magoar-se, a longo prazo. Por que eu tinha que pensar isso? Como podia saber que a velha magoaria meus pais?
     No sei como, tinha certeza de que ela o faria. Sabia que algum dia ela os feriria. Desejei ser adulto, capaz de tomar as decises adequadas.
      medida que ficava mais sonolento, lembrei-me da expresso que Papai costumava usar: "Deus age de maneiras estranhas para
realizar suas maravilhas".
     A prxima coisa de que me dei conta foi que Papai me sacudia para me acordar.
    - Bart est melhor! - exclamou ele. - Bart ficar bom e no perder a perna!

    Devagar, dia a dia, aquela hedionda perna inchada diminua de tamanho. Gradativamente, retornou  colorao normal, embora Bart parecesse abatido e indiferente, 
fitando o vcuo, sem falar com ningum.
#120
    Certa manh, estvamos  mesa do caf, quando Papai esfregou os olhos fatigados e nos informou algo incrvel:
    - Cathy, voc no vai acreditar, mas os tcnicos do laboratrio encontraram uma coisa estranha na cultura que retiraram da perna de Bart. Desconfivamos de ferrugem; 
eles encontraram ferrugem, que causou o ttano, mas descobriram tambm a exata espcie de estafilococos geralmente associada a fezes frescas de animais.  um
verdadeiro milagre que Bart no tenha perdido a perna. 
    Mame, parecendo plida e cansada o bastante para estar doente, meneou levemente a cabea antes de recost-la no ombro dele.
    - Se Trevo ainda estivesse aqui, eu compreenderia facilmente de que modo Bart poderia...
    - Voc sabe como  o nosso Bart. Se houver algo imundo num raio de dois quilmetros, ser ele quem pisar, se arrastar na coisa, ou a pegar para examin-la. 
Sabe de uma coisa? Ontem  noite, quando ele no parava de falar em mas, dei-lhe a que levei comigo e ele a deixou cair no cho, no demonstrando o menor interesse.
    Mame fechou os olhos, enquanto ele prosseguiu: 
    - Quando anunciei que no iramos ao Leste, percebi que ele ficou satisfeito.
Ento, olhou para mim:
    - Jory, espero que no esteja muito desapontado. Teremos que esperar at o prximo vero para visitarmos sua av. Ou talvez possamos ir no Natal, se eu conseguir 
folga para viajar.
    Eu alimentava pensamentos malvados. Bart sempre conseguia o que desejava. Imaginara um meio seguro de evitar visitar "velhas
sepulturas e velhas avs". At mesmo abrira mo da Disneylndia. E no era do feitio de Bart abrir mo de coisa alguma.

    Naquela noite, fiquei sozinho com Bart, enquanto Papai e mame conversavam com amigos no corredor. Contei a Bart a conversa
que eu escutara entre a velha e o mordomo.
    - L estavam eles, Bart, ambos sentados no terrao. Ela estava muito preocupada com voc.
    - Ela me ama - declarou ele, orgulhoso, a voz muito sumida. - Ela me ama mais que qualquer outra pessoa... - fez uma leve pausa, parecendo em dvida, e logo 
acrescentou: com exceo, talvez, de Ma.
    Bart, disse eu com meus botes, no pense assim. Contudo, no tive coragem de falar e estragar seu orgulho por ter encontrado amor fora de nossa famlia. Com 
emoes confusas, observei-lhe o rosto
expressivo, meus sentimentos embaralhados de incerteza. Que tipo de irmo mais moo possua eu? Certamente, ele tinha que saber
que seus pais o amavam mais que qualquer outra pessoa.
#121
    - Vov tem medo daquele velho mordomo, mas eu sei lidar com ele - afirmou Bart. - Possuo poderes ocultos, realmente fortes.
    - Bart, por que continua indo quela casa? 
    Ele sacudiu os ombros, fitando a parede.
    - No sei. Apenas tenho vontade.
    - Bem sabe que Papai lhe daria um cachorro, de qualquer raa que voc desejasse. S precisa pedir e ele lhe dar um filhote de So Bernardo igualzinho a Ma.
    Seu feroz olhar de raiva me trespassou.
    - No existe outro cachorro igual ao meu pnei-filhote de co! Ma  especial.
    Mudei de assunto.
    - Como sabe que aquela velha tem medo do mordomo? Ela lhe contou?
    - No precisa contar. Posso perceber. Ele a olha com maldade. Ela o olha com medo.
     Com medo - exatamente da maneira como eu estava comeando a olhar para tudo.

DE VOLTA AO LAR

    Era timo como Mame se preocupava comigo. No duraria muito. Ela mudaria logo que eu ficasse curado. Duas longas semanas
neste fedorento hospital onde queriam cortar minha perna e queim-la na fornalha. Sentia-me feliz ao olhar para baixo e ver a perna
ainda no mesmo lugar. Puxa! Eu mal podia esperar para voltar  escola e contar a todos que minha perna quase fora "amputada".
Ficariam impressionados. Eu era feito de material excelente, que se recusava a apodrecer ou morrer. E no chorara. Era valente, tambm. 
     Lembrei-me de como Papai ficara perto de mim, parecendo triste e preocupado. Talvez ele realmente me amasse, embora eu no fosse
seu filho de verdade. 
    - Papai! - exclamei ao v-lo. - Posso perceber que tem boas notcias.
    -  timo ver voc to animado e com aparncia to feliz - disse ele, sentando-se na beirada da cama e abraando-me antes de
me beijar. Embaraoso. - Bart, tenho grandes notcias. Sua temperatura est normal. O joelho vem cicatrizando muito bem. Contudo,
ser filho de um mdico tem suas vantagens. Vou tir-lo do hospital ainda hoje. Se no o fizer, temo que voc definhe e acabe sumindo. Uma vez em casa, sei que a 
deliciosa comida de Emma logo cobrir de msculos esse esqueleto.
#122
    Olhou-me com ar bondoso, como se eu lhe importasse tanto quanto Jory; tive vontade de chorar.
    - Onde est Mame? - perguntei.
    - Tive que sair cedo, de modo que ela ficou em casa preparando uma festa especial para comemorar seu retorno - portanto.
voc no pode reclamar, no ?
    Claro que podia! Eu a queria aqui comigo! Aposto que ela no veio porque teve que mimar aquela tal Cindy, colocando-lhe lacinhos nos cabelos. Permaneci calado 
e deixei que Papai me carregasse at o carro. Era gostoso sair ao sol, voltando para casa.
     No vestbulo, Papai colocou-me de p sobre as pernas vacilantes. Olhei para Mame, que se dirigiu primeiro a Papai e beijou-lhe o rosto - quando eu estava ali, 
desejando ser beijado em primeiro lugar. Eu sabia por que ela agia assim: agora, tinha medo de mim. Via meu corpo magro, o rosto ossudo e feio. Esforava-se por 
sorrir
quando olhava para mim. Encolhi-me quando ela se aproximou para cumprir seu dever para com o filho que no morrera. Quanta  felicidade fingida! Eu sabia que ela 
no me amava, que no me queria mais. E l estava Jory, tambm, sorridente e fingindo estar feliz por ver-me de volta ao lar, quando eu sabia que todos eles gostariam 
de me ver morto. Senti-me como Malcolm quando era menino, indesejvel e abandonado, to malditamente infeliz.
    - Bart, meu querido! - exclamou Mame. - Por que parece to tristonho? No se alegra por estar de volta?
    Tomou-me nos braos e tentou beijar-me, mas libertei-me com um safano. Vi-lhe o rosto magoado, mas isso no importava. Ela
estava apenas fingindo, como eu era obrigado a fingir o tempo todo.
    -  to bom ter voc de volta em casa, querido - continuou ela com suas mentiras. - Emma e eu passamos a manh inteira ocupadas
em planejar o que poderemos fazer para torn-lo feliz. Desde que reclamou tanto da comida horrvel do hospital, preparamos todos os seus pratos preferidos.
    Ela tornou a sorrir e, mais uma vez, estendeu os braos para me pegar, mas eu no permitira que se insinuasse com as "manhas
femininas" de que me falava John Amos. Boa comida, sorrisos e beijos faziam parte das "manhas femininas".
    - Bart, no seja to ctico. Emma e eu preparamos todos os seus pratos prediletos.
    Limitei-me a encar-la. Ela ficou vermelha, depois disse com esforo:
    - Sabe, os que voc aprecia mais.
    Continuou obrigando-se a ser delicada, enquanto Papai veio trazer-me uma bengala.
    - Apoie a maior parte do peso na bengala at seu joelho ficar mais forte.
#123
    Era um tanto divertido mancar pela casa como um velho, como Malcolm Foxworth. Gostava de que eles me mimassem, ficando
preocupados quando eu no comia. Nenhum dos presentes que me deram poderia comparar-se aos que me daria minha av, na manso
vizinha.
    - Bolas, Bart! - sussurrou Jory durante o jantar. - Precisa mostrar-se to ingrato? Todo mundo se esforou muito para agrad-lo.
    - Detesto torta de ma.
    - Voc disse que torta de ma era seu doce preferido.
    - Nunca disse isso! Tambm detesto galinha... e pur de batatas... e salada de verdura - detesto tudo!
    - Acredito - disse um irmo desgostoso, que me deu as costas e ignorou algum to exigente quanto eu.
    Ento, ele estendeu a mo para pegar uma coxa de galinha no meu prato.
    - Bem, j que voc no quer comer, no devemos deixar que estrague...
    Comeu a galinha toda. Agora, eu no poderia entrar sorrateiramente na cozinha durante a noite e empanturrar-me quando eles no estivessem observando. Pois que 
se preocupassem com o fato de eu definhar at ser apenas pele e ossos, indo terminar numa cova mida e fria. Descobririam o quanto sentiriam falta de mim.
    - Bart, por favor, tente comer um pouquinho - implorou Mame. - O que h de errado com a torta?
    Fiz uma carranca e dei um tapa na mo de Jory quando ele tentou pegar uma fatia de torta no meu prato.
    - No consigo comer torta sem sorvete por cima.
    Ela me lanou um sorriso animado e chamou:
    - Emma, traga o sorvete!
     Empurrei o prato para longe de mim e me afundei na cadeira.
    - No me sinto bem. Quero ficar sozinho. No gosto de ser mimado. Estraga-me o apetite.
    Papai olhou-me como se estivesse perdendo a pacincia comigo. Tambm no ralhou com Jory por tentar roubar-me um pedao de torta. Foi o suficiente: apenas uma 
hora e j se haviam cansado de mim, desejando que eu estivesse morto.
    - Cathy, pare de implorar a Bart - disse Papai. - Se ele no quiser comer, pode retirar-se da mesa. Comer quando tiver fome.
    Meu estmago j roncava naquele momento. Eu no podia comer o que estava  minha frente, agora que Jory j levara minha comida predileta. Fiquei sentado, morrendo 
de fome, enquanto todos me esqueceram e comearam a conversar, rir e agir como se eu ainda continuasse no hospital. Levantei-me #124
da mesa e manquei na direo do meu quarto. Papai chamou:
    - Bart! No quero voc brincando l fora at que essa perna tenha tempo suficiente para cicatrizar por completo. Tire um cochilo com a perna para cima. Depois, 
poder assistir  televiso. 
    TV. Que tipo de comemorao era aquele? Fingindo-me obediente, entrei no quarto e parei perto da porta, a fim de poder gritar
para a sala de jantar:
    - No perturbem meu repouso!
    Mantiveram-me duas semanas no hospital e agora, que eu estava em casa, desejavam prender-me por ainda mais tempo. Eu lhes
mostraria! Ningum me prenderia dentro de casa por mais uma maldita semana! Todavia, algum se manteve de olho em mim dia e noite
antes que, afinal, eu conseguisse fugir pela janela, aps passar seis dias inteiros preso dentro de casa. Eu j perdera uma parcela grande demais do vero, bem como 
minha viagem  Disneylndia. No ia perder mais nada.
    A grande rvore velha perto do muro no foi amistosa, dificultando-me a subida. Quando chegasse ao terreno vizinho, minha perna doeria. A dor no era to gostosa 
quanto eu imaginara. Ser "normal" no era l essas coisas. Certa vez, Jory torcera o tornozelo e continuara a danar, ignorando a dor. Eu tambm era capaz de ignorar 
a dor.
    No topo do muro, olhei para trs, a fim de verificar se algum me seguia. Ningum. Ningum se importava com o que eu fizesse 
para me machucar. Comecei a farejar. Que cheiro de podre era aquele, saindo do oco do carvalho? Ah, consegui lembrar-me vagamente. O que era? J no conseguia lembrar-me 
to bem. Tinha a mente confusa, cheia de nvoa que ondulava como o nevoeiro soprado pelo
vento do oceano.
    Ma. Era melhor pensar em Ma. Esquecer o joelho rgido e dolorido, fingindo que ele pertencia a algum velho frgil, como se tornara Malcolm no final. Minha 
perna jovem queria correr, mas a perna velha assumiu o controle de todo o meu corpo, obrigando-me a apoiar o peso na bengala.
     Ohhh! Que viso dolorosa seria deparar-me com o pobre Ma morto no celeiro. Um miservel saco de pele, couro e ossos. Eu choraria, gritaria, detestaria aqueles 
que haviam tentado obrigar-me a voar para o Leste e abandonar o melhor amigo que possua. S os animais sabiam amar de verdade, com devoo.
     Um sculo se passara desde que eu percorrera aquele caminho pela ltima vez. E tive a impresso de que mais alguns anos se passaram antes que eu mancasse at 
a porta do celeiro. Controle-se, pensei. Reforce a espinha com ao, como fez Malcolm. Prepare os olhos para uma viso terrvel, pois Ma #125
o amou demais e agora teve que pagar o preo disso, morrendo. Nunca, nunca mais eu encontraria um amigo to verdadeiro quanto o pnei-filhote de co que fora o meu 
Ma.
    Meu equilbrio, que jamais fora bom, balanou-me de um lado para outro, da frente para trs, fazendo sentir-me atordoado e louco. Senti que havia algo atrs 
de mim. Olhei por cima do ombro e no vi ningum. Nada exceto aquelas amedrontadoras formas animais que no passavam de arbustos podados. Os estpidos jardineiros 
deveriam encontrar algo mais til que perderem tempo podando arbustos, enquanto o dinheiro de verdade estava  espera de algum realmente esperto para ganh-lo. 
Agora, eu pensava exatamente como Malcolm; John Amos ficaria satisfeito. Precisava procurar John Amos,
a fim de que ele me tornasse ainda mais esperto.
     Suspeitando do pior, aproximei-me do local preferido por Ma. Agora, no conseguia enxergar. Ficara cego! A bengala tateava o cho  minha frente. Escuro. 
Por que tudo estava escuro? Avancei com vagar e cautela, tentando enxergar no escuro. Todas as janelas do sto estavam fechadas. Pobre Ma, abandonado para morrer 
de fome na escurido. Senti um n na garganta, chorando por dentro, lamentando um animal de estimao que me amara mais que  prpria
vida.
    Precisei obrigar-me a avanar mais um passo. Ver Ma morto me deixaria uma cicatriz na alma, na minha alma eterna, que John Amos afirmava precisar permanecer 
limpa e pura se eu desejasse chegar aos portais do cu, os quais Malcolm alcanara.
     Mais um passo. Estaquei. L estava o meu Ma - e no estava morto! Achava-se numa baia com a janela aberta e corria atrs de
uma bola vermelha, pisando-a com as enormes patas semelhantes s de um pnei - e havia bastante comida em sua tigela. E gua fresca, tambm. Fiquei parado, tremendo 
da cabea aos ps, enquanto Ma me ignorava e continuava a brincar como se eu nem estivesse ali. Ora, ele nem sentira falta de mim!
    - VOC! VOC! - berrei. - Esteve comendo, bebendo e brincando! Durante todo este tempo, eu s portas da morte e voc
nem se importou! E julguei que me amava. Pensei que fosse sentir muito a minha falta. E agora nem mesmo late para me dizer que
est feliz por ver-me de volta! EU O ODEIO, MA! EU O ODEIO POR NO SE IMPORTAR COMIGO!
    Ento, Ma me avistou e correu para mim, pulando para colocar-me nos ombros as patas enormes e lamber-me o rosto. Sacudia
furiosamente o rabo, mas no conseguiu me enganar. Encontrara algum que o tratasse melhor que eu - macacos me mordam se eu
lhe fazia o plo ficar to bonito. 
#126
    - Por que no morreu de solido! - gritei.
     Fitei-o com dio, desejando que murchasse at sumir. Ele pressentiu minha raiva e retomou  posio normal, enfiando o rabo
entre as pernas e baixando a cabea para me olhar de esguelha.
    - AFASTE-SE DE MIM! PRECISA SOFRER COMO EU SOFRI; ENTO, FICARA FELIZ POR TER-ME DE VOLTA!
     Peguei toda a sua comida e gua, jogando-as num velho barril. Apanhei a bola vermelha e atirei-a to longe que nunca mais ele
conseguiria encontr-la. Durante todo o tempo, Ma permaneceu no mesmo lugar, sem sacudir o rabo. Queria-me de volta, mas agora era tarde demais.
    - Fique no escuro e morra de fome! Agora, sentir minha falta - solucei, tropeando ao afastar-me, trancando-o no celeiro com todas as janelas fechadas. - Fique 
no escuro e morra de fome! Nunca mais voltarei! Nunca!
     To logo cheguei  luz do sol, lembrei-me de todo o feno macio que ele tinha para deitar-se. Voltei ao celeiro, agarrei um ancinho e puxei para fora todo o 
feno. Ma gania, tentando fazer-me festas com o focinho. No permiti.
    - Deite-se no cho duro e frio! Ter dor em todos os ossos, mas no me importo, pois agora no o amo mais!
     Furioso, enxuguei as lgrimas e arranhei o rosto.
    Durante toda a minha vida, eu fizera apenas trs amigos: Ma, minha av e John Amos. Ma matara meu amor e um dos outros
dois me trara, alimentando Ma e roubando-me seu amor. John Amos no se daria o trabalho - portanto, tinha que ser minha av.
     Voltei para casa atordoado. Naquela noite, minha perna doeu tanto que Papai veio a meu quarto e deu-me um comprimido. Sentou-se na beirada da cama e me tomou 
nos braos, fazendo-me sentir seguro ao ouvi-lo falar baixinho em adormecer e ter sonhos gostosos.
    Mergulhei na feiura. Esqueletos por todos os lados. Sangue correndo em grandes rios, carregando pedaos de seres humanos para um oceano de fogo. Morto. Eu estava 
morto. Flores, coroas de flores no altar. Pessoas que nem me conheciam enviavam-me flores, dizendo-me que estavam satisfeitas por ver-me morto. Escutei o mar de 
fogo tocar msica demonaca, fazendo-me odiar ainda mais msica e dana.
     O sol entrou pela janela e me incidiu no rosto, roubando-me do abrao do demnio. Quando abri os olhos, aterrorizado com o que
poderia ver, avistei apenas Jory em p junto  cama, fitando-me com piedade. Eu no precisava de piedade.
    - Bart, voc chorou durante a noite. Sinto muito que sua perna ainda doa.
#127
    - Minha perna no di nada! - berrei.
     Levantei-me para mancar at a cozinha, onde Mame estava dando comida a Cindy. Maldita Cindy. Emma fritava toucinho para
meu caf da manh.
    - Quero apenas caf e torradas! - gritei. - S isso!
    Mame fez uma careta dolorida e depois me olhou, muito plida. Estranho...
    - No grite, por favor, Bart. E voc no toma caf. Por que pediu caf?
    - J  tempo de agir como uma pessoa da minha idade! - rosnei.
    Sentei-me cautelosamente na cadeira de braos de Papai. Ele chegou e viu-me sentado em sua cadeira, mas no ordenou que me
levantasse. Limitou-se a usar uma cadeira sem braos e encher at a metade uma xcara de caf. Completou a xcara com dois centmetros de creme de leite e entregou-a 
a mim.
    - Detesto creme no caf!
    - Como pode ter tanta certeza se nunca experimentou? 
    - Eu sei.
    Recusei-me a tomar o caf que ele estragara. (Malcolm gostava de caf puro - eu tambm gostaria, a partir de agora). S me restava  frente uma torrada pura 
- e se eu precisava ser como Malcolm e tornar-me esperto, no podia espalhar manteiga e gelia de morangos na torrada. Indigesto. Como Malcolm, devia preocupar-me 
com
indigesto.
    - Papai, o que  indigesto.
    - Algo que voc no precisa ter.
     Era realmente difcil tentar ser como Malcolm o tempo todo. Segundos depois, Papai estava ajoelhado, examinando-me a perna
doente.
    - Parece pior hoje que ontem - comentou, erguendo a cabea para encarar-me com ar desconfiado. - Bart, voc no andou engatinhando nesse joelho machucado, andou?
    - No! - gritei. - No sou maluco! As cobertas arranharam um pouco a pele. Lenis speros. Detesto lenis de algodo. Gosto
mais dos lenis de seda.
    Malcolm s dormia em roupas de cama de seda.
    - Como sabe? - indagou Papai. - Voc nunca teve lenis de seda.
    Continuou a tratar meu joelho, lavando-o e cobrindo-o com um p branco, antes de aplicar um tampo de gaze e prend-lo com
esparadrapo. 
    - Agora, Bart, estou falando srio. No quero que se apoie no joelho. Fique em casa, longe do jardim, ou sente-se na varanda dos
fundos. Nada de engatinhar na terra.
#128
    - No  uma varanda,  um ptio - repliquei carrancudo, para lhe mostrar que ele no sabia tudo.
    - Muito bem,  um ptio - isto o deixa satisfeito? 
    No. Eu nunca estava satisfeito. Ento, pensei melhor. Sim, eu s vezes me sentia satisfeito - quando fingia ser Malcolm, o
todo-poderoso, o mais rico, o mais esperto. Representar o papel de Malcolm era fcil e melhor que qualquer outra coisa ou pessoa. De algum modo, eu tinha certeza 
de que, se continuasse a represent-lo, acabaria exatamente como Malcolm - rico, poderoso, amado.
    O tipo mais comprido e chato de dia se arrastou interminavelmente, com todos de olho atento em mim. O crepsculo chegou e
Mame ocupou-se em embelezar-se para Papai, que deveria chegar a qualquer momento. Emma preparava o jantar. Jory estava na aula
de bal. E eu fugi do ptio s escondidas. Apressei-me em atravessar o jardim antes que algum me detivesse.
     O cair da tarde estava fantasmagrico, com sombras compridas e ameaadoras. Todas as pequenas criaturas noturnas que voavam
e zumbiam tinham sado das tocas para rodear-me a cabea, Tentei espant-las com tapas. Ia procurar John Amos. Ele estava sentado sozinho em seu quarto, lendo uma 
revista que se apressou em esconder quando entrei sem bater.
    - No devia fazer isso - declarou num tom azedo, nem mesmo sorrindo para mostrar-se satisfeito porque eu ainda estava vivo
e com as duas pernas.
    Era fcil assumir a expresso sombria de Malcolm e assust-lo. 
    - Voc deu comida e gua a Ma enquanto estive fora? 
    - Claro que no - replicou ele ansiosamente. - Foi sua av quem alimentou e deu de beber ao cachorro. E tratou dele. Eu j lhe disse que jamais se deve confiar 
em que as mulheres cumpram a palavra. Corrine Foxworth no  melhor que qualquer outra
mulher, com suas manhas para induzir os homens a se transformarem em escravos delas.
    - Corrine Foxworth...  esse o nome dela?
    - Naturalmente. Eu j lhe disse antes.  filha de Malcolm. Ele a batizou com o nome da me dele, a fim de lembrar-se sempre do quanto as mulheres so falsas, 
de que at mesmo uma filha seria capaz de tra-lo - embora ele a amasse muito. Demais, na minha
opinio.
    Eu j comeava a me cansar de estrias sobre as mulheres e suas "manhas".
    - Por que no manda ajeitar a dentadura? - perguntei.
     No gostava da maneira como ele sibilava e assoviava por entre os dentes postios soltos demais.
    - timo! Falou exatamente como Malcolm. Est aprendendo. A doena lhe fez bem  alma - como aconteceu com ele. Agora, escute com #129
ateno, Bart: Corrine  sua verdadeira av e foi casada com seu verdadeiro pai. Era a filha mais amada por Malcolm e traiu-o ao fazer algo to pecaminoso que precisa 
ser castigada.
    - Precisa ser castigada?
    - Sim, severamente castigada; mas voc no deve permitir que ela perceba que seus sentimentos mudaram. Finja que ainda a
ama, que ainda a admira. E, dessa maneira, ela se tornar vulnervel.
    Eu sabia o que significava vulnervel. Mais uma daquelas palavras que fora obrigado a aprender. Fraco;  ruim ser fraco. John
Amos foi buscar sua Bblia e colocou minha mo sobre a surrada capa preta, toda rachada e descascando.
    - A Bblia do prprio Malcolm - disse ele. - Legou-a a mim em seu testamento... embora pudesse ter legado mais alguma coisa...
    Compreendi que John Amos era a nica pessoa no mundo que ainda no me desapontara. Ali estava o verdadeiro amigo de que eu necessitava. Velho, mas eu tambm 
era capaz de ser velho, quando desejava. Embora no pudesse retirar os dentes da boca e coloc-los numa xcara cor de marfim.
    Olhei para a Bblia, desejando retirar a mo, mas sentindo medo do que poderia acontecer se o fizesse.
    - Jure sobre esta Bblia que agir como Malcolm desejaria que seu bisneto agisse: exercendo vingana sobre aqueles que mais
fizeram mal a ele.
     Como podia eu jurar o que ele exigia, quando uma pequena parte de mim continuava a am-la? Talvez John Amos estivesse mentindo.
Talvez Jory tivesse alimentado e cuidado de Ma.
    - Por que hesita, Bart?  um fraco? No tem tutano? Olhe novamente para sua me, veja como usa o corpo, o rosto bonito, os
beijos e abraos, para induzir seu pai a fazer tudo que ela quer. Repare como ele trabalha at tarde, como est cansado ao voltar para casa. Pergunte a si mesmo 
o motivo. Ele faz isso por si prprio - ou para ela comprar roupas novas, casacos de pele, jias, e morar numa casa grande e bonita?  assim que as mulheres usam 
os
homens, fazendo-os trabalhar enquanto elas se divertem.
    Engoli em seco. Mame trabalhava. Ensinava bal. Contudo, isso era mais diverso que trabalho, no  mesmo? Ela alguma vez comprava alguma coisa com seu prprio 
dinheiro? Eu no me lembrava.
    - Agora, entre para visitar sua av e comporte-se como antes. Logo descobrir quem o traiu. No fui eu. Entre e seja como Malcolm. Chame-a de Corrine, observe 
os olhos dela mostrarem medo - e saber quem de ns dois  leal e digno de confiana.
    Eu jurara castigar os que haviam trado Malcolm, mas no estava satisfeito comigo mesmo ao entrar, mancando, na sala que ela
#130
preferia usar. Parei na porta e a encarei, o corao batendo com fora, tamanho era meu desejo de correr para seus braos e sentar-me em seu colo. Era certo comportar-me 
como Malcolm, sem lhe dar uma oportunidade de explicar-se?
    - Corrine - chamei com voz rspida.
    Oh, a brincadeira era to boa que eu simplesmente no conseguia ser Bart e sentir-me seguro. Quando era Malcolm, sentia-me to forte e cheio de razo.
    - Bart! - exclamou ela, feliz, levantando-se para estender os braos. - Finalmente veio visitar-me! Estou to contente por v-lo bem e forte outra vez.
    Ento, hesitou e indagou:
    - Quem lhe disse meu nome?
    - John Amos - repliquei, carrancudo. - Ele me contou que voc alimentou Ma e lhe deu gua enquanto estive fora.  verdade?
    - Sim, querido,  claro que fiz tudo por Ma. Ele sentiu tanto a sua falta que fiquei com pena. Naturalmente, voc no est zangado. 
    -  Voc o roubou de mim - declarei, chorando como um beb. - Ele era o nico amigo que tive na vida, o nico que realmente me amava; e voc o roubou. Agora, 
ele gosta mais de voc que de mim.
     - No, no gosta, Bart. Ele pode gostar de mim, mas ama voc.
   Agora, ela j no sorria nem parecia satisfeita. Exatamente como dissera John Amos, percebi que estava aplicando suas manhas. Ia dizer-me mais mentiras.
    - No fale to asperamente comigo - pediu. - No  adequado a um menino de dez anos. Querido, esteve longe tanto tempo e senti tanto a sua falta! No pode demonstrar 
nem um pouco de afeio?
    De repente, a despeito de meu juramento, corri para os braos dela e me pendurei em seu pescoo.
    - Vov! Machuquei o joelho para valer! Suei tanto que a cama ficou molhada. Enrolaram-me num cobertor frio; Papai e Mame me esfregaram com gelo. Havia um mdico 
malvado que desejava cortar minha perna, mas Papai no permitiu. Aquele mdico disse estar satisfeito por eu no ser filho dele.
    Parei para tomar flego, esquecendo-me totalmente de Malcolm.
    - Vov, descobri que Papai me ama, apesar de tudo - seno, gostaria que aquele mdico cortasse minha perna.
    Ela pareceu chocada.
    - Bart, pelo amor de Deus! Como pode ter a menor dvida que seu pai o ame? Naturalmente que ama. Teria que am-lo.
Christopher sempre foi um menino bondoso, carinhoso...
#131
    Como sabia ela que meu pai se chamava Christopher? Apertei as plpebras. Ela levara as mos aos lbios, como se acabasse de revelar involuntariamente algum segredo. 
Depois, comeou a chorar.
     Lgrimas. Um dos truques que as mulheres aplicavam nos homens. 
    Virei-me para outro lado. Detestava lgrimas. Detestava pessoas fracas. Pousei a mo no peito da camisa e senti a capa dura do dirio de Malcolm contra a pele. 
Aquele livro me dava a fora de Malcolm, transferindo-a das pginas para meu sangue. O que importava se eu tinha o corpo imperfeito e fraco de uma criana? Que diferena 
fazia isso, quando ela logo aprenderia quem mandava ali?
    Minha casa. Precisava voltar para casa antes que dessem por minha falta.
    - Boa-noite, Corrine.
    Deixei-a a chorar, ainda matutando a respeito de como ela podia saber o nome de Papai.
     Em meu jardim, tornei a verificar o caroo de pssego. Nada de razes, ainda. Tornei a cavar as ervilhas-de-cheiro. Ainda no brotavam. Eu no tinha sorte com 
flores, com caroos de pssego, com nada. Com nada a no ser fazer o papel de Malcolm, o poderoso. E nisso, eu estava ficando cada vez melhor. Sorridente e satisfeito, 
fui para a cama.

OS CHIFRES DO DILEMA

     Bart nunca estava em nosso jardim, onde deveria estar. Subi na rvore e me sentei no muro. Ento, avistei Bart no quintal da velha, de joelhos, engatinhando. 
Farejando o solo como um co.
    - Bart! - berrei. - Trevo se foi e voc no pode substitui-lo!
     Eu sabia o que ele estava fazendo: enterrando um osso e, depois, farejando ao redor at encontr-lo. Ele ergueu a cabea, os olhos vidrados e desorientados... 
e ento comeou a latir.
    Gritei com ele, para cham-lo  realidade, mas Bart continuou representando o cozinho travesso antes de transformar-se,
repentinamente, num velho que arrastava a perna. E nem mesmo era a sua perna machucada. Que garoto maluco!
    - Ande direito, Bart! Voc tem apenas dez anos, no cem. Se continuar andando torto, crescer assim.
    - Dias tortos levam a caminhos tortos.
    - Isso no faz sentido.
    - E o Senhor disse: "Faa aos outros o que lhe fizeram".
#132
    - Errado. O certo : "Faa aos outros o que gostaria que lhe fizessem".
    Estendi a mo para ajudar o que parecia ser um velho. Bart. carrancudo, levou a mo ao peito, ofegou e gritou que sofria do
corao, que no agentaria subir numa rvore.
    - Estou farto de voc, Bart. S faz criar casos. Tenha um pouco de considerao para com Mame e Papai... e comigo, tambm.
Ser embaraoso t-lo como irmo ao voltarmos  escola.
    Ele mancou atrs de mim a caminho de casa, ainda ofegante, murmurando entre gemidos que j era um mestre das finanas.
    - Jamais existiu um crebro mais esperto que o meu - resmungou.
    Ser que desta vez ele ficou biruta de verdade? Foi a nica coisa que consegui pensar ao escut-lo. Prendi a respirao, espantado, quando ele esfregou as mos 
com uma escova, como se desejasse realmente
limp-las. Aquilo no era mesmo coisa de Bart. Ele continuava fingindo ser outra pessoa. Logo escovou os dentes e foi deitar-se. Apressei-me a procurar um local 
de onde poderia escutar o que diziam meus pais, que estavam na sala de estar, danando ao ritmo
de uma msica lenta.
     Como sempre, algo terno, suave e romntico invadiu-me ao v-los assim. O modo carinhoso como ela o fitava; a maneira delicada como ele a tocava. Pigarreei antes 
que fizessem algo ntimo demais. Sem mudarem de posio, ambos me lanaram olhares indagadores.
    - Sim, Jory? - disse Mame, com uma expresso sonhadora nos olhos.
    - Quero conversar com vocs a respeito de Bart - declarei. - Acho que devem tomar conhecimento de certas coisas.
    Papai pareceu aliviado. Mame deu a impresso de murchar ao sentar-se, calada, ao lado dele no sof.
    - Espervamos que voc nos procurasse com um segredo de Bart.
    Nada daquilo foi fcil de dizer.
    - Bem - comecei devagar, esperando encontrar as palavras adequadas. - Em primeiro lugar, creio que devem saber que Bart tem muitos pesadelos, dos quais acorda 
chorando. Finge demais, tal como caar animais ferozes e outros passatempos normais numa criana. Todavia, julgo que ultrapassa os limites quando o surpreendo engatinhando 
e farejando o solo, depois desenterrando um osso velho e sujo para carreg-lo nos dentes e enterr-lo noutro lugar.
    Fiz uma pausa e aguardei que dissessem alguma coisa. Mame mantinha a cabea virada, como se procurasse escutar o vento. Papai inclinara-se para a frente, fitando-me 
com grande ateno.
#133
    - Prossiga, Jory - incitou. - No se interrompa agora. No somos cegos. Vemos como Bart est mudando.
     Temendo contar mais, baixei a cabea e falei em voz muito baixa:
    - Tentei falar-lhes antes, vrias vezes. Mas tive medo, ento. Vocs pareciam, ambos, to preocupados com Bart que no tive
coragem de falar.
    - Por favor, no omita nada - disse Papai.
    Olhei para ele, sentindo-me incapaz de enfrentar o olhar temeroso de Mame.
    - A velha da casa vizinha d a Bart todos os tipos de presentes caros. Deu-lhe um filhote de So Bernardo que ele batizou de Ma, dois trens eltricos em miniatura, 
completos com uma aldeia, montanhas, pontes... enfim, todos os acessrios. Transformou um enorme salo da manso numa sala de brinquedos exclusivamente para Bart. 
E daria presentes a mim, tambm, mas Bart no permite. 
    Atordoados, eles se entreolharam. Afinal, Papai perguntou:
    - O que mais?
    Engoli em seco e escutei minha voz, rouca e esquisita. Esta era a pior parte, a que realmente magoava:
    - Ontem, estive no quintal dos fundos, perto do muro... vocs sabem, onde existe aquela rvore oca. Levei a tesoura de podar
e estava trabalhando como voc me ensinou, Papai, quando senti o cheiro de alguma coisa apodrecida. Quando fui examinar... encontrei... - tive que engolir em seco 
mais uma vez, antes de conseguir continuar: - Encontrei Trevo. Estava morto e apodrecendo. Cavei uma sepultura para ele.
    Virei as costas para enxugar as lgrimas e depois contei-lhes o resto:
    - Achei um arame farpado torcido no pescoo dele. Algum matou deliberadamente o meu cachorro!
    Eles continuaram sentados no sof, parecendo chocados e amedrontados. Mame piscou para conter as lgrimas; ela tambm gostava de Trevo. Suas mos tremiam ao 
pegar um leno. Em seguida, ela cruzou nervosamente os dedos, mantendo-os sobre o colo. Nem ela nem Papai perguntaram quem matara Trevo. Creio que pensavam o mesmo 
que eu.
     Antes de deitar-se, Papai veio ao meu quarto e conversou comigo durante uma hora, fazendo todo tipo de perguntas a respeito de
Bart, o que fizera ele esta vez, aonde fora; e, tambm, sobre a mulher da manso vizinha, bem como o mordomo. Sentia-me melhor, agora
que os prevenira. Podiam planejar o que fazerem com Bart. E, naquela noite, chorei pela ltima vez por Trevo, que fora meu primeiro e nico animal de estimao. 
Eu ia completar quinze anos, quase a idade de um homem, e lgrimas eram apenas para garotinhos - no para um rapaz com um metro e oitenta de altura.
#134
    - Deixe-me em paz! - berrou Bart quando lhe pedi que no fosse mais  manso da velha. - Pare de me delatar ou h de
arrepender-se!
    Cada dia nos aproximava mais de setembro e do reincio das aulas. At onde me era possvel perceber, Bart no reagia aos carinhosos cuidados que lhe dispensavam 
meus pais. Na minha opinio, mostravam-se compreensivos demais para com ele.
    - Oua-me bem, Bart, e pare de fingir que  Malcolm Neal Foxworth, seja ele quem for!
    No obstante, Bart no deixava de lado o fingimento, a manqueira, o corao fraco que o fazia arquejar e gemer.
    - Ningum est  espera de sua morte para lhe herdar a fortuna. Meu caro irmozinho, voc no tem fortuna nenhuma!
    - Tenho vinte bilhes, dez milhes, cinqenta e cinco mil, seiscentos e quarenta e dois dlares e trinta centavos! - replicou
ele, enumerando nos dedos. - Mas no consigo lembrar-me do quanto possuo em debntures e aes, de modo que acho que voc pode
triplicar esse montante. Um homem que consegue dizer o quanto possui no  rico de verdade.
    Eu nem sabia que ele era capaz de dizer um nmero como aquele. No exato momento em que eu ia responder algo sarcstico, Bart
soltou um grito e dobrou-se em dois. Caiu ao cho, respirando com dificuldade.
    - Depressa... minhas plulas... Estou morrendo! Meu brao esquerdo est dormente! Salve-me! Chame os mdicos!
    Foi quando sa de casa para o jardim. Sentei-me numa cadeira no gramado e comecei a ler um romance de bolso. Bart estava realmente enchendo-me as medidas. Era 
como viver com o Dr. Jekyll e Mr. Hyde, o mdico e o monstro. Se ele precisava representar, por que diabo no escolhia algum papel melhor que o de um velho manco 
e cardaco?
    - Jory, no se importa se eu morrer? - Bart saiu de casa para me perguntar.
    - No.
    - Voc nunca gostou de mim!
    - Gostava mais de voc quando se comportava como algum da sua idade.
    - Acreditaria se eu lhe dissesse que Malcolm Neal Foxworth  o pai de nossa vizinha e ela  realmente minha av, de verdade?
    - Ela lhe disse isso?
    - No. John Amos contou-me parte, ela conta o resto. John Amos conta-me muita coisa. Disse-me que Papai Chris e Papai Paul
no eram irmos; que minha me s diz isso para no descobrirmos seu pecado. Amos diz que meu verdadeiro pai era um homem
chamado Bart Winslow, que morreu num incndio. Nossa me o seduziu.
    Seduziu? Lancei-lhe um prolongado olhar indagador.
    - Sabe o que significa essa palavra?
    - No... mas sei que  ruim, muito ruim!
    - Ama nossa me?
    A preocupao atormentou-lhe os olhos escuros. Sentou-se pesadamente no cho e contemplou os sapatos de tnis. Deveria ter
Respondido depressa, espontaneamente.
    - Bart, faa-me um grande favor - e a voc mesmo, tambm: entre em casa e conte a Mame e Papai o que o preocupa. Eles
compreendero tudo. Sei que voc julga que Mame gosta mais de mim, mas no  verdade. Ela tem lugar no corao para dez filhos.
    - Dez? - gritou ele. - Quer dizer que Mame vai adotar outros?
    Levantou-se de um pulo e correu, mancando, como se o fingimento de velho lhe tivesse roubado a pouca agilidade que possua. Na minha opinio, aquela estadia 
no hospital lhe roubara muitas coisas.
    Foi bisbilhotice de minha parte, e, tambm, no muito honroso, mas tive que escutar o que Bart disse a Mame quando ficaram a ss. Ela estava na varanda dos 
fundos, com Cindy no colo, lendo um livro enquanto a menina cochilava. Quando Bart se aproximou correndo, Mame largou o livro e passou Cindy para uma cadeira prxima. 
Bart ficou de p a encar-la com uma splica muda nos olhos. 
     Ento, dentre todas as coisas possveis, ele perguntou:
    - Qual  o seu nome?
    - Voc sabe o meu nome - respondeu ela.
    - Comea com C?
    - Sim, claro que comea com C.
    Agora, ela parecia perturbada.
    - Mas... mas... - titubeou ele. - Conheo algum que chora quando voc vai embora. Algum pequeno como eu, que 
trancado em armrios e outros lugares horrveis pelo pai, que no gosta mais dele. Uma vez, o pai o colocou de castigo no sto. Um sto grande, escuro, amedrontador, 
com camundongos, aranhas e
sombras fantsticas por toda parte.
    Mame deu a impresso de congelar-se.
    - Quem lhe contou tudo isso?
    - A madrasta dele tinha cabelos ruivos, at que ele descobriu que ela no passava de amante do seu pai.
    Mesmo de onde estava escondido, escutei Mame respirar forte e depressa, como se aquele garotinho que ela costumava pegar no
colo se tornasse repentinamente perigoso e ameaador.
#136
    - Querido, voc no sabe o que  uma amante, sabe?
    Bart fitou o espao.
    - Havia uma dama esbelta e alva, com tons vermelhos nos cabelos escuros. E nem mesmo era casada com o pai dele, que no
se importava com o que ele fazia, se chorava ou at mesmo se morria.
    Os lbios de Mame tremeram, mas ela forou um sorriso.
    - Bart, creio que voc tem alma de poeta. Tudo isso tem cadncia, ritmo.
    Ele fez uma carranca, voltando para ela os olhos escuros e ardentes.
    - Desprezo poetas, artistas, msicos e bailarinos!
    Ela estremeceu e no posso dizer que a censurei. Ele tambm me causou medo.
    - Bart, preciso fazer-lhe uma pergunta e voc deve responder com franqueza. Lembre-se: no importa o que responder, no sofrer castigo. Voc machucou Trevo?
    - Trevo foi embora. Nunca mais voltar, agora, para morar na minha casa de cachorro.
    Mame o afastou de si com um safano e se ergueu depressa para deixar a varanda. Ento, lembrou-se de Cindy e voltou correndo
para peg-la no colo. Nada do que ela fez me tranqilizou quando observei o olhar de Bart.

    Como sempre, logo aps um de seus 
"ataques" de maldade, Bart ficou cansado e sonolento, indo deitar-se sem jantar. Minha me sorriu, depois riu, e vestiu-se para comparecer a uma festa formal em 
homenagem a meu pai, que fora eleito chefe da equipe mdica do hospital onde trabalhava. Postei-me  janela e observei Papai conduzi-la orgulhosamente ao carro.
    Tarde, muito depois das duas, ouvi-os chegarem. Eu ainda no adormecera e pude escut-los conversando na sala de estar.
    - Chris, no consigo entender Bart, o modo como fala, a forma como se movimenta, nem mesmo sua aparncia. Tenho medo de meu prprio filho e isso  doentio.
    - Ora, querida - disse Papai, passando o brao pelos ombros dela. - Creio que est exagerando. Se continuar assim, Bart crescer para ser um grande ator.
    - Chris, sei que s vezes febre muito alta pode causar danos ao crebro de uma criana. A febre afetou parte do crebro de Bart? 
    - Oua, Cathy: os exames de Bart deram timos resultados. No meta idias na cabea s porque o submetemos aos testes. Todos
os pacientes que tm febre alta so obrigados a fazer exames desse tipo.
#137
    - Mas encontraram algo anormal? - insistiu ela.
    - No - disse Papai em tom firme. - Ele  apenas um garotinho comum, com muitos problemas emocionais. E se algum pode
compreender o que ele est passando, somos ns.
    O que significaria aquilo?
    - Mas Bart tem de tudo! No est crescendo como ns crescemos. Devia sentir-se feliz. No fazemos todo o possvel para isso? 
    - Sim, mas s vezes nem isso  o bastante. Cada criana  diferente, tem necessidades diferentes. Obviamente, no estamos dando a Bart o que ele necessita.
    Mame era dada a respostas rpidas e acaloradas. No obstante, permaneceu sentada, calada e imvel, enquanto eu esperava obter maiores informaes. Papai queria 
que ela fosse imediatamente para
a cama, o que era fcil perceber pelo modo como ele lhe beijou o pescoo. Contudo, ela estava imersa em reflexes profundas.
Manteve o olhar fixo nas sandlias prateadas ao falar de como Trevo morrera.
    - No poderia ter sido Bart - declarou devagar, como se tentasse convencer-se, e a Papai tambm. - Tinha que ser algum sdico que tortura animais - voc se lembra 
de como lemos que os animais do zoo estavam sendo mutilados? Um desses homens deve ter avistado Trevo...
    E no completou a frase, pois raramente vamos algum desconhecido na estrada de nossa casa.
    - Chris - acrescentou, enquanto aquela horrvel expresso de medo permanecia em seu rosto. - Hoje Bart me pegou inteiramente
de surpresa. Falou-me a respeito de um garotinho que era trancado pelo pai em armrios e no sto. Mais tarde, disse-me que o menino se chamava Malcolm. Como poderia 
ter conhecimento dele? Quem poderia ter-lhe contado esse nome? Chris, julga que
Bart descobriu algo a respeito de ns?
    Tive um sobressalto. O que havia a respeito deles que eu ainda no sabia? Compreendi que tinham algum terrvel segredo. Afastei-me furtivamente e corri de volta 
a meu quarto, jogando-me na cama. Algo horrvel estava errado em nossas vidas. Eu o sentia nos ossos - e Bart devia senti-lo nos dele, tambm.

A SERPENTE

    O sol e o nevoeiro brincavam, fazendo-se mutuamente companhia. Eu era obrigado a ficar sentado sozinho em nosso jardim. Para
divertir-me, olhava as grossas cascas que se haviam formado sobre as feridas em meu joelho. Fora prevenido por Papai para no arranc-las, a fim de no ficar com 
cicatrizes - mas quem se importava com
#138
cicatrizes? Comecei a levantar  cuidadosamente as beiradas da camada de casca, s para ver o que havia por baixo delas. No vi coisa alguma a no ser pele tenra 
e avermelhada, pronta para sangrar novamente.
    O sol ganhou o brinquedo no cu e brilhou, quente, sobre minha cabea. Quase consegui escutar meus miolos fritando. No me agradava a idia de miolos fritos, 
de modo que procurei uma sombra.
    Agora, a cabea me doa. Mordi o lbio inferior com fora suficiente para arrancar sangue. No doeu, mas incharia tanto
posteriormente que Mame teria que ficar preocupada. Isso era timo. Ela devia preocupar-se com o que se passava comigo.
     Eu costumava ser o menininho da Mame, que recebia montes de afeio, at que surgiu aquela maldita garotinha para tomar-me o lugar. Em breve, Mame e Jory 
voltariam da aula de bal. Era tudo com que se importavam: a dana e Cindy. Eu conhecia as coisas mais importantes da vida, o que mais contava: dinheiro. Quando 
se possua muito dinheiro, no era preciso pensar em ter necessidade dele ou num meio de consegui-lo. John Amos e o dirio de Malcolm me haviam ensinado isso.
    - Bart - disse Emma, que se aproximara silenciosamente por trs de mim. - Sinto muitssimo que voc tenha perdido a viagem 
Disneylndia. Para compensar, preparei um pequeno bolo de aniversrio exclusivamente para voc.
    Trazia nas mos um pequeno bolo, com uma nica vela enfiada na cobertura de chocolate. Eu no tinha apenas um ano de idade! Dei um tapa no bolo, que escapou 
das mos de Emma e caiu ao cho. Ela soltou um grito, parecendo magoada o bastante para
chorar, e recuou.
    - No foi uma atitude muito grata ou bondosa - declarou, engasgada. - Bart, por que precisa comportar-se to mal? Todos
ns tentamos o melhor possvel para agrad-lo.
    Mostrei-lhe a lngua. Ela suspirou e me deixou em paz.
    Mais tarde, Emma tornou a sair, desta vez com aquela garotinha nojenta no colo. No era minha irm. Eu no queria irms.
Escondi-me atrs de uma rvore e olhei em volta. Emma colocou Cindy na piscina de plstico. A garota bateu os ps e as mos na gua rasa. Idiota, idiota, idiota... 
nem mesmo sabia nadar. Veja s como Emma ri e gosta daquelas palhaadas de beb, quando eu sou capaz at de plantar bananeira. Se eu me sentasse na piscina e batesse 
os ps e as mos, ela no me acharia to engraadinho...
    Esperei que Emma fosse embora, mas ela puxou uma cadeira, sentou-se e comeou a descascar ervilha. Plop, plop, plop... as ervilhas verdes caam na tigela azul.
#139
    - Isso mesmo, queridinha - disse Emma, encorajando Cindy. - Bata na gua, mexa as pernas bonitas, sacuda os braos lindos,
fortalea os membros e dentro em breve estar nadando.
    Observei e esperei, cada ervilha que caa na tigela indicando que logo Emma seria obrigada a levantar-se e voltar  cozinha. Cindy ficaria sozinha. Totalmente 
sozinha. E no sabia nadar. Os gatos se abaixavam como eu, quando queriam pegar um passarinho. Gostaria de ter um rabo para abanar.
    A ltima ervilha verde caiu na tigela. Emma se levantou para sair. Retesei os msculos. Naquele instante, Mame chegou em seu brilhante carro vermelho e parou 
perto da garagem. Emma foi cumpriment-la. O primeiro a sair do carro foi Jory, saltando pelo gramado.
    - Ol, Emma! - disse ele. - O que temos para o jantar? 
    - Voc gostar do meu jantar, no interessa o que seja - respondeu Emma, derretendo-se em sorrisos para ele, o seu querido bonito. No era assim que ela tratava 
a mim - o moleque! - Quanto a Bart -prosseguiu ela -, sei que detestar as ervilhas, o ensopado de legumes, as costeletas de carneiro e a sobremesa. S Deus sabe 
como  difcil agradar aquele menino.
   Mame parou para conversar com Emma como se esta no fosse uma empregada, depois correu para brincar com Cindy, abraando-a
e beijando-a como se no visse a molequinha h dez anos.
   - Mame! - chamou Jory. - Por que no nos trocamos e entramos na piscina com Cindy?
   - Aposto uma corrida com voc at em casa, Jory! - concordou Mame.
     Os dois saram correndo como crianas.
   - Agora, seja boazinha e continue a brincar com o patinho de borracha e o barquinho - disse Emma a Cindy. - Emma voltar logo.
    Levantei a cabea antes de comear a esfregar a barriga no cho. A molequinha na piscina se levantou e tirou o mai. Totalmente nua e atrevida, jogou o mai 
contra mim e depois tentou-me, riu e
atormentou-me com sua carne nua. Ento, como se chateada com minha reao, tornou a sentar-se na gua rasa e mirou o prprio corpo com um leve sorriso secreto. Pecaminosa! 
Desavergonhada! Imaginem!
Mostrando-me suas partes privadas!
    As mes deviam ensinar suas filhas a se comportarem com decncia, recato e modstia. Minha me era exatamente como Corrine, que John Amos afirmava ser fraca 
e nunca punira devidamente os filhos: "Sim, Bart, sua av estragou os filhos e agora eles vivem em
pecado, zombando de Deus e das normas da moral!"
    Acho que cabia a mim ensinar  Cindy uma lio de vergonha e recato. Rastejei para diante. Agora, ela me dava ateno. Seus olhos azuis se arregalaram, os lbios
#140
rosados e cheios se entreabriram. A
princpio, pareceu contente porque eu, afinal, ia brincar com ela. Ento, algum instinto de sabedoria lhe trouxe medo ao olhar. Ficou imvel e lembrou-me um tmido 
coelho com medo de uma cobra malvada. Serpente. Muito melhor ser uma serpente que um gato. Uma serpente no Jardim do den, fazendo a Eva o que deveria ter sido feito 
no incio do mundo. Fora, disse o Senhor ao ver Eva em sua nudez, saiam do den e deixem que o mundo lhes atire pedras! 
    Sibilando e movimentando rapidamente a lngua, aproximei-me devagar. Era o Senhor quem mandava e eu quem obedecia. Me pecadora que deixava de castigar-me e 
me transformara no que eu era, uma serpente malvada querendo cumprir as ordens do Senhor, mesmo que no me agradassem.
    Tentei empregar toda a minha fora de vontade para achatar a cabea e torn-la pequena, chata, semelhante  de uma cobra.
Lgrimas brotaram nos grandes olhos medrosos de Cindy e ela comeou a chorar alto, procurando passar por cima da beirada arredondada da piscina rasa. A gua no 
era suficientemente profunda para afogar uma garotinha, ou Emma no a teria deixado sozinha.
     Mas... se uma boa constrictor, uma jibia do Brasil estivesse por ali - que possibilidades teria uma menina de dois anos?
     Ultrapassei a borda da piscina e rastejei na gua. Cindy gritou:
    - Barr-tie! V embora, Barr-tie!
     - Sssss... ssss... - prosseguiu eu, com sibilos mais prolongados que os de John Amos.
    Enrolei o corpo no pequeno corpo despido de Cindy, prendendo minhas pernas sob seu pescoo, arrastando-a para a gua. No podia
realmente afog-la, mas o Senhor, l em cima, tinha que advertir todos aqueles que pecavam. Eu vira serpentes das selvas desarticular os maxilares, na TV. Tentei 
desarticular os meus. Ento, poderia engolir Cindy inteira.
    De repente, outra cobra me pegou! Gritei, larguei Cindy para no me afogar... nem ser devorado vivo! Senhor, por que me
esqueceste?
    - Que diabo voc pensa que est fazendo? - berrou Jory, rubro de raiva, sacudindo-me at fazer-me a cabea rolar. - Observei-o rastejar at aqui, s para ver 
o que tinha em mente. Bart... voc tentou afogar Cindy?
    - No! - repliquei, sufocado. - Apenas castiguei-a um pouquinho, no muito.
    - Sim - rosnou ele. - Como castigou um pouquinho Trevo. 
    - Nunca fiz nada a Trevo. Cuido bem de Ma. No sou um menino mau... no sou, no, no...
    - Se  to inocente, por que est chorando? Voc matou Trevo! Estou lendo em seus olhos!
#141
    Olhei duro para Jory, sentindo-me invadir por uma onda de fria.
    - Voc me odeia! Sei que me odeia!
    Joguei-me para diante, tentando esmurr-lo. No consegui. Baixei a cabea, recuei e depois corri para a frente, a fim de acertar-lhe uma cabeada no estmago. 
Ele caiu, dobrado em dois, gritando de dor. Antes que ele me matasse, dei-lhe um pontap, mas no imaginava acertar onde o atingi. Minha pontaria nunca foi boa. 
Puxa... deve ter dodo um bocado!
    -  sujeira bater na virilha - gemeu ele, to palido que parecia  beira de um desmaio. - Isso  sujeira, Bart. Covardia,
tambm.
    Nesse nterim, Cindy se recobrara o bastante para sair da piscina. Correu para casa a passos vacilantes, gritando a plenos pulmes.
    - Garotinha m e pecaminosa! - berrei. - Tudo isto  culpa dela! Culpa dela!
    Emma saiu correndo pela porta dos fundos, o avental branco esvoaando, as mos cobertas de farinha de trigo. Foi seguida de
perto por Mame, que usava um sumrio biquini azul.
    - Bart, o que voc fez? - gritou Mame.
    Pegou Cindy no colo e depois abaixou-se para pegar uma toalha largada por Emma.
    - Mame... -soluava Cindy. - Cobra grande veio... cobra grande!
    Ora, imaginem s! Ela sabia o que eu era. Afinal, Cindy no era to idiota. Mame a enrolou na toalha e a colocou em p no gramado. Olhou furiosamente para mim 
no momento em que tornei a erguer o p para dar outro pontap em Jory, que arquejava de dor.
    - Bart, se ousar dar outro pontap em Jory, vai arrepender-se! 
    Emma me fitava com dio. Olhei de uma para outra. Todo mundo me odiava, gostaria de ver-me numa cova.
     Zangado e cheio de dor, Jory tentou levantar-se. J no era to gracioso, agora. To desajeitado quanto eu. E j no era to
bonito, tambm. No obstante, conseguiu gritar:
    - Voc est louco, Bart! Completamente louco! 
    - Bart, no se atreva a jogar essa pedra em seu irmo! - gritou Mame, quando me abaixei para pegar uma.
    - Menino medonho! - berrou Emma. - No jogue isso!
    Girei nos calcanhares e corri para esmurrar Emma.
    - Pare de me insultar! - berrei. - No sou medonho! No sou ruim!
    Mame correu para mim, agarrou-me e jogou-me ao cho.
    - Nunca mais jogue uma pedra em sua vida, nem use os punhos contra uma mulher! - berrou ela, prendendo-me os ombros
de encontro ao cho.
#142
    Uma raiva rubra dominou-me o crebro, fazendo-me v-la como todas as mulheres cheias de manhas e Curvas "sedutoras". Malcolm sabia tudo a respeito delas, escrevera 
tudo sobre seu desejo de
esmagar-lhes os seios at ficarem chatos. Enchi os olhos Com o dio malicioso de Malcolm e isso deu resultado. Mame comeou a tremer enquanto me segurava.
    - O que h de errado com voc, Bart? No sabe o que est dizendo ou fazendo. Nem mesmo parece a mesma pessoa.
    Exibi os dentes como se quisesse mord-la - e, depois, tentei. Ela me esbofeteou, com fora, repetidamente, at que comecei a chorar.
    - Suba para o sto e fique l, Bart Sheffield, at eu subir para verificar o que precisa ser feito para endireit-lo!
    O sto causava medo. Sentei-me na beirada de uma das pequenas camas e esperei que ela viesse. Nunca me espancara antes; todo o castigo que eu sofrera foram 
alguns tapas, alm dos que levara hoje... e agora ela me fazia exatamente o que fora feito a Malcolm. Eu era exatamente como ele.
    A porta do sto se abriu e escutei os passos dela nos degraus estreitos e ngremes. Seus lbios estavam apertados numa linha severa quando ela se postou diante 
de mim, como uma torre, olhando para baixo, dando a impresso de que era um esforo fitar-me. Nunca antes eu a vira com a aparncia to severa.
    - Baixe as calas, Bart.
    - No!
    - Faa o que estou mandando ou o castigo ser muito pior.
    - No! No pode me bater. Encoste a mo em mim e esperarei at voc estar na aula de bal - pegarei Cindy e Emma, no conseguir
me impedir! Posso estar em mil lugares antes que ela chegue ao primeiro - e a Policia no me por na cadeia Porque sou menor! 
     - Bart, estou perdendo a pacincia com voc.
   - No perder s a pacincia, se me bater! - berrei.
   Ela parou a um metro de onde eu estava sentado na cama. Suas mos pequenas e alvas se ergueram at a garganta e ela disse baixinho:
    - Oh, Deus... - foi apenas um sussurro rouco. - Eu deveria saber que Um filho concebido em tais circunstncias resultaria
nisto. Bart, sinto muitssimo que seu filho seja um monstro.
     Um monstro? Eu era um monstro?
   No... o monstro era ela! Estava me fazendo exatamente o que a me de Malcolm fizera: a causa dele ser trancado no sto e
castigado. Odiei-a, ento, tanto quanto a amara antes...
     E gritei:
           - Eu a odeio, Mame! Quero que caia morta!
    Foi ento que ela recuou, com lgrimas nos olhos. Depois, virou-se e correu. Todavia, antes de descer a escada, trancou a porta a fim de manter-me preso naquele
#143
miservel sto abafado que eu tanto detestava e temia. Ela me transformaria num homem forte como Malcolm - e malvado, tambm. Algum dia, haveria de pagar-me. Eu 
a obrigaria a pagar por me fazer aquilo, quando eu queria ser bom e desejava apenas que ela gostasse de mim um pouquinho mais que de Jory ou Cindy. Nunca nada acontecia 
como eu queria que acontecesse.
    Foi Papai quem surrou minhas ndegas nuas, depois que chegou em casa e escutou tudo o que tinham a lhe contar a meu respeito. Admirei-o pelo modo como ignorou 
minhas splicas e explicaes.
    - Sentiu alguma coisa? - perguntou ele quando terminou e eu levantei as calas.
    Sorri.
    - No. Para me machucar, voc teria que me quebrar os ossos. Ento, a polcia o prenderia por abusar de uma criana.
    Ele me estudou com severos olhos azuis.
    - Acha que nos derrotou, no  mesmo? - perguntou ele do modo calmo e racional que lhe era peculiar. - Julga que por ser menor no existe lei que possa toc-lo; 
mas est enganado, Bart. Vivemos numa sociedade civilizada, na qual se espera que as pessoas
ajam de acordo com as regras. Ningum est fora do controle da lei, nem mesmo o Presidente. E o pior dos castigos para uma criana  permanecer trancada, impedida 
de movimentar-se para onde quiser.
     Parecendo tristonho, acrescentou:
   - Isso pode constituir uma experincia deveras traumtica.
   Permaneci calado. Ele retomou a palavra:
    - Sua me e eu decidimos que no  mais possvel tolerarmos seu comportamento. To logo eu conseguir acertar os detalhes, voc
passar a ir diariamente a um psiquiatra. Se formos obrigados, caso voc insista em desafiar-nos, ns o entregaremos aos cuidados de mdicos que podem ajud-lo a 
aprender como comportar-se normalmente.
    - No podem obrigar-me! - protestei, engasgado, temendo que um mdico de loucos me trancasse atrs de grades pelo resto da
vida. - Se tentarem, eu me matarei!
    Papai me encarou severamente.
    - No se matar, Bart. Portanto, no fique a sentado, julgando-se capaz de ser mais esperto que sua me e eu. Ns j
enfrentamos gente maior e mais sagaz que um menino de dez anos. No se esquea disso.
    Mais tarde, naquela mesma noite, quando eu estava deitado, escutei Mame e Papai realmente berrando um com o outro,  discutindo como eu nunca ouvira antes.
#144
    - Por que mandou Bart para o sto, Catherine? Precisava fazer isso? No podia apenas mand-lo ficar no quarto e esperar at que eu voltasse para casa?
    - No! Ele gosta de ficar no quarto. L, dispe de tudo para tornar o local agradvel. Fiz o que era necessrio.
    - O que era necessrio fazer, Cathy? Ser que no percebe quem voc est parecendo?
    - Bem - replicou ela num tom gelado -, no  o que sempre venho dizendo que sou: uma megera que s se importa consigo mesma?

    Levaram-me a um mdico de loucos no dia seguinte, empurraram-me para uma cadeira e mandaram-me ficar quieto. Ficaram sentados perto de mim at que uma porta 
se abriu e fomos chamados a entrar. Uma mdica estava sentada numa grande mesa de trabalho. Poderiam, ao menos, ter escolhido um homem. Detestei a mdica porque 
tinha os cabelos lisos e pretos como os de Madame Marisha
quando era jovem e posava para fotografias. Sua blusa branca era estufada na frente, de modo que precisei desviar os olhos.
    - Dr. Sheffield, o senhor e sua esposa podem aguardar l fora. Conversaremos mais tarde.
    Vi meus pais se retirarem da sala. Nunca me sentira to sozinho como quando aquela mulher se voltou para mim e me fitou com
olhos bondosos, que ocultavam pensamentos malvados.
    - No lhe agrada estar aqui, no  mesmo? - perguntou ela.
    No lhe dei a satisfao de saber que eu a escutara.
    - Sou a Dra. Mary Oberman.
    E da?
    - H brinquedos sobre a mesa. Fique  vontade.
    Brinquedos... Eu no era um beb. Encarei-a raivosamente. Ela virou a cabea e percebi que se sentia pouco  vontade, embora tentasse no demonstrar.
    - Seus pais me contaram que voc gosta de brincar de "faz-de-conta".  por isso que no tem muitos companheiros de brincadeiras?
    Eu no tinha nenhum, mas no confessaria o fato quela mulher idiota. Seria tolice contar a ela que John Amos era meu melhor amigo. Antes fora a minha av, mas 
esta me trara.
    - Bart, pode ficar a sentado e permanecer calado, mas s consegue magoar aqueles que mais o amam e voc  quem sai mais magoado, no final. Seus pais desejam 
ajud-lo. Foi por isso que o trouxeram aqui. Voc precisa cooperar e tentar. Diga-me se  feliz. Diga-me se est frustrado e se gosta do modo que sua vida est transcorrendo.
#145
    Eu no diria que sim, nem que no. No diria nada e ela no poderia obrigar-me a falar. Ento, ela comeou a falar sobre pessoas que se mantinham fechadas e 
como isso era capaz de arruin-las emocionalmente. Todas as suas palavras foram como pingos de chuva na vidraa por detrs da qual eu me abrigara.
    - Voc odeia sua me e seu pai?
    No respondi.
    - E seu irmo Jory - voc gosta dele?
    Jory era legal. Seria melhor se fosse mais desajeitado e mais feio que eu.
    - E sua irm adotiva, Cindy... o que acha dela? 
    Talvez meu olhar tenha revelado alguma coisa, pois ela fez anotaes no bloco de papel.
    - Bart - comeou ela ao deixar a caneta de lado, o rosto procurando parecer maternal e bondoso -, caso se recuse a colaborar, no teremos outra escolha seno 
intern-lo num hospital, onde muitos mdicos podero tentar ajud-lo a recuperar o controle sobre suas
emoes. No ser maltratado, mas no ser to gostoso quanto estar em casa. No ter seu prprio quarto, seus objetos pessoais, seus pais - a no ser uma vez por 
semana, durante apenas uma hora. Portanto, no acha que seria muito melhor tentar ajudar-se a si mesmo, antes que esta situao progrida? O que o transformou tanto 
em relao ao menino que voc era no vero passado?
    No desejava ser trancado numa casa de doidos, com malucos que talvez fossem maiores e mais malvados que eu, sem poder visitar John Amos e Ma.
    O que poderia fazer? Lembrei-me de trechos do dirio de Malcolm, do modo como ele deixava as pessoas pensarem que estava
cedendo, quando, na verdade, prosseguia em seu prprio caminho.
    Choraria, pediria desculpas - e quando o fazia, at mesmo eu julgava estar sendo sincero. Assim sendo, respondi:
    -  Mame... ela gosta mais de Jory que de mim. E gosta mais de Cindy, tambm. No tenho ningum. Detesto no ter ningum.
    E continuei, interminavelmente. Mesmo depois que tagarelei de verdade, ela disse a meus pais que eu precisava continuar as sesses durante um ano, ou mais.
    - Ele  um menino muito confuso - disse, sorrindo e tocando o ombro de minha me. - No se considere culpada. Bart parece estar programado para detestar-se e, 
muito embora possa aparentar que a odeia por no am-lo o suficiente, ele no gosta de si mesmo. Portanto, acredita que todas as pessoas que o amam so tolas.  
realmente uma doena. To real como qualquer doena fsica e, sob certos aspectos, ainda pior, pois Bart no consegue encontrar-se.
#146
    Eu estava escondido, escutando o que diziam, surpreso por ouvi-la dizer aquilo.
    - Ele a ama, Sra. Sheffield, com um amor quase religioso. Conseqentemente, espera que a senhora seja perfeita e, ao mesmo tempo, sabe que no  digno de sua 
ateno; ainda assim, paradoxalmente, quer que a senhora o veja e o considere o melhor filho que possui.
    - Mas eu no entendo - disse Mame, recostando a cabea no ombro de Papai. - Como pode ele me amar e, ao mesmo tempo,
desejar tanto magoar-me?
    - A natureza humana  deveras complexa. Seu filho  muito complexo. O bem e o mal lutam para dominar-lhe a personalidade.
Inconscientemente, ele tem conhecimento dessa batalha e encontrou uma soluo realmente intrigante. Identifica seu lado mau com um velho que ele chama de Malcolm. 
Apenas um dentre os muitos personagens que lhe permitem gostar mais de si mesmo.
    Meus pais ficaram totalmente imveis, de olhos arregalados, parecendo um tanto indefesos.
    Horas depois, antes de fazer minhas preces noturnas, esgueirei-me pelo comprido corredor e fiquei escutando  porta do quarto deles.
   Mame estava dizendo:
   - ... como se estivssemos sempre trancados naquele sto e nunca, nunca mais sejamos libertados.
   Que relao tinha o sto com Malcolm e eu? Seria apenas porque ambos framos mandados para l, de castigo?
   De gatinhas, afastei-me silenciosamente pelo corredor, voltei  cama e fiquei deitado em silncio, com medo de mim mesmo e do meu "subconsciente".
   Embaixo do travesseiro estava o dirio de Malcolm, que eu ia absorvendo dia a dia, noite aps noite. Tornando-me mais forte, mais esperto.

A ESCURIDO AUMENTAVA

    Na sala de estar, na noite seguinte, Mame e Papai acomodados diante do fogo que eu acendera. Esquecido por eles, pois falava to pouco, agachei-me no cho perto 
da porta, esperando que no me vissem ali e pensassem que eu me fora, como devia. No me agradava iludi-los deliberadamente, mas, s vezes, era melhor saber com 
certeza do que ficar conjeturando.
#147
    A princpio, Mame ficou calada. Ento, abordou o assunto da visita  Dra. Oberman.
    - Bart me odeia, Chris. Odeia tambm voc, Jory e Cindy. Creio que Emma tambm faz parte da lista, mas, acima de tudo,  a mim que ele detesta. Ressente-se porque 
no o amo com exclusividade.
    Papai puxou-a com mais fora contra o peito e manteve-a ali, enquanto continuavam a conversar. Quando mencionaram a idia de
irem ao quarto de Bart para verificar se este l se encontrava, escondi-me apressadamente num armrio embutido no corredor e esperei que passassem a caminho do quarto 
de Bart.
    - Ele jantou? - indagou Papai.
    - No.
    Mame disse isso como se desejasse que Bart continuasse adormecido, de modo a poder evitar o problema que ele constitua quando
acordado. Mas o simples fato de entrarem no quarto e pararem perto da cama, olhando para Bart, foi o bastante para despert-lo do cochilo. Sem uma palavra de resposta 
s afetuosas saudaes, Bart os acompanhou  sala de jantar. Era necessrio fazer as refeies, mesmo quando um menino de dez anos sentava-se  mesa, calado e carrancudo, 
recusando-se a encarar qualquer pessoa.
    Foi um jantar extremamente desagradvel, com ningum  vontade. Todos tinham pouco apetite e at mesmo Cindy mostrou-se
irritada. Emma tambm no falou, limitando-se a cumprir seus deveres em silncio. At mesmo o vento, que soprava incessantemente,
amainou e as rvores se imobilizaram, com as folhas pendentes como se estivessem congeladas. De repente, senti muito frio e lembrei-me das sepulturas sobre as quais 
Bart estava sempre falando.
    Tentei imaginar de que maneira Mame e Papai poderiam obrigar Bart a comparecer s sesses com a Dra. Oberman. Como seria
possvel for-lo a falar, quando ele era capaz de mostrar-se to malditamente teimoso? E Papai j era bastante ocupado sem roubar tempo a seus clientes - o que, 
por si, deveria mostrar a Bart quem se importava realmente com ele.
    - Vou para a cama - declarou Bart friamente, levantando-se sem pedir permisso para deixar a mesa.
    Saiu da sala. Permanecemos sentados, presos por algum feitio lanado por Bart.
    Papai quebrou o silncio:
    - Bart est fora de si. Obviamente, algo o preocupa tanto que ele nem consegue comer. Precisamos descobrir o que .
    - Mame - interpus eu -, creio que se voc fosse primeiro ao quarto de Bart, sentasse na beira da cama e ficasse bastante tempo com ele, deixando de ir ao meu 
quarto e ao de Cindy, isso adiantaria muito.
#148
    Mame olhou-me de maneira estranha e demorada, como se no acreditasse que a soluo pudesse ser to simples. Papai concordou comigo, acrescentando que, pelo 
menos, no faria mal algum.
    Era fcil ver que Bart simulava dormir. Recuei e postei-me perto de Papai, no corredor, em meio s sombras, onde Bart no
nos poderia ver. Mantive-me pronto para saltar e salvar Mame, caso Bart se mostrasse violento. Papai colocou a mo no meu ombro, contendo-me, e sussurrou bem baixinho:
    - Ele no passa de um menino, Jory, um menino muito perturbado. Um pouco menor que os meninos de dez anos, e tambm um pouco mais magro. Isso talvez seja parte 
do problema. Bart est encontrando mais dificuldades para crescer que a maioria dos
meninos.
    Tenso, esperei que ele continuasse.
    -  espantoso como ele pde nascer to desprovido de graa, quando sua me  to graciosa.
    Olhei para onde Mame estava em p, fitando Bart, que parecia sombrio e amuado at mesmo no sono - se estivesse realmente
adormecido. Ento, ela saiu correndo do quarto, lanando um olhar desvairado e confuso a Papai.
    - Chris, tenho medo dele! Entre voc. Se ele acordar e gritar comigo como gritou antes, vou esbofete-lo. Tenho vontade de tranc-lo num armrio, ou no sto.
    Levou ambas as mos aos lbios.
    - Eu no quis dizer isso - murmurou com voz fraca.
    - Claro que no. Espero que ele no tenha escutado. Cathy, acho melhor voc tomar duas aspirinas e ir para a cama. Ajeitarei Bart e Jory para dormirem.
    Lanou-me um largo sorriso brincalho e eu correspondi. Nossas conversas  hora de dormir eram o tipo de jeito que ele me dava:
conselhos sobre como lidar com situaes difceis. Conversas de homem para homem, das quais uma mulher no tinha que tomar conhecimento.
    Foi Papai quem teve coragem para se aproximar de Bart e sentar-se calmamente na beira da cama. Eu sabia que Bart tinha um sono muito leve. Quando Papai se sentou, 
a depresso causada por seu peso fez o vulto magro de Bart rolar de lado, o que seria suficiente para acordar at mesmo eu, que costumava dormir pesada e profundamente.
    Aproximei-me cautelosamente, desejando verificar pessoalmente se Bart estava fingindo. Por detrs das plpebras cerradas, os globos oculares movimentavam-se 
espasmodicamente, como se assistissem a uma partida de tnis, ou algo mais aterrorizante.
#149
    - Bart... acorde.
    Bart despertou sobressaltado, como se Papai tivesse disparado as palavras de um gigantesco canho colocado ao seu ouvido.
Sentou-se de um pulo, os olhos escuros esbugalhados e cheios de terror.
Olhou para Papai.
    - Ainda no so oito horas, filho. Emma preparou uma torta de limo para a sobremesa e a deixou na geladeira. No me diga que
no quer um pedao. A noite est linda. Quando eu tinha a sua idade, costumava pensar que o crepsculo era a melhor hora para brincar l fora. Brincadeira de esconder, 
chicotinho queimado, ou...
    Bart fitava Papai como se este falasse num idioma desconhecido. 
    - Vamos, Bart, no se isole assim, amuado. Eu o amo, sua me o ama. No importa se s vezes voc se movimenta menos
graciosamente. Existem coisas muito mais importantes, como honra e respeito. Pare de tentar ser aquilo que voc no . No precisa ser algum super-especial; aos 
nossos olhos, voc j  super-especial.
    Bart limitou-se a ficar sentado na cama, fitando Papai com hostilidade. Por que Papai no conseguia v-lo como eu o via? Poderia
um homem esperto como Papai tornar-se cego quando se tratava de encarar honestamente seu filho? Teria Bart aberto os olhos quando
Mame estava no quarto, deixando que ela percebesse o dio neles contido? Ela era sempre capaz de enxergar melhor que Papai, embora este fosse mdico.
    - O vero est quase terminando, Bart. As tortas de limo so comidas por outras pessoas. O que voc no aproveita hoje pode no existir mais amanh.
    Por que Papai estava sendo to delicado com aquele menino, cujo olhar parecia um par de punhais prontos para mat-lo?
    Quando Papai se virou para sair do quarto, Bart, obediente, acompanhou-lhe os passos. E eu os segui como uma sombra de Bart. De repente, Bart correu  frente 
de Papai, que se encontrava agora na varanda dos fundos, e escorregou para trs at quase cair rolando pelos degraus.
    - Voc no  meu pai - rosnou ele. - No consegue enganar-me. Voc me odeia e deseja que eu morra!
    Papai sentou-se pesadamente numa cadeira perto da que Mame ocupava com Cindy no colo. Bart foi sentar-se no balano, sem dar
impulso com os ps, mas simplesmente sentando-se e agarrando bem as cordas, como se pudesse cair do assento de madeira.
    Todos ns comemos da deliciosa torta de limo feita por Emma - todos exceto Bart, que permaneceu sentado onde estava e se
recusou a fazer o menor movimento. Ento, Papai se ergueu e disse que precisava visitar um doente no hospital. Lanou a Bart um olhar preocupado e disse baixinho 
a Mame:
#150
   - Calma, querida. No fique to preocupada. Logo estarei de volta. Talvez Mary Oberman no seja a melhor psiquiatra para Bart, que parece nutrir grande hostilidade 
contra as mulheres. Encontrarei
outro psiquiatra; um homem.
    Inclinou-se para beijar o rosto erguido de Mame. Escutei o som suave e mido de seus lbios se encontrando. Ento, fitaram-se profundamente nos olhos e tentei 
adivinhar o que viam um no outro.
    - Eu a amo, Cathy. Por favor, pare de preocupar-se. Tudo dar certo. Todos ns sobreviveremos.
    - Sim - disse ela, inexpressivamente, lanando um olhar duvidoso na direo de Bart. - Mas no consigo deixar de me preocupar com Bart... ele me parece to confuso.
    Empertigando-se, Papai enviou a Bart um olhar demorado, severo, observador.
    - Sim - replicou ele, sem vestgios de dvida. - Bart tambm  um sobrevivente. Veja com que fora ele se agarra s cordas,
embora esteja apenas a meio metro do solo. Simplesmente no confia nem acredita em si mesmo. Creio que busca foras em fingir-se de mais velho e sbio; a segurana 
est em algo fora dele mesmo. Como um menino de dez anos, est perdido. Portanto, cabe-nos encontrar a pessoa certa para ajud-lo, embora isso nos parea impossvel.
    - Dirija com cuidado - disse ela, como sempre, observando-o partir com o corao no olhar. 
    Muito decidido a me manter acordado para proteger Mame e Cindy, ainda assim comecei a ter sono. Cada vez que verificava, via
Bart ainda sentado no balano, os olhos escuros fitando o espao, movimentando-se apenas alguns centmetros, no mais do que o vento conseguia empurrar-lhe o peso 
do corpo.
    - Jory, vou colocar Cindy na cama - disse-me Mame, voltando-se depois para Bart. - Hora de dormir... Irei ver voc dentro de alguns minutos. Escove os dentes, 
lave as mos e o rosto. Guardamos um pedao de torta de limo para voc comer antes de escovar os dentes.
    No veio resposta do balano. Todavia, Bart levantou-se desajeitadamente, fazendo uma pausa para fitar os ps descalos, parando para examinar as mos, passar 
os dedos no pijama, olhar o cu e as montanhas distantes.
    Dentro de casa, Bart vagou sem destino, indo de objeto em objeto, pegando um deles e virando-o para examinar a parte de baixo
antes de recoloc-lo no lugar. Um pequeno veleiro de cristal veneziano atraiu-lhe momentaneamente a ateno e, depois, ele deu a impresso de congelar-se ao avistar 
uma linda bailarina de porcelana na posio de arabesco. Era uma estatueta que Mame dera ao Dr. Paul aps casar-se com meu pai; sob muitos aspectos, a bailarina 
era como Mame deve ter sido quando muito jovem.
#151
    Bart pegou cuidadosamente a delicada estatueta, com o saiote de gaze parecendo espuma congelada, os membros alvos e graciosos. Virou-o e examinou a informao 
impressa no fundo: Limoges. Eu sabia, pois tambm a examinara. Em seguida, Bart tocou de leve os cabelos louros, repartidos ao meio e puxado suavemente para trs 
em ondas presas com minsculas rosas de porcelana.
    Ento, deliberadamente, ele deixou que a estatueta lhe escapasse das mos.
    A bailarina caiu no assoalho e partiu-se em vrios pedaos. Corri, pensando que talvez fosse possvel col-los de volta sem que Mame percebesse - mas Bart colocou 
o p descalo sobre a cabea da bailarina e a esmagou ferozmente contra a madeira do piso.
    - Bart! - exclamei. - Que maldade! Voc sabe que Mame adora essa bailarina! No devia ter feito isso!
    - No me venha dizer o que devo ou no devo fazer! Deixe-me em paz e no diga uma palavra sobre o que acaba de ver. Foi um
acidente, menino, um acidente.
    De quem era aquela voz? Certamente, no de Bart. Ele fingia novamente ser o tal velho.
    Corri para pegar uma vassoura e uma p, a fim de juntar os cacos do que fora uma linda bailarina, esperando que Mame no
notasse sua falta na prateleira.
    Quando me lembrei outra vez de Bart, apressei-me em procur-lo. Encontrei-o observando Mame com ar hipcrita. Mame
segurava Cindy no colo, escovando-lhe os cabelos.
    Ela ergueu a cabea e, por acaso, notou que Bart a observava. Vi-a empalidecer e tentar sorrir, mas algo que viu no rosto dele fez o sorriso sumir antes mesmo 
de se concretizar.
    Num movimento fulminante, Bart correu e empurrou Cindy do colo de Mame. Cindy soltou um grito ao cair no cho, depois
levantou-se para chorar aos berros. Correu de volta a Mame, que tornou a peg-la no colo e se levantou, postando-se ameaadoramente diante de Bart.
    - Por que fez isso, Bart?
    Ele abriu as pernas e a encarou desdenhosamente. Ento, saiu do quarto sem olhar para trs.
    - Mame - disse eu, enquanto ela acalmava Cindy e a colocava na cama. - Bart est muito doente da cabea. Deixe Papai
lev-lo ao psiquiatra que ele quiser, mas faa-o permanecer l at ficar bom.
    Escutei-a soluar, mas s mais tarde ela se deixou abater e comeou a chorar de verdade. 
    Desta feita, fui eu quem a amparou; abracei-a para reconfort-la. Sentia-me muito adulto e responsvel.
#152
    - Jory, Jory - soluava ela, agarrando-se a mim. - Por que Bart me odeia? O que fiz para isso?
    O que poderia eu responder? No conhecia nenhuma das respostas.
    - Talvez voc devesse tentar descobrir por que motivo Bart  to diferente de mim, pois eu preferiria morrer a faz-la infeliz.
    Ela me abraou e depois fitou o espao.
    - Jory, minha vida tem sido uma srie de obstculos. Pressinto que se acontecer mais alguma coisa terrvel, sou capaz de estourar... e no posso permitir isso. 
As pessoas so to complicadas, Jory,
especialmente os adultos. Quando eu tinha dez anos, costumava pensar que tudo era muito fcil para os adultos, com todo o poder e direitos de fazerem o que bem entendiam. 
Jamais imaginei que ser me
fosse to difcil. Mas no com voc, querido, no com voc... 
    Eu sabia que sua vida fora semeada de tristezas, tendo perdido os pais, depois Cory, Carrie, meu pai e, afinal, seu segundo marido.
    - O filho de minha vingana - murmurou, falando sozinha. - E durante todo o tempo em que carreguei Bart dentro de mim, sofri com o remorso que sentia. Eu amava 
tanto o pai dele... e, de certo modo, ajudei a mat-lo.
    - Mame - disse eu, com uma repentina percepo. - Talvez Bart pressinta o seu remorso quando voc olha para ele - no ser isso?

#153
TERCEIRA PARTE

#155
A FRIA DE MALCOLM

     O sol incidiu em meu rosto e me acordou. Quando me vesti, deixei repentinamente de sentir-me to velho quanto Malcolm e, de
certo modo, alegrei-me com isso. Por outro lado, fiquei triste, pois Malcolm era to confivel.
    Por que eu no tinha amigos da minha idade, como os outros meninos? Por que s gente velha gostava de mim? Agora, no
importava que minha av afirmasse que me amava, agora que ela me roubara Ma. Eu era obrigado a encarar o fato de que apenas John
Amos era meu verdadeiro amigo.
    Sa e engatinhei pelo jardim antes do caf da manh, farejando o solo, sentindo o cheiro dos bichos selvagens que me temiam  luz do dia. Um coelhinho fugiu 
como louco e eu seria incapaz de lhe fazer mal; incapaz?
     mesa do caf, vigiaram-me como se esperassem que eu fizesse algo horrvel. Notei que Papai no perguntou a Jory como estava passando hoje; perguntou apenas 
a mim. Amarrei a cara para o prato de cereais; estava frio. Eu detestava passas! Pareciam pequenos insetos mortos.
    - Bart, eu lhe fiz uma pergunta.
    Eu j sabia.
    - Estou bem - respondi, sem olhar para Papai, que sempre acordava bem disposto e nunca parecia mal-humorado como eu - e Mame. - Eu s gostaria que vocs contratassem 
uma boa cozinheira. Boa de verdade. Ou, melhor ainda, que Mame ficasse em casa e preparasse nossas refeies, como fazem as outras mes. A comida de Emma no serve 
para homens nem animais.
    Jory olhou feio para mim e chutou-me por baixo da mesa, prevenindo-me para manter a boca fechada.
    - No foi Emma quem preparou seus cereais, Bart - disse Papai. - J vem assim numa caixa. E at hoje voc sempre gostou
muito de passas. Costumava desejar tambm as de Jory. Todavia, se esta manh as passas o ofendem de alguma maneira, no as coma. E por que seu lbio inferior est 
sangrando?
#156
    Estava? Os mdicos andavam sempre vendo sangue, porque sempre estavam cortando as pessoas.
    Jory assumiu o encargo de responder:
    - Ele estava brincando de lobo esta manh, Papai. S isso. Creio que se mordeu ao pular sobre o coelho e tentar arrancar-lhe a cabea com uma dentada.
    Sorriu para mim, parecendo satisfeito com minha estupidez.
    Havia algo no ar. Tive certeza, pois ningum perguntou por que eu brincava de lobo. Apenas me olhavam como se esperassem
que eu agisse como um maluco.
    Escutei Mame e Papai sussurrando fora da copa - falando a meu respeito. Ouvi-os mencionar mdicos, novos psiquiatras. Eu
no iria! No podiam obrigar-me!
     Ento, Mame voltou  cozinha, conversando com Jory enquanto Papai foi  garagem ligar o motor do seu carro.
    - Mame, vamos mesmo apresentar o espetculo esta noite?
     Ela me lanou um olhar perturbado e depois forou um sorriso, respondendo:
    - Naturalmente. No posso decepcionar meus alunos, seus pais e os outros convidados que j compraram ingressos.
    Os tolos so logo separados de seu dinheiro.
     Jory disse:
    - Creio que vou telefonar para Melodie. Ontem, disse-lhe que talvez o espetculo fosse cancelado.
    - Jory, por que lhe disse tal coisa?
    Ele olhou para mim, como se eu fosse o culpado de tudo, at mesmo de espetculos que no eram cancelados - e eu no
compareceria. Nem que se lembrassem de convidar-me. No queria assistir a um bal bobo e fresco, onde todo mundo danava e no dizia nada. Nem mesmo danariam O 
Lago dos Cisnes, mas o mais idiota e mais chato de todos os bals: Coplia.
    Ento, Papai tornou a entrar em casa, tendo esquecido alguma coisa - como sempre.
    - Creio que voc ser o prncipe - disse ele a Jory, que se voltou para fit-lo desdenhosamente.
    - Ora, Papai, ser que voc nunca aprende? No h um prncipe em Coplia! Na maior parte do tempo, ficarei apenas no corpo de baile, mas Mame estar magnfica 
no seu papel. Foi ela quem coreografou a pea.
    - O que esto dizendo? - rugiu Papai, virando-se para encarar severamente Mame. - Cathy, sabe que no deve danar com esse joelho problemtico! Voc me prometeu 
que nunca mais voltaria a danar profissionalmente. A qualquer momento o joelho pode ceder e voc levar um tombo. Mais uma queda e acabar aleijada para o resto 
da vida.
#157
    - S mais uma vez - implorou ela, como se sua vida inteira dependesse de danar mais uma vez. - Serei apenas a boneca mecnica, sentada numa cadeira. No faa 
tempestade num copo d'gua.
    - No! - esbravejou outra vez Papai. - Se voc danar esta noite e no cair, pensar que o joelho est bom. Desejar repetir o sucesso e bastar mais um tombo 
para deixar o joelho permanentemente
danificado. Mais uma queda grave e voc poder fraturar a perna, a bacia, a espinha... J aconteceu antes e voc bem sabe!
    - Pode enumerar todos os ossos de meu corpo! - gritou ela em tom agudo, enquanto eu pensava, pensava, pensava: se ela quebrasse os ossos e no pudesse voltar 
a danar, teria que ficar em casa comigo, o tempo todo.
    - Francamente, Chris, s vezes age como se eu fosse sua escrava. Olhe para mim: tenho trinta e sete anos e em breve estarei velha demais para danar. Deixe que 
eu me sinta til, como voc se sente. Preciso danar - apenas mais uma vez!
    - No - repetiu ele, mas com menos firmeza. - Se eu ceder, no ser a ltima vez. Voc danar de novo...
    - Chris, eu no vou suplicar. No tenho uma s aluna capaz de fazer o papel -e danarei, quer voc goste ou no!
    Olhou-me de esguelha, como se estivesse mais preocupada com o que eu pensava do que com a opinio dele. E eu me sentia feliz,
muito feliz... porque ela ia cair! Bem no fundo, eu tinha certeza de que poderia faz-la cair, com a fora do meu desejo. Sentar-me-ia na platia e lhe lanaria 
um mau-olhado; ento, ela passaria a ser minha companheira de brincadeiras. Eu a ensinaria a rastejar pelo jardim e farejar o solo como um co ou um ndio; e ela 
se espantaria com o que era possvel descobrir farejando a terra.
    - No me refiro a uma contuso de menor importncia, Catherine - insistiu aquele detestvel marido. - Durante toda a sua
vida, submeteu suas juntas a um enorme esforo e no deu ateno  dor. J  tempo de comear a entender que o bem-estar de sua
famlia depende de sua boa sade.
    Fechei a cara para Papai, aborrecido por ele ter esquecido alguma coisa e voltado a tempo de ouvir demais. Mame nem mesmo
parecia surpresa com o fato dele haver esquecido mais uma vez sua carteira, embora fosse mdico e devesse ter boa memria. Entregou-lhe a carteira, que ficara sobre 
a mesa, ao lado do prato, e enviou-lhe um sorriso retorcido.
    - Voc faz isso todo dia. Vai para a garagem, liga o motor do carro e, ento, lembra-se de que no levou a carteira.
     O sorriso de Papai foi to retorcido quanto o dela. 
    - Sim, claro que fao. D-me a oportunidade de voltar e escutar todas as coisas que vocs no me contam - disse ele, enfiando a carteira no bolso traseiro das 
calas.
#158
    - Chris, no me agrada contrariar sua vontade, mas no posso permitir um espetculo de segunda categoria. E  a grande oportunidade de Jory aparecer num solo...
    - Pelo menos uma vez na vida, Catherine, oua o que digo. Seu joelho foi radiografado, voc sabe que a cartilagem est rompida e ainda se queixa de dores crnicas. 
No se apresenta no palco h
anos. Dor crnica  uma coisa - dor aguda  outra, muito diferente.  isso que voc deseja?
     - Oh, vocs, mdicos! - zombou ela. - Todos vocs tm uma noo to desalentadora da fragilidade do corpo humano. Meu joelho di - e da? Quando eu estava na 
Carolina do Sul, os bailarinos se queixavam; em Nova Iorque tambm se queixavam; em Londres...
ora, o que  dor, para um bailarino? Nada, doutor, absolutamente nada que no consiga suportar!
    - Cathy!
    - Meu joelho no di de verdade, h mais de dois anos. J me escutou reclamar de dor? No, no escutou!
    Com isso, Papai saiu da cozinha, atravessou a rea de servio e entrou na garagem.
    Numa frao de segundo, ela correu atrs dele e eu atrs dela, esperando escutar o resto da discusso e desejando que ela vencesse. Ento, eu a teria s para 
mim.
    - Chris! - gritou ela, abrindo a porta do lado direito e entrando no carro, onde o abraou pelo pescoo. - No v embora zangado. Eu o amo, eu o respeito, e 
dou-lhe minha palavra de honra que esta ser minha ltima apresentao num palco. Juro que jamais, nunca mais, voltarei a danar em pblico. Sei que devia ficar 
em casa... eu sei...
    Beijaram-se. Nunca vi duas pessoas que gostassem tanto de se beijarem. Ento, ela se afastou um pouco, fitando-o docemente nos
olhos, acariciando-lhe o rosto ao murmurar:
    - Querido, esta  minha primeira oportunidade de danar profissionalmente com o filho de Julian. Olhe para Jory, repare o
quanto ele se parece com Julian. Coreografei um pas de deux especial, no qual sou a boneca mecnica e Jory um soldado mecnico.
 a melhor coisa que j realizei. Quero voc na platia, assistindo, sentindo-se orgulhoso de sua esposa e filho. No quero que se preocupe com meu joelho. Sinceramente, 
j ensaiei e no doeu!
    Acariciou-o e beijou-o ainda mais. Pude perceber que ele a amava acima de tudo, mais do que a ns, mais do que a si prprio. Tolo! Maldito tolo por amar tanto 
uma mulher!
    - Est certo - disse ele, afinal. - Mas ter que ser a ltima vez. Seu joelho no pode suportar anos e anos de treinamento. At mesmo ao ensinar voc o utiliza 
demais, tanto que as outras juntas podem ficar prejudicadas.
#159
    - Vi Mame afastar-se dele e saltar do carro, dizendo com voz tristonha:
    - H muitos anos, Madame Marisha disse que, para mim, no existiria vida sem a dana; e eu neguei que assim fosse. Agora, terei oportunidade de verificar.
    timo!
    Eram exatamente as palavras que ele precisava escutar para apresentar uma nova idia. Debruou-se no banco e chamou:
    - Cathy! E a respeito daquele livro que voc disse tencionar escrever? Eis uma boa oportunidade para comear...
    Em seguida, fitou-me demoradamente e me senti como uma vidraa limpa e transparente.
    - Bart, lembre-se de que  muito amado. Caso se ressinta contra algum, ou alguma coisa, basta me contar, ou  sua me. Estamos dispostos a escutar e fazer o 
possvel para torn-lo feliz.
    Feliz? Eu s me sentiria feliz quando ele sumisse da vida dela. S seria feliz quando a tivesse exclusivamente para mim. Ento, lembrei-me daquele velho... daqueles 
dois velhos. Nenhum deles desejava que ela permanecesse viva... nenhum dos dois. Eu desejava ser como eles, especialmente como Malcolm, de modo que fingi que ele 
estava na garagem, esperando que Papai fosse embora, para ficar sozinho. Ele gostava quando eu ficava sozinho, quando me sentia triste, solitrio, malvado, furioso... 
e, no momento, ele sorria.

    To logo Mame e Jory saram, pouco depois de Papai, Emma caiu novamente sobre mim, implicando comigo, detestando-me.
    - Bart, ser que no pode limpar esse sangue do lbio? Precisa continuar a mord-lo? As pessoas geralmente evitam machucar-se
deliberadamente.
    O que sabia ela a respeito de ser como eu? Eu no sentia dor quando mordia o lbio. Gostava do sabor de sangue.
    - Vou-lhe dizer uma coisa, Bartholomew Scott Winslow Sheffield: se voc fosse meu filho, sentiria no traseiro o peso da minha mo! Creio que gosta de atormentar 
as pessoas e faz todas as maldades possveis s para atrair a ateno delas. No  preciso
ser psiquiatra com dez diplomas para perceber isso!
    - CALE A BOCA! - berrei.
    - No se atreva a gritar e me mandar calar a boca. J aturei o bastante de voc!  o responsvel por todas as coisas ruins que esto acontecendo nesta casa. 
Quebrou aquela estatueta carssima de que sua me tanto gostava. Encontrei-a na lata do lixo, embrulhada em jornal. Pode ficar a sentado, de cara amarrada, mirando-me 
com esses feios olhos pretos, pois no tenho medo. Foi voc quem enrolou o arame farpado no pescoo de #160
Trevo e matou o co de estimao de seu irmo. Devia envergonhar-se!  um garotinho mesquinho, malvado e detestvel, Bart Sheffield, e no  de espantar que no 
tenha
amigos! Absolutamente, no  de espantar! E vou economizar milhares de dlares para seus pais quando o virar de bunda para cima e lhe der uma sova de deixar-lhe 
o traseiro roxo! Ficar quinze dias sem poder sentar!
    Parecia uma torre ameaadora diante de mim, fazendo-me sentir pequeno e indefeso. Desejei ser qualquer pessoa, menos eu - qualquer pessoa forte.
    - Se tocar em mim, eu a mato! - declarei com voz fria.
    Ergui-me rigidamente, afastei bem os ps e apoiei as palmas das mos sobre a mesa, para manter o equilbrio. Por dentro, fervia de raiva. Agora, sabia como transformar-me 
em Malcolm e ser bastante impiedoso para conseguir o que queria, quando queria.
    Olhem para ela, agora - est com medo. Agora,  ela quem tem os olhos esbugalhados e cheios de medo. Franzi o lbio superior e
exibi os dentes. Depois, arreganhei ambos os lbios numa careta de fria:
    - Mulher, suma-se da minha frente antes que eu me descontrole!
    Emma recuou, calada. Depois, correu para a sala de jantar, dirigindo-se ao corredor a fim de proteger Cindy.

    Esperei o dia inteiro. Emma julgou que eu estivesse escondido em minha toca na sebe, de modo que deixou Cindy sozinha na caixa de areia,  sombra de um enorme 
carvalho. Tinha um toldo bonito, tambm. Nada era bom demais para Cindy - e ela era apenas filha adotiva.
    A nojentinha riu quando me viu mancando, como se eu parecesse engraado e estivesse apenas fingindo-me de velho. Vejam como
sorri e tenta encantar-me. Sentada ali, semi-nua, usando apenas pequenos shorts verde e branco. Cresceria, ficaria mais bonita e seria como todas as mulheres, pecaminosa 
e seduzindo os homens a se
comportarem da pior maneira possvel. Trairia o homem que a amasse e seus filhos, tambm. Mas... mas... e se fosse feia? Que
homem a desejaria? Se fosse feia, no teria filhos. No conseguiria seduzir os homens. Eu salvaria todos os seus filhos do que ela lhes faria mais tarde. Salvar 
os filhos - isso era importante.
    - Barr-tie - disse ela, sorrindo para mim, sentada de pernas cruzadas para que eu pudesse ver as calcinhas rendadas que usava
por baixo dos shorts. - Brinca, Barr-tie? Brinca com Cindy...?
#161
    As mozinhas gorduchas se estenderam para mim. Ela tentava "seduzir-me"! Apenas dois anos e alguns meses de idade e j conhecia todas as manhas pecaminosas das 
mulheres!
    - Cindy! - chamou Emma da cozinha.
    Mas eu estava abaixado e ela no me podia ver atrs dos arbustos.
    - Voc est bem?
    - Cindy brinca de castelo de areia! - respondeu a nojentinha, como se pretendesse proteger-me.
    Ento, pegou seu balde vermelho predileto e o ofereceu a mim junto com a p vermelha e amarela.
    Segurei com mais fora o cabo do canivete. 
    - Linda Cindy... - cantei baixinho, rastejando para perto dela. colocando no rosto um sorriso que lhe provocou risadinhas. - A linda Cindy quer brincar de salo 
de beleza...
    Ela bateu palmas.
     - Ohhh! - exclamou,encantada. - Bom...
O cabelo louro em minha mo era sedoso e limpo. Cindy riu quando lhe repuxei o cabelo e soltei a fita do rabo-de-cavalo.
      - No vou machuc-la - disse eu, mostrando-lhe meu canivete com cabo de madreprola. - Portanto, no grite... fique sentadinha no salo de beleza at eu terminar.

    No meu quarto, encontrei a lista de palavras novas. Tinha que aprender a pronunci-las, treinar soletr-las e us-las pelo menos cinco vezes no primeiro dia 
- e dali por diante. Precisava conhecer palavras complicadas, a fim de impressionar as pessoas e faz-las saberem que eu era mais esperto.
     Intimidar. J aprendi: significava fazer as pessoas terem medo da gente.
     Finalmente. Tambm j aprendi: significava que, mais cedo ou mais tarde, minha vez chegaria.
     Sensual. Palavra m. Significava prazer que a gente sente ao tocar nas garotas. Era preciso eliminar as coisas sensuais.
     Logo me cansei das palavras complicadas que tinha de aprender para me fazer respeitar. Cansei-me de fingir ser Malcolm.
Todavia, o problema era que eu estava perdendo minha personalidade verdadeira. Agora, eu j no era totalmente Bart. E agora que me escapava, Bart, de uma hora para 
outra, no me parecia to estpido e digno de piedade como eu julgava antes.
    Reli uma determinada pgina do dirio de Malcolm, quando ele tinha exatamente a mesma idade que eu. Ele detestava cabelos louros
como os de sua me e sua filha - mas nem sonhava com sua pequena "Corrine" quando escreveu:
#162
     "Chamava-se Violet Blue e seus cabelos me lembravam os de minha me. Detestei seus cabelos. Freqentvamos
a mesma escola dominical e eu me sentava atrs dela, olhando para aquele cabelo que, algum dia, seduziria um homem e o induziria a desej-la, como aquele
     amante desejara minha me."
     "Um dia, ela sorriu para mim, esperando um elogio. Mas eu a enganei, dizendo que seu cabelo era feio. Para
minha surpresa, ela riu, respondendo: "Mas  da mesma cor que o seu."
     "Naquele dia, raspei todo o meu cabelo - e, no dia seguinte, agarrei Violet Blue e a joguei ao cho.
Quando ela voltou para casa, chorando, estava to careca quanto eu".

     Todo aquele lindo cabelo louro de Cindy voava ao vento. Ela chorava na cozinha. No porque eu a tivesse machucado ou amedrontado. Foi o berro de Emma que lhe 
revelou que algo estava errado. Agora, o cabelo de Cindy parecia com o meu: curto, arrepiado feio.

A LTIMA DANA

    - Jory - chamou Mame, aliviada quando me viu entrar. - Graas a Deus voc voltou. Gostou do almoo?
     Claro, respondi, timo almoo; e ela no deu muita ateno quando no entrei em detalhes, pois estava por demais ocupada com
os preparativos de ltima hora. Era assim que acontecia nos dias de espetculo: aula de manh, ensaio  tarde e espetculo  noite. Correria, correria, correria, 
fazendo de conta o tempo todo que o mundo cessaria de girar se a gente no se apresentasse no palco com o mximo de nossa capacidade. Quando, na verdade, o mundo 
no parava de girar...
    - Sabe, Jory - tagarelou Mame, muito feliz, no camarim que compartilhvamos - ela falava de trs de um biombo e no nos
vamos -, o bal sempre me emocionou, durante toda a minha vida. Mas esta noite ser a mais grandiosa de todas, porque danarei com meu prprio filho! Sei que voc 
e eu j danamos juntos muitas vezes, mas esta noite  especial. Agora, voc  suficientemente bom para apresentar-se num solo. Por favor, por favor, esforce-se 
ao mximo para que Julian, l no cu, possa orgulhar-se de seu nico filho.
#163
    Claro que me esforaria ao mximo; sempre me esforava. As gambiarras se acenderam, a overture terminou, o pano subiu. Houve um momento de silncio antes do 
incio da msica do primeiro ato. Era o nosso tipo de msica - de Mame e meu -, levando-nos ao mundo encantado onde tudo podia acontecer, at mesmo finais felizes.
    - Mame, voc est maravilhosa... mais linda que qualquer das outras bailarinas!
    E era verdade. Ela riu, alegre, replicando que eu certamente sabia como agradar as mulheres e, se continuasse assim, acabaria sendo o Don Juan do sculo vinte.
    - Agora, Jory, oua a msica com ateno. No se absorva na contagem a ponto de esquecer a msica.  a melhor maneira de
captar a magia: sentir a msica!
    Eu estava to tenso que me sentia prestes a estourar.
    - Mame, espero que o pai que eu mais amo esteja sentado no centro da primeira fila.
     Foi ento que ela correu para um ponto de onde podia ver a platia. Em determinados lugares, as gambiarras no me feriam os
olhos.
    - Eles no esto l - disse ela, desalentada. - Nem Bart...
    No houve tempo para responder. Ouvi minha deixa musical e entrei danando no palco com o resto do corpo de baile. Tudo corria perfeitamente, com Mame na sacada, 
fazendo o papel da linda boneca Coplia, parecendo bastante real para inspirar amor  distncia.
     Todavia, quando o primeiro ato terminou, ela ofegava, sem flego. No contara a Papai que danaria tambm o papel da moa da aldeia, Swanhilda, que amava Franze 
apesar dele se apaixonar bobamente por uma boneca mecnica. Dois papis para Mame - papis difceis, pois ela os coreografara. Papai certamente a proibiria de danar 
se conhecesse toda a verdade sobre a ltima dana de mame. Teria eu cometido um erro ao contribuir para engan-lo?
    - Mame, como est seu joelho? - perguntei quando a vi fazer uma ou duas caretas de dor durante o intervalo entre os atos.
    - Jory, meu joelho est timo! - replicou ela com aspereza, tentando mais uma vez avistar Papai e Bart em suas poltronas. - Por que no vieram? Se Chris no 
aparecer para me assistir danar pela ltima vez, jamais o perdoarei!
    Vi Papai e Bart logo antes do incio do segundo ato. Estavam na segunda fila e percebi que Bart fora trazido  fora. Seu lbio inferior projetava-se numa careta 
de amuo e ele fitava raivosamente a cortina que subiria para revelar beleza e graa. Ento, ele ficaria ainda mais carrancudo. Beleza e graa no iluminavam a vida 
de Bart como iluminavam a minha.
    Hora do terceiro ato. Mame e eu danamos juntos, bonecos movidos a corda, acionados por enormes chaves que nos saam s costas.
#164
    Comeamos rigidamente, movimentando as juntas emperradas. O enorme salo onde o Dr. Coplius guardava suas invenes era
misteriosamente obscuro, tornado ainda mais dramtico por lmpadas azuis. Notei que Mame estava em dificuldades, mas, mesmo
assim, no perdeu um nico passo enquanto acompanhamos o ritmo da msica e ligamos todos os outros bonecos mecnicos, que se
movimentaram e comearam a danar conosco.
     - Voc est bem, Mame? - indaguei num sussurro, quando ficamos bastante prximos um do outro.
    - Claro - disse ela, ainda sorrindo.
    No parava de sorrir, pois,  supostamente, o sorriso era pintado na cara da boneca.
    Temi por ela, mesmo enquanto lhe admirava a coragem. Sabia que, na platia, Bart nos observava, julgando-nos estpidos e idiotas, sentindo cimes de nossa graa 
e agilidade.
    De repente, percebi, pelo sorriso tenso de Mame, que ela sentia uma dor terrvel. Tentei danar mais perto dela, mas um dos bonecos vestidos de palhao me atrapalhava 
o caminho. Ia acontecer. Eu sabia que ia acontecer exatamente o que Papai temia.
    Em seguida, viria uma srie de piruetas que levariam Mame a descrever um crculo em torno do palco. Para fazer tais piruetas, ela precisava conhecer a localizao 
exata de todos os bailarinos e, tambm, dos adereos do cenrio. Quando ela girou perto de mim, estendi a mo para ajud-la a manter o equilbrio antes de prosseguir 
nas piruetas. Oh, Deus, eu nem tinha coragem de olhar! Ento, vi que ela conseguiria; com dor ou sem dor, ela danaria sem cair. Alegre, agora, dei um grande salto 
e ca sobre um joelho, propondo casamento  boneca de meus sonhos. Ento, meu corao quase parou. Uma das fitas de sua sapatilha se soltara!
    - Suas fitas, Mame - cuidado com a fita do p esquerdo!
    Gritei acima da msica, mas ela no me escutou. Outra bailarina pisou na fita. Mame perdeu o equilbrio. Estendeu os braos para firmar-se e talvez tivesse 
conseguido - mas vi o sorriso transformar-se num mudo grito de dor quando o joelho cedeu e ela caiu. Bem no centro do palco.
     Pessoas gritavam na platia. Algumas se levantavam para verem melhor. Ns, no palco, continuamos danando enquanto o contra-regra
entrou e carregou Mame para os bastidores. Sua substituta entrou em cena e o bal continuou.
    Quando o pano baixou pela ltima vez, no esperei para receber os aplausos. Corri para perto de minha me. Invadido por um medo horrvel, aproximei-me do local 
onde Papai a carregava nos braos, enquanto os homens da ambulncia, uniformizados de branco, apalpavam as pernas de Mame para verificar se uma delas, ou ambas, 
estavam quebradas.
#165
    - Dancei bem, Chris? - perguntava ela, embora a dor lhe tornasse o rosto muito plido. - No estraguei o espetculo, estraguei? Viu Jory e eu fazermos nosso 
pas de deux?
    - Sim, sim - respondia ele, beijando-lhe o rosto e parecendo muito carinhoso ao ajudar a coloc-la numa maca. - Voc e Jory
 estiveram magnficos. Nunca vi voc danar melhor... e Jory foi brilhante.
    - E, desta vez, no precisei sangrar pernas abaixo - sussurrou ela, fechando os olhos com ar fatigado. - Tive apenas que
quebrar uma perna... 
    O que ela disse no fazia muito sentido para mim. Voltei meus pensamentos para a expresso no rosto de Bart ao fit-la. Parecia estar satisfeito, quase zombeteiro. 
Estaria eu sendo injusto para com ele? Ou seria culpa o que eu lhe via nos olhos?
    Solucei enquanto Mame foi levada na maca e colocada na ambulncia que os conduziria - ela e papai - ao hospital. O pai de Melodie prometeu deixar-me no hospital 
e depois levar Bart para casa em segurana.
    - Apesar de ter certeza de que Melodie preferiria que Jory fosse para casa e Bart insistisse em ficar com a me no hospital.

     Muito mais tarde, Mame acordou dos sedativos que lhe haviam ministrado e olhou para as flores que enchiam o quarto.
    - Ora, parece um jardim - comentou.
    Sorriu debilmente para Papai, estendendo os braos para ele e depois, para mim.
    - Chris, sei que voc vai dizer que me preveniu. Mas dancei bem at cair, no foi?
    - Por causa da fita da sapatilha - declarei, ansioso por proteg-la da raiva de Papai. - Se no houvesse soltado, voc no cairia. 
    - Minha perna no est quebrada, est? - perguntou ela a papai.
    - No querida, apenas alguns ligamentos rompidos e cartilagens partidas, que foram consertadas durante a operao.
    Ento, Papai se sentou na beira da cama e forneceu todos os detalhes da contuso, que no era to insignificante quanto ela
queria acreditar.
    Mame refletiu em voz alta:
    - No consigo entender, realmente, como aquela fita se soltou. Sempre costuro pessoalmente as fitas, com todo cuidado, sem
confiar em ningum...
    Fez uma pausa, fitando o espao.
    - Onde sente dor, agora?
    - Em lugar nenhum - replicou ela num tom rspido, como se aborrecida. - Onde est Bart? Por que no veio com vocs?
#166
    - Voc sabe onde est Bart. Detesta hospitais e gente doente, tanto quanto detesta tudo o mais. Emma est tomando conta dele e de Cindy. Mas queremos que voc 
volte logo para casa. Portanto, faa o que o mdico e as enfermeiras mandarem - e no seja to malditamente teimosa a ponto de no escutar nem obedecer.
    - O que h de errado comigo? - perguntou ela, alertando-se, como eu.
    Empertiguei-me na cadeira, pressentindo que algo estava por desabar sobre ns.
    - Seu joelho est em pssimo estado, Cathy. Sem entrarmos em detalhes especficos, voc ter que usar uma cadeira de rodas at que alguns ligamentos rompidos 
cicatrizem.
    - Uma cadeira de rodas?
    Parecendo atordoada, ela disse aquilo como se estivesse mencionando a cadeira eltrica.
    - O que h realmente de errado? Voc est omitindo alguma coisa. Tenta proteger-me!
    - Quando os mdicos tiverem certeza, voc saber. Mas uma coisa  certa: nunca mais poder danar. E eles tambm disseram
que nem mesmo pode fazer demonstraes para os alunos. Nenhum tipo de dana, nem mesmo valsa.
    Ele falou em tom firme, mas com os olhos cheios de compaixo e sofrimento.
    Ela pareceu atnita, no acreditando que uma queda to insignificante pudesse causar danos to graves.
    - Nenhuma dana...? Absolutamente nenhuma? 
    - Absolutamente nenhuma - repetiu Papai. - Sinto muito, Cathy, mas eu a preveni. Relembre e conte as vezes em que caiu e
machucou esse joelho. Quanto dano voc julga que ele seja capaz de suportar? At mesmo andar no ser to fcil para voc como era
antes. Portanto trate de chorar agora. Desabafe logo de uma vez.
    Ela chorou nos braos dele e, eu sentado na cadeira, solucei por dentro, sentindo-me to desolado quanto se fosse eu quem perdesse o uso das pernas para danar.
    - Tudo bem, Jory - disse ela, aps enxugar as lgrimas e exibir um sorriso trmulo. - Se eu no puder danar, arranjarei algo melhor para fazer - embora s Deus 
saiba o que seja.

OUTRA AV

    Dentro de poucos dias, Mame se sentia muito melhor. Foi ento que Papai levou para o hospital uma mquina de escrever porttil,
uma grossa pilha de papel amarelo tamanho ofcio e outros objetos para escrita.
#167
Arrumou tudo na mesinha que podia ser rolada acima da cama de Mame e mostrou um de seus largos e encantadores sorrisos.
    -  uma tima ocasio para voc terminar aquele livro que comeou h tanto tempo, - disse ele. - Consulte seus dirios e
bote tudo pra fora. Ao diabo com quem possa ofender-se! Magoe todos eles como foi magoada, como eu fui magoado. D tambm
algumas facadas por Cory e Carrie. E, j que est com a mo na massa, acrescente alguns murros por mim, Jory e Bart, pois eles tambm foram afetados.
    De que falava ele?
    Fitaram-se por longo tempo. Depois, com ar infeliz, ela tomou das mos dele um velho dirio. Abriu-o e eu pude ver a caligrafia
grande, feminina, juvenil.
    - No sei se devo - murmurou com estranha expresso no olhar. - Seria como reviver aquilo tudo. Todo o sofrimento voltaria.
    Papai sacudiu a cabea.
    - Cathy, faa o que achar que deve fazer. Em primeiro lugar, deve ter existido um bom motivo para voc escrever esses dirios. Quem sabe? Talvez voc esteja 
a caminho de uma nova carreira, mais gratificante que a primeira.
    No me parecia possvel que escrever fosse capaz de substituir o bal. Todavia, quando fui visitar Mame no hospital, no dia
seguinte, ela estava escrevendo como louca. Percebi-lhe no rosto uma estranha expresso de concentrao e, de certo modo, senti inveja.
    - Mais quanto tempo? - perguntou ela a Papai, que me levara at l.

    Estvamos todos  espera, Emma com Cindy no colo e eu segurando com fora a mo de Bart. Papai ergueu Mame do banco dianteiro do carro e a colocou na cadeira 
de rodas dobrvel que ele alugara. Bart olhava com repulsa para a cadeira de rodas e Cindy
Chamava: "Mame, Mame!", pouco se importando com a maneira pela qual Mame retornasse, desde que voltasse para casa. Bart, porm, manteve-se afastado, mirando Mame 
de cima abaixo, como se fitasse uma desconhecida com a qual antipatizava.
    Depois, Bart girou nos calcanhares e se encaminhou para casa. Nem mesmo disse "al" a Mame. Uma expresso de mgoa passou
pelo semblante de Mame e ela chamou:
    - Bart! No v embora antes de eu ter uma oportunidade para dizer al. No est satisfeito por ver-me? No imagina o quanto
senti sua falta. Sei que no gosta de hospitais; mesmo assim, gostaria que voc tivesse ido at l. Sei, tambm, que voc no gosta desta cadeira, mas no a usarei 
para sempre. Uma senhora na aula de
#168
fisioterapia mostrou-me o quanto  possvel a gente fazer sentada neste tipo de cadeira...
    Interrompeu-se porque o olhar sombrio e duro de Bart no a encorajava a prosseguir.
    - Voc parece engraada, nessa cadeira - disse ele, com a testa franzida. - No gosto de voc nessa cadeira!
    Mame riu, nervosa.
    - Bem, para falar a verdade, tambm no  o meu trono predileto, mas lembre-se de que no far parte permanente de minha
vida; s at meu joelho ficar bom. Venha, Bart, seja amistoso com sua me. Eu o perdoo por no me visitar no hospital, mas no o
perdoarei se no me mostrar um pouco de afeio.
    Ainda carrancudo, Bart recuou quando ela rolou a cadeira na direo dele.
    - No! No me toque! - exclamou ele, em voz muito alta. - No precisava danar e cair! Caiu porque no queria voltar para
casa e ver-me outra vez! Odeia-me porque cortei o cabelo de Cindy! E agora quer castigar-me, ficando sentada nessa cadeira quando no tem necessidade disso!
    Virando-se, correu para o quintal, usando o caminho de pedras. Logo tropeou e caiu. Levantando-se, continuou a correr, esbarrando numa rvore e soltando um 
grito. Pude ver que seu nariz sangrava. Puxa, que sujeitinho desajeitado!
    Papai ignorou a rebelio de Bart e empurrou Mame para dentro de casa, com Cindy deleitada por viajar no colo dela.
    - No se preocupe com Bart... ele voltar, arrependido... sentiu muito sua falta, Cathy. Ouvi-o chorar de noite. E o novo psiquiatra, Dr. Hermes, acha que ele 
est melhorando, desabafando parte da hostilidade.
    Mame ficou calada, passando a mo nos cabelos curtos e macios de Cindy, que mais parecia um menino naquele macaco, embora Emma tivesse atado um lao de fita 
num curto tufo de seus cabelos. Creio que Papai contara a Mame o que Bart fizera a Cindy, pois ela no fez perguntas a respeito.
    Mais tarde, quando Bart j estava deitado, corri para apanhar um livro que esquecera na sala de estar ntima e escutei a voz de Mame vindo do quarto "dela".
    - Chris, o que farei em relao a Bart? Tentei mostrar-lhe amor e carinho, mas ele me rejeitou. E veja o que fez a Cindy, uma
criana indefesa, que acha que ningum ser capaz de lhe fazer mal. Voc deu uma surra nele? Fez alguma coisa para castig-lo? Ele
demonstra respeIto para com algum de ns? Algumas semanas no sto, talvez lhe ensinassem algo a respeito de obedincia.
    Ouvir Mame falar daquele modo deixou-me deprimido. To triste que fui obrigado a afastar-me depressa e jogar-me na cama,
#169
fitando as paredes com os posters de Julian Marquet danando com Catherine Dahl. No era a primeira vez que eu tentava imaginar como teria sido realmente meu verdadeiro 
pai. Amara muito minha me? E ela o amara? Minha vida teria sido mais feliz se ele no
morresse antes de eu nascer?
    Ento, houve Papai Paul, que veio depois daquele homem alto com cabelos e olhos escuros. Seria Bart realmente filho do Dr. Paul, ou...? Nem pude completar a 
pergunta, sentindo-me desleal por alimentar dvidas.
    Fechei os olhos, sentindo uma  assustadora tenso na atmosfera que me cercava, como se uma espada invisvel pairasse sobre ns, pronta para ceifar-nos todos.

     No incio da noite seguinte, encurralei Papai em seu escritrio e desabafei tudo o que vinha contendo at aquele momento.
    - Papai voc tem que fazer algo a respeito de Bart. Ele me causa medo. No sei como podemos continuar vivendo com ele dentro de casa, pois tudo indica que est 
ficando louco - se j no enlouqueceu.
    Papai baixou a cabea, apoiando-a nas mos. 
    - No sei o que fazer, Jory. Sua me morreria se tivssemos que mandar Bart para longe. Voc nem imagina o quanto ela j suportou. No creio que possa agentar 
muito mais... a perda de outra criana a destruiria.
    - Ns a salvaremos! - exclamei ardorosamente. - Mas temos que evitar que Bart visite aquelas pessoas na casa vizinha, que lhe contam mentiras. Ele vive l o 
tempo todo, Papai; aquela velha o pega no colo e conta-lhe estrias que o fazem voltar para casa com um comportamento esquisito, como se fosse um velho, como se 
odiasse as mulheres. Tudo  culpa dela, Papai, daquela mulher
de preto. Quando a velha deixar Bart em paz, ele voltar a ser o que era antes de conhec-la.
    Papai me fitou da maneira mais estranha, como se algo em minhas palavras tivesse acionado novas idias em sua mente. Como
sempre, ele precisava sair, visitar pacientes; desta vez, porm, telefonou para o hospital e informou que tinha uma emergncia em casa. E tinha mesmo, podem apostar!
     Eu olhava freqentemente para o terceiro marido de minha me e desejava que ele fosse meu verdadeiro pai, mas no momento em que ele cancelou todos os seus compromissos, 
a fim de salvar Bart e Mame -, compreendi que, sob todos os aspectos que realmente
importavam, ele era meu pai de verdade.
    Naquela noite, pouco depois do jantar, Mame foi para o quarto, trabalhar em seu livro. Cindy estava deitada e Bart se achava no quintal. Papai e eu vestimos 
pesados
#170
suteres e nos esgueiramos furtivamente pela porta da frente.
    A noite estava escura de nevoeiro, fria de umidade, quando caminhamos, lado a lado, em direo  enorme e sombria manso com
impressionantes portes de ferro pintados de preto.
    - Sou o Dr. Christopher Sheffield - disse Papai junto  caixinha negra embutida no pilar dos portes. - Quero falar com a
dona da casa. 
    Enquanto os portes se abriam silenciosamente, ele me perguntou por que eu nunca descobrira o nome da mulher. Dei de ombros, como se ela no tivesse nome e, 
no que me dizia respeito, no precisasse de um. Bart jamais a chamara de outra maneira seno de "Vov".
     porta principal, Papai bateu com a aldrava de bronze. Finalmente, escutamos o rudo de passos arrastados e John Amos Jackson nos abriu a porta.
    - Senhoras idosas se cansam com facilidade - disse John Amos Jackson, o rosto fino, comprido, esqueltico, os olhos encovados, as mos trmulas, as costas magras 
arqueadas. - No digam nada para perturb-la. 
    Percebi a maneira como Papai o fitava, carrancudo e perplexo. O mordomo calvo afastou-se arrastando os ps, deixando-nos entrar numa sala cuja porta ele abrira.
    A velha de negro estava sentada na cadeira de balano.
    - Desculpe-me incomod-la - disse Papai, olhando-a com grande ateno. - Meu nome  Dr. Christopher Sheffield e moro na casa ao lado. Este  meu filho mais velho, 
Jory, que a senhora j conhece.
    A velha parecia excitada e nervosa ao gesticular para que entrssemos, indicando as cadeiras que devamos usar. Sentamo-nos na beirada das poltronas, no tencionando 
permanecer por muito tempo. Passaram-se segundos que mais pareceram horas, antes que Papai se inclinasse para dizer:
    - A senhora possui uma bela casa.
    Tornou a olhar em volta, vendo as poltronas elegantes e todos os outros mveis finos, olhando tambm para os quadros.
    - Tenho a mais estranha sensao de dej vu - murmurou consigo mesmo.
    A cabea velada da mulher se inclinou profundamente. Suas mos se abriram de modo expansivo, suplicantes, dando a impresso
de implorarem que ele compreendesse o seu silncio. Eu sabia que ela falava perfeitamente o ingls. Por que fingia?
Excetuando aquelas mos aristocrticas com tantos anis cintilantes, a velha permaneceu absolutamente imvel. Mas as mos nervosas torciam o colar de prolas que 
eu sabia que ela usava sob o manto negro. Papai lhe
#171
lanou um olhar penetrante e ela se apressou
em sentar sobre as mos.
    - No fala ingls? - indagou Papai em voz tensa.
    Ela meneou vigorosamente a cabea, indicando que podia entender ingls. Papai franziu a testa. Parecia intrigado, outra vez.
    - Bem, para abordarmos o motivo de nossa visita, meu filho Jory disse-me que a senhora e Bart, meu filho caula, se conhecem muito bem. Jory informou que a senhora 
d a Bart presentes caros e o faz comer doces entre as refeies. Sinto muito, Sra.... Sra....?
    Fez uma pausa, esperando que ela dissesse o nome. Quando isso no aconteceu, prosseguiu:
    - Quando Bart vier aqui outra vez, quero que a senhora o mande de volta para casa e no lhe d coisa alguma. Ele cometeu uma srie de coisas feias, que merecem 
castigo. A me dele e eu no podemos admitir que uma pessoa desconhecida se interponha entre Bart e nossa autoridade sobre ele. Quando a senhora lhe faz as vontades 
aqui, ns sofremos as conseqncias.
    Durante todo esse tempo, Papai se esforava por ver as mos da velha - que fazia igual esforo para mant-las escondidas.
    O que se passava, afinal? Por que Papai desejava ver as mos dela? Estaria fascinado por todos aqueles anis fabulosos? Eu nunca
imaginara que ele gostasse de coisas assim, pois Mame tinha averso por qualquer tipo de jias,  exceo de brincos.
    Ento, quando Papai parecia observar outra das telas a leo, as mos da velha tornaram a aparecer, subindo-lhe ao pescoo, atradas pelo colar de prolas, que 
parecia agir sobre elas como um im.
    Papai virou repentinamente a cabea. Falou fora de propsito, assustando a velha - e a mim, tambm.
    - Esses anis que a senhora est usando... eu j os vi antes!
    Quando ela, de modo por demais evidente, ocultou as mos nas mangas largas do vestido, Papai ergueu-se de um salto, como se atingido por um raio. Olhou para 
ela, girou mais uma vez para observar a suntuosa sala e voltou a encar-la. Seus olhos pareciam trespass-la. Ela se encolheu.
    - O... melhor... que... se... pode... comprar... com... dinheiro... - disse Papai, pausadamente, separando cada palavra.
    Percebi sua amargura, embora no conseguisse entend-la. Tive a impresso de que, ultimamente, eu no conseguia entender nada.
    - Nada  bom demais para a elegante e aristocrtica Sra Bartholomew Winslow - disse ele. - Esses anis, Sra. Winslow...
por que no teve o bom senso de escond-los? Ento, talvez seu disfarce desse resultado, embora eu no acredite. Conheo bem demais
sua voz e seus gestos. Usa trapos negros, mas seus dedos brilham com os seus smbolos de status. Esquece-se do que esses smbolos nos causaram? Acredita que eu tenha 
esquecido aqueles dias interminveis de
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sofrimento com o frio ou o calor, com a solido - toda a nossa dor simbolizada por um colar de prolas e esses anis nos seus
dedos? 
    Fiquei chocado e confuso. Nunca antes vira Papai to perturbado. No se deixava provocar com facilidade. E quem era aquela
mulher que ele conhecia e eu no? Por que a chamara de Sra. Bartholomew Winslow - o exato nome de meu meio-irmo? Seria verdade
que a velha era mesmo av de Bart -e que Bart no era filho de Papai Paul?
    Papai continuou:
    - Por que, Sra. Winslow, por que? Julgou que conseguiria esconder-se aqui sem que ns descobrssemos? Como espera iludir algum, se o prprio modo de sentar 
e manter a cabea traem sua verdadeira identidade? J no fez o suficiente para ferir Cathy e eu? Tem que voltar para fazer mais? Eu deveria ter adivinhado que voc 
estava por trs da confuso de Bart - por trs de seu comportamento esquisito. O que andou fazendo ao nosso filho?
    - Nosso filho? - repetiu ela. - No quer dizer, mais corretamente, filho dela?
    - Mame! - explodiu ele, antes de olhar para mim com ar culposo.
    Olhando de um para outro, refleti que era maravilhoso e, ao mesmo tempo, muito estranho. Afinal, a me dele estava livre do
manicmio e era, realmente, av de Bart. Contudo, por que ele a chamava de Sra. Winslow? Se era me dele e do Dr. Paul, teria que ser Sra. Sheffield... ou no?
    Enquanto eu pensava tudo isso, ela estava dizendo:
    - Senhor, meus anis no so to excepcionais. Bart me disse que o senhor no  o seu verdadeiro pai. Portanto, faa o favor de retirar-se da minha casa. Prometo 
no permitir que Bart torne a entrar aqui. No vim para fazer mal a ele - ou a qualquer outra pessoa. 
    Tive a impresso de que ela lanou a meu pai um olhar de advertncia. Creio que lhe oferecia uma escapatria, por minha causa.
    - Minha querida me, o brinquedo terminou.
    Ela comeou a soluar, cobrindo o rosto velado com as mos. Sem dar importncia s suas lgrimas, Papai perguntou:
    - Quando os mdicos lhe deram alta?
    - No vero passado - sussurrou ela, baixando as mos de modo a poder usar melhor a voz para implorar. - Mesmo antes de mudar-me para c, mandei que meus advogados 
fizessem o possvel para ajudar Cathy e voc a comprarem o terreno que escolhessem. Ordenei-lhes que me mantivessem annima, pois sabia que vocs no desejariam 
meu auxlio.
    Papai deixou-se cair numa poltrona, dobrando-se para apoiar pesadamente os cotovelos nos joelhos.
#173
    Por que no estava feliz em ver a me livre daquele lugar horrvel? Agora, ela morava ao lado - e ele sempre fizera questo de visit-la no manicmio. No amava 
a prpria me? Ou temia que ela ficasse louca a qualquer momento? Julgava que Bart poderia ter herdado a loucura dela? Ou que a insanidade da av pudesse contaminar
Bart, como uma doena fsica infecciosa? E por que minha me no gostava dela? Olhei de um para outro, esperando respostas para
minhas perguntas silenciosas, temendo descobrir que, afinal, Paul no era o pai de Bart.
    Quando Papai levantou a cabea, pude ver-lhe o rosto abatido, as profundas rugas que desciam do nariz aos cantos da boca. Rugas que eu nunca vira antes.
    - No posso, em s conscincia, voltar a cham-la de Mame - disse ele num tom desprovido de expresso. - Se me ajudou a
comprar o terreno no qual se situa  atualmente minha casa, eu lhe agradeo. Amanh, ver o letreiro indicando que est  venda e ns nos mudaremos daqui se voc 
se recusar a mudar-se primeiro. No permitirei que voc afaste meus filhos dos pais.
    - Da me - corrigiu ela.
    - Dos nicos pais que eles possuem - replicou ele. - Eu deveria saber que voc viria para c. Telefonei para seu mdico e
ele me informou que lhe dera alta, mas no disse quando, nem para onde voc foi.
    - Que outro lugar tinha eu para ir? - exclamou ela dolorosamente, retorcendo como dois trapos desbotados e inertes as mos
cobertas de jias. 
    Foi como se estendesse as mos e tocasse Papai, muito embora evitasse fazer qualquer movimento na direo dele. Cada palavra
que pronunciava, cada olhar que lhe lanava dizia que ela o amava at eu podia perceber.
    - Christopher - suplicou ela. - No tenho amigos, famlia ou lar... e lugar nenhum para ir, exceto perto de voc e dos seus. Tudo que me resta so voc, Cathy 
e os filhos que ela gerou - meus netos. Voc seria capaz de tom-los de mim, tambm? Todas as noites, rezo de joelhos para que voc e Cathy me perdoem, recebam-me 
de volta, me amem como amavam antes.
    Papai parecia feito de ao, inatingvel. Eu, porm, estava  beira das lgrimas.
    - Meu filho, meu amado filho, aceite-me de volta e diga que me ama novamente. E se for incapaz disso, permita-me ao menos viver onde posso ver ocasionalmente 
os meus netos.
    Fez uma pausa, esperando pela reao dele. Quando Papai permaneceu calado, ela prosseguiu:
    - Eu tinha esperana de que voc fosse tolerante se eu permanecesse aqui e jamais permitisse que ela conhecesse minha
#174
identidade. Mas eu a vi, escutei-lhe a voz; ouvi a sua, tambm. Escondendo-me atrs do muro para escut-los. Meu corao palpita. Meu peito di de saudade. As lgrimas 
me inundam os olhos quando contenho minha voz, que deseja gritar para faz-los saber que estou arrependida!
To terrivelmente arrependida!
    Papai continuou em silncio. Assumira sua atitude distante, profissional.
    - Christopher, eu daria com prazer dez anos de minha vida para desfazer os males que causei! E daria mais dez anos s para
sentar-me  sua mesa e sentir-me bem acolhida por meus netos!
    Tinha lgrimas nos olhos; eu tambm. Meu corao chorava pela me de meu pai, mesmo enquanto eu tentava adivinhar por que motivo ele e Mame a odiavam.
    - Christopher, Christopher, no entende por que uso estes trapos? Cubro o rosto, o cabelo, o corpo, para que ela no saiba!
Mas, durante todo o tempo, fico alimentando a esperana, rezando para que mais cedo ou mais tarde vocs dois me perdoem o suficiente e permitam que eu me torne novamente 
membro de sua famlia! Por favor, por favor, aceite-me outra vez como sua me! Se voc aceitar, talvez ela tambm consiga!
    Como podia ele ficar ali, sentado, e no sentir por ela a mesma piedade que eu sentia? Por que ele no chorava como eu?
    - Cathy jamais a perdoar - declarou ele, sem entonao.
    Por estranho que parea, ela exclamou alegremente:
    - Ento, voc aceita? Diga, por favor... voc me perdoa!
    Estremeci, aguardando que ele falasse.
    - Mame, como posso dizer que a perdo? Ao dizer isso, eu trairia Cathy - e jamais serei capaz de tra-la. Juntos estamos de p
e juntos cairemos, ainda acreditando que procedemos corretamente, enquanto voc fica sozinha e cheia de remorso. Nada que voc diga ou faa pode desfazer a morte. 
E cada dia que voc permanece aqui mais aumenta a perturbao mental de Bart. Sabe que ele est ameaando nossa filha adotiva, Cindy?
    - No! - exclamou ela, sacudindo a cabea com tanta veemncia que os vus balanaram violentamente. - Bart seria incapaz de machucar a irm!
    - Seria mesmo? Cortou-lhe os cabelos com uma faca, Senhora Winslow. E ameaou tambm a prpria me. 
    - NO! - gritou ela, ainda mais apaixonadamente que antes. Bart ama a me! Fao agrados e dou presentes a Bart porque
voc se ocupa demais com sua vida profissional para dar-lhe toda ateno que ele merece e necessita. Da mesma maneira que a me dele se ocupa demais com a prpria 
vida para se importar em saber se ele recebe amor suficiente. Mas eu cuido das  necessidades dele. Tento substituir os colegas que ele no tem. Fao tudo que me 

#175
possvel para torn-lo feliz. E se dar-lhe guloseimas e presentes faz com que ele se sinta melhor, que mal estou fazendo? Alm disso, quando uma criana tem  disposio 
todos os doces que  capaz de comer, logo enjoa deles. Eu sei. J fui como Bart, adorando sorvetes, doces, balas, bolinhos e outras guloseimas... e hoje em dia no 
consigo suport-las.
    Papai se ps de p e fez um gesto para mim. Levantei-me e fui para perto dele, que fitou sua me com piedade.
    -  mesmo uma pena que voc tenha vindo tarde demais para tentar redimir-se de seus atos. Outrora, eu ficaria comovido por
qualquer palavra de ternura que voc pronunciasse. Agora, sua simples presena mostra quo pouco voc se importa que sejamos profundamente magoados outra vez, como 
seremos se voc permanecer aqui.
    - Por favor, Christopher - implorou ela. - No tenho outra famlia, nem outras pessoas que se incomodem em saber se estou
viva ou morta. No me negue seu amor, pois isso matar a sua melhor parte, a parte que faz de voc aquilo que . Voc nunca foi
como Cathy. Sempre conseguiu apegar-se a uma parcela de seu amor. Agora, agarre-se a ela com fora, Christopher. Agarre-se bem e talvez, eventualmente, consiga ajudar 
Cathy a encontrar tambm um pouco de amor por mim!
     Soluou, fraquejando.
     Ou, se no amor, ajude-a a encontrar clemncia, pois confesso que poderia ter servido melhor a meus filhos.
    Ento, Papai se comoveu, mas no por muito tempo. 
    - Em primeiro lugar, tenho que pensar na sade de Bart. Ele nunca teve muita confiana em si mesmo. Suas estrias o  perturbaram tanto que ele passou a sofrer 
de pesadelos. Deixe-o em paz! Deixe-nos em paz! V embora, fique longe de ns, no lhes pertencemos mais. H muitos anos, ns lhe demos muitas oportunidades de provar 
que nos amava. Mesmo quando fugimos, voc poderia ter acatado a intimao do juiz e nos poupado a dor de sabermos que no ramos suficientemente amados para que 
voc ao menos se apresentasse e mostrasse algum interesse por nosso futuro.
    Tomou flego e acrescentou:
    - Portanto, saia de nossas vidas! Construa uma vida nova para voc mesma, com a riqueza que nos sacrificou para conseguir. Deixe que Cathy e eu vivamos a vida 
que conseguimos  custa de tanto trabalho e esforo.
    Fiquei pasmo... Do que ele estava falando? O que sua me fizera aos dois filhos, Christopher e Paul? E o que tinha minha me a ver com a vida deles na juventude?
    Ela tambm se levantou, alta e esbelta. Ento, vagarosamente, removeu o vu que lhe cobria a cabea e o rosto. Prendi a respirao. Papai tambm. Nunca antes 
eu vira uma mulher capaz de ser, ao mesmo 
#176
tempo, to feia e to bonita. As cicatrizes davam a impresso de que um gato lhe arranhara o rosto. As bochechas estavam flcidas pela idade; o bonito cabelo louro 
mesclado com mechas grisalhas. Eu me sentira imensamente curioso por ver de perto o que ela ocultava sob o vu. Agora, desejava no ter visto.
    Papai baixou a cabea.
    - Precisava fazer isso?
- Sim - disse ela. - Queria que voc visse o que fiz para no mais me parecer com Cathy.
    Apontou para a cadeira de balano.
    - V essa cadeira? Tenho uma igual em cada aposento desta casa.
    Indicou todas as confortveis poltronas, forradas com almofadas espessas e macias.
    - Sento-me em duras cadeiras de pau, a fim de castigar-me. Uso os mesmos trapos negros todos os dias. Mantenho espelhos nas
paredes, para poder ver como sou velha e feia atualmente. Quero sofrer pelos pecados que cometi contra meus filhos. Detesto este
vu, mas fao questo de us-lo. No consigo enxergar direito atravs dele, mas mereo isso, tambm. Fao o possvel a fim de criar para mim mesma o mesmo tipo de 
inferno que criei para o sangue do meu sangue. E continuo a acreditar que ainda chegar o dia em que Cathy e voc reconhecero que estou procurando pagar meus pecados, 
de modo que possam perdoar-me e voltar para mim, transformando-nos outra vez numa famlia. E, quando voc e Cathy conseguirem isso, poderei ir em paz para meu tmulo. 
Ento, quando eu me reunir a seu pai, talvez ele no me julgue com demasiada severidade.
    - Oh! - exclamei espontaneamente. - Eu a perdo por qualquer coisa que tenha feito! Sinto que tenha que se vestir de negro o tempo todo, com um vu cobrindo 
o rosto!
    Virei-me para Papai, puxando-lhe a manga.
    - Diga que a perdoa, Papai. Por favor, no a faa sofrer mais! Ela  sua me e eu seria sempre capaz de perdoar minha me, no
importa o que ela faa.
    Ele falou com minha av como se nem me tivesse escutado:
    - Voc sempre soube convencer-nos a fazer o que voc queria.
    Eu nunca o ouvira falar com tamanha frieza. 
    - Mas j no sou um menino - prosseguiu. - Agora, sei como resistir  sua tentao, pois tenho uma mulher que jamais me
decepcionou em coisas importantes. Ela me ensinou a no ser to crdulo como antes. Voc quer Bart porque julga que ele devia ter sido seu. Mas no pode t-lo. Bart 
nos pertence. Eu costumava pensar que Cathy errou ao procurar vingana e roubar Bart Winslow de voc. Mas ela no errou - fez o que tinha que fazer. E assim, temos 
dois filhos em vez de apenas um.
#177
    - Christopher! - bradou ela, desesperada. - Voc no quer que o mundo tome conhecimento de sua indiscrio! Claro que no quer.
    - E da sua, tambm - replicou ele friamente. - Se voc nos delatar, estar tambm delatando a si mesma. E lembre-se de que ramos apenas crianas. Acha que o 
juiz e o jri seriam favorveis a ns ou a voc.
    - Para o bem de vocs! - gritou ela quando samos da sala e nos encaminhamos  porta principal da manso (Papai foi obrigado a empurrar-me  sua frente, pois 
eu queria ficar, com pena dela). - Ame-me outra vez, Christopher! Por favor, permita que
eu me redima!
    Papai girou nos calcanhares, rubro de raiva: 
    - No posso perdo-la! Voc s pensa em si mesma. Como sempre s pensou em si mesma. Eu no a conheo, Sra. Winslow. Quem me dera jamais t-la conhecido!
    Oh, Papai, pensei eu, voc se arrepender. Perdoe-a, por favor.
    - Christopher - chamou ela mais uma vez, a voz to sumida e fina que chegava a soar velha e spera. - Quando voc e Cathy
conseguirem amar-me novamente, encontraro vidas melhores para vocs e seus filhos. Existe tanta coisa que eu poderia fazer para
ajud-los, se ao menos vocs permitissem.
    - Dinheiro? - retrucou ele desdenhosamente. - Vai usar chantagem? Temos bastante dinheiro. Temos bastante felicidade. Conseguimos sobreviver, conseguimos amar 
-e no matamos ningum
para conseguir o que temos.
    Matamos? Ela matara algum?
    Papai puxou-me pela mo ao andar furiosamente para a porta. No caminho da manso  nossa casa, eu disse:
    - Papai, tenho a impresso de que senti o cheiro de Bart naquela sala. Ele podia estar escondido, escutando. Ele estava l, tenho certeza.
    - Muito bem-  disse ele, num tom fatigado. - Volte e procure por ele.
    - Papai, por que no a perdoa? Acredito que ela esteja realmente arrependida do que fez para que voc a odiasse - e  sua me.
    Sorri e puxei-lhe o brao, querendo que ele voltasse comigo e dissesse a ela que a amava.
    - No seria bom termos ambas as minhas avs em casa, no Natal?
    Ele sacudiu a cabea e seguiu em frente, deixando-me sozinho para correr de volta  manso. Deu apenas alguns passos, antes de
voltar-se para mim:
    - Jory, prometa no contar nada a sua me a respeito desta noite.
#178
    Prometi, mas fiquei insatisfeito. Estava insatisfeito com tudo o que escutara. No sabia se ouvira toda a verdade a respeito de meu pai e sua me, ou apenas 
parte de uma comprida estria secreta que nunca me haviam contado. Tive mpetos de correr atrs de
Papai e perguntar por que ele odiava tanto a prpria me, mas compreendi, por sua expresso facial, que ele no me diria. De certo modo esquisito, alegrei-me por 
no saber demais.
    - Se Bart estiver l, traga-o para casa e leve-o s escondidas para o quarto, Jory. Por favor, pelo amor de Deus, no torne a mencionar  sua me qualquer coisa 
a respeito daquela mulher. Eu cuidarei
dela. Ir embora e tudo voltar a ser como antes. 
    Sendo como eu era, acreditei, embora sentisse pena da me dele. No devia a ela a mesma lealdade que devia a ele, mas no pude
reprimir a pergunta mais importante:
    - Papai, o que fez sua me para que voc a odeie tanto? E se a odeia, por que sempre insistia em visit-la, quando Mame no
queria? 
    Ele fitou o espao e, como se de muito longe, sua voz me chegou aos ouvidos:
    - Jory, temo que voc venha a conhecer toda a verdade dentro de muito pouco tempo. D-me tempo para encontrar as palavras adequadas, a verdadeira explicao 
que satisfar sua necessidade de saber. Mas acredite: sua me e eu sempre tencionamos contar-lhe tudo. Estvamos apenas esperando que voc e Bart crescessem o suficiente.
E, quando ouvir nossa estria, creio que voc compreender como posso, ao mesmo tempo, amar e odiar minha me.  triste
dizer, mas existem muitos filhos que se sentem ambiguamente em relao aos pais.
    Abracei-o, embora no fosse uma atitude adulta. Eu o amava e se isso tambm no fosse coisa de adulto, no valia a pena a
gente crescer.
     - No se preocupe com Bart, Papai - disse eu. - Vou lev-lo para casa em segurana.
    Consegui esgueirar-me bem a tempo por entre os portes, que se fecharam atrs de mim com um leve rudo metlico. Ento...
silncio. Se existia no mundo algum local mais silencioso que aquele enorme terreno, eu nunca l estivera.
    Dei um pulo e escondi-me depressa atrs de uma rvore. John Amos Jackson segurava Bart pela mo e o afastava da manso.
    - Agora, voc sabe o que precisa fazer, no sabe? 
    - Sim, senhor - entoou Bart, como em transe.
    - Sabe o que acontecer se no fizer o que eu mandar, no sabe?
    - Sim, senhor. Coisas ruins acontecem a todo mundo - inclusive a mim.
#179
    - Sssim, coisasss ruinsss, que voc lamentar.
    - Coisas ruins que eu lamentarei - repetiu meu irmo.
    - O homem nasce da mulher para o pecado...
     -E aqueles que causam o pecado...
    - Devem sofrer.
    - E como devem eles sofrer?
    - De todos os modos, por todos os modos. Sero redimidos pela morte.
    Congelei-me onde estava agachado, no acreditando em meus ouvidos. O que fazia aquele homem a Bart?
    Saram do alcance de minha audio e espiei bem a tempo de ver Bart desaparecer por cima do muro, a caminho de casa. Esperei
at que John Amos Jackson retornasse  manso com seu andar arrastado e apagasse todas as luzes.
    Ento, de repente, dei-me conta de que no ouvira os latidos de Ma. Um co do tamanho e idade de Ma no deveria latir
para avisar aos de casa que havia um intruso no terreno? Esgueirei-me at o celeiro e chamei Ma pelo nome. Ele no apareceu correndo para me lamber o rosto e sacudir 
o rabo.
    - Ma - tornei a chamar, mais alto.
    Acendi um lampio de querosene que estava pendurado perto da porta e iluminei a baia que servia de lar para Ma.
     Prendi a respirao !Oh, no! NO!
     Quem seria to cruel a ponto de matar um co de fome, daquela maneira? Quem seria capaz, depois disso, de cravar um forcado
naquele pobre monte de ossos coberto por lindo plo? Agora, ele estava todo ensangentado. Escuro, com sangue velho, que se coagulara numa cor de ferrugem. Corri 
para fora do celeiro e vomitei. Uma hora mais tarde, Papai e eu estvamos cavando um tmulo e enterrando um enorme co que no tivera oportunidade de chegar  maturidade. 
Ambos sabamos que Bart seria internado para sempre, se a notcia se espalhasse.
    - Talvez no tenha sido ele - disse Papai quando voltamos para casa. - No consigo acreditar que ele fosse capaz.
    A essa altura, eu conseguia acreditar em qualquer coisa.

            Havia uma velha que morava ao lado.
     Usava trapos pretos e cobria o rosto de negro.
     Era duas vezes sogra de Mame, duplamente odiada,
     E muito mais.

     Tudo que eu podia fazer era imaginar, imaginar o que ela fizera a meus pais. Papai ainda no explicara toda a verdade, como havia prometido. Embora eu tivesse 
um vislumbre de uma vaga soluo deixara-me dominar pela emoo e, por um momento,  pensei que ela era tambm minha av, pois #180
Chris, no fundo de meu corao, era meu verdadeiro pai.
    Mas, na verdade, o filho de Paul era Bart e eu sabia por que motivo sua av o queria tanto - e no a mim. Eu pertencia a
Madame Marisha, assim como Bart pertencia a ela. Era o parentesco de sangue que os levava a se amarem. E eu suspirava, porque era apenas neto torto de uma mulher 
to misteriosa e comovente, que se julgava obrigada a sofrer para redimir seus erros. Refleti que precisava cuidar melhor de Bart - proteg-lo, orient-lo, mant-lo 
na linha.
    Imediatamente, tive um impulso repentino que me levou a correr ao quarto de Bart, que estava deitado de lado na cama, com o polegar na boca. Parecia um beb 
- apenas um menininho que sempre vivera  minha sombra, sempre tentando igualar o que eu fizera na sua idade, jamais conseguindo atingir o ponto que eu alcanara. 
No falara mais cedo, no andara com menos idade nem sorrira at quase completar um ano de idade. Era como se ele soubesse, desde o bero, que sempre seria o nmero 
dois, jamais o nmero um. Agora, encontrara a nica pessoa no mundo que o colocava em primeiro lugar. Alegrei-me por Bart possuir uma av de verdade, s para ele. 
Embora ela s se vestisse de negro, eu podia perceber que,
outrora, fora muito bonita. Mais bonita que minha Av Marisha jamais poderia esperar ser quando jovem.
Ainda assim... ainda assim... estavam faltando algumas peas do quebra-cabea.
    John Amos Jackson... onde se ajustava ele no quadro? Por que uma av carinhosa, uma me que desejava unir-se ao filho, esposa e neto... por que traria ela consigo 
aquele velho detestvel?

HONRA TUA ME

    Ele nem se deu ao trabalho de olhar para trs. Pensou que eu estava adormecido em segurana, naquela caminha onde gostavam
de manter-me. Mas vi Papai sair de casa. Iria falar com minha av? Eu gostaria que todos a deixassem em paz, de modo que pudesse t-la de volta como ela era antes, 
exclusivamente minha.
    Ma se fora - para onde iam os pneis e filhotes de co.
     - Aquela grande pastagem no cu - dissera John Amos, os olhos desbotados observando-me cuidadosamente, como se julgasse que fora eu quem enfiara o forcado. 
- Voc viu Ma morto? Realmente o viu morto?
#181
    - Mais morto que uma pedra.
    Esgueirei-me pelas sinuosas trilhas da selva, que me conduziam diretamente ao inferno. Descendo, descendo, descendo. Grutas, ravinas, fendas profundas - mais 
cedo ou mais tarde encontraramos a porta vermelha. A porta do inferno devia ser vermelha - ou, talvez preta.
    Portes pretos. Portes mgicos se abriram para Papai passar. Ela queria v-lo. timo filho era ele, colocando a prpria me num manicmio; em seguida, ele me 
enviaria a uma daquelas estranhas fazendas onde metiam as pessoas em camisas-de-fora (o que seria
isso?). Seja l o que fosse, era terrvel, de qualquer maneira.
     Os portes se fecharam. Eu sabia que Mame voltara ao quarto, onde datilografava aquelas pginas como se realmente pensasse que escrever era to importante 
quanto o bal. No parecia importar-se em usar aquela cadeira de rodas, a no ser quando Jory tocava discos de bal. Ento, ela levantava a cabea, fitava o espao 
e comeava a marcar o compasso com os ps.
    - O que quer dizer intrincado, Mame? - perguntei, quando ela comentou que Jory possua a concentrao necessria para aprender depressa passos intrincados.
    - Complicado - respondeu ela, exatamente como um dicionrio.
    Tinha dicionrios espalhados pelo quarto inteiro - pequenos, mdios, grandes, alm de um enorme, que girava numa estante especial.
    Eu precisava fazer meus ps darem passos intrincados. Experimentei, enquanto acompanhava o itinerrio de Papai, que nem
lanava um olhar para trs. Eu andava sempre espiando por cima do ombro, olhando para os lados, sempre  espreita. Maldito cordo do
sapato... ai! Ca - mais uma vez. Se ele me escutou gemer, no olhou para trs. timo... eu tinha que fazer todo aquele negcio
secreto, como um bom espio. Ou um ladro - um ladro de jias. Mulheres ricas possuam montes e montes de jias. Eu bem podia
treinar um pouco enquanto ela conversava com seu filho mdico, chorando e insistindo em pedir a ele que a perdoasse, tivesse piedade, recebesse de volta e a amasse 
novamente. Chato. Eu no gostava muito
de Papai; voltara a me sentir como antes que ele me salvasse a perna de ser "amputada". O maldito estava querendo afastar a nica av
que eu possua. Que outro tipo de menino tinha uma av to rica, que lhe podia dar tudo?
    - Onde vai, Bart?
    John Amos surgiu do nada, os olhos brilhando na escurido.
    - No  da sua conta! - repliquei, rspido como Malcolm teria sido.
#182
    Eu trazia o dirio de Malcolm colado ao peito, sob a camisa. A capa vermelha de couro colava-se  minha pele. Eu estava aprendendo a ganhar dinheiro  custa 
da raiva.
    - Seu pai est na casa, conversando com sua av. Agora, entre l e faa seu servio. Venha contar-me cada palavra que disserem.
Ouviu?
    Ouvir? Quem precisava de um aparelho de audio era ele, no eu. Do contrrio, faria sua prpria espionagem, pelo buraco da
fechadura. Mas tudo o que podia fazer era espiar, pois no escutava bem. E tambm no conseguia curvar-se muito; era incapaz de
apanhar um objeto que casse ao cho.
    - Bart... voc me ouviu? Que diabo est fazendo, indo para a porta dos fundos?
    Voltei-me para encar-lo. No quinto degrau, era mais alto que ele.
    - Quantos anos voc tem, John Amos?
    Ele deu de ombros, carrancudo.
    - Por que quer saber?
    - Apenas porque ningum j viu um homem to velho quanto voc.
    - O Senhor castiga aqueles que no respeitam os mais velhos - replicou ele, trincando os dentes.
    O barulho era semelhante ao de pratos batendo na cozinha de minha casa.
    - Agora, sou mais alto que voc.
    - Tenho um metro e oitenta. ..ou, pelo menos, tinha. Menino, voc jamais alcanar essa altura, a menos que esteja sempre
trepado em escadas.
    Apertei as plpebras, assumindo um olhar malvado como o de Malcolm.
    - Chegar o dia, John Amos, em que voc mal me chegar aos ombros. E se ajoelhar diante de mim, para pedir, implorar, suplicar, dizendo: "Senhor, senhor, deixe 
que me livre daqueles camundongos do sto, por favor". E eu responderei: "Como posso saber se voc  digno de minha confiana?" E voc dir: "Seguirei seus passos, 
mesmo quando o senhor estiver morto".
    Minhas palavras provocaram-lhe um sorriso ladino. 
    - Bart, voc est mesmo aprendendo a ser to esperto quanto seu bisav Malcolm. Agora, adie o que pretende fazer. Volte para
seu pai, que, neste momento, est com sua av. Guarde na memria cada palavra que escutar e venha contar-me.
    Como um espio, rastejei atravs do criado-mudo, que ficava escondido atrs de uma bela cortina oriental. Dali, pude esgueirar-me para um esconderijo atrs das 
palmeiras plantadas em vasos.
#183
    L estavam eles, fazendo o mesmo de sempre: Vov implorando, Papai negando. Sentei-me e acomodei-me antes de pegar o fumo e a palha. Cigarros ajudavam quando 
a vida ficava chata, como agora. Nada a fazer, exceto escutar. Os espies nunca diziam nada e eu precisava de ao.
     Papai estava elegante em seu terno cinza-claro. Era bonito como eu desejava ser quando crescesse - mas nunca seria, pois no tinha as feies perfeitas como 
as dele. Suspirei, desejando ser seu filho de verdade.
    - Sra. Winslow, prometeu mudar-se desta casa, mas olho em volta e verifico que no empacotou coisa alguma. Pela sanidade
mental de Bart, pelo bem de Jory - a quem a senhora afirma que tambm ama - e, acima de tudo, por Cathy, v embora daqui. Mude-se para So Francisco. No  muito 
longe. Prometo visit-la sempre que puder. Conseguirei arranjar oportunidades de v-la e Cathy nem tomar conhecimento.
    Chato. Por que ele no arranjava algo diferente para dizer? Por que se importava tanto com o que Mame tinha a dizer sobre
sua me? Se algum dia eu casse na infelicidade de ter uma esposa, eu lhe diria para aceitar minha me ou tratar de dar o fora. Suma-se daqui, como diria Malcolm.
    - Oh, Christopher - soluou ela, pegando outro daqueles lencinhos rendados para enxugar as lgrimas. - Desejo que Cathy me perdoe, para que eu possa ter um lugarzinho 
em suas vidas. Permaneo aqui porque continuo a nutrir a esperana de que, eventualmente, ela compreenda que no vim causar mal a qualquer um de vocs... Estou aqui 
apenas para dar o que posso.
    Papai exibiu um sorriso amargo.
    - Suponho que se refere, mais uma vez, a bens materiais; mas no  disso que uma criana precisa. Cathy e eu fizemos todo o possvel para que Bart se sentisse 
amado, querido, necessrio - mas ele no parece entender seu relacionamento comigo. Inseguro
quanto quilo que , sobre quem , em relao ao caminho a seguir. Ao contrrio de Jory, no tem uma carreira de bailarino para
orientar-lhe o futuro. Agora, procura agarrar-se a alguma coisa, tenta encontrar-se, e voc no est ajudando. Ele mantm seu ntimo muito trancado, em segredo. 
Adora a me, mas no confia nela. Desconfia que ela gosta mais de Jory do que dele. Sabe que Jory  bonito, talentoso e, acima de tudo, gil, desembaraado. Bart 
s  gil e
desembaraado em fazer de conta. Se ele conseguisse confiar em ns, ou no psiquiatra, poderia ser ajudado - mas no confia, no se abre.
    Fui obrigado a enxugar uma lgrima. Era duro escutar a respeito de mim mesmo, do que eu era e - ainda pior -do que eu no era. #184
Como se me conhecessem pelo avesso - e no conheciam. No podiam conhecer. Eram incapazes disso.
    - Ouviu algo do que acabo de dizer, Sra. Winslow? - berrou Papai. - Bart no gosta da sua imagem que s reflete fraquezas -
nenhum talento, nenhuma graa, nenhuma autoridade. Portanto, toma emprestado de todos os livros que leu, de todos os filmes a que assistiu pela TV e, s vezes, at 
mesmo dos animais, fazendo de conta que  um lobo, um co, um gato.
    - Por que? - gemeu ela. - Por que?
    Ele revelava todos os meus segredos. E um segredo revelado perdia todo o valor. Todo.
    -  incapaz de adivinhar o motivo? Jory possui milhares de fotografias do pai; Bart no, no tem nenhuma. Nenhuma.
    Aquilo fez com que ela se empertigasse. Replicou raivosamente:
    - E por que teria ele fotografias do pai? A culpa  minha, se meu segundo marido no deu  amante uma s fotografia?
    Fiquei aturdido. O que era aquilo? Claro, John Amos me contara estrias malucas, mas julguei que ele as inventasse, da mesma forma que eu inventava estrias 
para afugentar o tdio. Seria mesmo verdade que minha prpria me era a mulher malvada que seduzira o segundo marido de minha prpria av? Seria eu realmente filho 
do tal advogado chamado Bartholomew Winslow? Oh, Mame, como poderei deixar de odi-la, agora?
    Papai exibia outra vez aquele sorriso esquisito. 
    - Talvez o seu amado Bart julgasse que no era necessrio dar-lhe fotografias, j que ela tinha o homem vivo em sua casa e em sua cama, como seu legtimo marido. 
Antes de Bart morrer, ela lhe contou que estava esperando um filho dele e Bart ia divorciar-se de voc para ser pai da criana e, tambm, para ter Cathy como esposa. 
No tenha a mnima dvida quanto a isso.
    Encolhi-me, rgido, agoniado por tudo que escutara. Meu pobre, pobre pai, que morrera no incndio de Foxworth Hall. John Amos era um amigo de verdade, o nico 
que me tratara como adulto e me contara toda a verdade. E Papai Paul, cuja fotografia estava sobre minha mesinha de cabeceira, fora apenas mais um padrasto, como
Christopher. Eu chorava por dentro a perda de mais um pai. Meus olhos saltavam de Papai para Vov, enquanto eu me esforava muito
por saber o que sentir a respeito deles - e de Mame. No era correto os pais estragarem as vidas de filhos que ainda nem haviam
nascido, complicando-as de tal maneira que eu nem mesmo sabia realmente quem eu era.
Esperanoso, olhei para minha av, que parecia muito magoada pelo que lhe dissera o filho. As mos alvas subiram-lhe  testa, que brilhava de suor, tocando-a como 
se tivesse dor de cabea. Oh, se ela podia 
#185
sentir dor com tanta facilidade, por que no acontecia o mesmo comigo?
    - Muito bem, Christopher - disse ela, quando eu j pensava que no conseguiria encontrar as palavras. - Voc disse o que tinha a dizer; agora, deixe-me falar. 
Quando se chegasse a um ultimato Cathy e a criana ainda por nascer, ou eu e minha fortuna -,
Bart ficaria comigo, sua esposa. Poderia mant-la como amante at cansar-se dela; ento, encontraria um meio legal de assumir a posse do filho. E meu marido sairia 
da vida de Cathy, levando o filho consigo. Sei que ele continuaria comigo, mesmo que vivesse procurando rostos bonitos e corpos mais jovens.
    - Meu prprio pai. Meu pai de verdade no ia querer minha me, afinal. As lgrimas me pendiam dos clios. A garganta doa, provando que eu era humano e no a 
criatura excepcional que acreditava ser. Era capaz de sentir uma espcie diferente de dor. Ainda assim, no conseguia sentir-me feliz. Por que no me podia sentir 
feliz e real?
Ento, lembrei-me de algumas das palavras de minha av... meu pai de verdade encontraria algum "meio legal de assumir a minha posse. Isso significaria que ele me 
tomaria de minha prpria me? A idia tambm no me causou felicidade.
    A av continuava sentada, imvel. Encolhi-me ainda mais, com medo, com muito medo do que poderia ouvir em seguida. Papai,
no revele outros segredos ruins, que me obriguem a agir. John Amos me foraria a agir. Olhei para trs, desconfiando de que ele pudesse estar escutando com um copo 
encostado  parede, a fim de ouvir melhor.
    - Bem - disse meu pai, agora muito tenso. - O psiquiatra de Bart demonstra um incrvel interesse por voc, que ele acredita ser apenas minha me. Eu gostaria 
de saber por que motivo ele volta sempre a falar em voc, fazendo perguntas. Parece julgar que voc seja a pista para a vida interior secreta de Bart. Acha que voc
tambm teve uma vida interior secreta -  verdade, Mame? Quando seu pai a fez sentir-se menos que humana, foc ficou pensando,
sozinha, e planejou um modo de vingar-se  sua prpria maneira, fazendo-o sofrer?
    O que era aquilo?
    - No - disse ela. - Por favor, no. Tenha piedade de mim, Christopher. Fiz o melhor possvel, nas circunstncias. Juro que fiz o melhor possvel!
    - O melhor que lhe foi possvel ? - Papai riu, parecendo Mame quando fazia ironia. - Quando o meio-irmo mais moo de
meu pai surgiu em Foxworth Hall, com dezessete anos de idade, voc teve imediatamente uma inspirao? Vislumbrou a maneira suprema de castigar seu pai por faz-la 
no gostar de si mesma? Decidiu 
#186
fazer nosso pai apaixonar-se por voc? Foi isso? Odiava-o, tambm, at certo ponto, por parecer-se com Malcolm? Acho que sim. Creio que voc tramou e planejou ferir 
seu pai da maneira que mais lhe estraalharia o ego, a ponto de jamais recobrar-se. E acredito que conseguiu! Fugiu de casa para casar-se com o meio-irmo mais moo, 
que ele desprezava. Pensou que venceu de duas maneiras: atingiu-o no ponto mais sensvel e, agora, podia apossar-se de sua imensa fortuna atravs de nosso pai! Mas 
no deu certo, no  mesmo? No me esqueci da poca em que morvamos em Gladstone, quando eu ouvia voc implorando a meu pai que movesse uma ao judicial para receber 
o que lhe cabia por direito.  Contudo, nosso pai se recusou a colaborar. Ele a amava e se casara com voc por aquilo que pensava que voc fosse, no pelo dinheiro 
com o qual voc no conseguia parar de sonhar.
    Aturdido outra vez, fitei minha av. Ela chorava, o corpo frgil estremecendo; at mesmo a cadeira de balano parecia tremer. Eu tambm tremia e chorava - por 
dentro.
    - Est enganado, to enganado, Christopher! - soluou ela, o peito arfante. - Eu amava seu pai! Voc sabe que eu o amava! Dei-lhe quatro filhos e os melhores 
anos de minha vida - o melhor que eu tinha em mim para dar a algum.
    - O seu melhor  to pouco, Sra. Winslow, to muito, muito pouco.
    - Christopher! - gritou ela, levantando-se dolorosamente. 
    Abriu as mos num gesto impotente, aproximando-se para olh-lo melhor. O manto negro sacudia quando ela tremia. Lanou um olhar temeroso ao redor, obrigando-me 
a ficar ainda mais encolhido no canto sombrio. Ento, baixou a voz:
    - Muito bem, j falamos bastante do passado. Viva com Cathy, mas aceitem-me em suas vidas. Deixem-me ficar com Bart como se
fosse meu prprio filho. Vocs tm Jory e aquela garotinha que adotaram. Deixem-me levar Bart e ir-me embora para to longe que
vocs nunca mais me vero ou ouviro falar de mim. Juro que jamais revelarei a algum a verdade sobre Cathy e voc. Farei o Possvel
para proteger seu segredo - mas deixem-me ficar com Bart, por favor, por favor!
    Caiu de joelhos e agarrou as mos dele. Quando Papai se apressou em retirar as mos, ela se agarrou ao seu palet.
    - No me embarace mais, Mame - disse ele, pouco  vontade; percebi que estava comovido. - Cathy e eu no damos nossos
filhos de presente. No momento, Bart no  nosso orgulho e prazer, mas ns o amamOs, precisamos dele, e faremos o que for necessrio para que recupere a sade mental.
    - Diga-me o que fazer e eu farei - suplicou ela, as lgrimas escorrendo pelo rosto, e, afinal, conseguiu agarrar as mos evasivas de Papai, apertando-as de encontro 
#187
ao seio. - Diga-me o que fazer - qualquer coisa, menos partir daqui. Tenho necessidade de ver Bart, de observ-lo e admir-lo fazer de conta.  maravilhosamente 
talentoso.
    Comeou a beijar as mos que Papai tentava retirar, embora provavelmente no tentasse muito, pois ela conseguiu segur-las apesar de sua debilidade fsica.
    - Mame, por favor... - pediu ele, desviando o olhar antes de sentar-se e esconder o rosto.
    - Bart precisa de mim, Christopher, mais do que qualquer de meus filhos jamais precisou. Ele tambm me ama... sei que ama.
Senta no meu colo, eu o acalento e vejo uma expresso de contentamento em seu rosto. Ele  to jovem, to vulnervel, to confuso
diante de coisas que no consegue  compreender. E eu posso ajudar. Sei que posso ajud-lo.
    Algo dentro de mim diz que no estarei aqui durante muito mais tempo - sussurrou ela, em voz to baixa que precisei fazer um
esforo para escutar. - Deixem-me t-lo at ento... por favor... como um ltimo presente  me que vocs tanto amavam... a me de sua juventude, Christopher... 
a me que tratou de voc quando teve sarampo, catapora e todos aqueles resfriados por ficar muito tempo l fora, brincando na neve. Lembra-se? Eu me lembro. Sem 
minhas lembranas dos bons tempos, eu jamais teria sobrevivido aos maus...
    Ela o conquistava. Papai a fitava com olhos ternos.
    - Voc disse h pouco que seduzi seu pai e planejei deliberadamente magoar meu pai ao casar-me com ele. Est enganado. Amei seu pai desde o primeiro instante 
em que o vi. No me seria possvel evitar am-lo, como no foi possvel voc evitar amar Cathy. Nada me resta do meu passado, Chris. Perdi tudo. John  o nico que 
pertence ao meu passado - disse ela em voz muito baixa, como se tivesse medo. -  o nico que restou dos tempos de Foxworth Hall.
    - Ento, ele deve saber quem sou! E quem  Bart!
    Debruando-se, ela esticou o brao para pousar a mo cheia de anis no joelho dele - vi-o estremecer ao toque.
    - No sei o que John sabe. Ele pensa que todos os meus filhos fugiram e se perderam em algum lugar do mundo. Ao que me consta, no sabe que o primeiro sobrenome 
de Bart  Winslow... mas, por outro lado,  to ladino e furtivo que bem pode saber de tudo.
    Estremeceu e retirou a mo, como se soubesse que o toque ofendia Papai.
    - Toda a terra ao redor daqui pertencia a meu pai. Portanto, John pensa que  muito natural eu vir para c e instalar-me numa
propriedade que est h muitos anos com nossa famlia.
#188
    Papai sacudiu a cabea.
    - E voc providenciou para que eu comprasse meu terreno abaixo do preo?
    - Christopher, meu pai possua terras em toda parte. Agora, elas me pertencem. Mas eu trocaria tudo por ter Cathy e voc de volta
como minha famlia. Ningum, exceto eu, sabe a respeito de voc e Cathy. E eu nunca direi a ningum quem vocs so. Prometo no
envergonh-los ou mago-los - apenas, deixem-me ficar! Deixem-me ser sua me outra vez!
    - Livre-se de John!
    Primeiro, ela suspirou, depois baixou a cabea. 
    - Gostaria de poder.
    - O que quer dizer?
    - No  capaz de adivinhar? - perguntou ela, erguendo a cabea grisalha para fit-lo nos olhos.
    - Chantagem?
    - Sim. Ele tambm no tem parentes. Simula nada saber a respeito de Cathy e voc, mas no posso ter certeza. Jurou ajudar-me a manter meu paradeiro em segredo, 
pois os reprteres estariam em meus calcanhares se descobrissem onde estou. Portanto, dou-lhe uma boa casa e bastante dinheiro, em troca de minha segurana.
    - Bart no est em segurana. Jory viu John Amos segredando algo a ele. Creio que ele sabe quem ns somos.
    - Mas no far nada - afirmou ela. - Conversarei com ele, farei com que compreenda. No falar... eu lhe pagarei bom dinheiro. 
    Papai se levantou para sair. Por um instante, pousou levemente a mo na cabea dela. Ento, como se tivesse um sentimento de culpa, retirou-a depressa.
    - Muito bem. Converse com John, ordene-lhe que deixe Bart em paz. Jory sabe que voc  minha me... mas... bem, voc sabe.
Alm disso, quem pode adivinhar quando Cathy decidir mostrar-se amistosa e vir visitar nossa nova vizinha? Antes, ela estava ocupada com as aulas de bal. Agora, 
que tem mais tempo livre, precisar ter contato com as pessoas. Isso foi uma das coisas mais difceis que ela precisou suportar quando jovem... permanecer trancada 
pelo que lhe pareceram sculos, tendo apenas a me e av... S serviu para aumentar a necessidade de contato humano.
    Ela baixou novamente a cabea.
    - Eu sei. Pequei e me arrependo. Rezo para que o tempo volte atrs, mas sempre acordo para um novo dia solitrio - e s tenho Bart para me dar esperana.
    Oh, puxa vida! Eles sabiam tanto antes de eu nascer!
    - Preciso perguntar uma coisa - disse ela num leve sussurro. - Voc a ama como um homem ama... uma esposa?
#189
    Ele se virou, de modo que ela s lhe podia ver as costas.
    - Isso no  da sua conta.
    - Mas eu compreenderia. Pergunto a Bart, mas ele no sabe a que me refiro. Contudo, disse-me que vocs dormem no mesmo quarto.
    Furioso, ele a encarou e explodiu:
    - E na mesma cama! Est satisfeita, agora? 
    Tornou a virar as costas e, desta vez, saiu.
    Intrigante, malditamente intrigante. Por que Mame odiava a me de Papai? E por que Vov perguntava a respeito de quartos e
camas?
    Voltei correndo para casa. No parei para relatar a conversa a John Amos. Mame estava  maldita barra, tentando levantar-se da horrvel cadeira de rodas. Escondi-me 
e observei. Era esquisito v-la desajeitada - como eu. Apesar de desajeitada como eu, ela conseguiu colocar-se de p e ficou imvel, tremendo da cabea aos ps. 
No espelho, seu rosto era plido e o cabelo uma moldura de ouro. Ouro derretido, quente como o inferno, queimando como lava fervente.
    -  voc, Bart? - chamou ela. - Por que me olha to esquisito? No cairei, se  isso que est pensando. A cada dia me sinto melhor, mais forte. Venha sentar-se 
e  conversar comigo. Conte-me aonde vai durante todo esse tempo que passo sem o ver. O que faz? Ensine-me sua brincadeira de faz-de-conta. Quando eu era de sua idade, 
tambm gostava de fazer de conta. Ora, eu costumava sonhar que era a prima ballerina mais famosa do mundo e fazia disso a coisa mais importante de minha vida. Agora, 
sei que nunca foi to importante. Agora, sei que o mais importante  fazermos felizes as pessoas que amamos. Quero fazer voc feliz, Bart...
    Eu a odiava por ter "seduzido" meu verdadeiro pai, roubando-o de minha pobre e solitria av, que era sua sogra. E, na ocasio, ela devia ser casada com o Dr. 
Paul Sheffield, que era irmo de Chris, mas no meu pai de verdade. Vejam s: tentando fazer as pazes comigo, depois de tanto negligenciar-me! Tarde demais! Tive 
vontade
de correr e empurr-la, derrub-la. De ouvir seus ossos se partirem, todos eles. Era infiel para todos os maridos! Todavia, eu no podia dizer nada disso. Minhas 
pernas fraquejaram, moles como borracha,
obrigando-me a escorregar para o cho enquanto todos os gritos silenciosos me ecoavam na cabea. Mulher m, pecadora! Mais cedo ou mais tarde, fugiria com algum 
amante - como fizera a me de Malcolm. Como faziam todas as mes.
     E por que minha av no fora franca e me contara quem ela era? Por que mantinha segredo? Sabia que eu necessitava de uma av
de verdade? At mesmo me mentira a respeito de quem era Papai! S John Amos me dizia a verdade.
#190
    - Bart... o que h de errado?
    Alarme no rosto dela. Devia mesmo ficar alarmado. Nunca, nunca me dissera seno mentiras. Eu no tinha em quem confiar,
exceto John Amos. Durante todo o tempo em que andava arrastando os ps, parecendo velho e esquisito, ele era honesto e fazia o
possvel para consertar o mundo.
    - Bart, o que ? No quer me contar?  sua prpria me?
    Encarei-a. Vi naquela massa de cabelos uma armadilha dourada para levar os homens  runa. Ela fazia todos os homens sofrerem.
Culpa dela. Tudo culpa dela. Roubou meu verdadeiro pai de minha av e o "seduziu".
    - Bart, no se arraste pelo cho. Fique em p e ande direito. Voc no  um animal.
    Joguei a cabea para trs e uivei. Uivei toda a fria e dio que sentia. No era justo que Deus me desse como me uma mulher assim. No era justo, pois ele matara 
meu verdadeiro pai, queimado num incndio. Eu precisava fazer alguma coisa. Tinha que corrigir a injustia.
    - Bart, por favor, diga-me o que h de errado.
    Eu mal conseguia v-la. Ela tentou afastar-se alguns passos da barra e suas mos se estenderam para mim, como se fossem
abraar-me.
    Eu jamais permitiria que me tocasse outra vez. Nunca, nunca, nunca!
    - Eu odeio voc! - berrei, levantando-me de um salto, a fim de recuar. - Espero que nunca mais voc volte a andar! Espero que
caia e morra! Espero que esta casa pegue fogo e voc morra queimada! E Cindy tambm!
    Corri... corri, corri at que os flancos me doeram e minha mente ficou vazia.
     Ca na baia de Ma, para descansar. Mantinha o dirio de Malcolm escondido ali, debaixo do feno velho. Peguei-o para ler mais. Rapaz! Ele realmente detestava 
as mulheres, especialmente quando eram bonitas. Parecia nem notar as feias. Ergui a cabea e fitei o espao. Alcia. Belo nome... tentei imaginar por que ele gostava 
mais de Alcia que de Olvia? porque ela tinha apenas dezesseis anos quando se casou com o velho pai dele, que tinha cinqenta e cinco?
    Alcia o esbofeteou quando ele tentou beij-la. Talvez Malcolm no soubesse beijar to bem quanto o pai.
     Quanto mais eu lia, mais aprendia como Malcolm obtinha sucesso em tudo que fazia, exceto em fazer que as mulheres o amassem.
Isso me provava que era melhor manter-me afastado das mulheres, pois eu era muito semelhante a Malcolm. Eu lia e relia o dirio, de modo a poder tornar-me todo-poderoso, 
como ele.
#191
    Nomes comeados com C. Por que as mulheres gostavam tanto de nomes comeados por C? Catherine, Corrine, Carrie e Cindy -
o mundo estava cheio de nomes comeados por C. Eu gostaria de gostar de minha av como antes. Agora, que tinha certeza de que ela era mesmo minha av, no adiantava. 
Deveria ter-me contado antes. No passava de outra mulher mentirosa, sorrateira, ardilosa.
Exatamente como John Amos me havia prevenido.
    Eu sentia levemente o cheiro de Ma. Meus ouvidos o escutavam mastigando a comida; senti o focinho frio farejar minha mo - e chorei. Chorei tanto que desejei 
morrer e juntar-me a ele. Contudo, Ma devia ter sentido mais falta de mim. Ele me obrigara a agir daquela forma. Devia ter sofrido quanto eu sofri - e no sofrera.
Era meu, mas permitira que vov o alimentasse e lhe desse de beber - portanto, a culpa fora dele. E Trevo tambm estava morto. Estrangulado e escondido no carvalho 
oco.
    Puxa! Eu era mau.
     Pensar em minha maldade causava-me sono. Sonhei com Ma, que me amava. Quando acordei, j estava quase escuro. John Amos
sorria para mim, com ar zombeteiro.
    - Ol, Bart. Sente-se solitrio na baia de Ma?
     De p junto a mim, como uma torre, John Amos no notou o feno que cara do depsito, em cima, e se prendera em seu bigode, dando-lhe uma aparncia repelente.
    - John Amos, como Malcolm conseguiu ganhar tanto dinheiro? - perguntei, s para ver se o feno lhe cairia do bigode quando
ele falasse.
    - Sendo mais esperto que aqueles que o deteriam.
    - Deteriam por que?
    O feno no cara.
    - Impediriam que ele conseguisse o que desejava.
    - O que desejava ele?
    - Tudo. Desejava tudo o que no lhe pertencia - e, para desejar e conseguir tudo que pertence aos outros, um homem tem que ser impiedoso e decidido.
    - O que  impiedoso?
    -  fazer o que for preciso para conseguir o que deseja.
    - Fazer qualquer coisa?
    - Qualquer coisa - repetiu ele, curvando-se com esforo para fitar-me nos olhos. - E no hesitar em pisar naqueles que se intrometam no caminho - mesmo que sejam 
membros da famlia. Porque eles fariam o mesmo se voc estivesse no caminho deles - acrescentou com um leve sorriso maldoso. - Voc sabe, naturalmente, que o mdico 
que est dissecando pouco a pouco sua  personalidade, mais cedo ou mais tarde o trancar num hospital para loucos.  isso que seus pais esto fazendo: preparando-se 
#192
para removerem de suas vidas um garotinho que se constitui num problema grave demais.
    Lgrimas de beb me encheram os olhos.
    John Amos fez uma carranca.
    - No demonstre fraqueza, com lgrimas que s ficam bem numa mulher. Seja duro, como era seu bisav Malcolm.
    Fez uma pausa para olh-lo de cima a baixo.
    - Sim, voc realmente herdou muitos dos genes dele. Algum dia, se continuar assim, ser to poderoso quanto Malcolm.

    - Onde esteve, Bart? - perguntou rispidamente Emma, que me olhava todo o tempo como se tivesse nojo de mim, mesmo quando eu estava limpo. - Nunca na vida vi 
um garoto capaz de ficar imundo to depressa como voc. Olhe sua camisa, calas, rosto e mos! Imundos -  isso a! O que deseja? Fazer poas de lama e chafurdar 
nelas?
    No respondi. Segui pelo corredor, na direo do banheiro.
    Mame ergueu os olhos da mesa de trabalho, em seu quarto.
    - Bart, eu estava imaginando onde voc estaria. Desapareceu h horas.
    Era da minha conta, no dela.
    - Bart... responda-me.
    - Estava l fora.
    - Sei disso. L fora, onde?
    - Perto do muro.
    - O que fazia l?
    - Cavava.
    - Cavava  procura de que?
    - Minhocas.
    - Para que precisa de minhocas?
    - Vou pescar.
    Ela suspirou.
    -  tarde demais para pescar e voc sabe que no quero que saia por a  desacompanhado. Pea a seu pai que o leve para pescar no sbado.
    - Ele no vai.
    - Como pode ter tanta certeza?
    - Ele nunca tem tempo.
    - Arranjar tempo.
    - No, no arranjar. Nunca arranjou, nunca arranjar.
    Ela suspirou outra vez.
    - Bart, procure ser compreensivo. Seu pai  mdico e tem muitos clientes doentes. Voc no desejaria que os pacientes dele ficassem sem ateno, no ?
#193
    No me importava. Preferia ir pescar. De todo modo, existia gente demais no mundo... especialmente mulheres. Corri para esconder o rosto no colo dela.
    - Mame, por favor, fique boa depressa. VOC me levar para pescar! Agora, que no precisa danar, pode fazer as coisas que
Papai nunca tem tempo de fazer comigo. Pode passar o tempo todo comigo, como costumava passar danando com Jory. Mame, Mame,
estou arrependido do que lhe disse - solucei. - Eu no odeio voc! No quero que caia e morra. Apenas me sinto malvado, s vezes, e no consigo evitar. Mame, por 
favor, no me deteste pelo que eu disse!
    As mos dela eram macias e reconfortantes em meu cabelo, tentando alis-lo e coloc-lo no lugar. Escovas de cabelo e laqu nunca davam resultado. Como as mos 
dela poderiam dar? Enterrei o rosto
mais fundo em seu colo, pensando em como John Amos me censuraria se visse aquilo, embora eu j lhe tivesse contado o que dissera a ela. John Amos sorrira, muito 
satisfeito por saber que eu me comportava e falava como Malcolm.
    - Voc no devia ter agido assim, Bart - dissera ele, procurando confundir-me. - Tem que ser esperto, deixar que ela pense estar conseguindo o que deseja. Se 
permitir que ela perceba seu objetivo, dar-lhe- oportunidade de encontrar meios para derrot-lo. E precisamos salv-la do Demnio, no  mesmo?
    Ergui a cabea para fitar o rosto bonito de minha me, fazendo as lgrimas me escorrerem pelo rosto por causa da mentira personificada que ela era. Casara-se 
trs vezes, dissera-me John Amos. Eu realmente no me incomodava em saber se ela era boa ou m, desde que a tivesse toda para mim. Eu lhe ensinaria a afastar-se 
de todos os homens -menos de mim.
     Para vencer, precisava jogar minhas cartas com exatido e usar os trunfos um a um, como John Amos me dissera. Iludi-la, iludir Papai, faz-los pensar que eu 
no estava louco. Mas confundia-me. Eu no era louco; apenas fingia ser Malcolm.
    - O que est pensando, Bart? - indagou ela, ainda alisando-me o cabelo.
    - No tenho companheiros de brincadeiras. S os que eu invento. No tenho nada, exceto genes ruins por causa do cruzamento consangneo. E, quanto ao meu meio 
ambiente, bem... tambm no  bom. Voc e Papai no merecem filhos. S merecem o inferno que criaram para vocs mesmos!
    Deixei-a atordoada. Satisfeito por faz-la infeliz, como ela sempre me fazia. Contudo, por que a felicidade no chegava para me fazer rir? Por que corri ao meu 
quarto, atirei-me na cama e chorei?
    Ento, lembrei-me da nica pessoa que no precisava de ningum: Malcolm. Ele sabia que era forte. Malcolm jamais hesitava em tomar decises, mesmo erradas, pois 
sabia como torc-las e torn-las certas. Portanto, #194
amarrei a cara, empertiguei os ombros e sa
arrastando os ps pelo corredor, querendo o que Malcolm queria. Vi Jory danando com Melodie e entrei no quarto de Mame para
contar.
    - Pare o que est fazendo! - berrei. - Jory e Melodie esto pecando! Beijando-se... fazendo um beb!
    Os dedos geis pararam acima do teclado da mquina de escrever. Mame sorriu.
    - Bart,  preciso mais que abraos e beijos para fazer um beb. Jory  um cavalheiro e no se aproveitar de uma moa inocente, que  bastante decente e esperta 
para lhe dizer quando parar.
    Ela no se importava. S queria saber daquele maldito livro que estava escrevendo. Agora, eu no tinha maior oportunidade com
ela do que no tempo em que era bailarina. Sempre, sempre ela encontrava algo melhor para fazer do que brincar comigo.
    Cerrei os punhos e esmurrei o alisar da porta. Chegaria a ocasio em que eu seria o patro e ela me escutaria. Saberia com quem
era melhor ela brincar. Fora melhor me quando dava aulas de bal. Agora, s fazia escrever, ESCREVER! Montanhas e montanhas de
papel.
    Mais uma vez, ela parou de me dar ateno e recarregou a mquina de escrever como se fosse uma espingarda para matar o
mundo. Nem mesmo notou quando apanhei uma caixa cheia de laudas datilografadas que ela deixara de lado ao comear a encher outra.
    John Amos estaria interessado em saber o que ela escrevia. Todavia, antes que ele lesse uma s palavra, eu leria primeiro. Mesmo que precisasse utilizar um dicionrio 
a cada minuto, lutando para entender as palavras mais complicadas que ela empregara. Apropriado... eu sabia o que significava aquilo. Ou achava que sabia.
    - Boa-noite, Mame.
    Ela nem me escutou. Continuou a escrever como se eu nem estivesse ali.
    Ningum ignorava Malcolm - nunca. Quando ele falava, todos corriam para fazer-lhe a vontade. Eu me transformaria em Malcolm.
    Uma semana depois, eu espionava Mame e Jory. Estavam diante do comprido espelho no "quarto de recreao" e Jory ajudava Mame a usar a perna machucada.
    - Agora, nem pense em cair. Estou logo atrs, para ampar-la se o joelho ceder. Vamos com calma, Mame, e logo voc estar
andando perfeitamente.
    Ela no andou perfeitamente. Parecia sentir dor a cada passo. Jory a segurava pela cintura, para evitar que vacilasse. E, de algum modo, ela conseguiu chegar 
 extremidade da barra sem cair. Esgotada,
esperou que Jory empurrasse a cadeira de rodas at l, a fim de poder sentar-se outra #195
vez. Jory ajustou os descansos para os
ps, enquanto ela mantinha as pernas levantadas.
    - Voc est cada dia mais forte, Mame.
    - Mas demora tanto.
    - Voc fica sentada tempo demais para escrever. Lembre-se: o mdico disse que precisa levantar-se com mais freqncia, passar menos tempo sentada...
    Ela meneou a cabea, parecendo exausta.
    - De quem foi aquele chamado interurbano? Por que no quiseram falar comigo?
    Com o rosto se abrindo num sorriso, Jory explicou:
    - Era minha av Marisha. Escrevi-lhe contando a respeito de sua queda e agora ela vem para o Oeste, a fim de substituir voc
na escola. No  timo, Mame?
    Ela no pareceu nem um pouco satisfeita. Quanto a mim, detestava aquela puta velha!
    - Voc devia ter-me contado antes, Jory.
    - Mas, Mame, ela queria fazer-lhe uma surpresa. Eu nem ia contar hoje, mas no  muito corts as pessoas surgirem na casa da
gente de uma hora para outra, sem aviso prvio. Eu sabia que voc ia querer aprontar-se, ficar bonita, arrumar a casa...
    Ela o olhou de modo engraado.
    - Em outras palavras: no estou bonita, agora, e minha casa  uma baguna?
    Jory sorriu com todo aquele encanto que eu detestava.
    - Mame, voc sabe que sempre  bonita, embora esteja magra e plida demais. Precisa comer melhor e sair um pouco mais ao ar livre, todos os dias. Afinal, os 
grandes romances no so escritos em apenas poucas semanas.
    Mais tarde, naquele mesmo dia, segui Jory at o quintal e fui para meu esconderijo predileto, a fim de espionar Mame e ele se revezarem em empurrar a detestvel 
Cindy no balano para bebs.
Ningum me deixava empurrar Cindy. Ningum confiava em mim. O psiquiatra no conseguia resultados; portanto, por que todo mundo no desistia e me deixava em paz?
    - Jory,  um tormento ouvir sua msica de bal e no poder danar para expressar todas as minhas emoes. Agora, quando escuto o incio de uma overture, fico 
tensa, remoda por dentro. Anseio por danar e quanto mais anseio, mais tenho necessidade de escrever. A escrita me salva, mas parece que Bart se ressente contra 
ela tanto quanto se ressentia contra a minha dana. Tenho a impresso de que jamais terei a capacidade de agradar meu filho mais moo.
    - Ora bolas, Mame! - disse Jory, com os olhos azul-escuro tambm refletindo tristeza e preocupao. - Ele  apenas um garotinho #196
que no sabe o que quer. Sei que algo esquisito se passa em sua mente.
    No era esquisito. Esquisitos eram eles, pensando que bal e estpidos contos de fada eram importantes, quando qualquer pessoa
sensata sabia que o dinheiro era rei, rainha, Deus onipotente.
    - Jory, dou-me a Bart o mximo possvel. Tento mostrar-lhe afeto e ele se retrai. Depois, foge de mim, ou corre para mim e coloca a cabea em meu colo para chorar. 
O psiquiatra diz que ele se debate entre me amar e me odiar. E, confidencialmente, vou-lhe dizer uma coisa: o comportamento de Bart no est contribuindo para que 
eu me recobre do acidente.
    Afastei-me. J escutara o bastante. Era uma boa hora para ir furtivamente ao quarto dela e roubar mais algumas pginas do livro.
Enfiadas na minha gaveta, estavam as que John Amos lera e devolvera. Portanto, recoloquei-as no lugar e retirei uma nova remessa.
    Sentei-me em minha pequena caverna verde cavada na sebe, a fim de ler o que Mame escrevera. A estpida Cindy ria e soltava
gritinhos, enquanto seus dois escravos adoradores a empurravam no balano. Rapaz, se eu tivesse uma oportunidade de empurr-la! Empurraria com tanta fora que ela 
voaria por cima do muro branco e iria cair na piscina da propriedade vizinha. A piscina que estava sempre vazia...
    Ler o livro de Mame era deveras interessante. "O Caminho da Fortuna", era o ttulo de um dos captulos. Aquela garota era realmente a minha me? Ela, os dois 
irmos e uma irm seriam realmente trancados num quarto?
    Li at o final do dia, quando o nevoeiro chegou para me envolver.
    Levantei-me e fui para casa, pensando no ttulo de outro captulo do livro de Mame: "O Sto". Que lugar maravilhoso para esconder coisas. Olhei para Mame, 
que beijava os lbios de Papai, brincando com ele, indagando a respeito das lindas enfermeiras e querendo saber se ele j arranjara algum para substitu-la.
    - Uma bela loura, com uns vinte anos de idade? 
    Ele pareceu ofendido.
    - Eu gostaria que no transformasse minha devoo por voc num motivo de pilhria, Cathy. No me provoque com comentrios desse tipo. Dou-lhe tudo que posso 
por que a amo com uma paixo que reconheo ser idiota.
    - Idiota? - repetiu ela.
    - Sim,  idiota, porque voc no corresponde to apaixonadamente quanto eu! Preciso de voc, Cathy. No permita que escrever esse livro se interponha entre ns.
#197
    - No compreendo.
    - Voc compreende! Nosso passado est revivendo. Voc o est vivendo outra vez enquanto escreve. D uma espiada e veja seu rosto, observe as lgrimas que escorrem 
e pingam no papel. Escuto voc rir e repetir em voz alta, palavras que foram ditas por Cory e Carrie. Voc no est apenas escrevendo, Cathy... est revivendo as
situaes.
    Ela baixou a cabea; os cabelos soltos caram, ocultando-lhe o rosto.
    - Sim, o que voc diz  verdade. Sentada  mesa de trabalho, vivo tudo aquilo novamente. Revejo a escurido do sto, o imenso espao empoeirado; escuto o silncio 
mais aterrorizador que o trovo. Ento, a solido que to bem conheci vem pesar-me nos ombros, de modo que ergo a cabea e me sobressalto ao ver onde estou, espantada 
de no ver as janelas fechadas com pesadas cortinas e imaginando quando a av entrar e nos pegar com as janelas abertas. s vezes, assusto-me ao levantar os olhos 
e ver Bart de p junto  porta, olhando fixamente para mim. A princpio, julgo que seja Cory; depois, no sei como explicar os cabelos escuros e os olhos castanhos. 
Olho para Cindy e acho que ela devia ser mais crescida, da mesma idade que o Cory de cabelos escuros. Ento, fico confusa, no sabendo distinguir o passado do presente.
    Cathy - disse ele, em tom preocupado. - Tem que desistir desse livro.
    - Sim, sim, Papai... obrigue-a a desistir!
    Ela soluou ao deixar-se cair nos braos dele, que a estreitou com fora contra o peito, murmurando-lhe aos ouvidos doces palavras de amor que eu no consegui 
escutar. Balanavam-se para a frente e para trs, como verdadeiros amantes pecadores. Pareciam com os casais que eu s vezes espionava, os que "transavam" na alameda
dos namorados, que no ficava distante da manso de minha av.
    - Deixe o livro de lado, espere que as crianas cresam e se casem em segurana...
    - No posso! - at mesmo eu consegui perceber a agonia na voz dela; gostaria de fazer aquilo, se pudesse. - A estria est em minha cabea, gritando para sair, 
para revelar a todos como certas mes so capazes de agir. Alguma intuio sbia me diz que quando eu escrever tudo e vender os direitos autorais a um editor, transformando 
a estria num livro que todos possam ler - s ento ficarei livre de todo o dio que sinto por Mame!
    Papai perdeu a fala. S pde continuar a abra-la, balanando; seus olhos azuis, que fitavam o espao por cima da cabea loura
apoiada em seu peito, pareciam atormentados.
    Retirei-me s escondidas e fui brincar sozinho no jardim. A velha av de Jory ia chegar. Eu nunca mais queria v-la. Mame
#198
tambm no gostava dela; eu podia perceber isso na maneira como minha me ficava tensa e cautelosa quando a velha estava perto,
como se temesse que a lngua ferina a trasse.
    - Bart, meu querido - chamou baixinho minha prpria av, do outro lado do muro. - Passei o dia inteiro esperando que voc
viesse. Quando voc no vem fico preocupada e, depois, infeliz. Querido, no fique a sentado, sozinho e amuado. Lembre-se de que
estou aqui, disposta a fazer tudo para que voc seja feliz. 
    Corri. O mais depressa que me permitiram as pernas. Trepei na rvore e vov tinha uma escada  minha espera, para que eu pudesse chegar ao solo em segurana. 
Era a mesma escada que ela usava para nos espionar.
    - Vou deixar a escada aqui, para seu uso - sussurrou ela, abraando-me e cobrindo-me o rosto de beijos. Por sorte minha, retirou antes aquele vu seco. - No 
quero que voc caia e se machuque. Eu o amo muito, Bart. Olho para voc e penso no quanto seu pai se orgulharia. Oh, se ele ao menos pudesse ver o filho! Seu filho 
belo e brilhante!
    Belo? Brilhante? Puxa... eu no sabia que era nada disso. Era gostoso algum me chamar de maravilhoso. Ela me fazia acreditar que era to bonito quanto Jory, 
e to talentoso, tambm. Isso era uma av. O tipo que eu sempre desejara. Uma av que me amava - s eu, mais ningum. Talvez John Amos estivesse enganado a respeito 
dela, afinal.
     Tornei a sentar-me em seu colo e permitir que ela me enfiasse na boca colheradas de sorvete. Deu-me um docinho e uma fatia de
bolo de chocolate. Ento, segurou o copo de leite para que eu bebesse. Com o estmago cheio, aconcheguei-me mais confortavelmente em seu colo e descansei a cabea 
na maciez de seus seios volumosos, que cheiravam a alfazema.
    - Corrine costumava usar perfume de alfazema - murmurei sonolento, com o polegar na boca. - Cante para mim uma cantiga de ninar... Nunca ningum cantou para 
me ninar, como Mame canta para Cindy...

     "Dorme, nenm..."

     Engraado. Enquanto ela cantava baixinho, tive a impresso de que tinha apenas dois anos de idade e h muito tempo, sentara-me
exatamente assim, no colo de minha me, e a escutara cantar aquela mesma cantiga.
    - Acorde, querido - disse ela, fazendo-me ccegas no rosto com a orla da manga. - Hora de voltar para casa, agora. Seus pais
devem estar preocupados - e j sofreram bastante para se angustiarem ainda mais com o seu paradeiro.
#199
    Oh! L no canto, John Amos a escutara falar. Estava evidente em seus olhos desbotados, que brilhavam ameaadoramente. Ele no gostava de minha av, de meus pais, 
de Jory e de Cindy. No gostava de ningum, exceto de mim e de Malcolm Foxworth.
    - Vov - murmurei, escondendo o rosto para que ele no pudesse ver o movimento de meus lbios. - No deixe John Amos ouvir voc dizer que tem pena de meus pais. 
Ontem, ele me disse que eles no merecem compaixo.
    Sentia-a estremecer, tentando no o deixar perceber que tinha conhecimento de sua presena.
    - O que quer dizer, exatamente, compaixo?
    Suspirando, ela me abraou com mais fora. 
    -  a emoo que sentimos quando compreendemos o sofrimento dos outros.  Quando queremos ajudar, mas nada podemos fazer.
    - Ento, para que serve a compaixo?
    - No serve para muita coisa, em termos concretos - disse ela, com olhar tristonho. - Seu nico bem  permitir sabermos que
ainda somos suficientemente humanos para senti-la. O melhor tipo de compaixo impulsiona a pessoa a agir para solucionar problemas.

    Quando me esgueirei para as sombras da noite, John Amos sussurrou:
    - O Senhor ajuda quem se ajuda a si mesmo. Lembre-se disso, Bart!.
    Com ar solene, devolveu-me as laudas datilografadas por Mame, que eu lhe emprestara.
    - Recoloque-as exatamente onde as encontrou. No as suje, nem amarrote. E quando ela escrever mais, traga para mim - e, ento, estar capacitado para solucionar 
todos os seus problemas. O livro dela lhe ensinar de que maneira. Ser que voc no
compreende?  para isso que ela est escrevendo.

DESDE EVA

    Ela ia chegar, vindo de Greenglenna, na Carolina do Sul, onde as sepulturas brotavam como mato. Eu podia esperar deparar-me, a
qualquer momento, com sua cara feia e malvada.
     Minha prpria av era dez mil vezes melhor. Ultimamente, retirava vez por outra o vu, deixando o rosto  mostra. Usava um
pouco de maquilagem, para me agradar - e agradava. s vezes, at mesmo usava um vestido bonito - mas nunca, jamais, permitia que John Amos a visse com qualquer outra 
#200
roupa seno aquele manto negro e o vu que lhe ocultava o rosto. S se fazia bonita para mim - exclusivamente.
    - Bart, por favor, no passe muito tempo com John.
     Ele me prevenira muitas vezes de que ela no gostaria.
    - No, madame. John Amos e eu no nos damos bem.
    -  Fico satisfeita. Ele  um homem malvado, Bart: frio, cruel e desalmado.
    - Sim, madame. No gosta muito de mulheres.
    - Ele lhe disse isso?
    - Sim. Disse-me que se sente solitrio. Que a senhora o trata como lixo e recusa-se a falar com ele durante dias a fio.
    - Afaste-se de John. Evite-o o mximo possvel - mas continue a vir visitar-me. Agora, voc  tudo que tenho.
    Deu palmadinhas na almofada do sof, convidando-me a sentar ao seu lado. A essa altura, eu j sabia que ela usava poltronas
confortveis sempre que John Amos ia  cidade.
    - O que faz ele em So Francisco? - indaguei.
    John Amos ia freqentemente  cidade.
    Franzindo a testa, ela me puxou para seus braos, estreitando-me contra a seda macia do vestido cor-de-rosa.
    - John  velho, mas ainda tem muitos apetites que precisam ser satisfeitos.
    - O que ele gosta de comer? - perguntei, curioso a respeito de um velho que usava dentaduras postias e tinha grande  dificuldade para mastigar at mesmo galinha, 
quanto mais um bife. Sopas, gelias, po molhado em leite - eis o que John Amos costumava comer.
    Ela deu uma risadinha e beijou-me o topo da cabea.
    - Como vai sua me? J est andando bem, agora?
    Queria mudar de assunto. Preferia no me dizer o que John Amos gostava de comer. Afastei-me.
    - Ela est melhorando aos pouquinhos; pelo menos,  o que diz a meu pai. Mas no est to bem assim. s vezes, quando ele
no est em casa, ela usa uma bengala, mas no quer que Papai saiba.
    - Por que no?
    - No sei. Tudo que ela quer fazer agora  brincar com Cindy, ou escrever. No faz outra coisa, juro! Para ela, escrever livros  to excitante quanto danar... 
s vezes, ela fica febril e parece aborrecida...
    - Oh - murmurou debilmente minha av. - Eu esperava que ela desistisse.
#201
    Eu tambm. Mas no parecia provvel.
    - A av de Jory chegar em breve, muito em breve. Acho que sou capaz de fugir se ela vier morar conosco.
    Ela tornou a dizer "Oh!", como se as surpresas lhe roubassem a lngua.
    - Tudo bem, Vov - declarei. - No gosto dela como gosto de voc.
    Voltei para casa na hora do almoo, empanturrado de sorvete e bolo. (Na verdade, j estava comeando a detestar doces.) Mame
estava  barra, fazendo exerccios diante do comprido espelho; tive que tomar cuidado para que ela no me visse quando me  esgueirei para trs de uma cadeira. Acho 
que ramos a nica famlia que tinha uma sala de recreao com uma barra de ginstica presa a um espelho de trs metros.
    - Bart, foi voc quem se escondeu atrs da cadeira?
    - No, Mame, foi Henry Lee Jones...
    -  mesmo. Faz algum tempo que ando  procura de Henry Lee. Alegro-me por voc ter sido encontrado, afinal, depois da esquina, no mato... sempre procurando por 
Henry Lee.
    Fui obrigado a soltar uma risadinha. Era a brincadeira que costumvamos fazer quando eu era pequeno, muito pequeno, de verdade.
    - Mame, pode me levar hoje para pescar?
    - Sinto muito. J tenho o dia inteiro planejado. Talvez amanh.
    Amanh. Sempre amanh.
    Escondi-me num canto escuro, encolhendo-me tanto que tive a impresso de que ningum conseguiria ver-me. s vezes, quando seguia
Mame em sua cadeira, andava nas pontas dos ps com as costas encurvadas, assumindo a postura que John Amos dizia que Malcolm
passara a ter quando velho, quando atingira o ponto mximo de seu poder. Eu fitava Mame, de manh, de tarde, de noite, sempre
tentando descobrir se ela era mesmo to m quanto afirmava John Amos.
    - Bart - Jory sempre conseguia encontrar-me, por melhor que eu me escondesse. - O que est fazendo, agora? - quis saber ele. - Costumvamos divertir-nos juntos. 
Voc conversava comigo. Agora, no fala com ningum.
    Falava. Com minha av, com John Amos. Dei um sorriso retorcido, franzindo os lbios como John Amos costumava fazer, e
voltei-me para observar Mame, que agora andava to desajeitadamente quanto eu.
    Jory se afastou, deixando-me para divertir-me sozinho - coisa que j no sabia mais fazer, exceto quando representava o papel de Malcolm. Seria Mame realmente 
to pecadora? Como poderia eu conversar com Jory como antes, se ele no acreditava que Mame nos mentia a respeito da verdadeira identidade de meu pai? Jory ainda 
pensava que fosse o Dr. Paul, mas no era - no era.
#202
    Mais tarde, durante o jantar, enquanto Mame e Papai trocavam olhares e comentrios tolos que os faziam rir, e Jory tambm, eu olhava furiosamente para a toalha 
amarela. Por que Papai queria que Mame usasse uma toalha amarela pelo menos uma vez por
semana? Por que vivia dizendo que ela precisava aprender a perdoar e esquecer?
    Ento, Jory disse:
    - Mame, Melodie e eu marcamos encontro para esta noite. Vou lev-la a um cinema e, depois, a um restaurante onde no servem bebidas alcolicas. Ser correto 
eu lhe dar um beijo de boa-noite? 
    - Uma pergunta deveras importante - comentou ela, rindo, enquanto eu permanecia amuado. - Sim, d-lhe um beijo de boa-noite
e diga-lhe o quanto apreciou o programa... e nada mais.
    - Sim, Mame - disse ele em tom zombeteiro, rindo. - J sei de cor sua lio. Melodie  uma boa moa, delicada e inocente, que se ofender se eu tentar aproveitar-me 
dela; portanto, vou ofend-la
por no tentar aproveitar-me.
    Ela fez uma careta para Jory , que se limitou a sorrir.
    - Como vai o livro? - perguntou meu irmo, antes de voltar ao seu quarto para ficar sonhando diante do retrato de Melodie que ficava sobre a mesinha de cabeceira.
    Pergunta estpida. Mame j lhe dissera que escrever ocupava cada momento que ela passava acordada. s vezes, acordava durante
a noite com novas idias. Papai reclamava que ela o mantinha acordado com a luz acesa. Quanto a mim, mal podia esperar para ler o
que aconteceria em seguida. s vezes,  pensava que ela estava inventando aquilo tudo, que a estria no se passara com ela. Estava fazendo de conta, como eu.
    - Jory - quis saber ela - voc anda mexendo no original? No consigo encontrar alguns captulos.
    - Ora, Mame, voc sabe que eu no leria o que escreve sem ter antes sua permisso. Voc me d permisso?
    Ela riu.
    - Algum dia, quando voc for adulto, insistirei para que leia meu livro - ou livros. Est crescendo tanto que  bem capaz de ocupar dois volumes.
    - Onde consegue tantas idias?
    Abaixando-se, ela pegou um velho caderno espiral.
    - Deste caderno e da minha memria - respondeu, folheando rapidamente as pginas. - Reparou como minha letra era grande quando eu tinha doze anos?  medida que 
envelheci, a caligrafia se tornou mais regular e muito menor.
    De repente, Jory arrancou-lhe das mos o caderno espiral e correu para uma janela, onde conseguiu ler algumas linhas antes que
ela pegasse o caderno de volta.
#203
    - Errou a ortografia de algumas palavras, Mame - provocou ele.
    Eu odiava o relacionamento entre eles; eram mais como amigos que como me e filho. Eu detestava a maneira pela qual ela estava
sempre escrevendo  mo, em papel pautado, antes de datilografar o texto. Detestava todo aquele lixo: lpis, canetas, borrachas e os livros novos que ela comprava 
para auxiliarem-na no projeto. Eu no tinha mais me; no tinha pai. Nunca tive um pai de verdade. No tinha ningum - nem mesmo um animal de estimao.

    O vero envelhecia, como eu. Meus ossos se sentiam velhos e quebradios, meu crebro sbio e cnico. E eu pensava, como Malcolm escrevera em seu dirio, que 
nada era to bom quanto antes; nenhum brinquedo me dava o prazer que eu imaginava antes de possu-lo. At mesmo a manso de minha av j no parecia to imensa quanto 
antes.
    Na baia de Ma, que era meu lugar especial para ler o dirio de Malcolm, deixei-me cair no feno e tentei ler as dez pginas dirias que John Amos estabelecera 
como meta. Ao comear a ler, mastiguei um talo de feno, encontrando o lugar assinalado com um dos pequenos marcadores de livro de couro de Mame.

     "Lembro-me to bem do dia em que fiz vinte e oito anos e voltei para casa, verificando que meu pai vivo finalmente se casara outra vez. Atnito, olhei para 
a noiva, que posteriormente descobri ter apenas dezesseis anos. Compreendi imediatamente que uma moa to jovem
e bonita s se casara com ele por dinheiro.
     "Minha esposa, Olvia, nunca fora o que algum pudesse chamar de bela, mas possua alguns aspectos atraentes quando eu me casara com ela - e seu pai era
muito rico. De repente, verifiquei que depois de me dar dois filhos, ela no tinha mais o menor atrativo para mim. Parecia to sinistra em comparao com Alicia, 
minha madrasta de dezesseis anos..."

     Eu j lera antes aquelas baboseiras referentes ao amor. Diabo! Perdi a pgina. Mas adquirira o hbito de virar depressa as pginas, lendo um trecho aqui e outro 
ali, especialmente quando um assunto maante como beijar entrava na estria de Malcolm.   Parecia-me to esquisito: por mais que ele detestasse as mulheres, estava 
sempre
querendo beij-las.
     Agora, eis o ponto em que me encontrava:
#204
     
     "Alicia ia dar  luz seu primeiro filho, que eu esperava desesperadamente fosse uma menina. Mas no: tinha que ser outro filho, para competir comigo pela fortuna 
de meu pai. Lembro-me de ficar olhando para ela, e para o filho que segurava ao peito na grande cama de cisne. Odiei ambos.
     "Quando ela sorriu para mim, inocente, to orgulhosa do filho, como se julgasse que eu acolheria to bem como meu pai o fizera, declarei: "Minha cara madrasta, 
seu filho jamais viver o bastante para herdar a fortuna de seu marido, pois estou vivo para evitar que isso acontea".
     "Ento, ela me aborreceu tanto que quase lhe esbofeteei o rosto bonito e ladino. "No quero o dinheiro de seu pai, Malcolm. Meu filho tambm no querer. Meu 
filho ganhar seu prprio sustento, sem precisar herdar dinheiro que foi  ganho por outros homens. Eu lhe ensinarei
os verdadeiros valores na vida - os valores sobre os quais voc nada sabe".

    De que estaria falando ela? O que eram valores, afinal? Preos de venda? Voltei mais uma vez minha ateno para o dirio de
Malcolm. Pulou quinze anos antes de tornar a escrever.

     "Minha filha, Corrine, parecia-se cada vez mais com a me que me abandonara quando eu tinha apenas cinco anos de idade".
     "Vi-a mudar, transformando-se numa mulher; e eu fitava os jovens seios em flor, que logo seduziriam algum homem. Uma vez, ela me surpreendeu olhando e corou. 
Gostei disso - pelo menos, era recatada. "Corrine, prometa-me que nunca se casar e abandonar seu pai quando ele estiver velho e doente. Jure que nunca me
deixar". "Ela ficou muito plida, como se temesse que eu a mandasse de volta para o sto se recusasse meu modesto
pedido. "Ter toda a minha fortuna, Corrine, se prometer - eu lhe legarei cada centavo, se voc nunca me abandonar".
     "Mas, Pai", disse ela, inclinando a cabea e parecendo infeliz, "quero me casar e ter filhos".
     "Jurou que me amava, mas pude ver em seus olhos que me abandonaria na primeira oportunidade".
#205
     "Eu tomaria providencias para que ela no tivesse rapazes ou homens na vida. Freqentaria uma escola exclusivamente para moas, uma severa escola religiosa, 
que no permitiria namoros".

    Fechei o livro e voltei para casa. Na minha opinio, Malcolm nunca deveria ter-se casado com Olvia e tido filhos - por outro
lado, pensando melhor, eu nunca teria  conhecido minha av. E, embora ela fosse mentirosa e me tivesse trado, eu ainda desejava voltar a am-la e a confiar nela.
    Outro dia, eu estava no celeiro, lendo a respeito de Malcolm quando ele tinha cinqenta anos. Agora, j no escrevia o dirio com tanta regularidade.

     "Existe algo pecaminoso ocorrendo entre meu meio-irmo mais moo e minha filha. Tenho feito o possvel para peg-los tocando-se ou olhando-se de modo significativo, 
mas so ambos muito espertos. Olvia afirma que meus temores so infundados, que Corrine seria incapaz
de sentir alguma coisa por seu meio-tio, mas, na verdade, Olvia no passa de uma mulher, fiel ao seu maldoso sexo. Maldito seja o dia em que ela me convenceu a 
acolher aquele rapaz em nossa casa. Foi um erro; talvez tenha sido o mais grave erro de toda a minha vida".

     Portanto, at mesmo Malcolm cometia alguns erros, mas s com pessoas que pertencessem  sua famlia. Por que no admitia que seus filhos fossem msicos? Nem 
que sua filha se casasse? Se eu fosse Malcolm, ficaria satisfeito por me ver livre dela, da mesma forma que, dia aps dias, eu desejava que Cindy desaparecesse.
    Joguei o dirio de Malcolm no cho e o cobri de feno. Em seguida, encaminhei-me furiosamente  manso, desejando que Malcolm
escrevesse a respeito de poder e como consegui-lo, de dinheiro e como ganh-lo, de influncia e como exerc-la. Tudo que ele fazia era escrever a respeito do quanto 
seus dois filhos, sua esposa e sua filha o faziam infeliz, para no falar do jovem meio-irmo que gostava de Corrine.
    - Ol, querido! - exclamou minha av quando entrei, mancando, na sala. - Onde esteve? Como vai o joelho de sua me?
    - Mal - respondi. - Os mdicos dizem que Mame nunca mais voltar a danar .
    - Oh! - suspirou ela. - Que pena! Sinto muitssimo!
    - Estou contente por ela nunca mais danar - asseverei. - Ela e Papai nem mesmo podem danar valsa. E costumavam fazer isso com freqncia na sala de visitas 
que no querem que ns usemos.
#206
    Minha av pareceu muito tristonha. Por que estava to triste? 
    - Vov, Mame no gosta de voc.
    - Deve cuidar melhor de sua gramtica, Bart - disse ela, engasgada, enxugando as lgrimas. - s vezes, voc fala muito errado. A propsito, como pode dizer que 
sua me no gosta de mim, se ela nem sabe que estou aqui?
    - s vezes, voc soa exatamente como ela.
    - Estou muito triste por nunca mais poder v-la danando no palco. Ela era to maravilhosamente leve e graciosa que parecia fazer parte da msica. Sua me nasceu 
para ser bailarina, Bart. Sei que ela deve sentir-se perdida e vazia sem o bal.
    - No, nada disso - repliquei depressa. - Mame arranjou aquela mquina de escrever e trabalha no livro o dia inteiro, e maior
parte da noite, tambm.  tudo que ela precisa. Ela e Papai ficam deitados na cama durante horas e horas, especialmente quando chove, e conversam a respeito de uma 
imensa casa velha nas montanhas, e de uma av velha e grandalhona que s usava roupas cinzentas. Fico escondido no armrio, escutando, e acho que tudo no passa 
de uma idiota estria de fadas.
    Ela pareceu chocada.
    - Voc espiona seus pais? No  muito bonito, Bart. Os adultos necessitam de privacidade - todo mundo precisa de privacidade. 
    Sorri, sentindo-me bem ao lhe dizer que espionava todo mundo - at mesmo ela, s vezes.
    Seus olhos azuis se arregalaram e ela me fitou por muito tempo, antes de sorrir.
    - Est brincando comigo, no ? Tenho certeza de que seu pai lhe ensinou a no fazer isso, Bart. Se deseja que as pessoas gostem de voc e o respeitem, precisa 
trat-las como gosta de ser tratado. Gostaria que eu o espionasse ?
    - NO! - rugi em resposta.
    Outro dia, mais uma viagem ao  consultrio daquele velho mdico de cabelos grisalhos que me fazia deitar e fechar os olhos para que ele pudesse sentar-se atrs 
de mim e fazer perguntas idiotas.
    - Hoje voc  Bart Sheffield ou Malcolm?
    No respondi.
    - Qual  o sobrenome de Malcolm?
    No era da conta dele.
    - Como se sente, agora, a respeito de sua me, j que ela no pode mais danar bal?
    - Alegre.
    Peguei-o de surpresa. Ocupou-se em fazer anotaes, ficando to excitado que sua cara estava vermelha quando abri os olhos e arrisquei uma espiada. Resolvi dar-lhe 
mais motivos para excitar-se:
#207
    - Eu gostaria que Jory casse e fraturasse ambas as rtulas. Ento, eu poderia andar melhor que ele, correr mais depressa, fazer tudo melhor que ele. Ento, 
quando eu entrar numa sala, todos olharo
para mim, no para ele.
    Ele esperou por mais. Quando fiquei calado, replicou suavemente:
    - Compreendo, Bart. Teme que sua me e seu pai no gostem tanto de voc quanto gostam de Jory.
    A raiva me dominou.
    - Sim,  verdade! Ela gosta mais dele! Mas no sei danar.  a dana que a faz rir quando est com Jory e franzir a testa quando est comigo. Eu ia ser mdico, 
quando crescesse - mas, agora, no quero mais. Porque meu verdadeiro pai no era mdico, como eles me disseram. Era advogado.
    - Como sabe disso? - indagou ele.
    No contei. No era da conta dele. John Amos contara. Eu escutara vov dizendo a Papai, tambm. Advogados eram espertos -
espertos de verdade. Aquilo tambm me tornaria esperto. Bailarinos no tinham crebro bom, mas apenas boas pernas.
    - H mais alguma coisa que voc deseje contar-me, Bart?
    - Sim! - respondi com aspereza, pulando do sof e pegando o abridor de cartas. - Ontem  noite, a lua estava cheia. Olhei pela janela e a ouvi chamar-me. Tive 
vontade de uivar. Ento, senti necessidade de provar sangue. Corri como um louco para o mato,
subindo as montanhas. Ento, da escurido da noite surgiu uma mulher linda, com longos cabelos louros.
    - E o que fez voc? - indagou o mdico, quando parei de falar.
    - Eu a matei, depois a comi.
    Ele fez mais anotaes e eu peguei vrios dos pirulitos que ele tinha no consultrio para os clientes mais jovens. Depois, peguei mais seis, refletindo que minha 
av talvez quisesse ao menos um.
    Voltando para casa, corri  baia de Ma e folheei as pginas do dirio de Malcolm que eu j lera. Precisava descobrir uma coisa e pulara as pginas cheias de 
baboseiras sobre o amor. Agora, queria saber o que o atraa para as mulheres que tanto desprezava. 

     "O outono chegara mais uma vez e todas as rvores tinham um colorido brilhante. Segui Alcia pelos bosques,
enquanto ela cavalgava seu cavalo com admirvel percia. Fui obrigado a esporear meu cavalo para que galopasse
e ganhasse terreno. Ela estava to  encantada com a beleza da estao que no pareceu escutar o barulho das patas de meu cavalo. Por um breve instante, perdi-a de 
vista quando ela desapareceu numa #208
touceira. Foi ento que desconfiei que talvez ela estivesse a caminho do lago onde eu nadava quando era criana. Um ltimo mergulho antes que o vero se fosse e 
o inverno gelasse a gua".

    Pirulitos com sabor de cereja eram os meus preferidos. Lambi, lambi at poder esticar a lngua e v-la vermelha como sangue. Era bom ler e comer coisas doces. 
Passei os olhos pelas revoltantes palavras
melosas que enchiam pgina aps pgina. Puxa! Malcolm deve ter comeado a ganhar dinheiro e adquirir poder quando era muito
mais velho.

     "Exatamente como eu suspeitara, ela estava no lago, o corpo glorioso to imaculado como eu imaginara que fosse. E pensar que meu pai se aproveitava de tudo 
aquilo, enquanto eu era obrigado a aturar o corpo frgido de uma mulher que s era capaz de submeter-se, jamais de gozar.
     "Molhada e cintilante, ela saiu do lago para a margem gramada, onde as roupas a aguardavam. Fiquei sem flego ao v-la  luz do sol. Seus maravilhosos cabelos 
tinham reflexos vermelhos e dourados, com sombras mbar escuras, e os plos entre suas coxas eram crespos,
     molhados e escuros."
     "Ento, ela me avistou e prendeu a respirao. Eu nem percebera que sara das sombras".

    Graas a Deus, ela o esbofeteou e mandou embora. Agora, agora, ele se transformava no Malcolm que eu conhecia: malvado, duro,
impiedoso e rico.

     "Voc pagar por isto, Alcia. Tanto voc como seu filho pagaro caro, muito caro. Ningum me rejeita aps me tentar e levar-me a acreditar que..."

     Fechei o livro e bocejei.

MADAME M

    Chegou outra carta de minha av Marisha, informando que ela j estava a caminho, a fim de substituir Mame nas aulas de bal.
"Assim, terei oportunidade de ver meu neto com mais freqncia e dar-lhe o benefcio de minha experincia".
#209
    Mame no estava muito feliz com a situao, pois ela e Madame M. no mantinham um relacionamento estreito ou caloroso, o
que sempre me incomodara. Eu amava as duas e gostaria que se amassem.
    Estvamos todos  espera de Madame M., todos quase mortos de fome porque ela j estava com uma hora de atraso. Telefonara
dizendo que no queria que ningum fosse busc-la no aeroporto, pois era independente e no lhe agradava ser ajudada. No obstante, Mame auxiliara Emma na preparao 
de uma refeio digna de um gourmet, que agora esfriava  espera da homenageada.
    - Oh, Deus, aquela mulher sabe ter falta de considerao! - reclamou Papai, aps consultar o relgio pela dcima vez. - Se ela permitisse que eu fosse esper-la 
no aeroporto, j estaria aqui a esta hora.
    -  estranho -comentou Mame com um sorriso de mofa. - Ela sempre fez questo de absoluta pontualidade por parte dos alunos.
    Finalmente, uma hora depois que Papai comeu sozinho e saiu s pressas para fazer a ronda dos doentes no hospital, Mame retirou-se para o quarto, a fim de trabalhar 
no livro at que minha av chegasse.
    - Bart - chamei eu. - Venha jogar alguma coisa comigo. Que tal uma partida de damas?
    - No! - gritou ele, mantendo-se em seu canto escuro, encolhido, os olhos negros e ameaadores, quase sem piscar. - Quero que
aquela velha caia do cu e morra.
    - Isso  maldade, Bart. Por que sempre diz coisas to detestveis?
    Ele se recusou a replicar, continuando a olhar-me fixamente.
    A campainha tocou. Levantei-me de um pulo e corri para abrir a porta.
    L estava minha av, sorridente e parecendo um tanto descabelada.
     Tinha pelo menos setenta e quatro anos - isso eu sabia ao certo -,  velha, enrugada, grisalha. s vezes, tinha o cabelo negro como piche; outras vezes, os fios 
eram  brancos perto do couro cabeludo. Com aquela faixa de cabelos brancos com cinco  centmetros de altura, ela ficava parecendo - segundo Bart - um gamb listrado 
ou uma velha foca negra. Madame M. tinha cabelos to lisos que Bart julgava que ela usasse algum leo para mant-los assim. Eu, porm,
achei-a maravilhosa quando ela me abraou com fora, as lgrimas escorrendo pelas bochechas cobertas por espessa camada de carmim. Nem se dignou a lanar um olhar 
a Bart.
#210
     - Jory, Jory, como voc est lindo! - disse ela; o coque de cabelos preso  nuca era to grande que me deu a impresso de
postio.
    - Posso cham-la de Vov quando no estivermos na escola de bal?
    - Claro que sim - replicou ela, meneando a cabea como um passarinho. - Mas s quando no houver ningum por perto, entendeu?
    - Ali est Bart - disse eu, lembrando-a de ser corts, coisa que ela raramente era.
    Madame M. no gostava de Bart e este no gostava dela. Fez um leve aceno de cabea para ele e depois voltou a ignor-lo como
se ele no existisse.
    - Estou muito feliz por dispor de alguns momentos a ss com voc - declarou, tornando a abraar-me.
    Puxou-me para o sof e sentamos lado a lado, enquanto Bart permanecia no canto mal iluminado.
    - Vou-lhe contar uma coisa, Jory: quando voc me escreveu para informar que no iria ao Leste neste vero, fiquei doente - doente de verdade. Naquele mesmo instante, 
resolvi que j estava farta daquele negcio de s ver meu neto uma vez por ano, de modo que
venderia minha escola de bal e viria para c, ajudar sua me. Naturalmente, eu sabia que ela no me queria aqui. Mas, e da? No
posso suportar dois longos anos de saudades do meu neto. Meu nico neto.
     - O vo para c foi horrvel -prosseguiu. - Turbulncia durante a viagem inteira. Alm disso, revistaram-me antes do embarque, como se eu fosse uma criminosa. 
Ento, tivemos que ficar sobrevoando o aeroporto, aguardando nossa vez de pousar. Fiquei enjoada a ponto de vomitar. Afinal, pouco antes de terminar o combustvel 
do avio, pousamos - o pouso mais sacudido que j fiz;
tive a impresso de que ia quebrar o pescoo. Meu Deus do cu! Voc devia escutar o que aquele homem me pediu para alugar um
carro! J que vim para ficar, decidi ali mesmo comprar um. No zero quilmetro, mas um belo carro antigo, que Julian teria adorado. J lhe contei antes que seu pai 
gostava de consertar carros velhos, faz-los funcionar novamente?
    Claro que ela j me contara aquilo.
    - Portanto, paguei queles ladres o preo exorbitante de oitocentos dlares, entrei no meu carro vermelho e parti para c, usando um mapa, enquanto o velho 
carro tossia pelo caminho. Senti-me to feliz de estar vindo encontrar-me com voc, meu adorado neto, o nico herdeiro de George. Ora, foi exatamente igual  poca 
em que
seu pai era adolescente e corria para casa, to orgulhoso de levar-me a passear em seu #211
novo carro, construdo com peas que ele conseguia apanhar na sucata da prefeitura.
    Seus brilhantes olhos negros pareciam jovens e ele voltou a conquistar-me com sua afeio e elogios.
     - ... e, como acontece com as velhas em toda parte, voc precisa compreender, uma vez que comea a pensar no passado, todos
os tipos de lembranas me vm  mente. Seu av ficou to feliz no dia em que Julian nasceu. Segurei seu pai no colo e fitei meu marido, que era muito bonito, como 
Julian, como voc, e quase explodi com o orgulho de, na minha idade, ter o primeiro filho com to pouca dificuldade. E seu pai era um beb perfeito, maravilhoso 
desde que nasceu.
    Desejei ter a ousadia de lhe perguntar que idade tinha quando meu pai nasceu -mas no me atrevi. De algum modo, porm, ela
me leu a pergunta nos olhos.
    - Minha idade no  de sua conta! - ralhou ela, debruando-se, em seguida, para beijar-me mais uma vez. - Meu Deus! Voc  ainda mais bonito que seu pai quando 
tinha a mesma idade - e sempre julguei que isso fosse impossvel. Eu sempre disse a Julian
que ficaria mais bonito se tivesse um bronzeado de sol, mas ele faria qualquer coisa para desafiar-me. Qualquer coisa, inclusive manter-se com uma palidez pouco 
natural.
    A tristeza toldou-lhe o olhar. Para minha surpresa, ela lanou um olhar a Bart, que escutava a conversa - e tive outra surpresa: ele parecia interessado no assunto.
    Ela ainda usava o mesmo vestido negro que parecia rgido de velhice; sobre ele, um velho e surrado colete de pele de leopardo que, obviamente, j vira melhores 
dias.
    - Ningum conheceu realmente seu pai, Jory, assim como ningum realmente o possuiu. Isto , ningum  exceo de sua me. 
    Suspirou e prosseguiu, como se precisasse dizer tudo antes que minha me aparecesse na sala:
    - Portanto, resolvi conhecer o filho do meu Julian melhor do que o conheci. Resolvi, tambm, que voc tem que me amar, porque nunca tive certeza de que Julian 
o fizesse. Sempre digo a mim mesma que o filho nascido da unio de meu filho com sua me teria que ser o melhor bailarino do mundo, sem nenhum dos problemas psicolgicos 
de Julian. Gosto muito, muito mesmo, de sua me, Jory, embora ela se recuse a acreditar nisso. Confesso que, s vezes, fui indelicada com ela. E Catherine tomou 
isso por meus sentimentos reais, mas eu s me zangava porque ela jamais aparentava apreciar verdadeiramente meu filho.
    Nervoso com aquele tipo de conversa, afastei-me de minha av. Minha primeira lealdade era para com minha me, no para com ela. Madame M. percebeu minha atitude 
mas, mesmo assim, continuou: 
#212
  - Sinto-me solitria, Jory; preciso estar perto de voc, perto de sua me, tambm.
    Como as sombras da noite, o remorso veio emprestar-lhe ao olhar uma expresso sombria, que lhe acrescentou anos de idade  fisionomia. 
    - A pior coisa da velhice  a solido; sentir-se to s, to intil, to gasta.
    - Oh, Vov! - exclamei, abraando-a. - Nunca mais precisar sentir-se solitria ou intil. Voc nos tem. 
    Abracei-a com mais fora e tornei a beij-la.
    - Esta no  a casa mais linda? Pode morar aqui, conosco. J lhe contei antes que a casa foi projetada por Mame?
    Madame M. correu o olhar pela sala, demonstrando grande curiosidade.
    - Sim,  um belo lar, muito semelhante a Catherine. Onde est ela?
    - Em seu quarto, escrevendo.
    - Escrevendo cartas?
    Pareceu magoada, como se Mame devesse estar fazendo o papel de anfitri e no se ocupando com trivialidades.
    - Vov, Mame est escrevendo um livro.
    - Um livro? Bailarinas no sabem escrever livros! 
    Sorrindo, levantei-me de um salto e, por hbito, ensaiei alguns passos de aquecimento.
    - Madame Vov, os bailarinos so capazes de fazer tudo o que lhes der na cabea.  Afinal, se somos capazes de suportar o tipo de dor que sofremos, o que temos 
a temer?
    - Rejeies - replicou asperamente Madame M. - Os bailarinos possuem egos altos como arranha-cus. Bastar uma rejeio alm da conta e Mame desmoronar.
    Sorri, pensando que aquela era uma boa piada; Mame jamais desmoronaria, mesmo que o carteiro lhe trouxesse mil cartas de
rejeio.
    - Onde est seu pai? - indagou ela em seguida. 
    - Fazendo a ronda noturna dos pacientes no hospital. Pediu-me para apresentar suas desculpas. Queria estar aqui e dar-lhe as
boas-vindas  nossa casa, mas voc no apareceu na hora prevista.
    Ela fungou, como se aquilo fosse, de algum modo, culpa de Papai.
    - Bem - declarou, levantando-se e olhando para a sala com um ar mais crtico. - Creio que j  tempo de eu entrar e dizer al a Catherine - embora ela certamente 
j deva ter escutado minha voz.
    Certamente que teria; era uma voz bastante estridente.
    - Mame fica muito absorvida, Vov. s vezes, no escuta uma palavra pronunciada a meio metro de distncia.
#213
    Ela fungou e pigarreou. Ento, acompanhou-me ao longo do corredor. Bati de leve  porta fechada do quarto de Mame e abri-a cautelosamente quando ela respondeu 
algo como... "Sim?"...
    - Voc tem companhia, Mame.
    Por um segundo, vi o desnimo no olhar de Mame antes que Madame M. entrasse arrogantemente no quarto. Sem esperar convite para sentar-se, minha av se deixou 
cair na espreguiadeira forrada de veludo.
    - Madame M.! - exclamou Mame. - Como  maravilhoso rev-la! Afinal, resolveu aparecer para visitar-nos, em vez do contrrio!
    Por que estava to nervosa? Por que no parava de lanar olhares aos retratos na mesinha de cabeceira. Os mesmos velhos retratos de Papai e do Dr. Paul. At 
mesmo meu verdadeiro pai estava l, mas num pequeno porta-retratos oval, no num dos maiores, de prata. 
    Madame M. tambm olhou para a mesinha de cabeceira - e franziu a testa.
    - Tenho muitos retratos de Julian em molduras maravilhosas - explicou apressadamente Mame. - Mas Jory gosta de t-los em seu quarto.
    Madame M. tornou a fungar.
    - Voc est com boa aparncia, Catherine.
    - Sinto-me bem, obrigada. A senhora tambm me parece muito bem.
    As mos de Mame moviam-se nervosamente no colo e seus ps mantinham a cadeira giratria em constante movimento.
    - E seu marido, como vai?
    - Bem, muito bem. Est fazendo a ronda no hospital. Esperou, mas como a senhora no apareceu...
    - Compreendo. Sinto muito o atraso, mas as pessoas deste estado so assaltantes. Tive que pagar oitocentos dlares por um monte de sucata, que vazou leo durante 
todo o trajeto para c.
    Mame baixou a cabea. Percebi que prendia o riso.
    - O que mais a senhora esperava, por oitocentos dlares? - conseguiu, afinal, perguntar.
    - Francamente, Catherine. Julian nunca pagou caro por qualquer um dos carros que possuiu. Voc bem sabe - disse minha av,
cuja voz estridente assumiu um tom pensativo. - Por outro lado, ele sabia trabalhar com ferro-velho; eu no sei. Acho que permiti que o sentimento sobrepujasse meu 
bom senso. Deveria ter comprado um carro melhor, por mil dlares. Mas sou avarenta, tambm.
    Em seguida, veio a indagao sobre o joelho de Mame. Estava curado? Dentro de quanto tempo ela voltaria a danar?
#214
    - Est bom - disse Mame, um tanto irritada. (Detestava que indagassem a respeito do joelho). - S percebo um pouco a dor quando chove.
    - E como est Paul? J faz tanto tempo que o vi pela ltima vez. Lembro-me de que fiquei to zangada quando voc se casou
com ele, que desejei nunca mais voltar a v-la. At deixei de ensinar bal durante alguns anos.
    Olhou mais uma vez para a fotografia de Papai.
    - E seu irmo ainda mora com voc?
    O silncio tornou o ar carregado. Mame estudou o retrato de meu padrasto Chris. A que irmo minha av se referia? Mame no
tinha mais irmos. Por que Madame M. olhava o retrato de Papai, ao perguntar a respeito de Cory?
    - Sim, sim,  claro - disse Mame, intrigando-me quanto ao significado da resposta. - Agora, conte-me tudo a respeito de Greenglenna e Clairmont. Quero saber 
notcias de todos. Como est Lorraine Du Val? Casou-se com quem? Ou foi para Nova Iorque? 
    - Ele nunca se casou, no  mesmo? - insistiu Vov, com as plpebras apertadas.
    - Quem?
    - Seu irmo.
    - No, ainda no se casou - respondeu Mame, irritando-se, novamente. Em seguida, sorriu: - Agora, Madame, tenho uma grande
surpresa para a senhora. Temos uma filha, que se chama Cindy.
    - Hah! - fungou Madame M. - J sei a respeito de Cindy - declarou, com um estranho brilho no olhar. - Ainda assim, gostaria de ver e ouvir mais a respeito desse 
exemplo extraordinrio de
menininha. Jory me escreveu que talvez ela Possua algum talento para a dana.
    - Oh, possui, sim! Gostaria que a senhora a visse de malha cor-de-rosa, tentando imitar Jory ou eu... isto , quando eu podia danar.
    - Seu marido deve estar bastante idoso, a esta altura - comentou Madame M. ignorando os retratos de Cindy que Mame tentava mostrar-lhe.
    Minha irm adotiva j estava dormindo.
    - Jory lhe contou que estou escrevendo um livro?  realmente fascinante. No acreditei que fosse, quando comecei, mas surpreendi-me deveras depois que ultrapassei 
a fase de transio e, agora, escrever  mais divertido que trabalhar. To satisfatrio quanto danar.
    Sorriu, movimentando as mos, retirando um fiapo das calas azuis, puxando o suter branco, ajeitando o cabelo, mexendo nos
papis para arrumar a mesa de trabalho.
    - Meu quarto est uma baguna. Peo-lhe desculpas. Preciso de um escritrio, mas no temos lugar nesta casa para...
#215
    - Seu irmo tambm est fazendo a ronda nos hospitais? 
    Continuei sentado, silencioso, sem entender quem era o tal irmo. Cory morrera, h muitos anos, embora seu tmulo estivesse
vazio. No havia ningum l dentro. Uma pequena lpide ao lado de Tia Carrie, mas ningum na sepultura...
    - Deve estar faminta. Vamos para a sala de jantar e Emma esquentar o espaguete. A segunda vez  sempre melhor...
    - Espaguete? - repetiu rispidamente Madame M. - Quer dizer que vocs comem essa porcaria? Permite que meu neto coma massa? H muitos anos, eu a preveni para 
que no comesse massas! Francamente, Catherine, ser que voc nunca aprende?
    Espaguete era um de meus pratos prediletos, mas, naquela noite, comeramos pernil de carneiro em homenagem a Madame M., preparado da maneira que Mame julgava 
que minha av gostasse mais. Por que ela falara em espaguete? Lancei um olhar penetrante 
minha me e notei que estava nervosa, a respirao em suspenso, parecendo to jovem quanto Melodie, como se tivesse muito medo que alguma coisa desse errado - e 
o que poderia dar errado?
    Madame M. declarou que no comeria em nossa casa e tambm no dormiria l, pois no queria causar-nos "incmodos". J encontrara um quarto na cidade, perto da 
escola de bal de Mame.
    - Embora voc no me tenha pedido, Catherine, ser um prazer ficar aqui e substitu-la. Vendi minha escola no momento em que Jory me escreveu a respeito de seu 
acidente.
    Mame s conseguiu menear a cabea, com a fisionomia estranhamente inexpressiva.

    Poucos dias mais tarde, Madame M. olhou em volta, no escritrio que fora de Mame.
    - Ela mantm tudo to bem arrumado, completamente diferente de mim. Logo este escritrio estar parecido com o meu.
    Eu a amava de um modo esquisito, como a gente ama o inverno durante um vero quente; logo o inverno surge para nos congelar at a medula e a gente reza para 
que se v embora logo. Minha av se movimentava de modo to juvenil e, ao mesmo tempo, parecia to velha. Quando danava, dava a impresso de ter apenas dezoito 
anos. Seus cabelos pretos apareciam e sumiam de acordo com os dias da semana. A essa altura, eu j sabia que ela usava uma certa tintura, em forma de xampu, que 
logo saa e manchava os dentes do seu pente branco. Eu gostava mais quando seu cabelo estava branco, lanando reflexos prateados sob as luzes.
    - Voc  tudo que meu Julian era! - exclamou ela, sufocando-me com uma afeio exagerada. J despedira a jovem professora
contratada por Mame. - Contudo, por que  to arrogante, hem? Sua me lhe diz que voc  sensacional ? Sua me sempre pensou que o
#216
mais importante na dana  a msica; mas no , no ! A essncia do bal  a exibio do corpo belo. Eu vim salvar voc, Vim para ensin-lo a fazer tudo com perfeio. 
Quando eu terminar, voc possuir uma tcnica irrepreensvel.
    Sua voz estridente subiu uma ou duas oitavas.
    - Vim tambm porque sou velha, posso morrer a qualquer momento e no conheo meu neto. Vim cumprir meu dever e ser no
apenas sua av, mas tambm seu av e seu pai. Catherine foi uma grande tola ao danar, quando sabia que o joelho podia fraquejar a qualquer instante. Mas sua me 
sempre foi uma grande tola - portanto, onde est a novidade?
    Ela me deixava furioso.
    - No fale assim a respeito de minha me. Ela no  tola. Nunca foi uma tola. Faz o que sente que deve fazer. Portanto, vou-lhe contar a verdade - e trate de 
deix-la em paz. Ela danou aquela ltima vez porque eu supliquei, implorei que danasse profissionalmente comigo, pelo menos uma nica vez. Ela o fez por mim, Vov, 
por mim, no por ela!
    Seus olhos midos assumiram uma expresso ladina.
    - Jory, aprenda a primeira lio do meu curso de filosofia: "Ningum nunca faz nada pelos outros, a menos que ganhe ainda mais que eles com isso".
    Madame jogou na cesta de papis velhos todas as pequenas lembranas que Mame guardava com carinho, tratando-as como se no passassem de trastes velhos e imprestveis. 
Em seguida, pegou uma enorme sacola surrada e, em poucos minutos, a mesa estava mais coberta de trastes que antes.
    Ajoelhei-me imediatamente, a fim de retirar da cesta de papis todas as coisas que Mame adorava.
    - Voc no gosta de mim como gosta dela - queixou-se Madame M., num spero tom de auto-comiserao que soava fraco e velho.
    Espantado com o sofrimento em sua voz, ergui a cabea e vi-a como nunca a vira antes: uma mulher velha, solitria, digna de pena, agarrando-se desesperadamente 
ao nico elo significativo que ainda a ligava  vida - eu. 
    Senti-me invadido por uma onda de piedade.
    - Alegro-me por voc estar aqui, Vov, e  claro que a amo. No me pergunte se a amo mais do que qualquer outra pessoa. Contente-se em ser feliz porque simplesmente 
a amo, como estou feliz porque voc me ama, no importa o motivo.
    Beijei-lhe o rosto enrugado, acrescentando:
    - Logo nos conheceremos melhor. E eu serei o tipo de filho que voc desejava que meu pai fosse - sob certos aspectos.  Portanto, no chore nem se sinta sozinha. 
Minha famlia  a sua famlia.
#217
    No obstante, ela chorou, as lgrimas escorrendo pelo rosto, os lbios trmulos, agarrando-se desesperadamente a mim. Sua voz soou velha e engasgada:
    - Nunca Julian correu a mim como voc acaba de fazer. No gostava de tocar ou ser tocado. Muito obrigada, Jory, por amar-me
um pouquinho.
    At ento, ela fora apenas um acontecimento de vero em minha vida, bajulando-me com elogios exagerados, fazendo-me sentir especial. Agora, eu ficava pouco  
vontade por saber que ela ficaria
conosco para sempre - talvez lanando uma sombra em nossas vidas.
    Tudo em nossa vida estava dando errado. Talvez eu pudesse atribuir a culpa  velha da manso vizinha. No obstante, aqui estava outra velha trajada de negro, 
dez vezes mais irritante que a av de Bart - e mais dominadora, tambm. Bart era um menino que
precisava de algum controle, mas eu j era quase um homem e no necessitava de mais algum para fazer o papel de minha me. Com
uma certa dose de ressentimento, libertei-me das mos dela, que pareciam garras aduncas a segurar-me, e perguntei:
    - Vov, por que todas as avs gostam de usar roupas pretas?
    - Ridculo! - replicou ela, rspida. - Nem todas!
    Seus olhos negros brilhavam como pedras preciosas pretas.
    - Mas nunca vi voc vestida de outra cor.
    - E nunca me ver vestida de outra cor, exceto preto.
    - No compreendo. Ouvi minha me dizer que voc j se trajava de preto antes de meu av e meu pai morrerem. Vive em luto
perptuo?
    Ela franziu os lbios numa expresso de escrnio.
    - Ah, entendo. No se sente  vontade diante de roupas pretas, hem? Sente-se triste, no ? Pois eu me sinto alegre. A roupa preta me faz diferente. Qualquer 
pessoa pode usar cores bonitas.  preciso ser uma pessoa especial para satisfazer-se apenas com roupas pretas. E, alm disso,  mais econmico.
    Ri e afastei-me ainda mais dela. Tive certeza de que ela usava preto mais por economia que por qualquer outro motivo.
    - Que outra av voc conhece que s veste roupas negras? - quis saber ela, os olhos muito apertados e cheios de desconfiana.
    Sorri e recuei mais ainda. Ela franziu a testa, aproximando-se. Abri um sorriso mais largo ao me aproximar da porta.
    -  timo t-la aqui conosco, Av Madame. Seja especialmente boazinha para Melodie Richarme. Casar-me-ei com ela algum dia.
    - Jory! - berrou ela. - Volte aqui! Acha que voei atravs de metade do mundo apenas para substituir sua me? Vim por um nico motivo: estou aqui para certificar-me 
de que o filho de Julian danar em Nova Iorque e todas as outras grandes metrpoles do mundo,
#218
alcanando toda a fama e glria que cabiam ao seu pai. Por causa de Catherine, ele foi roubado - roubado!
    Aquilo me fez ficar furioso, querendo mago-la tanto quanto suas palavras me feriam, embora um segundo antes eu a amasse.
    - Em que minha fama e glria podero ajudar um pai que jaz na sepultura, morto e enterrado? - berrei em resposta.
    Eu no era massa de modelar, que ela pudesse manipular  vontade. J era um grande bailarino e devia isso a minha me. No precisava que Madame M. me ensinasse 
a danar - precisava que ela me ensinasse a amar uma velha detestvel e amargurada.
    - J sei danar, Madame; minha me me ensinou muito bem.
    Seu olhar desdenhoso fez-me empalidecer. Contudo, ela me surpreendeu ao levantar-se da cadeira, deixar-se cair de joelhos no cho e colocar as mos abaixo do 
queixo, numa postura de orao. Jogou a cabea para trs erguendo o rosto magro e dando a impresso de fitar Deus cara-a-cara.
    - Julian! - exclamou apaixonadamente. - Se est a em cima, olhando aqui para baixo, veja e oua a arrogncia de seu filho de
quatorze anos! Fao, hoje, um pacto com voc. Antes de morrer, verei seu filho tornar-se o bailarino mais aclamado do mundo. Farei dele o que voc poderia ter sido 
se no gostasse tanto de carro, de
mulheres, sem mencionar seus outros vcios. Seu filho, Julian - atravs dele, voc reviver para danar novamente!
    Atnito, observei-a deixar-se cair, exausta, de volta na cadeira, estendendo diante de si as pernas musculosas.
    - Maldita seja Catherine por casar-se com um mdico tantos anos mais velho que ela. Para onde foi o seu bom senso? E o dele? Embora, para fazer-se o devido crdito 
a quem o merece, h alguns anos ele ainda fosse bonito e bastante atraente. Todavia, Catherine deveria saber que ele ficaria velho antes mesmo que ela atingisse 
a
maturidade sexual. Deveria ter-se casado com um homem de idade mais prxima  dela.
    Fiquei parado diante dela, confuso, trmulo, comeando a sentir portas de armrios se abrirem em minha mente - portas
emperradas, que se abriam rangindo com relutncia. No, no, Madame, cale a boca, dizia meu crebro. Vi-a empertigar-se repentinamente, os olhos negros e penetrantes 
imobilizando-me no lugar, de modo que no consegui me mover quando meu maior desejo era fugir correndo dali, depressa.
    - Por que est tremendo? - quis saber ela. - Por que parece to esquisito?
    - Pareo esquisito?
    - No me responda com perguntas! - bradou ela. - Conte-me a respeito de Paul, seu padrasto; como vai ele, o que faz. Era vinte e cinco anos mais velho que sua 
me. E #219
ela tem agora trinta e sete. Quer dizer que tem sessenta e dois, no ?
    Engoli apesar do doloroso n que se formara em minha garganta.
    - Com sessenta e dois anos, no  to velho assim - repliquei timidamente, refletindo que ela devia saber disso, pois tinha mais de setenta anos.
    - Para um homem, isso  velhice; para uma mulher, a vida apenas comea a estender-se.
    - Isso  crueldade - repliquei, comeando a no gostar dela, mais uma vez.
    - A vida  cruel, Jory, muito cruel. Trate de tirar da vida tudo o que puder enquanto ainda  jovem, pois se esperar que tempos melhores venham no futuro, estar 
esperando em vo. Eu sempre dizia a Julian para viver sua vida e esquecer Catherine, que amava aquele homem mais velho, mas ele se recusava a acreditar que qualquer 
garota pudesse preferir um homem maduro a um jovem to bonito e vibrante como ele. E agora, est morto e sepultado, como voc disse h pouco. O Dr. Paul Sheffield 
goza do amor que, por direito, pertencia a meu filho, o seu pai. 
    Eu chorava lgrimas que ela no podia ver. Lgrimas quentes, escaldantes de incredulidade. Teria Mame mentido para Madame M., fazendo-a crer que Papai Paul 
ainda continuava vivo? Por que mentiria? O que havia de errado em casar-se com Christopher, irmo mais moo do Dr. Paul?
    - Parece doente, Jory. Por que?
    - Sinto-me timo, Madame.
    - No minta para mim, Jory. Sou capaz de farejar uma mentira a quilmetros de distncia. Por que o Dr. Paul Sheffield jamais acompanha a famlia nas visitas 
 sua cidade natal? Por que  sempre sua me que leva os filhos e aquele irmo, Christopher?
    Meu corao estava aos saltos. O suor me grudava a camisa  pele.
    - Madame, j foi apresentada ao irmo mais moo de Papai Paul?
    - Irmo mais moo? De que est falando? - quis saber ela, debruando-se para me fitar nos olhos. - Nunca ouvi falar de nenhum irmo, mesmo naquela terrvel ocasio 
em que a primeira mulher de Paul afogou o filho deles. A notcia se espalhou por todos
os jornais e ningum mencionou um irmo mais moo. Paul Sheffield tinha apenas uma irm - nenhum irmo, mais moo ou mais velho.
    Senti-me doente, prestes a vomitar. Pronto para gritar, correr, fazer algo violento ou doloroso a mim mesmo, como Bart costumava fazer quando estava magoado 
ou perturbado. Pois, pela primeira vez, estava sentindo na carne o que era ser como Bart. Pisava em terreno traioeiro, com medo que #220
tudo desmoronasse se eu me atrevesse a
fazer um movimento.
    Por minha mente corria o fluxo constante da idade, anos e anos de diferena de idade - e Papai no era muito mais velho que mame; apenas dois anos e alguns 
meses. Ela nascera em abril e ele em novembro. E eram to semelhantes na cor da pele, olhos e cabelos, na educao, entendiam-se sem dizer uma palavra, bastando-lhes 
apenas um olhar.
    Madame estava sentada como uma cobra enrolada, pronta para o bote. Dava a impresso de estar prestes a atacar-me... ou atacaria Mame? As rugas ao redor de seus 
olhos apertados e nos cantos dos lbios severos pareciam mais profundas. Comprimindo os lbios, enfiou a mo num bolso secreto do vestido surrado para pegar o mao 
de cigarros.
    - Agora - disse ela, como se falasse sozinha, aparentemente esquecida de minha presena -, qual foi a desculpa apresentada por Catherine na ltima vez que Paul 
no a acompanhou? Vejamos... primeiro ela fez uma ligao interurbana, explicando que Chris viria com ela por que Paul estava impedido de viajar por causa do problema 
cardaco. Ela o deixaria aos cuidados da enfermeira. Na ocasio, achei estranho que ela o deixasse sozinho, quando ele necessitava
dos cuidados de uma enfermeira, e viajasse com Chris.
    Mordeu o lbio inferior, mascando-o num gesto inconsciente.
    - E, no ltimo vero, no houve visita porque Bart detestava velhas avs e velhas sepulturas - e, desconfio, eu, em especial. Moleque mimado! Neste vero, tambm 
no puderam vir porque Bart enfiou um prego enferrujado no joelho e teve um envenenamento no sangue, ou algo semelhante. O maldito fedelho causa mais encrencas do 
que vale.  bem feito para ela, por ter comeado a namorar to cedo aps a morte de meu filho. E Paul tem problemas cardacos,
interminavelmente mas nunca sofreu um ataque grave. Todo vero ela apresenta sempre a mesma velha desculpa esfarrapada: Paul no
pode viajar por causa do corao - mas Chris sempre pode viajar, com ou sem corao.
    Parou bruscamente de falar, pois movi-me em direo  porta. Tentei tornar os olhos inexpressivos e apagar deles as crescentes
desconfianas que eu no queria que ela notasse. Nunca me sentira to amedrontado como naquele momento, s de observar-lhe o olhar calculista, as engrenagens funcionando-lhe 
no crebro, planejando algo
que eu sabia.
    Ento, ela se ergueu agilmente de um pulo.
    - Vista o casaco. Vou para casa com voc, para ter uma longa conversa com sua me.

#221
A TERRVEL VERDADE

    - Jory -comeou Madame M., quando seguamos para casa em seu velho e sacolejante calhambeque. - Seus pais no lhe fazem muitas confidncias sobre o passado, 
no  mesmo?
    - Falam conosco sobre o assunto - repliquei rigidamente, ressentindo-me contra a maneira pela qual ela insistia em fazer
perguntas sobre coisas que no tinham importncia - realmente no tinham. - Sabem escutar muito bem e todo mundo diz que so o
melhor tipo de pessoas com quem conversar.
    Ela fungou.
    - Saber escutar bem  o mtodo perfeito de evitar responder perguntas que se prefere ignorar.
    - Ora, escute uma coisa, vov: meus pais prezam sua privacidade. Pedem que tanto eu como Bart evitemos conversar sobre nossa vida particular com os colegas. 
Afinal, faz sentido que uma famlia seja unida.
    -  mesmo...?
    - Claro que ! - gritei. - Eu tambm gosto de privacidade!
    - Voc est numa idade que necessita de privacidade; eles no.
    - Madame, minha me foi uma espcie de celebridade e meu pai  mdico; Mame casou-se trs vezes. No creio que ela deseje
que sua ex-cunhada, Amanda, saiba onde moramos.
    - Por que no?
    - Minha tia Amanda no  uma pessoa muito agradvel. S isso.
    - Jory, voc confia em mim?
    - Sim - respondi, embora no confiasse.
    - Ento, conte-me tudo a respeito de Paul. Diga-me se ele est mesmo to doente quanto ela alega, ou se ainda est vivo, pelo menos. Diga-me por que motivo Christopher 
mora com vocs e  quem faz o papel de pai para voc e Bart.
    Oh, eu no sabia o que dizer e me esforava para ser um bom ouvinte, de modo que ela continuasse a falar e eu pudesse juntar as peas do quebra-cabeas. Certamente, 
eu no desejava que ela visse
o quadro completo antes de mim.
    Fez um prolongado silncio e, finalmente, ela falou.
    - Voc sabe, depois que Julian morreu, sua me morou com voc na casa de Paul e, depois, levou voc e Carrie, a irm caula,
para as montanhas da Virgnia. A me dela morava l, numa bela casa. Parece-me que Catherine estava resolvida a estragar o segundo casamento da me. O marido da 
me de sua me era um homem chamado Bartholomew Winslow.
#222
    Aquele maldito n me voltou  garganta e ficou doendo ali. Eu no diria a ela que Bart era filho de outro homem que no o Dr.
Paul - eu no diria!
    - Vov, se deseja que eu continue a am-la, faa o favor de no me contar coisas desagradveis a respeito de minha me.
    Madame M. estendeu a mo magra para apertar a minha.
    - Muito bem, admiro-o por tanta lealdade. S quero que tome conhecimento dos fatos.
    A essa altura, quase saiu da estrada e jogou o carro numa vala.
    - Vov, sei dirigir. Se estiver cansada e no conseguir enxergar bem as placas de sinalizao, posso tomar o volante. Ento, voc descansaria.
    - Permitir que um menino de quatorze anos me sirva de motorista? Ficou maluco? Quer dizer que no se sente seguro comigo
ao volante? Toda a minha vida, sempre tive quem guiasse para mim. Primeiro, carroas de feno, depois carruagens, txis, limusines...
Ento, trs semanas antes de vir para c, logo depois que recebi sua carta relatando o acidente com sua me, tomei aulas de direo aos setenta e quatro anos de 
idade... e agora voc est vendo como aprendi bem.
    Finalmente, aps escaparmos por milagre de quatro desastres, chegamos  nossa alameda circular de acesso  casa. E l, no jardim da frente, estava Bart,  espreita 
de algum animal invisvel, empunhando o canivete como um punhal, pronto para golpear e matar.
    Madame M. ignorou-o ao estacionar o carro. Pulei depressa e corri para abrir a porta do lado dela, mas minha av j estava fora do carro antes que eu l chegasse. 
E, logo atrs dela, Bart feria o ar com o punhal.
    - Morte ao inimigo! Morte a todas as velhas que usam trapos negros e surrados! Morte, morte, morte!
    Calmamente, como se no visse nem escutasse, Madame M. caminhou em direo  casa. Empurrei Bart para um lado e murmurei:
    - Se quer passar o dia inteiro trancado no quarto, continue a comportar-se assim.
    - Negro... detesto negro... preciso eliminar todos os demnios vestidos de negro! 
    Mas, depois de fechar cuidadosamente o canivete, guardou-o no bolso - aps acariciar o cabo de madreprola que ele tanto admirava. E no era para menos, pois 
eu gastara sete dlares para lhe dar aquele canivete de presente.
    Sem esperar que viessem atender seu impaciente toque de campainha, Madame M. entrou na casa e jogou a bolsa no pequeno sof do vestbulo. O martelar da mquina 
de escrever chegava-nos levemente aos ouvidos.
#223
    - Escrevendo - comentou Madame M. - Aposto que ela se dedica a isso com tanta paixo quanto se entregava  dana...
    No respondi, mas tive vontade de correr  frente dela e prevenir Mame. Vov no permitiu. Mame ergueu os olhos, muito
espantada por deparar-se repentinamente com Madame Marisha em seu quarto.
    - Catherine! Por que no me contou que o Dr. Paul Sheffield morreu?
    O rosto de Mame ficou muito vermelho e, depois, perdeu a cor. Ela baixou a cabea e levantou as mos para cobrir o rosto. Recuperando quase imediatamente a 
compostura, tornou a erguer a cabea, lanou um olhar raivoso a Madame Marisha e, ento, comeou a arrumar os papis numa pilha.
    -  um prazer rev-la, Madame Marisha. Seria melhor se a senhora tivesse telefonado antes. Entretanto, tenho certeza de que Emma pode arranjar uma nova distribuio 
das costeletas de carneiro e reservar duas para a senhora...
    - No fuja de minha pergunta com essa conversa fiada sobre comida. Pensa mesmo que eu poluiria meu corpo com suas estpidas
costeletas de carneiro? S como comida natural, que  saudvel, e mais nada.
    - Jory - disse Mame -, caso Emma tenha visto Madame chegar, corra at l e diga-lhe para no botar outro lugar  mesa.
    - Para que toda esta tagarelice idiota a respeito de costeletas de carneiro? Vim aqui para lhe fazer uma pergunta importante e
voc fica falando de comida! Catherine,  responda minha pergunta: Paul Sheffield morreu?
    Mame olhou para mim e fez-me um gesto para desaparecer dali, mas no pude. Finquei p, desafiando-a. Ela empalideceu ainda mais
e pareceu mais abismada que eu, o seu querido, me recusasse a obedecer. Ento, como se resignada, murmurou de modo indistinto:
    - A senhora nunca me perguntou a respeito de mim mesma ou de meu marido, de modo que julguei que s se interessasse por
Jory.
    - Catherine!
    - Jory, faa o favor de sair imediatamente deste quarto. Ou precisarei levantar-me e empurr-lo pela porta?
    Recuei e sa uma frao de segundo antes que ela chegasse  porta e a fechasse com estrondo.
    Eu mal conseguia escutar o que era dito no outro lado da porta, mas colei o ouvido a ela e prestei ateno.
    - Madame, a senhora nem pode imaginar o quanto preciso de algum com quem eu possa desabafar. Todavia, sempre se mostrou to fria, to distante, que eu julguei 
que no conseguiria compreender-me.
#224
    Silncio. Algum fungou.
    - Sim, Paul morreu, anos atrs. Tento no pensar nele como morto, mas como ainda vivo, embora invisvel. Trouxemos para c
suas esttuas de mrmore e seus bancos de jardim, tentando fazer com que nosso jardim se tornasse igual ao dele. Fracassamos. No
obstante, quando estou no jardim  hora do crepsculo, parece que consigo senti-lo junto a mim, ainda me amando. Fomos casados por to pouco tempo. E ele nunca teve 
realmente boa sade... de modo que, quando morreu, restou-me uma sensao de no me ter realizado, continuando a querer dar-lhe os anos de vida matrimonial feliz 
que eu lhe devia. De algum modo, desejava compens-lo por Julia, sua primeira mulher.
    - Catherine - disse Madame M. baixinho 
-, quem  esse homem que seus filhos chamam de Papai?
    - Madame, o que eu fao no  da sua conta - pude sentir a raiva crescendo na voz de minha me. - No vivemos no mesmo tipo de mundo em que a senhora foi criada. 
A senhora no viveu minha vida nem esteve dentro de mim. No conheceu a espcie de privaes que sofri quando era jovem e mais necessitava de amor. No fique a 
sentada, condenando-me com seus malvados olhos negros, pois  incapaz de compreender.
    - Oh, Catherine, quo pouco crdito voc d  minha inteligncia! Julga-me imbecil, cega e insensvel? Sei muito bem quem 
o homem que meu neto chama de Papai. E no  de espantar que voc jamais tenha conseguido amar Julian o suficiente. Eu costumava pensar que era Paul, mas agora vejo 
que no era Paul quem voc realmente amava; tambm no foi aquele tal Bartholomew
Winslow... era Christopher, seu irmo. Pouco me importa o que faam voc e seu irmo. Se voc dorme na cama dele e julga que ali
encontra a felicidade que lhe foi roubada h tanto tempo, sou capaz de racionalizar e dizer que todos os dias acontecem coisas muito piores que um irmo e uma irm 
se comportarem como marido e mulher. Mas preciso proteger meu neto. Ele est em primeiro lugar. Voc no tem o direito de fazer seus filhos pagarem por seu
relacionamento ilegal.
    Oh! ... O que dizia ela?
    Mame, faa alguma coisa, diga alguma coisa, faa que eu me sinta bem outra vez! Faa que eu volte a me sentir seguro e real... faa sumir tudo isto - esta conversa 
de um irmo que voc jamais mencionou.
    Agachei-me ainda mais, escondendo o rosto nas mos, no querendo escutar, mas no me atrevendo a sair dali.
    A voz de Mame soou forada e muito rouca, como se ela tivesse dificuldade para conter as lgrimas:
#225
    - No sei como a senhora descobriu... Por favor, tente compreender...
    - Como eu disse antes, pouco me importa... e creio que compreendo. Voc no pde amar meu filho, assim como no pde amar qualquer outro homem, mais do que ama 
seu irmo. Isso me causa amargura. Choro por dentro por causa de Julian, que a considerava um anjo de perfeio, a sua Catherine, a sua Clara, a sua bela adormecida 
que ele jamais conseguiu despertar. Eis o que voc era para ele, Catherine: a personificao de todas as heronas do bal, virgem e pura, doce e casta - e, no final, 
voc no  melhor que o
resto de ns. 
    - Por favor! - exclamou Mame. - Tentei fugir de Chris. Tentei amar mais Julian. Tentei, de verdade.
    - No, voc no tentou. Se tivesse tentado, teria conseguido.
    - A senhora no pode saber! - veio o brado desesperado de mame.
    - Catherine, voc e eu trilhamos a mesma estrada durante muitos anos. E voc deixou cair pelo caminho pequenos pedaos de
informao. Alm disso, existe Jory, que faz o possvel para proteg-la...
    - Ele no sabe! Por favor, diga que ele no sabe!
    - Ele no sabe - acalmou-a Madame M. num tom suave - para ela. - Mas ele fala e revela mais do que sabe. Os jovens so
assim mesmo: julgam que os velhos so senis e incapazes de somar dois com dois. Pensam que os velhos podem chegar aos setenta anos
e ainda no saberem mais que eles aos quatorze. Acham que possuem o monoplio da experincia, porque no nos vem fazer muito, enquanto cada minuto de suas vidas 
est tomado, esquecendo-se de que tambm j fomos jovens. No sabem que transformamos todos os nossos espelhos em janelas... e que eles ainda continuam diante de 
espelhos, nos quais s vem a si mesmos.
    - Madame, por favor, no fale to alto. Bart tem mania de esconder-se para escutar .
    Vov baixou a voz estridente, dificultando-me ouvir.
    - Muito bem, vou falar o que tenho a dizer e irei embora. No creio que sua casa seja o lugar adequado para o crescimento de um rapaz que possua a sensibilidade 
de Jory. A atmosfera aqui  tensa, como se uma bomba pudesse explodir a qualquer momento. Obviamente, seu filho mais moo est necessitado de assistncia psicolgica... 
ora, tentou at apunhalar-me quando me aproximei da casa. 
    - Bart est sempre brincando... - disse Mame num tom dbil.
    - Hah! Belas brincadeiras, ele tem! Sua faca quase me cortou o casaco. E este casaco  quase novo. Ser o meu ltimo casaco, o
que usarei at morrer.
#226
    - Por favor, Madame, no me encontro em estado de falar sobre morte.
    - Por acaso eu lhe pedi piedade? Se interpretou dessa maneira, inverterei a posio: este  o casaco que usarei enquanto viver. E, antes de morrer, tenho que 
ver Jory alcanar a fama que deveria ser de Julian.
    - Estou fazendo o possvel - disse Mame em tom cansado, parecendo terrivelmente fatigada.
    - E o que pode voc fazer? Com todos os diabos! Vive aqui com seu irmo, arriscando-se  humilhao pblica, e sua bolha de sabo estourar mais cedo ou mais 
tarde. Jory sofrer. Os colegas de escola o escarnecero. Os reprteres perseguiro voc; ele, todos os que vivem nesta casa. A lei lhe tomar os filhos.
    - Sente-se, por favor. Pare de andar de um lado para outro. 
    - Maldita seja, Catherine, por no me escutar. H muito tempo, adivinhei que voc sucumbiria  adorao de seu irmo. At mesmo quando se casou com o seu Dr. 
Paul, julguei que voc e seu irmo... bem, no importa o que julguei, mas voc se casou com um homem praticamente moribundo. Por conscincia pesada?
    - No sei. Costumava pensar que foi porque o amava e lhe devia muito. Tive mil e um motivos para casar-me com ele, o mais
importante dos quais era ele me querer. Para mim, isso foi suficiente.
    - Muito bem, voc teve motivos suficientes. Mas feriu meu filho. No lhe deu o que ele necessitava e jamais entendi como voc pde resistir. Ele costumava chorar, 
alegando que voc no o amava bastante. Sempre afirmou que existia um homem misterioso a quem voc amava mais do que a ele - e, na poca, eu no acreditei.
Tola, no  mesmo? Ambos tolos: ele e eu. Mas ramos todos tolos, em se tratando de voc, Catherine. Era to bela, to jovem,
aparentemente to inocente. J nasceu velha e sabida! Como conhecia to bem, com to pouca idade, todos os segredos para fazer
um homem am-la a ponto de perder a razo?
    - s vezes, o amor no  suficiente - disse minha me, com uma voz inexpressiva.
    Eu estava quase paralisado pelas terrveis informaes que escutava. Momento a momento, pulsao a pulsao, eu ia perdendo a me que amava. E perdia tambm 
o nico pai que possura por tempo suficiente para amar.
    - Como descobriu a respeito de Chris e eu? - indagou mame, fazendo-me estremecer ainda mais.
    - Que diferena faz? - gritou Madame M.
    Eu depositava nela minhas esperanas, rezando para que ela, tambm, no me trasse.
    - Como eu j disse, Catherine, no sou imbecil. Fiz algumas perguntas. Escutei as respostas de Jory. E somei os fatos. H muitos anos no vejo Paul - mas Chris 
sempre #227
estava com voc. Pelo que Jory deixou escapar inocentemente, Bart est  beira da insanidade mental. Jory nunca fala intencionalmente ou sem cautela, porque ama
voc. Acha que posso ficar quieta, apenas observando, e permitir que voc e seu irmo destruam tambm a vida de meu neto? Recuso-me a deixar que arrunem sua carreira 
e sua sade mental. Entregue-me Jory, deixe-me lev-lo comigo de volta ao Leste, onde estar seguro e distante da bomba que explodir para estampar suas vidas na 
primeira pgina de todos os jornais do pas!
    Senti-me doente. Eu entreabrira a porta, o bastante para ver que minha me estava mais plida que a morte. Comeara a tremer como eu tremia - mas no tinha lgrimas 
nos olhos como eu tinha nos meus. Mame, como pode viver com seu irmo, quando todo mundo
sabe que isso  errado? Como pde iludir Bart e eu? Como pde Chris fazer isso conosco? E, durante todo esse tempo, eu o julgava to perfeito, to certo para voc 
e para ns. Pecado, pecado. No era de espantar que Bart perambulasse entoando cnticos a respeito de pecado e dos eternos tormentos do inferno. De algum modo, Bart
descobrira tudo antes de mim.
    Deixei-me cair de joelhos e encostei a cabea na porta, fechando os olhos e tentando respirar fundo, para fazer o estmago parar de roncar e conter as ameaas 
de vmito.
    Mame tornou a falar. Era evidente que se esforava muito para manter-se calma.
    - Perder Bart para uma instituio, embora por poucos meses, est quase me levando  loucura. Todavia, perder Jory, tambm, me deixaria louca. Amo meus filhos, 
Madame. Ambos. Embora a senhora jamais me tenha dado crdito de ter sido piedosa para com Julian, fiz o possvel por ele. No era um homem fcil de se conviver. 
A senhora e seu marido fizeram de Julian o que ele era, no eu. Eu no o obriguei a danar quando ele teria preferido jogar bola. Eu no o castiguei, forando-o 
a praticar bal todos os fins-de-semana, de modo que no lhe sobrava tempo para divertir-se. A senhora e Georges fizeram isso. Mas fui eu quem pagou o preo. Julian 
queria devorar-me viva, proibindo-me de ter amigos  exceo dele prprio. Tinha cimes de todos os homens que me olhavam, de qualquer homem para o qual eu olhasse. 
Tem idia do que seja viver com um
homem que suspeita de que o tramos sempre que ele vira as costas? E no era eu quem traa - era ele. Fui fiel a Julian. Nunca permiti que outro homem me tocasse, 
mas ele no poderia dizer o mesmo. Desejava toda garota bonita que avistava. Queria us-las, descart-las e depois voltar para mim, a fim de que eu o abraasse e 
lhe dissesse o quanto ele era maravilhoso... e eu no conseguia dizer que ele era maravilhoso quando o seu corpo inteiro fedia com o
perfume de outra mulher. Ento, ele me espancava... a senhora sabia disso? Tinha #228
que provar algo a si mesmo. Na poca, eu no sabia o que ele tinha que provar, mas agora sei: ele precisava encontrar o amor que a senhora lhe negara.
    Senti-me ainda mais fraco e doente quando vi minha av empalidecer. Agora, eu perdia tambm meu verdadeiro pai, que eu adorava como a um santo.
    - Voc exprime muito bem seus pontos de vista, Catherine, e eles me ferem. Agora, porm, permita-me exprimir os meus. Admito
que Georges e eu cometemos erros com Julian e que meu filho e voc pagaram o preo disso. Pretende punir Jory da mesma maneira?
Deixe-me lev-lo de volta a Greenglenna. Uma vez l, providenciarei um teste para ele em Nova Iorque. Tenho ligaes importantes. Consegui projetar dois bailarinos 
brilhantes, que se chamavam Julian e Catherine. No fui totalmente m. Nem Georges. Talvez tenhamos permitido que nossos sonhos nos cegassem em relao ao que os 
outros desejavam; talvez tenhamos exagerado na tentativa de viver atravs
de nosso filho. Era isso que desejvamos, Catherine: viver atravs de Julian. Agora, Julian est morto e deixou um filho, apenas um - o seu filho, Catherine. Sem 
Jory, no tenho motivo para permanecer viva. Com Jory, tenho todos os motivos para continuar. Pelo
menos uma vez em sua vida, d, no tire!
    NO, NO! Eu no queria ir com Madame M.
     Vi Mame baixar a cabea at que seus cabelos caram em duas macias ondas douradas. Sua mo trmula se ergueu para tocar a testa, como se outra daquelas terrveis 
dores de cabea a atacassem.
Pecadora ou no, eu no queria deix-la. Esta era a minha casa, meu lar, meu mundo; ela ainda era minha me e Chris ainda era meu padrasto; alm disso, havia Bart, 
Cindy e Emma, tambm. ramos uma famlia - certo ou errado, ramos uma famlia.
    Afinal, Mame pareceu encontrar uma soluo. A esperana me brotou no corao.
    - Madame, entrego-me  sua clemncia e espero em Deus que a senhora tenha alguma. Entendo que a senhora bem poderia ter razo,
mas no posso abrir mo de meu filho mais velho. Jory  a nica coisa boa que restou de meu casamento com Julian. Se a senhora
o levar, levar parte de mim, uma parte muito importante de mim, da qual no poderei abrir mo sem morrer. Jory me ama. E ama Chris tanto quanto seria capaz de amar 
seu prprio pai. Mesmo que tenha que arriscar sua carreira, no posso arriscar perder o seu amor, permitindo que ele se v com a senhora... portanto, no me pea 
o impossvel, Madame. No posso deixar Jory partir.
    Madame M. fitou Mame, dura e prolongadamente, enquanto meu corao pulsava com tanto rudo que tive a impresso de que elas poderiam escut-lo. Ento, minha 
av se levantou, pronta para sair.
#229
    - Hah! - fungou ela. - Agora, vou-lhe falar com franqueza, Catherine, e talvez pela primeira vez dir-lhe-ei toda a verdade. Desde o primeiro dia em que a vi, 
invejei-lhe a juventude, a beleza e, sobretudo,
o genial talento para a dana. Sei que voc transmitiu a Jory a sua extraordinria percia e capacidade. Foi uma soberba professora. Vejo em Jory muito de voc. 
Tambm vejo nele muito de seu irmo Chris. A pacincia, o alegre otimismo, a energia e dedicao de Jory so oriundas da sua famlia, no de Julian. Mas ele tambm
possui algo de Julian. Jory se parece fisicamente com meu filho. Tem o fogo, o ardor de meu filho e tambm seus desejos carnais em relao s mulheres. Contudo, 
se eu tiver que magoar voc para salvar Jory,  o que farei. No pouparei seu irmo, nem seu filho mais moo, tambm. Se voc no me entregar Jory, farei tudo que 
estiver ao meu
alcance para destruir seu lar. A lei me dar a custdia de Jory e voc nada poder fazer para deter-me depois que eu apresentar os fatos s autoridades competentes. 
E se voc me obrigar a proceder dessa maneira, que no  a que eu preferiria, levarei Jory para o Leste e ele nunca mais voltar a v-la.
    Mame se ps de p, mais alta que minha av. Eu nunca a vira parecer to alta, orgulhosa e forte. 
    - Vamos, faa o que quiser. No cederei um milmetro, nem permitirei que roube de mim o que me pertence. Jamais abrirei mo
de um filho meu. Jory  meu. Dei-o  luz aps dezoito horas de trabalho de parto. Se tiver que enfrentar o mundo inteiro e sua
condenao, manter-me-ei de cabea erguida e me agarrarei a meus filhos. No existe fora neste mundo - nem a senhora, nem a lei, nem
coisa nenhuma - que possa obrigar-me a abrir mo de meus filhos. 
    Virando-se para sair, Madame M. correu o olhar pelo quarto, demorando-se mais a contemplar a grossa pilha de papis sobre a
mesinha de trabalho de Mame.
    - Voc ver as coisas a meu modo - declarou, ronronando maciamente como uma gata. - Tenho pena de voc, Catherine, e de
seu irmo. Tambm tenho pena de Bart, por mais selvagem que seja aquele monstrinho. Tenho pena de todos os que vivem nesta casa,
pois todos sero feridos. Mas no permitirei que minha compaixo por voc, nem minha compreenso do que fez de voc aquilo que ,
detenha minha mo. Jory estar seguro comigo, usando o meu nome e no o seu.
    - SAIA DAQUI! - gritou Mame, completamente descontrolada, pegando uma jarra de flores e atirando-a na cabea de Madame M.! - VOC ESTRAGOU A VIDA DE SEU FILHO 
E AGORA QUER ARRUINAR A DE JORY! QUER FAZ-LO ACREDITAR QUE S EXISTE VIDA NO bal, NA DANA, EM DANAR... MAS EU CONTINUO VIVA! FUI BAILARINA, MAS CONTINUO
A SOBREVIVER!
#230
    Madame M. tornou a correr os olhos pelo quarto, como se ela, tambm, desejasse jogar algum objeto contra minha me. Ento, abaixou-se vagarosamente para pegar 
a jarra quebrada a seus ps.
    - Fui eu quem lhe deu isto. Que ironia voc atir-la contra mim.
    Algo duro e quebradio deu a impresso de partir-se quando ela olhou com ar suave para Mame e disse com rara humildade:
    - Quando Julian era menino, tentei fazer por ele o que era melhor, assim como voc tenta fazer o que  melhor para os seus...
e se meu julgamento foi errneo, tambm foi feito com a melhor das intenes.
    - Tudo no  feito assim? - replicou Mame com amargura. - As intenes so sempre to certas, to razoveis... e, no final, at mesmo as desculpas flutuam nas 
ondas de indignao, como a famosa palha que todos tentam agarrar para no se afogarem.
Parece que passei a vida inteira agarrando-me a pedaos de palha que no existem. Todas as noites, antes de deitar-me com meu irmo, digo a mim mesma que esse  
o motivo pelo qual nasci, e para cada erro que cometi consolei-me dizendo que equilibrei a balana com decises corretas. Finalmente, dei a meu irmo a nica pessoa 
que ele  capaz de amar, a esposa que ele necessitava to desesperadamente. Eu o fiz feliz - e se isso  errado aos olhos da senhora, aos olhos do mundo inteiro, 
pouco me importa. Pouco me importa o que o mundo pensa!
    Minha av permaneceu de p no mesmo lugar, com emoes conflitantes torturando-lhe o rosto envelhecido. Pude perceber que
ela, tambm, estava sofrendo. Observei-lhe a mo magra e cheia de veias grossas pronta para acariciar os cabelos de Mame. Contudo,
ela recuou, mantendo o rosto inexpressivo e a Voz controlada:
    - Repito, Catherine, que sinto pena de voc. Tenho pena de todos vocs, mas, acima de tudo, tenho pena de Jory, pois ele  quem
tem mais a perder.
    Recuei depressa e me escondi quando ela saiu violentamente do quarto de Mame e percorreu o corredor a passadas enrgicas, passando por Bart, que a ameaou com 
o canivete aberto.
    - Bruxa, velha bruxa negra! - rosnou ele, franzindo o lbio superior numa careta medonha. - Espero que nunca mais volte aqui, nunca, nunca! 
    Eu me sentia bastante infeliz para desejar encontrar um buraco no qual me  enfiar para morrer. Minha me vivia com o irmo. A mulher que eu amara e respeitara 
durante toda a minha vida era pior do que qualquer me de quem eu j ouvira falar. Nenhum de meus amigos me acreditaria; todavia, quando se convencessem de que era
verdade, eu seria to envergonhado e ridicularizado que nunca mais me atreveria a encar-los. Ento, levei um choque. Papai era meu tio.
#231
No s de Bart, mas meu tambm. Oh, Deus, que faria eu, agora? Para onde fugiria ? No se tratava de um relacionamento platnico
entre irmos, de um casamento simulado para salvar aparncias, mas de incesto. Eles eram amantes. Eu sabia! Eu vira!
    De repente, tudo se tornou por demais srdido, sujo, chocante. Por que tinham permitido que aquele amor se iniciasse? Por que no tinham evitado?
    Tive mpetos de levantar-me e ir perguntar, mas no suportava a idia de encarar Mame - nem Papai, quando este voltasse para casa. No meu quarto, atirei-me 
na cama, a porta trancada fazendo-me sentir um pouco mais seguro. Quando me chamaram para jantar, gritei que no tinha fome. Eu, que estava sempre faminto. Mame 
veio  porta trancada e implorou:
    - Jory, voc escutou alguma coisa do que sua av me disse?
    - No, Mame - respondi, rgido. - Acho que estou comeando a ficar gripado. S isso. Amanh estarei timo. timo.
    Eu precisava dar alguma desculpa para minha rouquido.
    Em algum lugar de todas as lgrimas que derramei, perdi o menino que eu fora naquela manh. Agora, precisava tornar-me adulto.
Sentia-me velho, frio, como se nada mais me importasse. Pela primeira vez, compreendi por que Bart estava to confuso e se comportava de modo esquisito - ele tambm 
devia saber.

    Esgueirei-me para observar Mame escrevendo em seu dirio com fina capa de couro azul. Na primeira oportunidade, entrei no quarto s escondidas, a fim de ler 
o que ela escrevera, por mais desonesto que fosse tal procedimento. Eu estava ficando exatamente como Bart. Mas precisava saber.

     "Madame Marisha veio visitar-me hoje, trazendo consigo todos os pesadelos que me perturbam constantemente a vida, durante o dia. Tenho outro tipo de pesadelos 
para as horas de sono. Quando ela se foi, senti o pnico pulsar to alto que meu corao parecia um tambor selvagem batendo o ritmo da ltima batalha. Desejei fugir 
e me esconder, como costumvamos fazer quando vivamos trancados em Foxworth Hall. Quando Chris chegou em casa, corri e me agarrei a ele, desesperada, incapaz de 
lhe dizer qualquer coisa. Ele no notou meu desespero. Estava cansado depois de um dia longo e exaustivo."
     "Ento, beijou-me e saiu para a ronda noturna. Fiquei sozinha em meu quarto, ambos os meus filhos silenciosos e trancados nos seus. J sabero que nosso mundo 
terminar em breve?"
#232
     "Deveria eu permitir que Madame M. levasse Jory e o mantivesse a salvo do escndalo e da humilhao? Fui egosta ao apegar-me a ele? E Bart? E quanto a Bart?
E o que ser de Cindy se nosso segredo for revelado?"
     "De repente, senti-me de volta em Charlottesville, com Chris e Carrie, novamente a caminho de Sarasota. Minha memria parecia um filme, quando aquela enorme 
mulher negra lutou para embarcar no lento nibus com todas as suas sacolas e trouxas. Henrietta Beech. Querida, amada Henny. Faz tanto tempo que eu no me lembrava 
dela. S de recordar seu largo sorriso animado, seus olhos bondosos, suas mos carinhosas, sinto-me invadida por uma certa paz, como se ela me estivesse levando 
outra vez para Paul, que nos salvaria todos."
     "Mas quem nos salvar agora?"

     Eu tinha lgrimas nos olhos ao guardar novamente o dirio. Fui ao quarto de Bart e encontrei meu irmo sentado no cho, no escuro encurvado como um velho.
    - V para a cama, Bart - ordenei.
    Mas ele nem se moveu, parecendo nem me escutar.

AS PORTAS DO INFERNO

    Eu sabia, simplesmente tinha certeza. Jory precisava espionar para saber que diabrura eu estava aprontando. Fingi no notar. To logo a luz do quarto dele se 
apagou, peguei as ltimas pginas da estria de Mame. Percebi que era o final, pois ela escrevera suas iniciais e endereo junto  margem inferior da folha.
    Eu no sabia por que motivo estava chorando. Malcolm no teria pena dela, nem de Papai. Agora, eu precisava tornar-me duro, malvado, fazendo de conta que nada 
poderia ferir-me tanto quanto magoava os outros.
    Amanheceu e fui para a cozinha, onde Mame ajudava Emma nos pequenos servios domsticos, preparando massa de biscoitos
conversando a respeito de bolos. Aquela mulher pensava que o pecado podia permanecer em segredo para sempre. Impune para sempre.
Devia ser mais esperta.
    Sentei-me no meu canto, encolhido no cho, os joelhos puxados para baixo do queixo, enlaando as canelas com os braos. Braos esquelticos. Eu emagrecia dia 
a dia. Olhei para Mame, para Papai esperando
#233
penetrar-lhes as mentes e descobrir o que realmente pensavam de mim, de si mesmos, do que estavam fazendo. Fechei os olhos. Atravs das plpebras, vi Mame danar 
como costumava fazer antes de machucar o joelho. No vero passado, no fazia muito tempo,
eu voltara do hospital e tinha dificuldade para dormir. Aos tropees, fui  cozinha para assaltar a geladeira enquanto ningum podia ver. Queria que todos se preocupassem, 
pensando que eu ia morrer de fome. Entretanto, antes que eu pudesse devorar todas as coxas de galinha, Mame entrara, danando, na sala de recreao, usando um
saiote de bailarina, com quase nada acima da cintura. Papai vinha atrs dela. Nem mesmo me viu. No conseguia ver nada seno ela.
     Mame estava muito bonita naqueles trajes, rodopiando pela sala, sempre sorrindo e flertando com o homem que a observava das sombras. Provocava-o, puxando-lhe 
a gravata, empurrando-o para o centro da sala, obrigando-o a girar e tentando faz-lo danar aqueles passos de bal. Mas ele a tomou nos braos e colou os lbios 
nos
dela. Ouvi o barulho, mido e meloso. Ento, ela o enlaou pelo pescoo. Arregalei os olhos ao v-lo desabotoar aqueles ganchinhos
escuros que prendiam o saiote no lugar! O saiote caiu no cho, aos ps de Mame, que ficou apenas com a malha branca - que ele
logo retirou. Nua. Ele a deixou nua. Em seguida, ergueu-a nos braos e os lbios de ambos ainda colados, carregou-a para o quarto. E, durante todo aquele tempo, 
eram irmos!
    Oh, no era de espantar que John Amos afirmasse que precisavam ser punidos. No era de espantar. Marafona! Puta! Pecadores
com o meu prprio sangue! No conseguiriam escapar ao castigo. Tinham que queimar, queimar - queimar como meu pai, meu verdadeiro pai, chamado Bartholomew Winslow.
    Li toda a estria dela. Sei como certas mes podem ser perversas e cruis, escondendo os quatro filhos, obrigando-os a permanecerem num nico quarto trancado, 
forando-os a brincarem num sto quente e miservel, que se transformava em geladeira durante o inverno. Trancados durante todos aqueles anos, surrados, quase mortos
de fome - e piche derretido nos lindos cabelos dourados de mame! Eu odiava Malcolm, que fizera tantas coisas ruins a seus prprios netos. Odiava aquela velha da 
manso vizinha, que colocara arsnico nas rosquinhas dos prprios filhos. Que tipo de louca era ela? Ser que tambm colocava arsnico no meu sorvete, no meu bolo, 
nos meus docinhos? Estremeci, sentindo um enjo no estmago. Por que a polcia no a mantivera trancafiada at que a arrastassem
para a cadeira eltrica, a fim de queim-la - queim-la?
    No, sussurrou-me na cabea uma voz ladina, eles no deixam mulheres morrerem na cadeira eltrica, quando advogados espertos
alegam que assassinos so insanos. Trancam-nas em belos palcios ocultos entre colinas verdejantes. Aquela mulher maluca era a mesma que Papai precisava visitar 
todos os #234
veres. A me de Mame, tambm.
    Oh, os pecados de Mame e Papai formavam uma pilha que atingia o cu. Deus certamente os castigaria agora - se Deus no o fizesse, Malcolm providenciaria para 
que eu os punisse.
    Naquela noite, fui para a cama e tentei dormir. Mas continuei a pensar. Papai era, na realidade, irmo de Mame - o que fazia
dele meu tio, e tio de Jory, tambm. Oh, Mame, voc no  a santa ou o anjo que Jory a considera. Voc vive dizendo a ele que no
faa isto ou aquilo com Melodie; no obstante, passa o tempo todo indo para o quarto com seu irmo e trancando a porta. Dizendo-nos para nunca entrarmos naquele 
quarto sem bater antes, quando a porta estiver fechada. Vergonha, vergonha! Privacidade, sempre precisando de privacidade para fazer o que irmo e irm jamais deveriam 
pensar em fazer. Incesto!
     Pecadores, ambos - to maus quanto eu era s vezes. To pecadores quanto Jory desejava ser com Melodie e com outras garotas - fazendo todas as coisas vergonhosas 
que Eva fez com Ado depois de ter mordido a ma. Fazendo aquelas coisas horrveis que os meninos comentavam aos sussurros nos banheiros da escola. Eu no queria 
mais morar com eles. No queria mais amar Mame ou seu irmo.
    Jory tambm sabia. Eu tinha certeza de que Jory tambm sabia - ele ia ficar maluco, como Mame julgava que eu estava. Mas eu
estava, afinal, adquirindo senso, bom senso, como o de Malcolm. Os filhos de pais incestuosos mereciam sofrer como eu era obrigado a sofrer, como Jory tambm sofria. 
Cindy tambm tinha que sofrer, embora ainda fosse muito jovem e idiota para conhecer palavras importantes como "incesto".
     No obstante... no obstante, por que eu rezava a Deus que no deixasse raiar o dia de amanh? O que faria eu amanh? Por que eu queria morrer esta noite, salvando-me 
de cometer algo ainda pior que "incesto"?
    Outro caf da manh para tomar. Detestava comida com aquele gosto. Fitei a toalha, que logo estaria manchada com algo que eu derramaria acidentalmente. Jory 
parecia to perdido quanto eu me sentia.
    Os dias chegavam e passavam, mas ningum estava feliz. Papai parecia doente. Creio que sabia que ns conhecamos a verdade;
Mame tambm. Agora, nenhum dos dois conseguia enfrentar nossos olhares ou responder as perguntas de Jory. Eu jamais fazia perguntas. Um dia, escutei Mame batendo 
 porta trancada do quarto de
Jory.
    - Jory, deixe-me entrar, por favor. Sei que voc escutou quando Madame M. esteve aqui... deixe-me tentar explicar como foi.
Quando voc entender, no nos detestar.
#235
    Ele detestaria, sim. Eu lera aquele maldito livro. No era justo que a vida nos trapaceasse, no nos dando pais honrados.
    Dia de Ao de Graas. A velha, detestvel e feia Madame M. apareceu em nossa casa, quando nunca deveria ter o atrevimento de aceitar qualquer convite. E Mame 
no a deveria ter convidado. Tive
a impresso de que ela zombava ao observar Papai trinchar o peru. A velha no sorriu uma s vez. Depois, fitou Mame, cujos olhos
estavam vermelhos e inchados. Chorando; ela estivera chorando. Bem feito. De todo modo, eu no gostava de peru; nem se comparava a
galinha. Papai me perguntou que tipo de carne eu preferia, branca ou escura. Fiz uma carranca, no respondendo. Refleti que sua voz estava to rouca que ele deveria 
estar gripado; todavia, no tossia nem espirrava, e seus olhos no pareciam abatidos como os meus quando ficava gripado. Alm disso, Papai nunca ficava doente.
    S Emma estava feliz. E Cindy, a detestvel Cindy.
    - Vamos, vamos -disse Emma, com um largo sorriso de satisfao que de nada adiantava. - Hora de alegria! De agradecermos as muitas bnos recebidas, inclusive 
de termos uma nova filha, sentada  nossa mesa.
    Foi revoltante escutar aquilo.
    Calado, Papai tornou a pegar o garfo e a faca de trinchar. Sem sorrisos. At mesmo eu olhei fixamente para ele, por no me haver
servido a coxa do peru. Lancei um olhar a Mame, que parecia perturbada, embora eu pudesse perceber que ela tentava fingir que tudo estava bem. Comeu apenas uma 
ou duas garfadas; ento, levantou-se de repente e saiu correndo da sala de jantar. Escutei a porta de seu quarto se fechar com estrondo no corredor dos fundos. Papai 
pediu licena, alegando que precisava verificar como ela estava.
    - Oh, Senhor, o que h de errado com todo mundo? - quis saber Emma.
    A velha Madame Marisha permaneceu calada, tambm parecendo muito sombria. Ela era parte de tudo aquilo. Fitei-a raivosamente, odiando-a e odiando ainda mais 
minha prpria av - odiando todo mundo e Cindy tambm, refletindo que talvez Emma tambm tivesse contribudo com sua parcela de pecado ao manter a boca fechada e
permitir que toda aquela atividade pecaminosa se desenvolvesse diante do seu nariz comprido. Jory tentou rir e mostrar alegria, provocando Cindy para faz-la rir 
e comer. Mas eu sabia que, no fundo do corao, ele sangrava, exatamente como eu, que chorava por meu verdadeiro pai, morto naquele incndio. E talvez Jory chorasse 
por seu verdadeiro pai, que Mame no amara o suficiente porque, durante o tempo todo, tinha um irmo que amava demais.
    Eu preferia no ter sabido. Por que Mame tivera que escrever aquele livro? Eu nunca acreditaria realmente em qualquer coisa que John Amos me contasse a respeito 
dela, pois julgava-o um mentiroso, um
#236
fingido como eu. Agora, porm, eu sabia que ele era a nica pessoa no mundo que dizia a verdade, a nica que me respeitava o
bastante para contar-me a verdade.
    Soluando, levantei-me e sa da mesa, lanando um olhar de esguelha a Cindy, que, sentada no colo de Jory, ria ao brincar com
alguma coisa que ele lhe dera. Nunca ningum me dava nada. Ningum seno uma av bruxa e mentirosa, vestida de preto, que pouco me importava, dava-me presentes... 
Ningum.
    Ento, chegou um domingo em que Mame parecia no sentir-se to "desolada", talvez porque pensasse que Madame M. nos deixaria
em paz e at mesmo voltasse para o Leste, onde era seu lugar. A essa altura, eu sabia que Mame tambm era capaz de fingir, como eu, como ela e Papai fingiam aquele 
jogo de casamento.
    Escondi-me nas sombras, perto da porta aberta de seu quarto, e observei-a ajoelhar-se para rezar. Tentei adivinhar se Deus lhe
escutava as preces. Preces silenciosas.
     Voltando  sala de recreao, agachei-me em meu canto e comecei a riscar fsforos, um a um, segurando a chama to perto do rosto que podia sentir o calor do 
fogo. Como seria horrvel purificar-se e redimir-se pelo fogo. Como fora horrvel, quando a alma de meu verdadeiro pai subiu ao cu envolta em fumaa negra. Ento, 
eu era uma coisinha minscula, escondida no tero de minha me, uma coisinha chamada "embrio" e no Bart. E, pior de tudo, talvez eu fosse at mesmo uma menina.
    Gostaria que Papai no me falasse tanto a respeito de coisas que eu no queria compreender.
    Minha cabea comeou a doer, fazendo a mo que segurava o fsforo tremer tanto que ele caiu ao cho. Fui obrigado a apag-lo
depressa, antes que algum sentisse o cheiro do tapete chamuscado. Culpar-me-iam, como sempre me culpavam, nem mesmo sabendo que
Jory estava l fora, fazendo algo talvez to errado.
    O que John Amos sempre costumava dizer?
    - Sua me fez todas as coisas ruins acontecerem. Cada uma das coisas ruins foi culpa dela - as mulheres so assim, em especial as mulheres bonitas. Totalmente 
ruins, ardilosas, pecadoras, dispostas
a roubar dos homens.
    Sim, refleti, minha me, minha av, todas elas mulheres ardilosas, belas e pecadoras. Mentindo para mim, escondendo-me sua verdadeira identidade, mostrando-me 
seu retrato quando era jovem e bonita, seduzindo meu verdadeiro pai, que era moo demais para ela. Minha cabea doa ainda mais. E minha maldita me fizera o mesmo 
a ele, meu verdadeiro pai.
    Suspirei, pensando que era melhor prosseguir no meu papel de anjo do Senhor, enviado para agir em lugar de Malcolm. Afinal, eu era bisneto dele e j estava
#237
ficando quase to esperto quanto ele.
Representava cada vez mais o papel de Malcolm, fazendo meus ossos se sentirem cansados, os msculos doloridos e rgidos, experimentando a verdadeira sensao de 
ser velho como Malcolm quando atingiu o auge da sabedoria. Muito embora fosse doloroso obrigar o corao a pulsar to depressa. Sentindo repulsa por todas as mulheres 
-
todas elas. Tinha que dar um jeito nelas - em cada uma delas. Mame pensava que eu no sabia - acreditava que s Jory sabia... mas
eu tambm estivera l quando a velha Madame Marisha falara com voz suficientemente esganiada e alta para que todos escutassem. E lera o livro dela.
    A cabea doa mais. J no sabia quem eu era. Malcolm? Bart? Sim, agora eu era Malcolm, sofrendo do corao, pernas fracas,
cabelos ralos, mas to malditamente esperto e sbio.
    Filha estpida, ocultando os quatro filhos no ltimo andar e pensando que eu no descobriria, mais cedo ou mais tarde. Idiota. Ela deveria saber que John me 
contaria tudo. Devia saber muitas coisas que ignorava ou esquecia. Portanto, ela pensa que morrerei em breve e jamais subirei as escadas; mas por que precisaria 
subir, quando John o faria para mim? Espione, disse eu a John, espione minha filha, verifique o que ela faz quando no est perto de mim. Ela pensa que eu morrerei 
logo, John, e que mudarei meu testamento, voltando a inclu-la como herdeira. Mas eu rirei por ltimo - e quem ri por ltimo, ri melhor. Ela no herdar o dinheiro 
que tanto me esforcei para ganhar. Tilintar de moedas... escuto-o nos meus bolsos, como msica, a melhor msica que existe. Nunca serei velho demais
para pass-los todos para trs, nunca serei velho demais - e vencerei, como sempre costumo vencer no final.
    Arrastando os ps, encaminhei-me ao quarto deles, que cheirava aos atos de amor pecaminosos que l praticavam. Parei junto  porta fechada. Por dentro, sentia-me 
como um menininho que soluava em silncio, mas precisava ser Malcolm - a minha parte mais forte, mais velha, mais sbia. Onde estavam as montanhas cobertas de nvoa 
azulada? Esta casa no era uma grande manso aninhada no alto da encosta. Onde estavam os criados, o grandioso salo de bailes, as escadarias curvas?
    Confuso, to confuso. A dor de cabea piorava. O joelho comeava a latejar. As costas doam. O corao ia sofrer um ataque.
    - Endireite-se, Bart - disse o homem que, na realidade, era meu tio.
    Assustei-me. Sobressaltei-me e fiquei ainda mais confuso.
     - Voc  muito moo para andar por a encurvado como um velho, Bart. E no precisa mancar, porque seu joelho j est bom.
#238
    Deu-me uma palmadinha amistosa na cabea e abriu a porta do quarto. Pude ver que minha me o aguardava na cama, os olhos
muito abertos fitando o teto. Estaria ela chorando? Teria ele acabado de chegar daqueles detestveis hospitais cheios de germes?
    - Eu o odeio! - sussurrei ferozmente, tentando apunhal-lo com meu olhar penetrante e raivoso. - Acha que est seguro, no  mesmo? Acredita que um mdico no 
pode ser punido - mas Deus enviou o anjo negro de sua ira para providenciar que voc e sua irm sejam castigados pelos pecados que cometeram!
    Ele se imobilizou onde estava e fitou-me como se nunca me tivesse visto antes. Encarei-o desafiadoramente. Ele fechou a porta do quarto e me puxou pelo corredor, 
para que ela no conseguisse escutar.
    - Bart, voc vai visitar sua av todos os dias, no vai? - indagou, com o rosto parecendo perturbado, mas mantendo a voz baixa e bondosa. - Precisa aprender 
a no acreditar em tudo que lhe dizem. s vezes, as pessoas mentem.
    - Filhos do Demnio! - sibilei. - Sementes plantadas no solo errado produzem filhos do Demnio.
    Desta vez, ele me agarrou o brao com tanta fora que doeu. Sacudiu-me.
    - Nunca me permita voltar a ouvir isso! E no deve mencionar o assunto a sua me. Se o fizer, eu lhe espancarei o traseiro com
tanta fora que voc talvez nunca mais consiga sentar-se outra vez. E na prxima vez que se encontrar com aquela mulher da casa vizinha, lembre-a de que foi ela 
quem plantou todas as sementes e fez as flores comearem a crescer. Observe-lhe bem o rosto quando disser isso... e depois adivinhe quem  a pecadora. 
    Recuei, no querendo ouvir o que ele tinha a dizer. Fugi correndo, esbarrando numa mesinha do corredor e derrubando um
dispendioso abajur, que caiu ao cho.
    Em meu quarto, joguei-me na cama, tremendo da cabea aos ps, engasgado e sem flego. Sentia no peito aquela terrvel dor
latejante que fazia tiras de ao se apertarem em torno de mim, espremendo-me, ameaando cortar-me a respirao.
    Sentia-me como pasta de dentes sendo espremida do fundo da bisnaga. Ento, enrolei-me, rgido como uma bobina. Dolorosamente, rolei de costas e fitei o teto 
ao comear a chorar. Enormes lgrimas
me escorriam pelo rosto para molharem o travesseiro. Se eu molhasse a cama por qualquer outro motivo, seria espancado, pois dez anos era idade avanada demais para 
essas coisas de beb.
    Eu queria ter dez anos, ou oitenta? Quem me tornava to velho? Deus? Ou aquelas crianas escondidas no sto, brincando, rindo, fazendo o melhor do pior, que 
me compelia a provar que Malcolm era mais esperto e que elas jamais conseguiriam escapar, mesmo depois que ele fosse sepultado?

#239
 Mame foi embora e me abandonou. Deixou-me para sempre, desta vez.
     Mame foi embora e me abandonou,
     Agora sei como terminar o que comecei...

     Ca no sono, debatendo-me na cama. O menininho continuou a chorar, enquanto o velho o atirou na lata do lixo. Portanto, em breveeu seria jogado no depsito 
de lixo fora dos limites da cidade - servindo apenas para ser queimado.
     Pois os pecadores dos pecadores, os nascidos do incesto, tambm tinham que ser castigados - at mesmo eu, at mesmo eu que agonizava na lata de lixo.

A IRA DOS JUSTOS

    A chuva caa como tiros disparados por Deus. De p junto s janelas dos fundos, eu observava a chuva castigar os rostos das esttuas de mrmore, punindo-as por 
serem nuas e pecaminosas. Esperei que Jory voltasse para casa e me procurasse.
    Maus. ramos ambos maus, por vivermos com pais que no deviam ser pais.
    Por trs de mim, Mame chegou das compras, toda rosada e risonha, sacudindo a chuva dos cabelos, cumprimentando Emma como
se tudo estivesse bem. Jogou os pacotes numa cadeira, tirou o casaco e disse que tinha a impresso de estar ficando gripada.
    - Detesto quando chove, Emma. Ol, Bart... no o tinha visto a at agora. Como passou? Com saudades de mim?
    No respondi. Agora, no era obrigado a falar com ela. No precisava ser delicado, corts, nem mesmo limpo. Podia fazer o que
bem entendia. Eles faziam. Os mandamentos de Deus nada significavam para eles. Agora, tambm nada significavam para mim.
    - Bart, este Natal ser timo - disse Mame, no olhando para mim, mas para Cindy, que precisava de mais roupas novas. - Ser nosso primeiro Natal com Cindy. 
Os melhores tipos de famlia sempre tm crianas de ambos os sexos e, desse modo, os meninos
podem aprender a respeito das meninas, e vice-versa.
    Abraou Cindy com mais fora.
    - Cindy, voc no sabe o quanto  felizarda por ter dois irmos mais velhos maravilhosos, que absolutamente adoraro voc quando crescer e se transformar numa 
verdadeira beleza... se ainda no adoram.
    Rapaz, se ela ao menos soubesse! Mas, como afirmava Malcolm, mulheres bonitas eram imbecis. Olhei para a cozinha, na direo de
#240
Emma, que no era bonita e nunca poderia ter sido. Seria ela mais esperta? Conseguiria enxergar atravs de mim?
    Os olhos de Emma se ergueram e encontraram os meus. Estremeci. Sim, mulheres feias eram mais espertas. Sabiam que o mundo no era belo s porque desejavam ser 
belas durante algum tempo.
    - Bart, voc ainda no me disse o que deseja que Papai Noel lhe traga.
    Encarei-a com olhar duro. Ela sabia o que eu mais desejava.
    - Um pnei - respondi.
    Peguei o canivete que Jory me dera e comecei a aparar as unhas. Aquilo fez Mame olhar para mim. Depois, seus olhos procuraram os cabelos curtos de Cindy, que 
apenas comeava a parecer bonito novamente.
    - Bart, guarde essa faca. Deixa-me nervosa. Pode cortar-se acidentalmente.
    Ento, ela espirrou. Vrias vezes. Seus espirros sempre vm em grupos de trs. Tirou da bolsa papel absorvente para limpar o nariz e, depois, asso-lo. Contaminando 
o meu ar puro e limpo com seus imundos micrbios de gripe.
    Jory s chegou em casa muito depois do escurecer, encharcado de chuva e parecendo infeliz ao dirigir-se a seu quarto e bater a porta. Sorri ao ver Mame franzir 
a testa. Portanto, agora tambm o seu queridinho no gostava mais dela. Eis o resultado de proceder errado.
    A chuva continuava a cair. Mame olhou para mim, os olhos muito abertos, o rosto plido, o cabelo emaranhado em torno do
rosto - e compreendi que alguns homens a considerariam bonita. Arranquei um fio do meu cabelo, prendi uma ponta entre os dentes
e o estiquei com uma das mos. Meu canivete cortou-o facilmente em dois pedaos.
    - Boa faca - comentei. - Afiada como uma navalha de barbear. Boa para amputar pernas, braos, cortar cabelos...
    Sorri quando ela pareceu amedrontada. Poderoso. Senti-me poderoso. John Amos tinha razo: as mulheres no passavam de imitaes tmidas e amedrontadas dos homens.
    Chovia mais forte. O vento soprava a chuva em volta da casa, produzindo sons uivantes. Frio l fora, escuro e frio. Choveu a noite inteira e, na manh seguinte, 
continuava a chover. Emma se foi em seu carro s porque era quinta-feira e ela no podia deixar de visitar uma amiga.
    - Fique quieta, agora, madame - disse ela a Mame, na garagem. - S porque no tem febre, no quer dizer que no esteja doente. No me parece muito bem. Bart... 
comporte-se e no crie dificuldades para sua me.
    Sa da garagem e fui para a cozinha. De algum modo, meu brao, que na verdade era a asa de um avio, derrubou ao cho vrios
#241
pratos da mesa posta para o caf da manh. Vi minha tigela de cereais com passas: pequenos insetos num mar cremoso...
    - Bart, voc fez isso de propsito!
    - Sim, Mame, voc sempre diz que fao tudo de propsito. Desta vez, vou-lhe mostrar como tem razo.
    Peguei meu copo de leite, no qual eu mal tocara, e o joguei no rosto dela. Errei por centmetros, pois ela foi rpida em esquivar-se.
    - Bart, como se atreve a fazer isso? Quando seu pai voltar para casa, contarei a ele e voc ser severamente castigado!
    - Sim, eu j sabia o que ele faria: espancar-me-ia o traseiro, faria um sermo a respeito de obedincia e respeito  minha me. A surra no doeria. O sermo 
no seria escutado. Eu podia desligar Papai e ligar Malcolm.
    - Por ,que no me d uma surra, Mame? Vamos... deixe-me ver o que voc  capaz de fazer para me causar dor.
    Empunhei a faca em posio, pronto para golpear se ela ousasse aproximar-se de mim.
     Ser que ela ia desmaiar?
    - Bart, como pode comportar-se to mal quando sabe que no me sinto bem hoje? Prometeu a seu pai que se comportaria bem. O
que fiz para que voc me deteste tanto?
    Sorri - significativamente.
    - Onde arranjou essa faca? No  o canivete que Jory lhe deu. 
    - A velha da manso vizinha me deu de presente. Ela me d tudo que peo. Se eu lhe dissesse que quero um revlver, ou uma
espada, ela me daria, pois  exatamente como voc - fraca, to ansiosa por agradar-me, quando no existe no mundo mulher que
algum dia consiga me agradar.
    Agora, os olhos dela exprimiam verdadeiro terror. Aproximou-se de Cindy, que estava sentada na cadeira alta de criana, fazendo uma grossa porcaria com biscoitos 
e um copo de leite, molhando biscoitos no leite at amolec-los e depois tentando enfi-los depressa na boca, antes que a parte amolecida casse. E ningum ralhava 
com ela.
    - Bart, v imediatamente para seu quarto. Feche a porta; eu a trancarei por fora. No quero v-lo outra vez at seu pai voltar para casa. E j que no considera 
seu caf da manh suficientemente bom para tom-lo, tambm no merece almoar.
    - No pode dizer o que devo ou no fazer. Se ousar fazer isso, contarei ao mundo inteiro o que voc e seu "marido" esto fazendo: irmo e irm vivendo juntos. 
Vivendo em pecado. Fornicando!
     (Um belo termo de "Malcolm").
    Cambaleando, ela levou as mos ao rosto, tornou a limpar o nariz, enfiou os lenos de papel no bolso das calas e pegou Cindy
no colo.
#242
    - O que vai fazer, prostituta? Utilizar-se de Cindy como escudo? No adianta, no adianta, pegarei ambas... E a polcia no
pode encostar em mim. Tenho apenas dez anos, apenas dez anos -, apenas dez anos, apenas dez anos...
    E continuei repetindo aquilo, como um disco quebrado.
     Em meus ouvidos, a voz de John Amos dizia-me como proceder. Falei como num sonho:
    - Era uma vez, h muito tempo, um homem chamado Jack, o Estripador, que vivia em Londres e matava prostitutas. Eu tambm
mato marafonas e irms pecadoras que no sabem distinguir o certo do errado. Mame, vou-lhe mostrar como Deus deseja que voc seja castigada por cometer incesto.
    Trmula, parecendo frgil como um coelho branco, amedrontada demais para mover-se, ela segurou Cindy no colo enquanto eu me
aproximei... mais, cada vez mais, golpeando com a faca.
     - Bart, - disse ela, com voz mais forte, mais controlada - no sei quem andou lhe contando estrias, mas se voc fizer algum
mal a mim ou a Cindy, Deus se vingar de voc - mesmo que a polcia no possa prend-lo ou mand-lo para a cadeira eltrica.
    Ameaas. Ameaas vs. John Amos j me dissera que um menino da minha idade podia fazer o que bem entendesse e a polcia nada podia fazer para det-lo ou puni-lo.
    - O homem com quem voc vive  seu irmo? ? - berrei. - Diga uma mentira e vocs duas morrero!
    - Acalme-se, Bart. No sabe que em breve ser Natal? No quer ser internado num sanatrio e perder todos os presentes que
Papai Noel colocar na rvore, para voc.
    - Papai Noel no existe! - gritei, ainda mais furioso - ela pensava que eu acreditava naquelas baboseiras?
    - Voc me amava. Durante toda a sua vida, evitou confessar isso por meio de palavras, mas eu podia ler nos seus olhos. Bart, o que transformou voc? O que fiz 
para que me odeie tanto? Diga-me, a fim de que eu possa mudar e ser melhor para voc.
    Vejam s! Tentando conquistar-me momentos antes de sua morte... e redeno! Deus se apiedaria dela quando fosse esquartejada, humilhada de todas as maneiras 
possveis.
    Apertei as plpebras e ergui a lmina afiada com a navalha, que no fora presente de minha av - fora um presente dado por John Amos, pouco depois que a velha 
bruxa Marisha aparecera.
    - Sou o anjo negro do Senhor - declarei em minha trmula voz de velho. - Estou aqui para fazer justia, pois a humanidade ainda no tomou conhecimento de seus 
pecados.
    Mame movimentou rapidamente Cindy e virou o corpo, de modo que a garotinha no se machucasse quando eu golpeasse. Ento,
enquanto eu a observava, sua perna direita se ergueu violentamente e acertou um pontap #243
doloroso em meu pulso. A faca voou pelos
ares. Corri para apanh-la, mas Mame foi mais rpida e chutou a faca para baixo do balco. Atirei-me ao cho para tatear em busca da arma e, desta feita, Mame 
deve ter colocado Cindy no cho, pois senti-a repentinamente em cima de mim, torcendo-me o brao para trs. Segurando um punhado de meus cabelos na outra mo, obrigou-me
a ficar em p.
    - Agora, veremos quem manda aqui e quem ser castigado - declarou.
    Empurrou-me e arrastou-me, sem largar-me o brao ou os cabelos, forando-me a entrar no meu quarto e atirando-me no cho. Mais
depressa do que consegui levantar-me, ela bateu a porta e escutei a chave girar na fechadura. Estava trancado no quarto.
    - Deixe-me sair, sua puta! Deixe-me sair ou incendiarei a casa! E morreremos todos queimados, queimados, queimados!
     Escutei-lhe a respirao ruidosa enquanto ela ofegava, encostada  porta trancada. Tentei encontrar o estoque de fsforos e velas que escondera em meu quarto. 
Tinham sumido. Todos os meus fsforos, todas as minhas velas, at mesmo o isqueiro que eu roubara de John Amos.
    - Ladra! - rugi. - No existe nada nesta casa seno ladres, trapaceiros, mentirosos e putas! E todos vocs querem meu dinheiro!
Pensam que morrerei hoje, amanh, na semana que vem ou no outro ms - mas viverei o bastante para v-los todos mortos, Mame!
Viverei at o ltimo camundongo de sto morto! 
    Ela correu pelo corredor. Ouvi o rudo dos saltos de suas chinelas de cetim. Eu me amedrontara; agora, no sabia o que fazer.
John Amos no me mandara aguardar at a noite de Natal, de modo que tudo coincidisse com o outro incndio, em Foxworth Hall? Para
fazer da mesma forma, s que diferente?
    - Mame - murmurei, ajoelhado e chorando. - Eu no fiz aquelas maldades a srio. Mame, por favor, no v embora, no me abandone sozinho. No gosto de ficar 
sozinho. No gosto do que est acontecendo comigo, Mame. Por que precisava fingir que se casou com seu irmo? Por que no pde apenas viver com ele e conosco, sendo 
decente?
    Solucei, com medo do que era capaz de fazer quando me tornava mau.
    Ela no precisava trancar minha porta quando estava com Cindy, precisava? Nunca confiava em que eu procedesse corretamente.
Contudo, talvez fosse porque tambm no podia confiar em si mesma, como eu. Nascera bela e malvada; s atravs da morte Deus poderia redimir-lhe a alma pecadora. 
Suspirei e levantei-me para fazer o que
precisava, a fim de salv-la da confuso em que ela transformara sua vida - e as nossas.
#244
    - Mame! - berrei. - Destranque esta porta! Eu me matarei, se voc no me obedecer! Sei tudo a seu respeito; sei tudo que voc e seu irmo esto fazendo - o 
pessoal da casa vizinha me contou tudo a respeito da infncia de vocs. E o seu livro me contou o resto. Destranque a porta, se no me deseja ver morto!
    Ela veio destrancar a porta e me encarou, limpando o nariz e passando a mo nos cabelos.
    - Que quer dizer? Como o pessoal da casa vizinha lhe contou tudo ? Quem  o pessoal da casa vizinha?
    - Saber quando a encontrar - repliquei, cheio de confiana em mim mesmo.
    De repente, voltei a me sentir malvado. Ela precisava carregar aquela maldita Cindy no colo, o tempo todo. Fora a mim que ela
parira, no a Cindy.
    - L tambm existe um velho que sabe tudo a respeito de voc e do tempo que passou trancada no sto. V at l e converse com eles, Mame. Ento, no se sentir 
to feliz por ter uma filha.
    Ela ficou boquiaberta e uma terrvel expresso de pavor fez seus olhos azuis ficarem muito escuros.
    - Bart, por favor, no diga mentiras.
    - Nunca digo mentiras; no sou como voc - repliquei, observando-a com ateno.
    Ela comeou a tremer tanto que quase deixou Cindy cair do colo. Pena que no tenha deixado. Mas no faria mal se a molequinha casse no cho atapetado.
    - Agora, espere por mim aqui - disse ela, encaminhando-se para o armrio dos casacos. - Pelo menos uma vez na vida, faa o que digo. Sente-se e assista  televiso... 
coma todos os doces que
quiser... mas fique em casa e no tome chuva. 
    Ela ia  manso vizinha. Senti-me invadido pelo pnico, temendo que ela no voltasse. Temendo que no fosse salva; temendo que talvez, no final das contas, John 
Amos no estivesse fazendo uma
brincadeira. Mas nada pude dizer, pois Deus estava do lado de John Amos - teria que estar, pois ele no vivia em pecado.
    Usando seu mais quente casaco branco de inverno e botas brancas, Mame pegou Cindy, que tambm estava muito bem agasalhada.
    - Seja bonzinho, Bart, e lembre-se sempre de que eu o amo. Voltarei em menos de dez minutos, embora s Deus saiba o que
aquela mulher de preto pode saber a meu respeito.
    Lancei um rpido olhar envergonhado ao seu rosto plido e preocupado.
    Mame ia desmoronar quando encontrasse minha av, que era a sua prpria me. Mame terminaria enfiada numa camisa-de-fora e eu nunca mais voltaria a v-la.
     Por que eu no me senti alegre por Deus j a estar castigando, iniciando sua redeno? Minha cabea doa novamente. Meu estmago estava esquisito. As pernas 
no #245
queriam obedecer, mas, pesadas como chumbo, pareciam movidas por vontade prpria. Puxaram-me at o armrio dos casacos no momento em que Mame saiu e bateu a porta 
da frente.
    Minha alma chorava: Mame, no v embora e me abandone sozinho! No gosto de ficar sozinho. Ningum me amar, exceto voc,
Mame. Ningum. Por favor, no v at l - no permita que John Amos a veja.
    Ela no deveria ter dito coisa alguma. Deveria saber que voc no permaneceria em casa, onde estaria seguro.
    Vesti meu casaco e corri at as janelas da frente, para observar Mame carregando Cindy no colo, sob o vento e a chuva fria. Como se ela, uma simples mulher, 
pudesse encarar Deus e sua ira negra.
     To logo ela sumiu de vista, esgueirei-me para fora de casa e segui-lhe os passos. Este novo casaco significava realmente que ela me amava? No, respondeu o 
sbio velho em meu crebro, no significava coisa alguma. Presentes, brinquedos, jogos e roupas eram coisas fceis de dar - coisas que todos os pais davam aos filhos, 
mesmo
quando estavam dispostos a servir-lhes arsnico misturado nas rosquinhas. Os pais se recusavam a dar o que era mais  importante: segurana.
    L fora, o vento soprava o impermevel contra meu corpo, fazendo a chuva fustigar-me o rosto. Pude perceber que Mame, dez
metros  minha frente, encontrava dificuldade para tentar segurar Cindy, que procurava libertar-se e voltar correndo para casa, enquanto gritava:
    - No gosto de chuva! Me leve pra casa! No quero ir, Mame! 
    Tentando acalm-la enquanto mantinha o equilbrio e, ao mesmo tempo, procurava conservar o capuz sobre a cabea, Mame finalmente desistiu dos esforos para 
no se molhar e tratou de manter Cindy seca. Logo seu cabelo estava emplastrado contra o couro
cabeludo, to liso como o meu naquele momento, pois eu nunca colocava um capuz na cabea - dava-me medo de me olhar no espelho.
    Mame escorregou na lama que escorria das montanhas e quase perdeu o equilbrio. Mas conseguiu permanecer em p. Cindy gritava e esmurrava-lhe o rosto com os 
punhos minsculos:
    - CASA! QUERO IR PRA CASA!
    Corri, depressa, pois ela no olhava para trs. Toda sua ateno se concentrava na estrada  frente.
    - Pare com isso, Cindy!
    Muros altos. Grades de ferro. Portes fortes. Caixinhas mgicas para a gente falar. Uma voz sumida respondendo. E o barulho do vento soprando... A privacidade 
nada significava para Deus e para o vento. Absolutamente nada.
#246
    Escutei a voz de Mame gritando para se fazer ouvir acima do rugido do vento e da chuva:
    - Sou Catherine Sheffield! Moro na casa ao lado e Bart  meu filho! Quero entrar e falar com a dona da casa!
    Silncio. S o barulho do vento.
    Ento, Mame falou novamente:
    - Quero falar com ela! Se for preciso, pularei esta grade! Vou entrar, de qualquer maneira - portanto, abram os portes e
poupem-me o incmodo!
    Mantive-me afastado, aguardando, arquejando como se meu corao realmente doesse. Devagar, muito devagar, os grandes portes pretos de ferro se abriram.
    Por um instante, tive vontade de gritar: NO! No caia numa armadilha, Mame! Mas, na verdade, eu no sabia se era realmente uma armadilha. Apenas temia que 
entre John Amos e o Malcolm que existia dentro de mim, nada de bom resultasse da aventura de mame na casa de minha av. Esgueirei-me depressa pelos portes, antes 
que se fechassem. Pareceram-me portas de uma priso.
    Ela continuava a avanar com dificuldade, enquanto Cindy no cessava de gritar e chorar. Quando chegaram  porta da frente, pareciam ambas encharcadas at os 
ossos, pois eu assim estava, apesar de dispor das duas mos livres para segurar o casaco.
    Mame tropeou pelos degraus, agarrando Cindy, que ainda se debatia para libertar-se. Erguendo a mandbula solta do leo da
aldrava, bateu com fora  porta.
    John Amos estava  espera, pois abriu imediatamente uma das folhas da porta dupla e fez uma profunda reverncia, como se recebesse uma rainha.
    Ento, eu corri, o mais depressa que me foi possvel, pois no queria perder um s instante da cena. Entrei pela porta lateral,
percorri o corredor e atravessei o criado-mudo - esperando que ela se achasse naquela sala, pois no era muito seguro esconder-me atrs de uma palmeira plantada 
num vaso.
    Aps largar meu casaco no cho, entreabri a porta do criado-mudo. Apenas uma fresta pela qual eu podia espiar. Era provvel que Mame ainda estivesse no vestbulo, 
despindo o casaco molhado e livrando-se das botas brancas sujas de lama.
    Ento, ela surgiu  porta, sem o casaco e as botas. Eu nem tivera tempo de verificar se minha av estava na cadeira de balano -
mas l estava ela, realmente.
    Levantou-se rigidamente, de frente para Mame, escondendo as mos trmulas atrs das costas, o vu ocultando-lhe a maior parte do
rosto e a totalidade do cabelo.
    Algo pequeno, frgil e jovem dentro de mim quis chorar quando vi Mame entrar na sala "dela", ainda carregando Cindy, cujos
#247
agasalhos tambm tinham sido despidos. A garotinha estava completamente seca, ao passo que os cabelos de minha me se grudavam a seu rosto em mechas molhadas semelhantes 
a cordas. O rosto corado
estava to febril que, mais uma vez, senti vontade de chorar. E se Deus a fulminasse naquele instante? E se a morte nas fogueiras do inferno fosse o castigo que 
ele realmente desejava dar a ela?
    - Sinto incomod-la intempestivamente, desta forma - disse Mame.
    Eu imaginara que ela se atiraria de imediato contra minha av.
     - Contudo, preciso obter algumas respostas para minhas perguntas. Quem  a senhora? O que conta a meu filho caula? Ele me disse coisas terrveis, que alega 
terem sido contadas pela senhora. No a conheo e a senhora no me conhece; portanto, o que pode contar a ele, seno mentiras?
    At ali, minha av no pronunciara uma s palavra. Olhava para Mame e, depois, para Cindy.
    Minha av indicou uma cadeira e, depois, inclinou profundamente a cabea, como se pedisse desculpas. Por que no falava?
    - Que bela sala - comentou Mame, lanando um olhar a todos aqueles mveis finos e bonitos.
    Seus olhos tinham uma expresso perturbada e at mesmo seu sorriso parecia forado. Colocou Cindy em p no cho e tentou segurar-lhe a mo, mas Cindy desejava 
explorar o ambiente e ver todas aquelas coisas lindas.
    - No me demorarei mais que o necessrio - prosseguiu mame, mantendo um olho em Cindy, que queria tocar em tudo. - Estou gripada e gostaria de estar em casa, 
na cama, mas tenho necessidade de descobrir exatamente o que a senhora tem contado a
meu filho para que ele volte para casa e me diga coisas to horrveis. E no me respeite como sua me. Quando a senhora puder explicar, Cindy e eu nos iremos daqui.
    Minha av meneou a cabea, mantendo os olhos baixos, como se fosse mesmo uma mulher muulmana. Pelo modo esquisito como Mame a fitava, percebi que julgava tratar-se 
de alguma estrangeira que no entendesse bem o nosso ingls.
    Sem ser convidada, Mame sentou-se perto da lareira acesa e Cindy veio acomodar-se a seus ps, no degrau da lareira.
    - Moramos numa rea isolada. Portanto, quando Bart apareceu em casa dizendo que a senhora da casa vizinha lhe contou isto e aquilo, compreendi que s poderia 
ser a senhora. Quem  a senhora? Por que tenta voltar meu filho contra mim? Que mal lhe fiz eu? 
    E as perguntas se repetiram, porque a mulher de preto se recusava a falar. Mame se inclinou para a frente, a fim de olhar
minha av de mais perto.
#248
    J estaria desconfiada? Seria to esperta a ponto de perceber, a despeito do vu e do comprido e largo vestido preto, a verdadeira identidade da dona da manso?
    - Ora, vamos, eu lhe disse meu nome. Seja corts o bastante para me dizer o seu.
    Nenhuma resposta; apenas um tmido aceno da cabea coberta pelo vu negro.
    - Oh, creio que entendo - disse Mame, franzindo a testa perplexa. - A senhora no deve falar ingls.
    A mulher sacudiu novamente a cabea. A testa de Mame se franziu ainda mais.
    - Na verdade, no entendo. A senhora parece compreender o que digo e, apesar disso, no responde. No pode ser muda, ou no conseguiria contar a meu filho tantas 
mentiras.
    O tempo se passava depressa. Eu nunca ouvira o relgio sobre o aparador de mrmore da lareira funcionar to ruidosamente.
Minha av se limitava a balanar-se na cabea, como se nunca falasse ou erguesse a cabea.
    Mame comeava a aborrecer-se. De repente, Cindy deu um pulo e correu para pegar uma gatinha de porcelana.
    - Largue isso, Cindy.
    Com bvia relutncia, Cindy obedeceu e recolocou cautelosamente o objeto na mesinha com tampo de mrmore. Olhando para o arco que servia como separao da sala 
vizinha, correu naquela direo. Levantando-se depressa, Mame correu para impedir Cindy
de vagar pela casa. Assim como eu, Cindy tinha a mania de querer examinar tudo - embora no derrubasse os objetos com tanta freqncia quanto eu.
    - No entrem a! - exclamou minha av, erguendo-se tambm.
    Como se atordoada, minha me fez meia-volta, esquecendo Cindy. Seus olhos azuis se abriram muito e o rosto perdeu toda a cor quando ela fitou a mulher de negro, 
que no conseguiu evitar que as mos nervosas subissem  gola do vestido preto. Logo ela pegou o colar de prolas e comeou a torc-lo entre os dedos.
    - Sua voz... eu j a escutei antes.
    Vov no respondeu.
    - Esses anis em seus dedos... eu j os vi antes. Onde conseguiu esses anis?
    Impotente, minha av sacudiu os ombros e soltou depressa o colar de prolas, que desapareceu sob o manto negro.
    - Casa de penhores - disse ela de um modo esquisito, spero, estrangeiro. - Bom preo.
    Os olhos de Mame se apertaram e ela continuou a fitar aquela mulher que no lhe era desconhecida. Prendi o flego, imaginando o que aconteceria quando ela
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soubesse. Oh, Mame descobriria. Eu sabia que no era fcil enganar Mame.
     Como se os joelhos fraquejassem, Mame se afundou na poltrona mais prxima, sem se dar conta de que suas roupas estavam molhadas ou de que Cindy passara para 
a outra sala.
    - Vejo que fala um pouco de ingls - disse em voz baixa e pausada. - Logo que entrei nesta sala, foi como se o tempo recuasse e eu voltasse a ser criana. Minha 
me tinha o mesmo gosto em questo de mveis, preferia as mesmas cores. Olho para suas cadeiras de brocado, para as de veludo, para o relgio no aparador da lareira... 
e s consigo pensar que minha me aprovaria esta sala. At mesmo os anis em seus dedos se parecem com os que ela costumava usar.
Encontrou-os numa loja de penhores?
    - Muitas mulheres gostam deste tipo de sala... e jias - disse a mulher de preto.
    - Tem uma voz estranha... Sra. ...?
    Outro sacudir de ombros da figura negra.
    Mame tornou a levantar-se e foi  sala vizinha, buscar Cindy. Tornei a prender a respirao. O retrato estava l. Ela o veria. Mas creio que no olhou em volta, 
pois voltou num segundo, puxando Cindy pela mo, e postou-se perto da lareira, segurando com firmeza a mo da garotinha.
    - Que casa notvel a senhora possui. Se eu fechasse os olhos, seria capaz de jurar que estava olhando para Foxworth Hall, como
a via do balco. 
    Escuros, muito escuros, estavam os olhos de minha av. 
    - Est usando um colar de prolas? Julguei ver prolas quando a senhora levou as mos ao pescoo, h pouco. Os anis so lindos. Se exibe os anis, por que oculta 
as prolas?
    E, mais uma vez, Vov sacudiu os ombros.
    Arrastando Cindy consigo, Mame se aproximou da mulher que eu no mais desejava considerar minha av.
    - Enquanto estou aqui, todos os tipos de lembranas me voltam  mente - disse Mame. - Lembro-me de uma noite de Natal, quando Foxworth Hall queimou-se at os 
alicerces num incndio. A noite era fria, nevava, mas a cena estava iluminada como numa comemorao do Dia da Independncia. Arranquei todos os anis dos dedos e 
joguei as jias de brilhantes e esmeraldas na neve, onde elas se afundaram. Julguei que ningum voltaria a encontr-las... entretanto, Madame, a senhora est usando 
o anel de esmeralda que eu joguei na neve! Mais tarde, Chris foi apanhar todas aquelas jias,
porque pertenciam  me dele! A preciosa me dele! 
    - Tambm estou doente. V embora - murmurou a desolada figura vestida de negro, parada no meio da sala, evitando a cadeira
de balano que poderia prend-la como uma armadilha.
#250
     Mas j estava presa.
    - VOC! - gritou Mame. - Eu devia ter adivinhado! No existe no mundo um colar de prolas com fecho em forma de borboleta de brilhantes igual ao seu!
    -  claro que voc est doente! - prosseguiu ela, aos berros. - Que outra coisa voc poderia estar, seno doente! Sei quem voc . Agora, tudo faz sentido. Como 
se atreve a aparecer na minha vida outra vez? Depois de tudo que nos fez, volta para fazer ainda mais, quando eu ainda nem tive tempo de faz-la pagar por tudo! 
Roubar-lhe
Bart no foi o suficiente. Agora, tenho a oportunidade de fazer mais que isso!
    Largando a mo de Cindy, deu um bote para a frente e agarrou minha av, que tentou recuar e libertar-se. Mas minha me era mais forte. Excitado e sem flego, 
vi as duas mulheres se puxarem mutuamente.
    Minha av se encolheu ante a ferocidade do ataque. Parecia no saber o que fazer. Ento, Cindy soltou um berro de medo e comeou a chorar.
    - Mame, vamos para casa!
    A porta se abriu e John Amos entrou na sala com seu andar arrastado. Quando minha me preparava um novo ataque, ele estendeu o brao para pousar a mo ossuda 
no ombro de minha av. Nunca antes eu o vira toc-la.
    - Sra. Sheffield - comeou ele com sua voz lamuriosa e sibilante. - Foi graciosamente recebida nesta casa e, agora, tenta aproveitar-se de minha esposa, que 
no passa bem de sade h vrios anos. Sou John Amos Jackson e essa  minha esposa, Sra. Jackson. 
    Aturdida, minha me s conseguiu arregalar os olhos.
    - John Amos Jackson - repetiu ela devagar, pronunciando cada uma das slabas. - J escutei antes esse nome. Ora, ontem
mesmo, ao reler meus originais, tive que imaginar um modo de alterar ligeiramente esse nome. Voc  o John Amos Jackson que
outrora trabalhou como mordomo de Foxworth Hall! Lembro-me de sua cabea calva e de como ela brilhava  luz dos candelabros.
    Virou-se e estendeu o brao para pegar a mo de Cindy. Ou foi o que pensei. Ao invs disso, arrancou o vu do rosto de minha
av. 
    - Mame! - gritou ela. - H vrios meses eu deveria saber que era voc! A partir do momento em que entrei nesta casa, senti sua presena, o seu perfume, as cores, 
a escolha da moblia. Teve bastante senso para cobrir o rosto e o corpo de preto, mas foi bastante estpida para usar suas jias. Imbecil, sempre to malditamente 
imbecil! Ser a insanidade ou a imbecilidade que a faz pensar que eu seria capaz de esquecer seu perfume, suas jias?
#251
    Mame riu, descontrolada e histericamente, girando sobre si mesma de modo que John Amos, que tentava evitar o que ela pudesse fazer, tropeava desajeitadamente, 
procurando agarr-la antes
que voltasse a atacar.
    Vejam s... ela estava danando! Rodopiava em torno de minha av, esticando a mo para esbofete-la - e, enquanto girava
sobre as pernas, gritava: 
    - Eu devia saber que era voc! Desde que apareceu por aqui, Bart vem agindo como um maluco! No nos podia deixar em paz, no  mesmo? Tinha que vir, para tentar 
estragar o que Chris e eu conseguimos juntos - a primeira vez que fomos realmente felizes!
E, agora, voc estragou tudo! Conseguiu levar Bart  loucura, de modo que ele ter de ser internado, como voc foi! Oh, como eu a odeio por isso! Como eu a odeio 
por tantos motivos! Cory, Carrie e, agora, Bart - ser que no tem fim o que voc  capaz de fazer para ferir-nos?
    Estendeu a perna, enganchou o p atrs do joelho de Vov e tirou-lhe o equilbrio. No instante em que minha av tombou ao cho, num monte de trapos pretos, minha 
me se atirou sobre ela, agarrando o colar de prolas com fecho de brilhantes em forma de
borboleta.
    Usando ambas as mos, arrebentou o colar e as prolas rolaram para o tapete persa, que as tragou silenciosamente.
    John Amos agarrou Mame violentamente, puxando-a e forando-a a ficar em p. Sacudiu-a at que a cabea dela pareceu rolar.
    - Apanhe as prolas, Sra. Sheffield - ordenou ele num tom duro e mau, que se tornou repentinamente forte.
    Fiquei surpreso por ele ser capaz de tratar minha me com tanta crueldade. Eu sabia o que Jory faria: correria para lutar contra John Amos e salvar Mame. Eu, 
porm, no sabia se deveria proceder assim. Deus estava l em cima, querendo que Mame sofresse por seus pecados - se eu socorresse, o que Deus faria comigo? Alm 
disso, Jory era maior que eu. E Papai sempre dizia que tudo acontecia para o melhor - portanto, aquilo tinha que acontecer, a
despeito de fazer-me sentir to mal.
    Afinal, porm, Mame no precisava de meu auxlio. Jogando a cabea para trs, desferiu violenta cabeada nos dentes postios de John Amos. Escutei-os partirem-se, 
enquanto ela se libertava com um giro de corpo. Ento, John Amos perseguiu-a com determinao ainda maior. Ia mat-la, assumindo o papel de agente da ira divina!
     Mais depressa do que consegui mover-me, o joelho de Mame se ergueu e o acertou em cheio na virilha. John Amos gritou e
dobrou-se em dois, segurando o local atingido ao cair no cho e rolar de um lado para outro, gemendo:
#252
    - Maldita! Maldita!
    - Maldito seja voc, John Amos Jackson! - berrou minha me em resposta. - Jamais se atreva a encostar a mo em mim, pois lhe arrancarei os olhos!
    A essa altura, minha av pusera-se de p e estava no centro da sala, balanando sem firmeza, enquanto tentava recolocar o vu sobre o rosto. Foi ento que a 
bofetada de minha me a atingiu no rosto, derrubando-a na cadeira de balano.
    - Maldita seja voc, tambm, Corrine Foxworth! Eu esperava nunca mais tornar a ver seu rosto! Esperava que voc morresse
naquela "clnica de repouso" e me poupasse a agonia de v-la novamente, de escutar essa voz que eu tanto amava. Mas nunca tive
sorte. Eu devia saber que voc jamais teria a considerao de morrer e nos deixar, Chris e eu, em paz. Voc  como seu pai: agarra-se
desesperadamente a uma vida que no vale a pena viver.
    Oh, eu no imaginava que minha me tivesse um gnio to terrvel. Ela era exatamente como eu. Senti-me chocado, atemorizado, ao observar minha me atacar outra 
vez minha velha av e fazendo a cadeira de balano tombar, de modo que ambas caram ao cho, rolando, enquanto John Amos continuava a gemer e talvez nunca mais se 
recobrasse. Em poucos momentos, Mame estava
sentada sobre minha av, arrancando-lhe todos aqueles anis faiscantes e valiosos. Debilmente, minha av procurava defender-se e s suas jias.
    - Por favor, Cathy, no faa isso comigo - implorava ela.
    - Voc! Como eu ansiava por v-la no cho, suplicando-me, como est agora. Eu estava enganada, h pouco: hoje  meu dia de
sorte! Minha oportunidade de vingar-me outra vez por tudo que voc nos fez. Observe, veja bem o que fao com seus preciosos anis!
    Mame ergueu o brao e, num nico movimento selvagem, atirou todos aqueles anis no fogo que rugia na lareira.
    - Pronto, pronto! Est feito! - gritou minha me. - O que deveria ter sido feito h muito tempo, na noite em que Bart morreu!
    Com uma expresso satisfeita, correu para pegar Cindy no colo e foi ao armrio do vestbulo, para vestir o casaco de Cindy. Em
seguida, estendeu a mo para pegar seu casaco e as botas.
     John Amos se levantara do cho, resmungando consigo mesmo algo a respeito da filha do demnio, que devia ter morrido quando estava enjaulada e indefesa.
    - Maldita gata brava, devia ter sido abatida antes de poder criar novos filhos do Demnio!
    Eu escutei.
    Mame talvez no tenha escutado.
     Sa do criado-mudo sem ser visto por minha av, que chorava, sentada no cho, combalida.
#253
    A essa altura, Mame j vestira o casaco branco e calara as botas, embora continuasse a tremer. Veio  porta e olhou para a mulher que ainda chorava, sentada 
no cho. 
    - O que escutei voc dizer, John Amos Jackson! Ouvi-o chamar-me de gata brava, filha do Demnio? Repita isso na minha cara!
Vamos, repita agora! Agora, que sou adulta, no mais uma criana! Agora, que no tenho medo! Agora, que meus braos e pernas so
to fortes quanto os seus so fracos! No julgue que poder livrar-se de mim com tanta facilidade, agora - pois no sou velha, nem fraca, e j no sinto mais medo!
    Ele avanou para minha me, empunhando um atiador da lareira. Ela riu, parecendo julg-lo tolo, um adversrio fcil de
derrotar. Esquivou-se com agilidade e rapidez, desferindo um pontap com a perna boa. Atingiu as ndegas de John Amos com tanta fora que ele caiu de cara no cho, 
berrando de raiva.
    Eu tambm berrei. Aquilo estava errado! No era a maneira que John Amos e eu tnhamos planejado para a vingana divina.
Ele no deveria machucar Mame.
    Ento, Mame me avistou. Seus olhos azuis se arregalaram, o rosto ficou muito plido, as feies deram a impresso de desmoronar-se.
    - Bart!
    Murmurei:
    - John Amos me disse tudo que eu devia fazer. 
    Ela se voltou, furiosa, para minha av.
    - Veja o que voc fez: voltou meu prprio filho contra mim! Durante todo o tempo, voc escapa impune, cometendo todos os tipos de crimes - at mesmo homicdio! 
Envenenou Cory, envenenou a mente de Carrie at que ela se matou, voc matou Bart Winslow quando o fez voltar ao incndio para salvar a vida de uma velha miservel 
que no merecia viver - e agora envenena a mente de
meu filho contra mim! E escapou  justia, alegando insanidade mental. No estava louca quando ateou fogo a Foxworth Hall. Foi o primeiro golpe inteligente que aplicou 
em sua vida, mas esta  a minha hora de vingana.
    E, com estas palavras, Mame correu  lareira, pegou a pequena p de remover cinzas, empurrou a tela de proteo para um lado e comeou a puxar carves  incandescentes 
para o tapete persa.
    Quando o tapete comeou a soltar fumaa, ela me chamou: 
    - Bart, vista seu casaco. Vamos para casa. Mudar-nos-emos para to longe daqui, que ela jamais conseguir encontrar-nos -
jamais!
    Gritei. Minha av tambm gritou. Todavia, Mame estava to ocupada em abotoar o casaco de Cindy que no percebeu que John
Amos voltara a pegar o atiador. Petrifiquei-me, os lbios abertos para
#254
gritarem outra advertncia... o atiador atingiu Mame na cabea. Ela tombou silenciosamente ao cho, como uma boneca de
trapos. 
    - Idiota! - berrou minha av. - Talvez voc a tenha matado! 
    As coisas aconteciam com demasiada rapidez. Tudo corria errado. Mame no devia machucar-se. Eu quis dizer isso, mas o rosto
de John Amos estava contorcido, os lbios franzidos num rosnado, e ele avanava contra minha av.
    - Cathy, Cathy - implorava ela, ajoelhada no cho, segurando no colo a cabea de Mame. - Por favor, no morra. Eu a amo. Sempre a amei. Nunca desejei que nenhum 
de vocs morresse. Eu nunca...
    A pancada foi to forte que ela tombou sobre o corpo de Mame. 
    A raiva me dominava o crebro. Cindy gritava.
    - John Amos! - berrei. - Isso no estava nos planos de Deus!
    Ele se voltou para mim, sorridente e confiante.
    - Estava, sim, Bart. Deus falou comigo durante a noite e me disse o que fazer. No ouviu sua me dizer que ia para muito longe
daqui? Ela no levaria consigo um menino incmodo como voc, no  mesmo? Antes, trataria de intern-lo num manicmio, no
acha? Ento, ela partiria e voc jamais tornaria a v-la, Bart. Exatamente como seu bisav, voc seria abandonado para sempre.
Exatamente como Sua av, voc seria internado num hospcio e tambm nunca mais a veria! Eis a maneira cruel como a vida trata
aqueles que procuram fazer o melhor possvel. E sOu eu, s eu, quem tent cuidar de voc e procura livr-lo de um confinamento muito pior que uma priso.
    Priso, priso - to semelhante a veneno (*).
     - Est escutando, Bart? Voc me ouviu? Compreende que estou fazendo o Possvel para salv-las, ambas, por voc?
    Eu o encarei, calado; na verdade, no compreendia coisa alguma.
    - Sim, Bart; em vez de uma, voc ter duas recordaes.
     Eu no sabia o que ou em quem acreditar. Olhei para as duas mulheres cadas no cho -minha me e minha av, cujo corpo cara em cruz sobre o vulto esbelto de 
Mame. De repente, fui invadido por uma onda de compreenso: eu amava aquelas duas
mulheres. No conseguiria viver se perdesse uma delas - muito menos as duas. Seriam to ruins quanto alegava John Amos? Deus me
puniria se eu evitasse que fossem "redimidas" pelo fogo?
    E, diante de mim, estava John Amos, o nico que fora totalmente honesto comigo desde o incio, dizendo-me desde o comeo

___________
(*) No do T. em ingls, priso = prison, veneno = poison.

255
quem era meu verdadeiro pai, quem era minha verdadeira av, quem era Malcolm, o sbio e esperto.
    Fitei seus olhos midos, em busca de instrues. Deus estava com John Amos - do contrrio, ele no teria vivido o bastante para ser to velho.
    Ele sorriu e me acariciou o queixo. Estremeci. No gostava que as pessoas me tocassem, quando nem mesmo conseguia sentir-lhes o toque.
    - Agora, oua-me com ateno, Bart. Em primeiro lugar, voc levar Cindy para casa. Ento, far a garota prometer que no
contar nada a ningum, do contrrio voc lhe arrancar a pequena lngua rosada. Conseguir obrig-la a prometer?
    Atordoado, meneei afirmativamente a cabea. Tinha que forar Cindy a prometer.
    - Voc no machucar Mame e Vov?
    - Claro que no, Bart. Eu apenas as levarei para lugar seguro. Voc poder v-las sempre que desejar. Contudo, nem uma palavra quele homem que se diz seu pai. 
Nem uma palavra! Lembre-se de que ele, tambm, tirar voc de casa e o internar num manicmio. Ele tambm acha que voc  maluco. No compreende que  por isso 
que o obrigam a freqentar psiquiatras?
    Engoli em seco; minha garganta doa. No sabia o que fazer. 
     Mas John Amos sabia.
    - Agora, v para casa com Cindy, mantenha a molequinha calada, tranque-se no seu quarto, finja-se de idiota, comporte-se como se no soubesse de nada. E lembre-se... 
ameace sua irmzinha de modo to terrvel que ela tenha medo de soltar um pio.
    - Ela no  minha irmzinha - sussurrei debilmente.
    - Que diferena faz? - rosnou ele, irritado. - Faa exatamente o que lhe digo. Siga as instrues, como Deus quer que os
homens creiam nele sem fazer perguntas - e jamais permita que seu pai ou seu irmo percebam que voc conhece este segredo, ou
que sabe para onde foi sua me. Faa-se de bobo. Voc deve ser perito nisso.
    O que queria dizer ele? Estaria zombando de mim?
    Franzi a testa e assumi minha melhor carranca, imitando Malcolm.
    - Escute uma coisa, John Amos: o dia em que voc conseguir ser mais esperto que eu, ser o dia em que o mundo sentar na cabea de um alfinete e o engolir. Portanto, 
no zombe de mim nem me julgue idiota... pois, no final, eu vencerei. ,Eu sempre vencerei,
vivo ou morto. 
    O poder cresceu imensamente dentro de mim. Nunca me senti to cheio de inteligncia. Olhei para as duas mulheres que eu amava. 
#256
    Sim, Deus planejara que acontecesse daquela maneira, dando-me duas mes que seriam exclusivamente minhas... e eu jamais voltaria a sentir-me solitrio.

    - Agora, trate de ficar calada e no diga uma s palavra a Papai ou a Jory, ou eu lhe cortarei a lngua - disse eu a Cindy, quando voltamos para casa e entramos 
na cozinha. - Quer que eu lhe corte a lngua?
    Sua carinha estava molhada de chuva e lgrimas; e suja, tambm. A boca aberta, os olhos esbugalhados, choramingando como um beb, ela permitiu que eu lhe vestisse 
o pijama e a colocasse na cama. Mantive os olhos fechados o tempo todo, para que seu corpo de menina no me envergonhasse e obrigasse a odi-la ainda mais.

ONDE EST MAME?

    Havia algum que eu precisava expulsar. Algum que parecia ter iniciado um furaco que demorava para sempre e arruinava nossas
vidas. Papai e eu conversamos muito a esse respeito, mas a situao continuava muito tensa e eu estava muito confuso. Por que ela tivera que aparecer e comear tudo 
aquilo? Finalmente, no consegui conter a raiva por mais tempo e, to logo a aula de bal terminou, corri para o escritrio de Madame M.
    - Eu a detesto, Madame, por todas as coisas ruins que disse  minha me. Tudo tem sido horrvel, a partir daquele dia. Deixe-a
em paz, de agora em diante, ou irei embora e nunca mais voltarei a v-la. Voc veio de to longe apenas para fazer minha me ficar
doente? Agora, ela no pode mais danar e isto j  bastante ruim. Se voc no parar de causar tantas encrencas, eu tambm abandonarei o bal. Fugirei e voc jamais 
me ver outra vez. Pois, ao estragar as vidas de meus pais, no arruinou apenas as vidas deles, como tambm a minha e a de Bart.
    Ela empalideceu, parecendo muito velha.
    - Voc me soa to semelhante a seu pai. Julian costumava fuzilar-me com os olhos escuros, exatamente desta mesma maneira.
    - Eu amava voc.
    - Voc me amava....
    - Sim, amava. Quando julgava que voc gostava de mim e de meus pais; ento, eu acreditava que a dana era a coisa mais
maravilhosa do mundo: Agora, no acredito mais.
    Ela pareceu ferida, como se eu a tivesse apunhalado no corao. Vacilou, apoiando-se  parede, e teria cado se eu no a amparasse.
#257
    - Por favor, Jory - disse, arquejante. - No fuja. No abandone a dana. Se o fizer, minha vida perder o significado, Georges
ter vivido em vo, Julian tambm. No tire tudo daqueles que eu amei e perdi.
    Senti-me to confuso que no consegui falar. Portanto, fugi, correndo, como Bart sempre fugia quando as coisas ficavam muito
pesadas para ele. 
    Atrs de mim, Melodie chamou:
    - Onde vai com tanta pressa, Jory? No amos tomar uma soda juntos?
    Continuei correndo. No me importava mais com nada ou com ningum. Minha vida estava toda embaralhada. Meus pais no eram
casados. Como poderiam ser? Que sacerdote ou juiz de paz casaria um irmo e uma irm?
    Quando cheguei  calada, diminu o passo e fui a um parque pblico, onde me sentei num banco pintado de verde. Permaneci ali por longo tempo, fitando meus ps. 
Ps de bailarino. Fortes, calejados, prontos para a atividade profissional nos palcos. Agora, o que faria quando crescesse? No desejava realmente ser mdico, embora
tivesse afirmado isto algumas vezes, a fim de agradar o homem que eu amava como pai. Que piada! Por que tentar mentir a mim mesmo? No existiria vida para mim sem 
a dana. Quando eu punia Madame M., minha me, meu padrasto - que era, na verdade, apenas
meu tio -, punia ainda mais a mim mesmo.
    Levantei-me e olhei em volta, para todas as pessoas idosas que se sentavam, solitrias, nos bancos do parque. Imaginei que um dia eu seria como elas e disse 
com meus botes: No. Saberei quando admitir que cometi um erro. Saberei pedir desculpas.

    Madame M. estava em seu escritrio, a cabea apoiada nas mos magras, quando abri silenciosamente a porta e entrei. Devo ter feito algum rudo, pois ela ergueu 
a cabea e vi lgrimas em seus olhos. A alegria os iluminou quando ela me viu. Contudo, Madame no mencionou o que se passara entre ns meia hora antes.
    - Tenho um presente para sua me - disse ela, em sua estridente voz natural.
    Abriu uma gaveta da mesa e dela retirou uma caixa dourada amarrada com fita de cetim vermelho.
    - Para Catherine - disse ela, lacnica, sem me encarar. - Voc tinha razo a respeito de tudo. Eu estava pronta para tir-lo de seu pai e de sua me, porque 
julgava estar fazendo a coisa certa para voc. Compreendendo, agora, que ia fazer o que desejava para mim, no para voc. O lugar dos filhos  com as mes, no com 
as avs.
#258
    Sorriu com amargura e olhou para a bonita caixa dourada:
    - Bombons Lady Godiva. O tipo que sua me adorava quando morava em Nova Yorque e danava na companhia de bal de Madame
Zolta. Na poca, no podia comer bombons por medo de engordar, embora fosse o tipo de bailarina que queimava mais calorias que a
maioria das outras, quando danava. Mesmo assim, eu lhe permitia comer apenas um bombom por semana. Agora, que ela no poder
voltar a danar, pode comer o que bem entender.
    Era uma frase bem ao gosto de Bart.
    - Mame est muito gripada - expliquei, to lacnico quanto ela. - Obrigado pelos bombons e pelo que acaba de dizer. Sei que
Mame se sentir melhor por saber que voc no tentar roubar-me dela.
    Ento, sorri e beijei-lhe o rosto ressecado. 
    - Alm disso, no entende que h bastante de mim para compartilhar? Se voc no for avarenta, ela tambm no ser. Mame
 maravilhosa. Nunca me revelou que existiam dificuldades entre vocs duas.
    Sentei-me na nica cadeira existente no escritrio e cruzei as pernas.
    - Estou com medo, Madame. As coisas l em casa esto ficando malucas. Bart comporta-se de modo cada vez mais esquisito. Mame est doente, gripada; Papai parece 
muito infeliz. Trevo morreu, Emma j no sorri. O Natal est chegando e nada se faz a respeito. Se continuar assim, acho que sou eu quem vai estourar.
    - Hahf - fungou ela, voltando ao normal. - A vida  sempre assim: vinte minutos de misrias para cada dois segundos de alegria.
Portanto, seja eternamente grato por esses dois segundos e trate de apreci-los. Aprecie o que conseguir encontrar de bom, no importa o quanto isso lhe custe.
    Meus sorrisos eram falsos. Interiormente, eu estava deveras deprimido. As palavras cnicas de Madame M. no me ajudavam.
    - Tem que ser realmente assim? - ... perguntei.
    - Jory - disse ela, aproximando de mim o rosto branco como massa de pastel -, pense bem nisso: se no existirem sombras, como
poder existir a luz do sol?
    Permaneci sentado no escritrio mal iluminado e permiti que aquela espcie de filosofia azeda me desse um pouco de paz.
    - Est bem, entendo o que quer dizer, Madame. E se  incapaz de pedir desculpas, eu no sou.
    Ela murmurou, parecendo magoada:
    - Desculpe-me.
    Abracei-a com fora. Tnhamos chegado a um tipo de compromisso.
#259
    Durante todo o trajeto at em casa, segurei no colo a caixa de bombons, morrendo de vontade de abri-la.
    - Papai - comecei, hesitante -, Madame M. enviou esta caixa de bombons para Mame. Uma espcie de reconciliao, creio.
    Ele me lanou um olhar e um sorriso.
    - Muito bem.
    - Acho muito estranho que Mame permanea gripada por tanto tempo. Nunca fica doente por mais que um ou dois dias. No acha que ela parece muito fatigada?
    -  aquele livro, aquele maldito livro - resmungou ele, observando o trfego intenso, ligando os limpadores de pra-brisas,
debruando-se para ver melhor o sinal de trfego  direita. - Gostaria que parasse de chover. A chuva sempre incomoda sua me.
Ento, ela fica acordada at s quatro da madrugada e levanta da cama ao raiar do dia, para escrever  mo em papel pautado, com
medo de usar a mquina de escrever e me acordar com o barulho. Quando se acendem as duas pontas de uma vela, algo tem que ceder
e, no caso dela, foi a sade. Primeiro, o acidente; agora, essa gripe.
    Lanou-me outro olhar de esguelha.
    - Alm disso, h Bart e seus problemas. E voc, com os seus. Jory, agora voc conhece nosso segredo. Sua me e eu conversamos a respeito; voc e eu discutimos 
o assunto durante horas e horas.  capaz de perdoar-nos? No consegui ajud-lo a entender?
    Baixei a cabea, envergonhado.
    - Estou procurando entender .
    - Procurando?  difcil? No lhe contei o que se passou conosco, todos quatro trancados num nico quarto, crescendo,
descobrindo em plena adolescncia que s podamos contar um com o outro...
    - Certo, Papai. Todavia, quando fugiram e encontraram um novo lar, com o Dr. Paul, voc no poderia ter encontrado outra
pessoa? Por que teve que ser ela?
    Suspirando, ele comprimiu os lbios.
    - Pensei que lhe tivesse explicado como me sentia, ento, com relao s mulheres. Sua me estava sempre presente quando eu
necessitava dela. Nossa prpria me nos trara. Quando somos jovens, fixamos na mente idias muito fortes. Sinto t-lo magoado com minha incapacidade de amar qualquer 
pessoa  exceo dela.
    O que tinha eu a dizer? No conseguia entender. O mundo estava cheio de mulheres jovens e belas - aos milhares, aos milhes.
Ento, pensei em Melodie. Se ela morresse, seria eu capaz de sair  procura e encontrar outra? Pensei muito a respeito, enquanto Papai permaneceu calado, os lbios 
apertados numa linha fina, e a chuva caa, caa, fustigando com violncia. Era como se ele pudesse ler meus pensamentos. Porque sim, se #260
algum dia eu tivesse a infelicidade de
perder Melodie, se ela desaparecesse e eu nunca mais tornasse a v-la, eu continuaria a viver e, eventualmente, encontraria outra
para tomar seu lugar. Qualquer coisa seria melhor que...
    - Jory, sei o que voc est pensando. Tive anos e anos para refletir sobre o motivo pelo qual tinha que ser minha irm e mais ningum. Talvez fosse porque eu 
perdera a f em todas as mulheres, devido ao que nossa me nos fazia, e s minha irm conseguisse consolar-me. Foi ela quem impediu que eu desmoronasse durante aqueles
longos anos de privaes. Foi ela quem fez daquele nico quarto uma casa inteira. Foi uma me para Cory e Carrie. Fez aquele quarto parecer um lar, enfeitando a 
mesa, arrumando as camas, lavando as roupas na banheira, estendendo-as no sto para secar, mas, acima de tudo, foi o modo como ela danava no sto que me fez am-la,
gravando-a para sempre em meu corao. Pois, enquanto eu permanecia nas sombras a observ-la, parecia-me que ela danava exclusivamente para mim. Julguei que ela 
fizesse de mim o prncipe de seus sonhos,
como eu fazia dela a princesa dos meus. Na poca, eu era romntico, at mais do que ela. Sua me  diferente da maioria das mulheres, Jory. Era capaz de viver mergulhada 
em dio e, apesar disso, florescer. Eu no. Eu precisava de amor, ou morreria. Quando fugimos de Foxworth Hall, ela flertou com Paul, desejando que ele a tomasse 
de mim. Casou-se com seu pai quando a irm de Paul, Amanda, lhe contou uma mentira. Foi uma boa esposa para seu pai, mas, quando este morreu, ela fugiu para as montanhas 
da Virgnia, a fim de completar
seus planos de vingana, que incluam roubar o segundo marido de nossa me. Como voc veio a descobrir, Bart  filho do marido de
nossa me e no filho de Paul, como ns lhe dissramos. Na ocasio, precisvamos mentir para proteger vocs. Ento, depois que sua me se casou com Paul e este morreu, 
ela me procurou. Eu esperava durante todos aqueles anos, sabendo, de algum modo, que eventualmente ela me pertenceria se eu conservasse minha f e mantivesse
acesa a chama de meu primeiro amor. Era to  fcil para ela amar outros homens. Era impossvel para mim encontrar qualquer mulher capaz de comparar-se a ela. Sua 
me me conquistou quando eu tinha mais ou menos a mesma idade que voc tem atualmente, Jory. Tome cuidado com quem amar em primeiro lugar, pois essa ser a garota 
que voc jamais esquecer.
    Deixei escapar o flego que vinha prendendo h muito tempo, refletindo que a vida nada tinha de igual aos contos de fada do bal ou s novelas da TV. O amor 
no chegava e partia com as estaes do ano, como eu esperava vagamente que acontecesse.
    A viagem at em casa pareceu durar uma eternidade. Papai foi obrigado a dirigir muito devagar e com extrema cautela, a intervalos, lanava um olhar ao relgio 
do painel. Eu olhava pelas janelas do carro.
#261
Por toda parte havia decoraes de Natal. Eu avistava nas vitrines e janelas rvores de Natal alegremente iluminadas. Olhava com
nostalgia as janelas pelas quais passvamos, vendo tudo daquela maneira indistinta que torna as cenas dez vezes mais romnticas quando chove. Desejei que fosse o 
ano anterior. Desejei que tivssemos a
felicidade que, ento, me parecia to permanente. Desejei que aquela velha da manso vizinha jamais tivesse surgido em nossas vidas e estragado tudo o que eu julgara 
perfeito. Desejei, tambm, que
Madame M. nunca tivesse chegado para imiscuir-se nas vidas de meus pais, revelando todos os segredos que seria melhor ocultar. Pior do que tudo, aquelas duas velhas 
tinham destrudo o orgulho que eu
sentia de meus pais. Por mais que tentasse o contrrio, eu ainda me ressentia contra o que elas estavam fazendo, o que tinham feito, arriscando escndalo, arriscando 
arruinarem a minha vida, a vida de Bart e, tambm, a de Cindy - e tudo porque um homem fora incapaz de encontrar outra mulher para amar. E aquela nica mulher na 
vida dele devia ter feito alguma coisa para mant-lo fiel  sua espera.
    - Jory - disse Papai, quando entramos na alameda de acesso  nossa casa. - De vez em quando, ouo sua me queixar-se a respeito de captulos que no consegue 
encontrar. Sua me no  o tipo de pessoa que se descuide em qualquer projeto importante de trabalho. Presumo que voc esteja retirando os captulos completos da 
gaveta, a fim de ler o que ela escreveu...
    Deveria eu contar a verdade?
    Fora Bart quem primeiro roubara pginas do original de Mame. Todavia, meu senso de moralidade no me impedira de l-los
tambm. Embora, at aquele momento, eu no tivesse chegado ao final. Por algum motivo, eu no conseguia ler alm da poca em que o
irmo trara pela primeira vez a irm, possuindo-a  fora. Estava alm dos limites de minha compreenso que aquele homem sentado ao meu lado fosse capaz de estuprar 
a prpria irm quando esta tinha apenas quinze anos. Estava alm dos limites de minha capacidade de aceitar tal procedimento, por mais desesperada que fosse a sua 
necessidade, ou quaisquer que fossem as circunstncias que o levaram a cometer um ato to pecaminoso. E, sem dvida, ela no
proclamaria isso aos quatro ventos.
    - Ser que eu o perdi, Jory?
    Virei vagarosamente os olhos para ele, sentindo-me fraco e doente por dentro, desejando esconder-me do tormento que via
nitidamente estampado em seu rosto. Apesar disso, no pude dizer que sim - nem que no.
    - Creio que no  preciso voc responder - disse Papai, com voz tensa. - Seu silncio j  uma resposta e eu sinto muito. Eu o amo como se fosse meu prprio 
filho e esperava que voc me amasse o suficiente para compreender. amos contar-lhe tudo quando
#262
julgssemos que tivesse idade bastante para entender. Cathy devia ter trancado os primeiros rascunhos numa gaveta, em vez de confiar que seus dois filhos no se 
interessassem pelo livro.
    -  fico, no ? - indaguei, esperanoso. - Claro, sei que . Me nenhuma faria aquilo aos prprios filhos...
    Abri a porta e corri para casa antes que ele pudesse replicar.
     Entreabri os lbios para chamar mame. Ento, tornei a fech-los e fiquei calado. Era mais fcil, para mim, evit-la.
    Normalmente, quando chegava em casa eu corria para o jardim, saltando e ensaiando passos de aquecimento. Em dias chuvosos como
aquele, passava mais tempo  barra. Naquele dia, porm, atirei-me diante do aparelho de televiso, apertei o boto de controle remoto e me deixei mergulhar numa 
tola mas divertida novela.
    - Cathy! - chamou Papai ao entrar. - Onde est voc?
     Por que no gritara: "Venha receber-me com beijos, se me ama!" Sentir-se-ia tolo, ou culpado, agora que sabia que tnhamos
conhecimento da origem daquela frase?
    - J disse al  sua me? - perguntou-me ele.
    - No vi Mame.
    - Onde est Bart?
    - No o procurei.
    Ele me lanou um olhar suplicante e depois foi para o quarto onde dormia com sua "esposa".
    - Cathy, Cathy! - escutei-o chamar. - Onde est voc? 
    Poucos segundos depois, estava na cozinha, s minhas costas, procurando Mame - e no a encontrando. Comeou a correr de
um aposento para outro. Afinal, bateu  porta do quarto de Bart.
    - Bart, voc est a dentro?
    Primeiro, um prolongado silncio. Depois, uma resposta relutante,
amuada:
    - Sim, estou aqui. Onde mais poderia estar, com a porta trancada?
    - Ento, destranque-a e saia.
    - Mame me trancou por fora, de modo que no posso sair.
    Continuei sentado, mergulhado no programa de televiso, mantendo-me alheio a eles. Tentava imaginar como conseguiria sobreviver e crescer sentindo-me to infeliz.
    Papai era o tipo que possua duplicatas de todas as chaves. Logo Bart estava fora do quarto, sendo submetido a um interrogatrio.
    - O que fez voc para que sua me o trancasse no quarto e sasse de casa?
    - No fiz nada!
    - Deve ter feito alguma coisa que a deixou furiosa.
    Bart sorriu com ar ladino, permanecendo calado. Olhei para eles, sentindo-me ansioso e amedrontado.
#263
    - Bart, se fez algo para causar qualquer mal  sua me, no escapar ileso. Estou falando srio.
    - Eu no faria nada para prejudicar Mame - disse Bart, irritado. - Ela  que sempre me magoa. No gosta de mim, s de
Cindy.
    - Cindy! - exclamou Papai, lembrando-se repentinamente da garotinha.
    Foi ao belo quarto de Cindy e voltou alguns minutos mais tarde, trazendo-a no colo.
    - Onde est sua me, Bart?
    - Como posso saber? Ela me trancou no quarto.
    Contra minha vontade, eu estava perdendo a capacidade de manter-me alheio.
    - Papai, h alguns dias Mame deixou o carro na oficina e Madame M. nos trouxe para casa. Portanto, no pode ter ido longe.
    - Sim, eu sei. Ela me contou... algo de errado com os freios do carro dela.
    Lanou um olhar interrogativo a Bart.
    - Bart, tem certeza de que no sabe onde est sua me? 
    - No consigo enxergar atravs de portas fechadas. 
    - Ela lhe disse aonde ia?
    - Ningum nunca me diz nada.
    De repente, Cindy falou:
    - Mame saiu na chuva... ficamos todas molhadas...
    Bart girou para trespass-la com um olhar furioso. Cindy calou a boca e comeou a tremer.
    Sorrindo, Papai tornou a pegar Cindy e sentou-se para segur-la no colo.
    - Cindy, voc  uma salva-vidas. Agora, pense bem e diga-me aonde foi Mame.
    Tremendo ainda mais, Cindy olhava para Bart e no conseguia falar.
    - Pode falar, Cindy, olhe para mim e no para Bart. Estou aqui, cuidarei de voc. Bart no poder machuc-la enquanto eu
estiver aqui. Bart, pare de fazer cara feia para sua irm.
    - Cindy correu na chuva, Papai, e Mame precisou sair para peg-la. Depois, voltou molhada, tossindo, e eu fiz algum comentrio.
    Ela ficou zangada comigo, empurrou-me para o quarto e trancou a porta.
    - Bem, creio que isso explica o cabelo embaraado de Cindy - disse Papai.
    Mas no pareceu aliviado. Colocou Cindy no cho e comeou a dar uma srie de telefonemas, para todos os amigos de Mame e
para Madame Marisha. Minha av declarou que viria imediatamente.
#264
    Ento, Papai falou com Emma, que s poderia voltar no dia seguinte, por causa da chuva.
    Pensei em minha av na estrada, tentando dirigir at nossa casa sob o temporal. Mesmo com tempo ideal, ela no era exatamente
o que eu considerava uma motorista razovel.
    - Papai, vamos verificar todos os aposentos, inclusive o sto - sugeri, erguendo-me de um pulo e correndo para o armrio embutido.
    - Ela pode ter ido danar l em cima, como costumava fazer, e trancado acidentalmente a porta, ou adormecido numa das camas... ou qualquer coisa.
    Terminei a frase com embarao, achando que ele me fitava de modo esquisito.
    Quando Papai comeou a me seguir na escada do sto, Cindy soltou um berro de medo. Papai voltou depressa ao corredor e pegou-a no colo, como se pretendesse 
lev-la conosco. Bart empunhava um canivete novo e estava comeando a raspar a casca de um galho fino e comprido. Parecia disposto a descascar o galho inteiro, transformando-o 
numa vara lisa. Cindy no conseguia despregar os olhos da faca nem da vara.
    Papai, Cindy e eu fizemos uma busca completa na casa inteira, no sto, nos armrios embutidos, embaixo das camas, em toda parte. No conseguimos encontrar Mame.
    - Cathy no faria uma coisa dessas - disse Papai, preocupado. - Em especial, no deixaria Cindy sozinha com Bart. H algo muito errado.
    Sim, pensei eu, se havia algo errado naquela casa, era algum que nos observava enquanto descascava uma vara que deveria ser usada no seu traseiro despido.
    - Papai - sussurrei quando ele parou no centrO de seu quarto -, olhando em volta com desnimo e angstia. - Por que no supomos
que Bart saiba onde ela est ? Ele no  o menino mais honesto deste mundo. Voc sabe como ele vem-se portando loucamente nestes
ltimos tempos.
    Samos juntos do quarto, Papai ainda carregando Cindy no colo e comeamos a procurar por Bart. Agora, no conseguamos encontrar Bart. Ele sumira.
    Papai e eu nos entreolhamos. Ele sacudiu a cabea.
     Olhei em volta, sabendo que Bart tinha que estar escondido atrs de alguma poltrona, ou agachado em algum canto escuro, ou, talvez estivesse l fora, na chuva, 
agindo como um animal.
    Mas o temporal piorava. Sua toca na sebe no bastaria para mant-lo seco. At mesmo Bart teria senso suficiente para no ficar
l fora, no frio e na chuva.
    As idias em tumulto, eu me sentia violento como a tempestade. Eu nada fizera para merecer aquela encrenca toda - no obstante, estava envolvido nela, sofrendo 
#265
com Papai, Mame, Cindy... e, talvez, at mesmo Bart.
    - Voc me odeia agora, Jory? - perguntou Papai, encarando-me francamente. - As engrenagens rodam em seu crebro, dizendo que sua me e eu somos os causadores 
de tudo isto e merecemos pagar o preo? Est pensando que voc no deveria pagar preo
nenhum? Se  isso que est pensando, saiba que estou pensando a mesma coisa. Talvez a vida de sua me - assim como a sua e a de
Bart, tambm - fosse melhor se eu tivesse desaparecido e deixado que ela morasse na casa de Paul at encontrar outro homem. Mas
eu ainda a amava. Como amo agora, amarei amanh e sempre. Deus me ajude por ter sido incapaz de pensar em viver sem ela.
    Atordoado, virei-lhe as costas. Ento, era assim o amor ardente e duradouro, destruindo tudo que se interpusesse em seu caminho...
    Deitei-me na cama e solucei.
    Afinal, sentei-me e tentei adivinhar onde estaria Mame. Pela primeira vez dei-me realmente conta de que ela poderia estar em
perigo. Ela seria incapaz de abandonar Papai. Algo terrvel devia ter acontecido, ou ela estaria em casa, arrumando a mesa como costumava fazer s quintas-feiras, 
quando Emma tirava folga. As quintas-feiras
eram dias muito especiais para eles, por motivos que s agora eu comeava a entender.
     Quinta-feira, o dia em que as criadas de Foxworth Hall iam  cidade. Quinta-feira, o dia em que Papai e Mame podiam sair pela
janela do sto e se deitavam no telhado para conversarem. E, enquanto conversavam, enquanto se fitavam mutuamente naquele local
alto e solitrio apaixonaram-se inadvertida e incontrolavelmente um pelo outro.
     Pois, agora, eu sabia por que Mame se casara com um homem aps outro: tentava sempre fugir ao amor pecaminoso que ela
tambm sentia.
    Levantei-me. Decidido. Cabia-me encontrar Bart.
    - Quando encontrasse Bart, encontraria minha me.

MINHAS LEMBRANAS NO STO

    Na enorme cozinha da manso, John Amos tinha tudo sob controle. As criadas e o cozinheiro movimentavam-se afanosamente.
    - Madame teve que partir mais cedo - disse ele. - Agora, vocs devem arrumar as roupas que ela precisar para a viagem ao
Hava. E depressa. Lottie, quero que voc leve as malas dela ao aeroporto e as despache no avio. No fique a parada, olhando para mim com essa cara to estpida. 
#266
No entende ingls? Faa o que mando!
    Rapaz, ele sabia agir como malvado, quando queria! Os criados correram como pssaros assustados, cada um para seu lado. Ento, ficamos sozinhos e ele olhou para 
mim com um sorriso que exibia a dentadura quebrada.
    - Como foi o seu lado?
    Exatamente como no cinema, ele e eu. Engoli atravs do n que me ficara na garganta e no desaparecia.
    - Eles no sabem onde est Mame. Esto preocupados e no param de perguntar onde est ela.
    - No lhes d importncia - replicou ele com sua esquisita voz de velho, deixando-me espantado por ter sido escolhido por Deus
para uma misso to especial. - Cuidarei de tudo at que Deus envie o aviso de que sua me e sua av foram redimidas e salvas do fogo do inferno. V para casa e 
fique calado.
    O fogo em minha mente aumentava, tornando-se mais quente.
    - Voc me disse que minha me seria minha lembrana no sto. E agora, nem mesmo me conta onde a colocou. Procurei no sto e elas no esto l. Diga-me onde 
esto, ou voltarei para casa e contarei a meu pai o que voc fez.
    - O que eu fiz? - rosnou ele, franzindo desdenhosamente os lbios. - E o que voc fez, Bart Winslow Sheffield. Imagina, por
acaso, que tendo uma estria psiquitrica de tanta violncia, acreditaro em voc e no o culparo? A lei o prender, voc ser julgado culpado e trancafiado numa 
instituio.
    Quando ele viu a ira vermelha de Malcolm em seus olhos, tentou sorrir.
    - Vamos, Bart, queria apenas experiment-lo, para verificar se cederia e perderia a coragem. Mas voc  forte e cheio do poder dos justos, como seu bisav Malcolm. 
Tem todo o poder que ele possua.
E agora, chegou sua oportunidade de usar esse poder. Deste momento em diante, ficar encarregado dos adultos: sua me e sua av.
Controlar a vida delas, dar-lhes- de comer - se quiser - ou as deixar morrer de fome - se assim preferir. Contudo, precisa ter cuidado. Deve mant-las em segredo 
at... bem, lembre-se sempre de que seu pai e seu irmo ficaro desconfiados e talvez o traiam se voc lhes der a menor indicao do que pretende fazer.
    As pessoas sempre desconfiavam de mim. Se algo aparecia quebrado, a culpa era sempre minha. Se o vaso sanitrio se entupia e transbordava, era porque eu usara 
papel higinico demais. Se Mame perdia uma jia, a culpa tambm era minha. Agora, eu mostraria a todos o quanto estavam errados por no gostarem de mim.
    - Po e gua - declarei. - Po e gua sero o bastante para duas mulheres que foram infiis a maridos e filhos.
#267
    - timo, timo - murmurou John Amos.
    Carregando uma pequena lanterna eltrica, John Amos conduziu-me  estreita escada que levava ao poro. Sombras estranhas projetavam-se nas paredes, o ambiente 
era frio e mido. H muito tempo, quando aquela casa pertencia a mim e a Jory, tnhamos descoberto cada nicho l existente. No poro, entretanto, viviam os fantasmas; 
eu jamais me sentira  vontade naquele local. Portanto, mantive-me colado aos calcanhares de John Amos, aterrorizando-me
quando ele avanava mais de um metro  minha frente.
    - Eles procuraro aqui - sussurrei, temendo despertar coisas que pudessem estar adormecidas.
    - No, no procuraro onde as escondi - replicou John Amos, com uma risada semelhante a um cacarejo. - Seu pai ter certeza de que esto no sto. E por que 
no? Seria a vingana perfeita.
Entretanto, eles nunca encontraro a pequena jaula que os operrios fizeram quando levantaram uma nova parede de tijolos para reforar a adega.
    Adega. Aquilo no me soava to bem quanto o sto. No me metia tanto medo; mas, de todo modo, era muito frio e escuro l embaixo.
    John Amos comeou a afastar as teias de aranha, depois empurrou para os lados alguns mveis velhos e, finalmente, chegou a uma porta de tbuas, muito difcil 
de abrir.
    - Agora, v espiar por aquela portinhola na parte de baixo daquela porta, ali -disse ele. - Tnhamos uma gatinha perdida, que sua av adotou, mas desapareceu 
logo depois que voc comeou a visitar esta casa. Sua av me mandou cortar essa portinhola na porta maior, de modo que a gatinha pudesse entrar e sair  vontade.
    Com a lanterna segura abaixo do queixo, ele parecia um cadver exumado. Eu no duvidava que ele fechasse a porta atrs de mim e eu jamais conseguiria passar 
pela minscula portinhola.
    - No. Voc entra na adega primeiro - ordenei, como faria Malcolm.
    Ele ficou imvel por um instante. Ento, olhou-me demoradamente antes de entrar vagarosamente na adega. Talvez temesse que
eu fechasse a porta s suas costas. Ele colocou a lanterna numa das prateleiras e comeou a puxar a prateleira dos fundos, cheia de velhas e empoeiradas garrafas 
de vinho.
     Afinal, ela se abriu com um rangido. Fedia l dentro. Tapei o nariz e olhei. Depois, tornei a olhar. John Amos ergueu a lanterna, a fim de que eu pudesse ver 
melhor as duas prisioneiras.
     Oh, oh! Mame, Vov... como Mame parecia digna de piedade, deitada no concreto mido, com a cabea apoiada no colo de Vov. Ambas ergueram as mos, para protegerem 
os olhos contra a luz brilhante que penetrava to #268
subitamente em sua escura e miservel
masmorra. Estava to escuro que eu mal conseguia enxergar.
    - Quem ? - indagou minha me com voz enfraquecida. -  voc, Chris? Voc nos encontrou?
    Minha me estava cega, agora? Como podia pensar que John Amos fosse Papai? Se minha me ficasse cega, e louca tambm, Deus
consideraria isso castigo suficiente?
    Minha av falou:
    - John, sei que  voc. Liberte-nos imediatamente. Est ouvindo? Solte-nos imediatamente!
    John Amos riu.
    Eu no sabia o que fazer, mas Malcolm se apossou de meu crebro e ordenou:
    - D-me a chave, John Amos - disse minha voz num tom rspido. - Volte para cima e deixe que eu d po e gua s prisioneiras.
    Por que ele obedeceu? Pensava, realmente, que eu era to poderoso quanto Malcolm? Observei-o at que ele sumiu de vista. Ento, corri para passar a tranca em 
outra porta, a fim de que ele no pudesse esgueirar-se s minhas costas.
    Sentindo-me mais Malcolm que Bart, avanei de gatinhas, empurrando  minha frente a bandeja de prata com meio po grande e uma jarra de prata contendo gua. 
No me pareceu estranho servir comida de priso numa bandeja de prata, pois era assim que minha av sempre fazia as coisas: com elegncia.
     Agora, a porta grande estava fechada. Parecia apenas uma outra prateleira cheia de garrafas de vinho empoeiradas. Deitado de bruos, enfiei os braos sob a 
prateleira inferior e abri a portinhola, que girava para dentro. Por que a gatinha gostava do fundo, na parte mais escura?
    - Po e gua - declarei num tom duro e lacnico, empurrando depressa a bandeja pela portinhola.
    Tornei a fechar a pequena porta e peguei um tijolo para cal-la, a fim de que elas no me pudessem avistar se a empurrassem.
    Fiquei para espion-las. Escutei minha me gemer, chamando por Chris. Ento, ela me surpreendeu:
    - Mame... Aonde foi Mame, Chris? Faz tanto tempo que ela no nos visita... Meses e meses... Os gmeos no crescem...
    - Cathy, Cathy, minha pobre querida, pare de pensar no passado - disse minha av. - Por favor, agente firme. Coma e beba,
para conservar as foras. Chris vir salvar-nos. 
    - Cory, pare de tocar sempre a mesma msica. J estou farta dessa letra. Por que escreve msicas to tristes? A noite acabar; tem que acabar. Chris, por favor, 
diga a Cory que o dia logo raiar.
#269
    Ento, ouvi soluos. De minha av?
    - Oh, meu Deus! - exclamou ela. -  assim que acabar? Ser que no consigo fazer nada certo? Desta vez, eu tinha tanta
certeza de que tudo acabaria bem! Por favor, meu Deus, no permita que eu falhe com todos eles!
    Escutei-a rezar em voz alta. Rezar para que minha me melhorasse, para que seu filho as encontrasse antes que fosse tarde demais. Repetia interminavelmente as 
mesmas  palavras, enquanto minha me continuava a fazer perguntas tolas.
    Fiquei sentado, escutando, durante longo tempo. Senti cibras nas pernas. Tornei-me velho e cansado por dentro, como se estivesse  trancado l dentro, com elas, 
maluco, faminto, sofrendo, morrendo.
    - Vou-me embora - murmurei. - No gosto deste lugar.

    Estava escuro. Ningum em casa. Agora, eu podia correr  geladeira e roubar comida. Estava enfiando na boca outra fatia de
presunto, quando Madame Marisha abriu a porta da garagem e entrou na cozinha.
    - Boa-noite, Bart - disse ela. - Onde esto seu pai e Jory? 
    Sacudi os ombros. Ningum me contava nada. No sabia por que Papai e Jory sairiam, deixando Cindy sozinha comigo. Ento, Emma gritou de outro lugar da casa.
    - Ol, Madame Marisha. O Dr. Sheffield avisou-me de que a senhora chegaria a qualquer momento. Sinto muito que a senhora tenha tamanho incmodo. Logo que fui 
informada do desaparecimento de Cathy, no consegui ficar fora de casa. Tenho que saber
o que aconteceu com ela. Estava to doente, to febril, que eu no deveria sair e deix-la sozinha.
    Ento, Emma me avistou.
    - Bart! Seu garotinho malvado! Como se atreve a aumentar as preocupaes de seu pai, sumindo tambm?  um menino mau e sou capaz de apostar que sabe alguma coisa 
sobre o paradeiro de sua me!
    As duas velhas me olhavam raivosamente. Odiavam-me com seus olhos malvados. Fugi, sabendo que logo iria chorar e que no
podia permitir que me vissem chorando - agora que precisava agir exatamente como Malcolm: o desalmado.

A BUSCA

    A noite no era propcia a homens ou animais. Chovia - como quando No construra a arca. O vento gritava e uivava, tentando
dizer-nos alguma coisa, como msica selvagem que nos destruiria o crebro. Acompanhei o #270
passo de Papai, o que no era fcil, pois eu
ainda no tinha pernas to compridas quanto as dele. As mos de Papai comprimiam-se em punhos cerrados. Cerrei tambm os meus,
pronto a lutar ao lado dele se houvesse necessidade. 
    - Jory - disse Papai, sem diminuir o passo. - Com que freqncia Bart vem aqui?
    A essa altura, chegamos aos portes de ferro e ele se curvou para falar na caixinha que levaria sua voz ao interior da casa.
    - No sei - repliquei, infeliz. - Bart costumava confiar em mim, mas agora no confia em ningum. Portanto, no me conta
mais o que faz. 
    Devagar, muito devagar, os portes se abriram. Pareciam esqueletos de mos negras, acolhendo-nos em nossas sepulturas. Estremeci, refletindo que me estava tornando 
to mrbido quanto Bart. Tive que correr para acompanhar Papai.
    - Preciso dizer uma coisa - gritei, a fim de fazer-me ouvir acima do barulho do vento. - Logo que descobri que voc era
irmo de Mame e nosso tio, pensei que o odiava - e a ela, tambm. Pensei que jamais conseguiria perdoar qualquer um dos dois por
me envergonharem e desapontarem tanto. Pensei que secaria por dentro e nunca mais amaria ou confiaria em ningum. Mas agora,
que Mame desapareceu, compreendo que sempre amarei vocs dois. Mesmo que deseje, no consigo detest-los.
    No escuro, sob a chuva fustigante, ele se virou para estreitar-me contra o peito, e a mo comprimindo minha cabea sobre o corao. Creio que o escutei soluar.
    - Jory, voc no imagina o quanto desejei ouvi-lo dizer que no me odeia, nem a sua me. Sempre esperei que voc entendesse, quando lhe contssemos. E amos 
realmente contar-lhe, quando voc fosse mais velho. Julgamos, talvez tolamente, que deveramos aguardar mais alguns anos. Agora, porm, que voc descobriu sozinho, 
e ainda
 capaz de amar-nos, talvez consiga entender mais tarde.
    Aproximei-me mais de Papai e seguimos em direo  sombria manso. Eu sentia que se criara entre ns um lao mais forte que antes. Sob certo aspecto, ele passara 
a ser mais meu pai, pois tinha muito do sangue que me corria nas veias. Sangue do meu sangue,
pensei, meu tio e tio de Bart, embora eu sempre pensasse que ele era tio de Bart e isso me causasse um pouco de cime. Agora, eu sabia que ele era meu tio tambm. 
Contudo, por que no haviam percebido que eu era maduro para minha idade e teria compreendido quando me contassem que Mame tivera um caso com o pai de Bart... Teria... 
creio.
    Chegamos aos degraus. Antes que Papai pudesse bater com a aldrava, a parte esquerda da porta dupla se abriu e l estava o mordomo, John Amos Jackson.
#271
    - Estou arrumando as malas - disse ele  guisa de recepo, com uma feia carranca. - Minha mulher partiu para o Hava. Tenho um milho de coisas para fazer, 
sem ter que entreter visitantes. Pretendo juntar-me a ela to logo terminar o que preciso fazer aqui.
    - Sua mulher! - berrou Papai, com um espanto to bvio que tambm me chocou.
    Um brilho de satisfao passou pelos olhos do mordomo.
    - Sim, Dr. Christopher Sheffield, a Sra. Winslow est atualmente casada comigo.
    Pensei que Papai fosse cair com o choque.
    - Quero falar com ela. E no acredito em voc. Ela teria que ficar louca para se casar com voc.
    - Eu no minto - replicou o feio e sinistro mordomo. - E ela est louca. Algumas mulheres no podem viver sem homem que cuide de seus negcios. E  exatamente 
isso que eu sou: um apoio para ela.
    - No acredito! - esbravejou Papai. - Onde est ela? E onde est minha esposa? Voc a viu?
    O mordomo sorriu.
    - Sua esposa, Doutor? J tenho bastante trabalho para cuidar da minha, sem me preocupar com a sua. Ontem, minha esposa ficou irritada com este clima horrvel 
e partiu com uma das criadas. Disse que eu deveria juntar-me a ela posteriormente, depois que providenciasse o fechamento desta casa. Depois de todo o trabalho e 
despesa que teve para mandar reformar e redecorar a manso, quer mudar-se daqui.
    Papai permaneceu imvel, encarando John Amos Jackson. Julguei que fssemos embora, ento, mas Papai parecia pregado ao cho.
    - Sabe quem eu sou, no sabe, John? No negue. Estou vendo em seus olhos. Voc  o mordomo que fez amor com a copeira Livvie, enquanto eu estava deitado no cho, 
atrs do sof, e escutei voc falar com ela a respeito do arsnico nas rosquinhas destinadas a matar os camundongos do sto.
    - No sei do que est falando - negou o mordomo, enquanto eu olhava dele para Papai e vice-versa.
    Oh, eu deveria ter lido cada pgina dos originais do livro de Mame. As coisas eram ainda mais complicadas do que eu imaginara.
    - John, talvez voc se tenha casado com minha me, mas talvez esteja mentindo. No obstante, creio que sabe o que aconteceu  minha mulher e, agora, estou preocupado 
tambm com minha me. Portanto, saia de meu caminho. Vou revistar essa casa do telhado
aos alicerces.
#272
    o mordomo empalideceu.
    - No pode entrar aqui e me dizer o que devo fazer - murmurou indistintamente. - Posso chamar a polcia...
    - Mas no chamar. E, se quiser chamar, v em frente e chame. Vou revistar a casa agora, John. Voc nada pode fazer para me
impedir.
    O velho mordomo se afastou arrastando os ps e sacudindo os ombros num gesto de impotncia.
    Juntos, Papai e eu demos a busca na casa. Eu conhecia a manso muito melhor que ele, todos os armrios embutidos, todos os nichos, todos os lugares secretos. 
Papai insistia em afirmar que elas estariam
no sto. Mas quando subimos at l e procuramos, s encontramos coisas velhas e empoeiradas.
    Retornamos  sala onde a mulher que ele chamava de me tinha a dura cadeira de balano. Sentei-me nela e verifiquei que era
bastante confortvel. Papai andava nervosamente pela sala. Ento, parou
no arco que dava para a sala vizinha, na qual estava pendurado o enorme retrato a leo.
    - Se Cathy veio aqui, deve ter visto esse quadro. E poderia ter vindo, se Bart lhe dissesse alguma coisa.
    Balanando-me na cadeira, fi-la.. "andar" para um pouco mais perto do fogo que morria na lareira. Algo estalou sob um dos ps da cadeira de balano. Papai escutou 
o rudo e se abaixou para apanhar um objeto. Era uma prola.
    Ele atestou com os dentes e sorriu amargamente.
    - Minha me possua um colar de prolas com o fecho de brilhantes, em forma de borboleta. Usava-o sempre, assim como nossa
av sempre usava o broche de brilhantes. No acredito que minha me fosse a algum lugar sem aquelas prolas.
    Mais uma hora de busca pela casa e de interrogar a copeira e o cozinheiro mexicanos, que no entendiam direito ingls, e tanto eu como Papai ficamos frustrados.
    - Eu voltarei, John Amos Jackson - disse Papai, ao abrir a porta da frente. - E, da prxima vez, trarei a polcia.
    - Como quiser, Doutor- replicou o mordomo, com um sorriso tenso e malicioso.
    - Papai, no podemos notificar a polcia... podemos?
    - Notificaremos, se for necessrio. Mas vamos esperar ao menos at amanh. Ele no ousaria fazer mal a Cathy ou  minha me,
pois acabaria atrs das grades.
    - Papai, aposto que Bart sabe o que est acontecendo. Ele e John Amos so muito amigos.
    Ento, expliquei como Bart sempre falava consigo mesmo quando julgava estar sozinho. Falava dormindo, tambm, e quando brincava de faz-de-conta. Eu tinha a impresso 
de que 
#273
a parte mais importante da vida de Bart era passada em solido, falando consigo mesmo.
    - Muito bem, Jory, entendo o que voc est querendo dizer. Tenho uma idia e espero que d resultado. Este talvez seja o papel mais importante que voc j representou; 
portanto, preste ateno. Amanh de manh, voc apenas fingir que vai  escola. Deix-lo-ei saltar do carro logo que fizermos a curva na estrada. Corra de
volta para casa, certificando-se de que Bart no veja. Tentarei descobrir se minha me realmente partiu para o Hava e est mesmo
casada com aquele velho horrvel.

VOZES SUSSURRANTES

    Perguntas, perguntas, tudo o que eles me faziam eram perguntas.
     Eu no sabia nada, nada. No era culpado,  no era. Por que perguntar a mim? Meninos malucos no do respostas certas.
    - Mame foi embora porque me detestava, mesmo quando eu ainda era beb.
    Naquela noite, marafonas, prostitutas e mulheres de m vida vieram danar-me na cabea. Acordei. Escutei a chuva batendo no
telhado. Ouvi o vento uivando em minha janela.
     Adormeci outra vez e sonhei que era como Tia Carrie, que no crescera o bastante. Sonhei que rezava, rezava... at que um
dia Deus me permitiu crescer e ficar to alto que minha cabea tocava o cu. Olhei para baixo e vi as pessoas correndo como
formigas, com medo de mim. Ri e pisei no oceano, provocando maremotos que se erguiam para inundar as grandes cidades. Gritos por
toda parte. Todas as pessoas que eu no esmaguei com os ps morreram afogadas. Sentei-me no oceano, que me chegava  cintura, e chorei. Minhas lgrimas eram to 
grandes que fizeram o oceano subir novamente. E tudo o que eu conseguia ver agora ao meu redor era minha imagem refletida na gua - e, agora, eu era belo. Agora, 
que no restava no mundo uma s garota ou mulher para me amar e me admirar, eu era belo, alto e forte.
    Relatei meus sonhos a John Amos. Este meneou a cabea e respondeu que, quando jovem, costumava sonhar com garotas a quem
seria capaz de amar muito - se ao menos elas no notassem o quanto seu nariz era comprido.
     Eu possua outros atributos que no lhes daria porque elas nunca me deram oportunidade. Nunca.
#274
    Na manh seguinte, Jory saiu com Papai. Foi fcil escapar de Emma e Madame Marisha, porque elas tinham que mimar muito Cindy. E isso deu-me oportunidade de esgueirar-me 
at a manso vizinha. Entrei furtivamente,  procura de John Amos. Ele estava arrumando todos os abajures, quadros e outros objetos valiosos, acondicionando-os em 
caixotes.
    - A prataria deve ser embrulhada em papel  prova de azinhavre - disse ele a uma das criadas. - E tome cuidado com as
porcelanas e cristais. Quando o pessoal da mudana chegar, diga-lhes que arrumem primeiro os mveis melhores, pois talvez eu esteja ocupado em outro lugar.
    A criada mais bonita era jovem. Franziu a testa. 
    - Sr. Jackson, por que temos que ir? Pensei que Madame gostava daqui. Ela nunca falou em nos mudarmos.
    - Sua patroa  uma mulher que muda muito de opinio - por causa daquele garoto biruta, da casa vizinha. O pequenino, que
vem sempre aqui, tornou-se uma chateao de verdade. Matou o co que Madame lhe deu de presente. Suponho que nenhuma de vocs saiba disso, no ?
    Olhei para o interior da sala e vi a criada boquiaberta de pavor.
    - No... Pensamos que o co tinha ido para a casa do menino...
    - O moleque  perigoso!  por isso que Madame precisa mudar-se: ele lhe ameaou a vida, mais de uma vez. Est sendo tratado
por um psiquiatra.
    Todos se entreolharam, fazendo com os dedos movimentos circulares ao lado da cabea. Louco! Louco de raiva contra John Amos, que mentia a meu respeito.
    Esperei at que ele ficasse sozinho, sentado  bela escrivaninha onde minha av guardava o talo de cheques. Sobressaltou-se quando entrei.
    - Bart! Eu gostaria que voc no se esgueirasse furtivamente, desta maneira. Faa algum rudo quando entrar, pigarreie, tussa... faa algo para anunciar sua 
presena.
    - Escutei o que voc disse s criadas. No sou maluco!
    - Claro que no - disse ele, sibilando como sempre. - Mas tenho que lhes dar alguma desculpa, no ? Do contrrio, poderiam
ficar desconfiadas. Como as coisas esto, elas julgam que sua av partiu, de viagem para o Hava...
    Senti-me doente por dentro, parado ali, calcando as pontas dos sapatos de tnis no cho e olhando para eles.
    - John Amos... posso levar hoje sanduches para minha me e minha av?
#275
    - No. Ainda no podem estar famintas.
        Eu sabia que ele diria aquilo.
    Ento, John Amos se esqueceu de mim. Comeou a examinar os tales de cheques, extratos de contas e recibos bancrios de minha av, soltando risadinhas. Encontrou 
uma chave minscula e abriu uma pequena gaveta disfarada no fundo da escrivaninha.
    - Mulher estpida. Pensava que eu no perceberia onde ela escondia a chave...
    Deixei-o a divertir-se com as coisas de minha av e desci s escondidas para a gaiola onde estavam presas minhas ratinhas.
Sentia-me melhor ao pensar nelas apenas como ratinhas.
    Minha me gemia, choramingando de frio, quando espiei para o interior da cela e percebi que tinham acendido o pequeno coto de vela. Eu empurrara para a masmorra 
uma vela e alguns fsforos, a fim de poder observar o que elas faziam l dentro. Mame parecia minscula e plida. Minha av ainda lhe amparava a cabea no colo, 
limpando-lhe o rosto com um trapo que devia ter arrancado de sua combinao, pois tinha uma orla de renda num dos lados.
    - Cathy, meu amor, a nica filha que me resta, escute-me, por favor. Tenho que falar agora, pois talvez no haja outra oportunidade. Sim, cometi erros. Sim, 
permiti que meu pai me atormentasse at eu no saber distinguir o certo do errado, ou ter idia de que caminho tomar. Sim, coloquei arsnico nas rosquinhas, julgando 
que cada um de vocs ficaria apenas um pouco doente, dando-me a oportunidade de retir-los de l, um a um. No queria que nenhum
de vocs morresse. Juro que os amava - todos quatro. Carreguei Cory at o carro, onde ele exalou o ltimo suspiro quando eu o deitava
no banco traseiro e o abrigava com dois cobertores. Entrei em pnico. No sabia o que fazer. No podia procurar a polcia e sentia tanta vergonha, tanto remorso.
    Ela sacudiu minha me, enquanto eu tambm estremecia.
    - Cathy, minha filha, por favor, acorde e me escute - implorou ela.
    Mame acordou e deu a impresso de tentar focalizar os olhos. 
    - Querida, no acredito que Bart tenha matado o co que lhe dei. Ele adorava Ma. Acho que foi John Amos, esperando que 
Bart levasse a culpa e fosse considerado louco, perigoso, de modo que a polcia considerasse Bart culpado quando voc e eu desaparecssemos. Penso que John estrangulou 
o cozinho de estimao de Jory e, tambm, matou minha gatinha.
    - Bart  um garotinho muito solitrio e confuso, Cathy, mas no  perigoso. Gosta de fingir que , pois assim pode sentir que
se transformar num homem poderoso. Mas John  o perigoso. Ele me odeia. At poucos anos atrs, eu no sabia que John teria herdado
a fortuna da famlia Foxworth se eu no voltasse a Foxworth Hall aps a morte de seu #276
pai. Meu pai confiava em John como no
confiava em mais ningum, talvez por serem ambos to semelhantes um ao outro. Todavia, quando eu voltei para casa, ele esqueceu John. Na verdade, retirou John do 
testamento e tornou a fazer de mim sua nica herdeira. Cathy, voc est ouvindo?
    - Mame,  voc, Mame? - indagou minha me com voz sumida, parecendo uma criana em dificuldades. - Mame, por que no olha para os gmeos, quando vem visitar-nos? 
Por que no nota que eles no esto crescendo como deviam? No os v propositalmente? Prefere ignor-los, para no sentir remorso e vergonha?
    - Oh, Cathy! - exclamou vov. - Se ao menos voc soubesse o quanto di ouvi-la dizer isso depois de todos esses anos! Ser que a magoei tanto, que voc jamais 
conseguir cicatrizar as feridas! Voc e Chris, tambm? No  de espantar que voc e seu irmo... Oh, sinto muito. Sinto tanto que chego a ter vontade de morrer.
    Contudo, controlou-se logo e prosseguiu, com o que chamou de "desesperada urgncia".
    - Mesmo que voc esteja delirante e no consiga entender bem, preciso falar agora, ou talvez no viva o bastante para lhe dizer
tudo. Quando John Amos era jovem, por volta dos vinte e cinco anos, desejava possuir-me carnalmente, embora eu tivesse apenas dez anos de idade. Escondia-se nos 
cantos para espiar-me e depois corria a meu pai e pintava com cores negras meus atos mais inocentes. No pude convencer meus pais de que John mentia, pois eles nunca 
acreditavam
em mim - mas sempre nele. Recusavam-se a admitir que uma jovem  frequentemente perseguida por homens mais velhos, at mesmo seus parentes. John era primo em terceiro 
grau de minha me e nico membro da famlia que meu pai conseguia tolerar. Creio que meu pai enfiou na cabea, depois que meus dois irmos mais velhos morreram, 
que se algum dia eu casse em desgraa, John seria o seu herdeiro. Era a maneira pela qual meu pai extraa o mximo das pessoas: colocando-lhes diante dos olhos 
frutos suculentos que
desapareciam quando a vtima tentava peg-los. John tambm ambicionava a riqueza de minha me. E meus pais o encorajavam a
pensar que poderia herdar tudo. Consideravam-no um santo. Ele assumia
uma atitude piedosa o tempo todo, comportando-se como um bom servo de Deus, enquanto seduzia todas as criadinhas jovens e bonitas que vinham trabalhar em Foxworth 
Hall. E meus pais jamais desconfiaram. Consegue entender, agora, por que motivo John me odeia? Por que motivo ele tambm odiava meus filhos? Se eu permanecesse em 
Gladstone, ele seria o nico beneficirio da fortuna. 
    Um dia, escutei-o no corredor, Sussurrando a Bart, seu filho, que eu usara minhas "manhas femininas" para induzir meu pai a deserdar o nico homem que era seu 
amigo e confidente.
#277
    Ento, Vov comeou a chorar. Encolhi-me todo, doendo por dentro com tudo o que estava descobrindo. Malcolm tambm era
ruim? Em quem poderia eu confiar, agora? Seria John Amos to traioeiro com suas "manhas masculinas" quanto minha av com as
suas femininas? Seriam todos to ruins quanto minha av e minha me? Estaria Deus do meu lado, do lado dela, ou do lado de John?
    - Mame, voc ainda est a, Mame?
    - Sim, querida, ainda estou aqui. Ficarei e cuidarei de voc como nunca cuidei antes. Desta vez, serei a me que deveria ter sido outrora. Desta vez, salvarei 
voc e Chris.
    - Quem  voc? - quis saber minha me, erguendo-se repentinamente e empurrando minha av para longe de si. - Oh! - gritou
ela. - Voc! No se satisfez com matar Cory e Carrie; agora, voltou para me matar, tambm. Ento, ter Chris s para voc, com
exclusividade, todo seu...
    Mame se interrompeu e comeou a chorar. Depois, berrou como se tivesse enlouquecido, repetindo incessantemente que odiava sua me.
    - Por que voc no morre, Corrine Foxworth - por que no morre?
    Fui embora. No consegui suportar mais. Eram ambas ruins. 
    Contudo, por que me sentia to magoado?

DETETIVE

    Como Papai e eu planejramos, na manh seguinte sa com papai no carro, a caminho da escola. Ento, ele me deixou na estrada
que levava  nossa casa.
    - Agora, calma, Jory .No faa nada que coloque sua vida em perigo e no permita que Bart ou aquele mordomo desconfiem de suas intenes. Lembre-se de que podem 
ser perigosos.
    Abraou-me com fora, como se temesse que eu pudesse agir com imprudncia.
    - Oua-me com ateno, agora. Vou procurar o psiquiatra de Bart esta manh e relatar-lhe o que ocorreu. Ento, verificarei nos aeroportos se minha me viajou 
para algum lugar, embora saiba que
 muito pouco provvel. Contudo, duas mulheres desaparecerem no mesmo dia  coincidncia demais.
    Eu precisava falar. Por mais que temesse ouvir o som das palavras saindo de meus lbios, eu tinha que falar.
    - Papai, j levou em considerao que Bart poderia... bem, voc sabe. Trevo foi estrangulado com arame farpado. Ma foi deixado sem alimento e, depois, atravessado 
com um forcado. Quem sabe o que ele seria capaz de fazer em seguida?
#278
    Papai me deu uma palmada no ombro.
    - Sim, claro que pensei nisso. Mas no consigo imaginar Bart dominando sua me  fora. Ela  muito forte, apesar de estar
gripada. Isso  o que mais me preocupa, Jory. Sua me estava com trinta e nove graus de febre e a temperatura elevada enfraquece as pessoas. Eu deveria ter ficado 
em casa, para cuidar dela. Uma mulher tem que ser idiota para casar-se com um mdico -concluiu
amargamente, como se esquecido de minha presena.
    Durante todo o tempo, o motor do carro ronronava suavemente. Papai pousou a testa nas mos que seguravam o volante.
    - Papai... v em frente e faa o possvel para verificar junto s companhias areas. Cuidarei de tudo aqui.
    E, numa exploso de excesso de confiana, acrescentei: 
    - E no se esquea: Madame M. est conosco. Voc sabe como ela . Bart no conseguir fazer tramias com ela por perto.
    Sorrindo, como se eu lhe tivesse dado a segurana necessria, ele fez um aceno de despedida e partiu, deixando-me  beira da
estrada a imaginar o que deveria fazer. A chuva feroz da vspera reduzira-se a um chuvisco constante, incmodo e frio, mas no violento.
     Voltando para casa, escondi-me atrs da sebe, encharcado, enquanto Bart, na cozinha, recusava-se a tomar o caf da manh.
    - Detesto tudo que voc prepara - declarou ele, amuado.
    Fiquei surpreso ao escutar to nitidamente a voz dele. Ento, sorri e parei de sentir-me assustado: era o sistema de intercomunicao, que estava ligado. Freqentemente, 
os homens que vinham
fazer entregas procuravam nossa porta dos fundos, em vez de usarem a alameda especial na frente da casa. Nossa saleta, na copa,
ficava perto de um painel na parede, com dzias de botes e interruptores. Lembrei-me de que, durante a construo da casa, Mame
insistira em ter "msica em todos os aposentos, de modo que o trabalho domstico no parea to enfadonho".
    Em seguida, veio a voz estridente de Madame M.:
    - Bart, o que h de errado com seu cereal?
    - No gosto de cereal com passas.
    - Ento, no coma as passas.
    - Elas se metem no caminho.
    - Tolice. Se no tomar o caf da manh, tambm no almoar.
    E se no almoar, no ter jantar - e um menino de dez anos ir para a cama com muita fome!
    - No pode me matar de fome! - gritou Bart. - Esta casa  minha! Seu lugar no  aqui! V embora!
    - Eu NO irei embora. Vou ficar at sua me voltar em segurana. E no se atreva a levantar a voz para mim outra vez, ou o
colocarei no colo e lhe espancarei o traseiro at voc gritar por perdo!
#279
    - No doer - zombou ele.
    E no doeria, mesmo. Surras nunca preocuparam Bart, cuja pele no possua terminaes nervosas superficiais.
    - Muito obrigada pela informao - disse Madame M., com a maior calma. - Neste caso, pensarei num castigo mais adequado... tal como mant-lo dentro de casa, 
trancado no quarto.
    A essa altura, eu j estava espiando pela janela da cozinha. Bart continuou sentado, com um sorriso secreto nos lbios.
    - Emma, - ordenou Madame M. - retire o prato de Bart, a tigela e o suco de laranja, tambm. Bart, v direto para seu quarto e no permita escutar um pio de sua 
parte, at que esteja disposto a sentar-se  mesa e fazer as refeies sem reclamar.
    - Bruxa, velha bruxa negra que veio morar em nossa casa - cantou Bart, retirando-se com andar displicente.
     Mas no foi para seu quarto; fugiu pela porta da garagem quando Madame M. no estava olhando. Dali, encaminhou-se ao muro do
jardim e ao velho carvalho, no qual poderia trepar para pular o muro.
    Corri o mais depressa possvel, seguindo-o. Todavia, no interior da manso, perdi-o de vista. Onde se metera Bart? Olhei para um lado, para outro, para trs, 
fiz um giro vagaroso. Ele desaparecera. Subira a escada ou descera ao poro? Eu detestava aquela casa, com seu labirinto de compridos corredores, contendo tantos 
nichos entre as paredes, nos quais poderiam ter ocultado Mame. Normalmente, pelo que eu sabia, o construtor reserva os espaos que sobram para a instalao de armrios 
embutidos ou prateleiras. Naquele caso, porm, como eu j verificara, o homem fizera portas secretas. Todavia, eu j dera busca em todos os compartimentos secretos. 
Seria intil revist-los outra vez.
    De repente, escutei um passo. Bart estava logo atrs de mim. Olhou atravs de meu corpo, os olhos esgazeados fitando o vcuo. No pude acreditar que ele no 
me vira.
    Segui-o silenciosamente, acreditando que ele me conduziria ao local onde Mame e a me dela estavam escondidas. Infelizmente, ele voltou para casa. Desanimado, 
sentindo-me doente, acompanhei-o  distncia, tendo a impresso de que trara meu pai, fracassando
perante ele.
    Na hora do almoo, Papai chegou em casa cansado, parecendo desolado.
    - Teve sorte, Jory?
    - No. E voc?
    - Tambm no. Minha me no partiu para o Hava. Verifiquei junto a todas as companhias areas. Jory , tanto Cathy como
minha me devem estar no interior daquela manso.
#280
    Tive uma idia.
    - Papai, por que no tem uma longa conversa com Bart? No o acuse ou condene; diga-lhe apenas coisas agradveis. Faa-lhe
elogios por tratar bem Cindy, diga-lhe o quanto voc o ama. Sei que ele est por detrs de tudo isto, pois vive murmurando a respeito do Senhor e de ser o anjo negro 
da vingana.
    Papai no encontrou o que dizer enquanto digeria minha informao. Ento, calado, foi procurar Bart e fazer o possvel para que
um garotinho indesejvel se sentisse necessrio - se j no fosse tarde demais.

A LTIMA CEIA

    Mais tarde, tornei a descer ao poro com John Amos. 
    - Corrine -chamou ele baixinho, curvando-se com dificuldade.
    Desajeitado como eu, ajoelhou-se e espiou atravs da portinhola que mandara abrir para a gatinha.
    - Quero que voc e sua filha saibam que esta ser sua ltima refeio. Portanto, tratem de aproveit-la.
    Levantou a tampa do bule de prata cheio de ch e cuspiu l dentro. Em seguida, derramou o lquido fumegante em duas xcaras
de fina porcelana.
    - Uma para voc e outra para sua filha - declarou. 
    Empurrou uma xcara com pires atravs da portinhola e, em seguida, fez o mesmo com a segunda. Depois, pegou um prato de
sanduches que pareciam velhos e um tanto sujos. Ento, conseguiu largar o prato no cho imundo do poro.
     Pegou os pequenos tringulos de po e limpou-os na perna da cala, empurrou de volta a carne que sara do po e, finalmente, fez passar pela portInhola o prato 
de comIda coberta com p de carvo.
    - Eis a, Corrine Foxworth - rosnou John Amos em Sua voz sibilante. - Espero que esses lindos sanduches estejam a seu gosto,
sua puta. Aceitei sua palavra quando se casou comigo, pensando que seria realmente minha esposa - e, muito embora no tenha sido minha mulher da maneira que eu esperava, 
eu ainda herdarei tudo, que
me pertence por direito. Afinal, consegui destruir voc e os seus, exatamente como Malcolm queria destruir todos os seus filhos do Demnio.
    Precisava ele odiar tanto minha av? Talvez ela no tivesse culpa, assim como eu, que s vezes no me conseguia controlar. Por
que todo mundo fazia maldades com os outros e chamava a desculpa de "herana"?
#281
    - Exibiu sua beleza aos meus olhos! - berrou o velho enraivecido. - Atormentou-me quando era criana, provocou-me quando era adolescente. julgando poder divertir-se 
 vontade, pois eu no poderia vingar-me! Depois, casou-se com seu meio-tio e voltou para deserdar-me. tratando-me como se eu nem existisse, como se no passasse 
de mais um mvel, que devia ser ignorado! Bem, sente-se
arrogante, agora, Corrine Foxworth? Sente-se altaneira, sentada no lixo, na sua prpria imundcie, segurando no colo enxovalhado a
cabea moribunda de sua filha? Afinal, consegui obrig-la a rastejar, no  mesmo? Derrotei-a em seu prprio jogo, roubei-lhe o afeto de Bart. levei-o a desconfiar 
de voc e confiar em mim. Agora, est impossibilitada de usar seu encanto e suas manhas femininas.  tarde demais. Agora eu a odeio, Corrine Foxworth. Paguei caro 
por cada mulher que fiz de conta ser voc; mas isso acabou. Venci. E, embora tenha setenta e trs anos de idade, ainda viverei mais cinco ou seis num luxo suficiente 
para compensar todos os anos de sofrimento nas
suas mos.
    Minha av chorava baixinho. Eu tambm chorava, tentando adivinhar quem estava certo - ele ou ela?
    John Amos estava dizendo coisas terrveis. Palavras feias, maldosas, ruins, que os meninos escreviam nas paredes dos banheiros.  Gente adulta no devia falar 
assim, especialmente diante de minha av e de minha me.
    - John! - gritou Vov. - J no fez o bastante? Solte-nos e serei sua esposa da maneira que voc quiser, mas, por favor, no
castigue mais minha filha. Ela precisa ir para um hospital. Se voc a deixar morrer, e eu tambm, a polcia considerar assassinato.
    John Amos limitou-se a rir e tornar a subir pesadamente a escada.
    No consegui mover um msculo. Estava congelado, to confuso que no sabia quem era bom e quem era mau.
    - Bart! - gritou minha av. - Corra depressa a seu pai e diga-lhe onde estamos! Corra, corra.
    Com o olhar turvo, permaneci onde estava. No sabia o que fazer.
    - Por favor. Bart - suplicou ela - V dizer a seu pai onde estamos.
    Malcolm... seria ele, l no canto, o rosto de fantasma olhando para mim? Passei a mo suja de fuligem nos olhos embaados.
Escuro. to escuro. Pretendia ir embora. mas fiquei. Queria ouvir mais verdades.
    Na escurido, a voz fina de minha me gritava para a velha que era me dela, minha av.
    - Oh, sim, mame. Compreendi tudo que voc disse. No tnhamos a menor chance - no importa quem morresse ou quem
#282
continuasse vivo - quando voc nos levou para Foxworth Hall e nos trancou l em cima. Agora, muitos anos mais tarde, morreremos s
porque aquele velho mordomo maluco no herdou o dinheiro que esperava, que lhe foi prometido h muitos anos por um homem que
j morreu... e se voc acredita nisso,  to louca quanto ele.
    - Cathy, no negue a verdade s porque me detesta tanto. Estou-lhe dizendo a verdade. No consegue ver como John se
aproveitou de seu filho, o filho do meu Bart? No entende o quanto  perfeita a vingana dele? Usar o filho do homem que ele odiava, o homem que ele acredita ter 
tomado o seu lugar, quando ele poderia ter-se casado comigo se meu pai conseguisse forar-me a isso. Oh, voc nem imagina o quanto meu pai tentou convencer-me de 
que eu devia casar-me com ele, permitindo-lhe herdar metade da fortuna. Ele no sabia - ou talvez soubesse - que John queria a fortuna inteira. E quando voc e eu 
morrermos, o condenado no ser John - ser Bart. Foi John quem matou Trevo e Ma.  John quem sonha possuir o poder de Malcolm, a riqueza de Malcolm. No estou 
imaginando coisas quando o escuto resmungar incessantemente
sozinho.
    - Como Bart - murmurou Mame, num tom muito esquisito. - Bart est sempre fingindo ser velho e frgil, mas rico e poderoso.
Pobre Bart... E quanto a Jory? Ser que ele pegou Jory? Onde est Jory?
    Por que ela tinha piedade de mim, no de Jory? Levantei-me e fui embora.
    Tambm eu seria louco - como ele? Seria um assassino em potencial - como ele? No sabia nada a respeito de mim mesmo. Tinha a mente confusa, a vista turva, mas 
consegui movimentar as pernas pesadas como chumbo e, de algum modo, subir todos aqueles degraus.

AGUARDANDO

    Ele era o nico pai que eu conseguia lembrar bem; e eu o amava ainda mais nesse tipo de relacionamento. Estendeu-me a mo e
disse-me o que precisvamos fazer; eu o segui, como o teria seguido cegamente a qualquer lugar aonde ele me conduzisse. Pois, de toda situao terrvel tem que surgir 
algo de bom e, agora, eu sabia o quanto ele significava para mim.
    Com Papai mostrando o caminho, voltamos - mais uma vez -  manso vizinha. No vramos Bart durante a tarde inteira. Como
#283
eu fora estpido ao permitir que ele fosse mais esperto que eu e escapasse s escondidas quando eu estava distrado com as gracinhas de Cindy, que tentava danar 
comigo.
    Haviam-se completado vinte e quatro horas desde que Mame desaparecera.
    O velho mordomo nos recebeu, recuando para fitar-nos carrancudo.
    - Minha me no viajou para o Hava - declarou Papai, os olhos azuis duros e frios.
    - E da? No  uma mulher organizada. Talvez tenha ido passar as festas natalinas com amigos. No possui amigos por aqui.
    - Voc fuma cigarros caros - disse secamente Papai. - Lembro-me daquela noite, quando eu tinha dezessete anos, deitado atrs do sof enquanto voc e Livvy, a 
copeira... ento, voc fumava a mesma marca de cigarros. Franceses?
    - Exato - confirmou John Amos Jackson com um sorriso zombeteiro. - Os gostos do velho Malcolm Neal Foxworth deram-me o
hbito...
    - Voc procura imitar meu av, no  mesmo? 
    -  mesmo?
    - Sim, creio que sim. Quando revistei esta casa, abri um armrio cheio de roupas caras de homem... suas?
    - Sou casado com Corrine Foxworth. Ela  minha esposa.
    - Que chantagem voc aplicou para conseguir isso?
    O velho tornou a sorrir.
    - Algumas mulheres precisam de um homem em casa, ou no se sentem seguras. Ela se casou comigo para ter companhia. Como pde ver, continua a tratar-me como um 
criado.
    - Creio que no - disse meu pai, cujos olhos semicerrados, estudavam o mordomo, que trajava um terno novo. - Creio que voc
estava pensando no futuro, quando - ou se - minha me morresse.
    - Que interessante - comentou John Amos Jackson, apagando a ponta do cigarro que fumara to depressa. - J fiz meus planos de viagem. Voltarei para a Virgnia, 
onde espero que minha esposa v juntar-se a mim quando se cansar de seus atuais anfitries.
H alguns anos, sua filha a arruinou socialmente na Virgnia, como o senhor deve saber, mas ela voltar para l, a despeito disso.
    - Por que?
    John Amos Jackson sorriu abertamente.
    - Ela mandou reconstruir Foxworth Hall, Dr. Sheffield. Foxworth Hall ressurgir das cinzas - como a fabulosa Fnix!
    Papai vacilou, ainda olhando para o cigarro.
    - Foxworth Hall - disse com assombro. - Em que etapa est a obra?
#284
    - Quase terminada - replicou John Amos Jackson, muito confiante em si mesmo. - Logo eu reinarei onde Malcolm reinou; e sua arrogante filha reinar a meu lado.
    Soltou uma risada louca, parecendo gozar o desconforto de meu pai.
    - Far uma operao plstica para eliminar as cicatrizes e reconstituir o rosto. Tingir os cabelos, que voltaro a ser louros. Sentar-se- diante de mim  mesa 
do salo de jantar. Atrs de mim, estar postado um de meus primos, no mesmo local onde eu costumava permanecer de p. Tudo voltar a ser como antes, s que desta 
vez eu serei o amo e senhor.
    As engrenagens funcionavam no crebro de Papai. 
    - Voc nunca reinar em lugar nenhum, exceto na cadeia - declarou ele, antes de dar meia-volta e sair.
    - Papai - disse eu, quando voltamos para casa. - Voc acreditou no que disse aquele mordomo?
    - Ainda no sei. S sei que ele  mais esperto do que parece. Quando eu era menino, em Foxworth Hall, e via de cima aquela careca, nunca imaginei que ele tivesse 
algum poder. Parecia-me apenas um criado como os outros. Entretanto, hoje estou percebendo
que ele arquitetou o plano h muito tempo e est cumprindo seu cronograma de vingana.
    - Vingana?
    - Jory, no percebe que o homem  louco? Voc me contou que Bart imita um velho chamado Malcolm, que morreu h anos. Mas o homem que Bart realmente imita  John 
Amos Jackson, o qual, por sua vez, imita meu av. Malcolm Foxworth, morto e sepultado, mas ainda interferindo em nossas vidas.
    - Como voc sabe? Alguma vez viu seu av? 
    - Vi-o apenas uma vez, Jory - disse Papai, pensativo. - Eu era da sua idade: quatorze anos. Sua me e eu nos escondemos numa enorme arca no segundo andar e observamos 
o salo de baile, l embaixo. Malcolm Foxworth estava numa cadeira de rodas. Estvamos longe e no cheguei a escutar-lhe a voz. Contudo, nossa me
costumava visitar-nos e descrevia como ele falava de pecado e inferno, citando a Bblia, mencionando o Inferno e o Dia do Juzo Final.
    Anoiteceu. Acendemos todas as luzes, esperando que isso orientasse Mame no caminho de volta  casa. E Bart, tambm. Emma e Madame M. colocaram Cindy mais cedo 
na cama. Emma voltou do quarto de Cindy para a cozinha, mas Madame M. veio  sala ntima
e afundou-se numa poltrona em frente a Papai. Pouco depois, Bart entrou e encolheu-se num canto.
    - Onde se demorou tanto? - perguntou Papai, endireitando-se na poltrona e fixando Bart com um olhar estranho.
#285
    Madame M. tambm pregou em Bart os olhinhos negros. Bart ignorou-os e continuou projetando figuras de sombra na parede,
contorcendo as mos em diversas posies.
    O aparelho de TV s minhas costas estava ligado, embora ningum lhe desse ateno. Um coro de meninos entoava canes de Natal. Eu estava exausto por tentar 
acompanhar os passos de Bart durante o dia inteiro. Mais exausto por preocupar-me com Mame, sem falar no que aconteceria a todos ns...
    Resolvi que precisava fugir dali e ir para a cama. Levantei-me para dizer boa-noite, mas Madame M. colocou o indicador nos lbios e gesticulou para que Papai 
tambm prestasse ateno ao que Bart murmurava para si mesmo ao projetar a esquisita sombra de um velho falando a uma criana.
    - Coisas ruins acontecem aos que desafiam as leis de Deus - entoou ele num tom hipntico. - Gente m, que no vai  igreja aos domingos, nem leva os filhos, 
que comete atos incestuosos, ir para o inferno e queimar nas fogueiras eternas, enquanto os demnios atormentam suas almas eternas. Gente m s pode ser redimida 
pelo fogo. S pode ser salva do inferno, do Demnio e de seu forcado, pelo fogo, fogo.
    Fantstico, realmente esquisito.
    Papai foi incapaz de controlar por mais tempo a impacincia e a raiva.
    - Bart! Quem lhe disse tais besteiras?
    Meu irmo se empertigou bruscamente e seus olhos castanhos se tornaram inexpressivos.
    - S fale quando lhe dirigirem a palavra, disse o homem sbio  criana inocente. E a criana replicou: gente m, que comete pecados, acabar na fogueira.
    - Quem lhe disse isso?
    - O velho, do tmulo. O velho gosta mais de mim que de Jory, que dana bal pecaminoso. O velho detesta bailarinos. O velho diz que s eu sirvo para mandar nesta 
casa.
    Papai escutava com ateno. Eu me lembrava dos conselhos do psiquiatra de Bart:
    - Comportem-se de acordo com ele; finjam acreditar em tudo o que ele disser, por mais ridculo que seja. Lembrem-se de que tem
apenas dez anos e nessa idade uma criana  capaz de acreditar em quase tudo; portanto, permitam que ele se expresse da nica
maneira segura que encontrou at agora. Quando o "velho" falar, vocs estaro ouvindo seu filho mencionar aquilo que mais o incomoda. 
    - Bart - disse Papai -, oua-me com ateno: se sua me no soubesse nadar e estivesse prestes a afogar-se, e eu estivesse perto, mas olhando para outro lado, 
voc me avisaria, de modo que pudesse mergulhar para salv-la?
#286
    Qualquer filho responderia imediatamente, mas Bart refletiu muito sobre o assunto, franzindo a testa, sopesando uma resposta que deveria ter sido espontnea.
    Afinal, respondeu:
    - Se Mame fosse pura e sem pecado, voc no precisaria fazer nada para salv-la, Papai. Deus a salvaria.

O DIA DO JUIZO FINAL

    Ningum me compreendia, nem o que eu estava procurando fazer. No adiantava tentar explicar. Precisava agir totalmente sozinho. Fugi de Papai, de Jory, de todas 
as pessoas que me consideravam mau e desnecessrio s suas vidas. Eu chegara, poderia partir, e no fazia a menor diferena para ningum. Eles no sabiam que eu 
estava procurando reparar todos os males que eles prprios haviam cometido antes mesmo de eu nascer, bem como depois que eu nascera. 
     Pecado. O mundo estava repleto de pecado e de pecadores.
     No era minha culpa se Mame tinha que ser castigada, embora me intrigasse um pouco o motivo pelo qual Deus no desejava incluir Papai no castigo.
    John Amos me dissera que os homens eram destinados a coisas melhores. Coisas  hericas, como ir para a guerra e fazer atos de bravura. No importa que pernas 
e braos fossem arrancados a tiros - era um modo muito melhor de sofrer que o reservado por Deus para as mulheres.
    Era preciso refletir profundamente sobre o assunto. E se as portas celestiais no se abrissem para receber a alma purificada de
minha me? "Siga seu caminho e no torne a pecar", diria eu, se fosse Deus. Bateria com meu cajado de ouro no cho de ouro do cu e
acertaria numa grande pedra l embaixo, a fim de abri-la e poder gravar nela os meus vinte mandamentos. (Dez eram insuficientes).
De que modo conseguiria afastar as guas do Pacfico e permitir que todos os justos escapassem aos pagos que os perseguiam de perto? 
     Pensar assim causava-me mal-estar na cabea, nas pernas, dava-me frio nas mos e nos ps. Mame, por que teve que ser to m?
Por que precisou viver com seu irmo e colocar sobre mim a carga de sua morte?
    Jory estava no corredor, perto de minha porta. Espionando-me. Eu sabia que era ele. Jory andava sempre me rondando furtivamente,
procurando descobrir o que eu pretendia fazer. Eu o ignoraria e me concentraria nas ltimas horas de vida de minha me. Ela e Vov deviam receber boa comida para 
a ltima #287
refeio. Todo prisioneiro condenado  morte tinha direito ao seu prato predileto antes de morrer. Precisava agir corretamente com Mame e Vov. De que elas gostavam 
mais? Eu gostava mais de sanduches; talvez elas
tambm gostassem. Sanduches, torta e sorvete seria timo. To logo todos se deitassem, eu lhes levaria a ltima refeio.
    A noite negra chegou. Todas as luzes se apagaram. Em breve tudo estava muito, muito silencioso. O que era aquilo? Seria um
ronco, o som que vinha do outro lado do corredor, do quarto de hspedes ao lado do quarto de Jory? A velha Madame Marisha roncava. Revoltante.
    Coloquei fatias de peru como recheio do po de queijo caseiro feito por Emma. Com duas fatias de torta de cereja e um litro de
sorvete em minha sacola, encaminhei-me para a imensa manso branca, movimentando-me silenciosamente como um camundongo.
    Desci, desci, desci todos os degraus que levavam ao poro, onde pululavam ratos, camundongos e aranhas. As duas mulheres gemiam e choramingavam, chamando por 
mim. Senti-me importante. Levantei a portinhola da gatinha e empurrei para o interior da cela as gulodices que trouxera.
    A luz do coto de vela que eu lhes dera era muito fraca, trmula, mostrando vultos plidos que nem pareciam slidos. Minha av
tentava acalmar Mame, que no parava de esbravejar:
    - Tire as mos de mim, Sra. Winslow. Por algum tempo, senti-me outra vez uma criana e fiquei satisfeita por ter voc a meu lado no escuro. Agora, porm, eu 
me lembro. Quanto est pagando quele mordomo para fazer isto comigo? Por que voc est aqui?
    - Cathy, Cathy, John me bateu na cabea, exatamente como fez com voc. Ele tambm me odeia. No ouviu tudo o que lhe expliquei?
    - Ouvi, sim. Foi como um pesadelo, todas as mesmas coisas que Chris costumava me dizer, tentando explicar por que motivo voc
agia daquela forma. Embora ele simule detest-la, eu sempre soube que, no fundo, ele ainda a ama, a despeito de tudo que voc fez. Conservou um pouco de f em voc... 
mas  estpido em sua lealdade para com as mulheres. Primeiro voc, agora eu.
    Senti-me satisfeito por conhecer tantas palavras complicadas e importantes, de modo que um dia poderia escrever meu prprio
dirio e contar a todos como salvara Mame das fogueiras do inferno.
     Pude ver palha presa aos cabelos de Mame, que j no estavam to bonitos. A mesma palha velha que antes existia no celeiro onde Ma costumava ficar. Elas 
nem mesmo me haviam agradecido por tornar-lhes a cela mais quente e macia com aquele feno. Eu o trouxera com uma p, enquanto elas dormiam.
#288
    - Cathy, no ama realmente seu irmo? Apenas o tem usado?
    Mame pareceu quase louca ao tentar agredir Vov.
    - Sim, eu o amo! Voc me forou a am-lo. A culpa foi sua e agora temos que viver envergonhados e com remorso, temendo que
qualquer dia nossos filhos descubram a verdade. E eles descobriram - por sua causa!
    - Por causa de John - murmurou minha av. -  Eu s vim aqui para ajudar, para ficar perto de vocs, para compartilhar um
pouco de suas vidas. Mas parem de sentir remorso; faam-no o meu remorso, a minha vergonha. Aceito a culpa como minha, toda
minha. Voc tem razo, Cathy. Sempre acertou no julgamento que fazia de mim. Sou fraca, tola e sempre consigo tomar as decises erradas. Penso que so certas quando 
as tomo, mas, no final, elas sempre do
maus resultados.
    Mame se acalmou. Sentou-se nos calcanhares e fitou minha av. 
    - Seu rosto... por que o arranhou?
    Minha av baixou a cabea. Parecia ter envelhecido dez anos num nico e longo dia.
    - Depois que Bart morreu, eu quis morrer. Quis destruir minha beleza, para que homem nenhum tornasse a desejar-me. No
queria olhar no espelho e deparar com voc me encarando, pois tambm a odiei durante muito tempo. Era Chris quem vinha todos os veres e conversava comigo, at fazer-me 
compreender o seu lado do caso que teve com meu marido. Chris me disse que voc realmente amava Bart, que deveria ter feito aborto do filho dele para resguardar 
sua
prpria sade, mas recusou-se a faz-lo. Voc fez questo de ter o filho de Bart, Cathy, e eu lhe agradeo por isso. Obrigada por ter-me dado um novo Bart, pois 
ele  meu como Jory jamais ser.
    Oh, ambas me amavam! Mame arriscara a sade para dar-me a vida. vov deixara de odiar Mame por minha causa. Eu no era
to ruim quanto imaginava.
    - Cathy, perdoe-me, por favor - suplicou vov. - Diga que me perdoa. Por favor, diga isso ao menos uma vez. Preciso tanto de
escut-la dizer isso. Foi Christopher quem me amou, quem me defendeu, mas foi voc quem me manteve acordada  noite, atormentando-me at mesmo em minha lua-de-mel 
com Bart.  o seu rosto e o rosto dos gmeos - que ainda me persegue. Christopher ser sempre meu - e seu. Mas devolva-me minha filha.
    Mame gritou. Alto, agudo, loucamente, ela gritou sem parar. Atirou-se contra minha av, batendo-lhe com os punhos fechados.
    - No! Jamais conseguirei dizer o que voc quer! 
    Esbarrou na vela, que caiu e ateou fogo ao feno. Um jornal velho que elas usavam para se aquecerem logo se incendiou. Minha
av e minha me batiam nas chamas com as mos nuas, tentando apag-las.
#289
    -  Bart! - gritou minha av. - Se est a fora nos escutando, corra para buscar socorro! Chame os bombeiros! Chame seu pai!
Faa alguma coisa, depressa, Bart, ou sua me morrer queimada - e Deus jamais o perdoar por ajudar John Amos a matar-nos!
    O que? Eu estava ajudando Deus ou John Amos? 
    Subi como louco a escada do poro e entrei na garagem, onde John Amos colocava suas malas na ltima das limusines negras. - A outra j partira, levando as criadas 
para lugar seguro.
    Ele fechou a mala do carro, virou-se para mim com um largo sorriso e disse:
    - Bem. esta  a noite.  meia-noite em ponto - no se esquea. Desa a escada devagar, at a cela, e acenda o pvio.
    - Aquele pavio fedorento?
    - Sim, est ensopado com gasolina.
    - No gostei do cheiro. Por isso, joguei-o fora. No queria que elas fizessem a ltima refeio num lugar fedorento.
    - De que est falando? Esteve dando comida a elas? 
    Virou-se como se pretendesse agredir-me. Ento, surgindo do nada, Jory se atirou sobre John Amos. O velho caiu de costas. Jory o cavalgou. Ento, Papai entrou 
correndo na garagem.
    - Bart.. observamos voc fazer os sanduches, cortar a torta e pegar o sorvete. Agora, onde esto sua me e sua av? 
    - Fiquei sem saber o que fazer.
    - Papai! - berrou Jory. - Sinto cheiro de fumaa!
    - Onde esto elas, Bart?
    John Amos gritou para papai:
     - Leve esse garoto louco para longe daqui -, ele e seus fsforos! Ateou fogo  casa! Ele e suas idias malucas, como matar o
pobre co que gostava tanto dele! No  de espantar que Corrine entrasse em pnico e fugisse sem me dizer para onde ia!
    Ele chorava lgrimas de verdade e limpava o nariz com a mo.
    - Oh, Deus, quem me dera nunca ter vindo morar aqui! Eu disse a Corrine que isto ia acabar mal.
    Mentiras! Ele mentia contra mim! Nada daquilo era verdade!
    - Voc fez tudo! Voc  louco, John Amos!
    E, como faria Malcolm, corri para dar-lhe pontaps.
    - Morra, John Amos! Morra e seja redimido pela morte!
    Agarraram-me os braos e me ergueram do cho. Papai me segurava no colo, procurando acalmar-me.
    - Sua me... onde est sua me? Onde  o incndio?
    Uma nvoa vermelha me toldava a viso, mas enfiei a mo no bolso das calas e entreguei a chave a Papai.
    - Na adega - respondi atordoado. - Esperando que o fogo termine com elas como elas terminaram com Foxworth Hall. Era
#290
assim que Malcolm queria: todos os ratinhos de sto queimados, a fim de cessarem a reproduo de sementes contaminadas.
    Eu observava de muito longe do meu corpo, vendo o pavor aturdido invadir os olhos de Papai, que tentavam penetrar nos meus, mas eu sabia que meus olhos no tinham 
expresso - pois eu no estava naquele corpo. No sabia onde estava. Nem me importava com isso.

REDENO

   Fogo. A manso estava em chamas.
     Montei no peito de John Amos, que lutava para livrar-se de mim - ou tentou lutar, pois logo percebeu quem ganharia a batalha.
    - No conseguir escapar, velho. Envenenou a mente de meu irmo, induzindo-o a pensar coisas horrveis. Espero em Deus que voc apodrea numa cela o resto da 
vida, para pagar pelo que fez. Enquanto John Amos e eu lutvamos, Papai correu  procura de
Mame e de nossa av, com Bart em seus calcanhares, gritando-lhe instrues sobre como chegar  adega.
    - Sai de cima de mim, rapaz! - berrou John Amos Jakson. - Aquele seu irmo  maluco... perigoso! Matou o pobre co de
fome e depois o atravessou com um forcado. Isso  coisa de uma criana s?
    - Por que no o deteve, se o viu fazer isso?
    - Ora, ora... - gaguejou o velho. - Porque ele voltaria contra mim, como um animal feroz. O menino  to louco quanto a
av. Ora, foi minha prpria esposa quem o viu desenterrar o esqueleto de sua gatinha de estimao. PergUnte a ela. Vamos, pergunte a ela.
    Parte do que ele dizia, chegava ao consciente, Bart era irracional. Ainda assim, ainda assim... seria um assassino?
    - Bart fala dormindo, velho. Repete tudo que escutou durante o dia, como um papagaio. Faz citaes extradas da Bblia e pronuncia
palavras que no conheceria se algum como voc no lhe ensinasse.
     - Seu garoto idiota! Ele nem sabe quem ! Ser que voc no consegue perceber? Ele pensa que  o prprio bisav, Malcolm
Foxworth... e, como Malcolm, sente-se compelido a matar todos os membros que ainda restam da famlia Foxworth.
    Naquele momento, vi meu pai entrar cambaleando na garagem, carregando minha me. A me dele, suja,e maltrapilha, o seguia de perto. Levantei-me de um pulo e 
corri para Mame.
#291
    - Mame... oh, Mame! - exclamei, deleitado por verificar que ela ainda estava viva.
   Desgrenhada, suja, plida, magra... mas viva, graas a Deus! 
   Ela estava consciente.
   - Onde est Bart? - murmurou.
   Com aquela pergunta, perdeu os sentidos e ficou inerte nos braos de Papai. Olhando em volta  procura de Bart, notei que John
Amos sumira.
   - Papai - disse eu, para chamar-lhe a ateno. 
     Naquele instante, o mordomo surgiu das sombras da garagem, carregando uma pesada p. Usou-a para desferir violenta pancada no
topo da cabea de Papai. Silenciosamente, sem um gemido, Papai caiu ao cho com Mame ainda em seus braos. O mordomo tornou a
erguer a p, como se fosse matar Papai e, talvez, Mame tambm. Corri e usei a perna direita para dar um pontap como nunca dera
antes. A p foi atirada longe e, quando John Amos virou-se para enfrentar-me, dei-lhe um coice com o p esquerdo, acertando-o em cheio no estmago. Ele gemeu e caiu.
    Mas Bart... onde estava Bart?
    - Jory! - exclamou a me de meus pais. - Retire seus pais desta garagem o mais depressa possvel! Puxe-os para longe, de modo que no se machuquem se a garagem 
explodir quando o fogo atingir a gasolina que existe aqui dentro. Depressa!
    Fiz meno de protestr, ms ela atalhou: 
    - Encontrarei Bart. Trate de colocar os seus pais em lugar seguro.
    Foi fcil pegar Mame e carreg-la para longe, depositando-a no cho. No foi to fcil arrastar Papai pelos ombros e deix-lo
Deitado ao lado de Mame, sob uma rvore. Mesmo assim, consegui.
    Agora, a fumaa saa por diversas janelas da manso. Meu irmo estava l dentro e minha av tambm.
    John Amos Jackson se recobrara e tambm correu para dentro da casa incendiada. Vi John Amos lutando com minha av na cozinha.
Castigava o rosto dela com bofetadas. Corri para socorr-la, embora a fuma me entrasse nos olhos.
    - Jamais conseguir escapar, John! - gritou minha av quando o velho tentou estrangul-la.
    Tropecei e ca sobre uma cadeira que fora derrubada. Levantei-me a tempo de ver minha av brandir um pesado cinzeiro de cristal veneziano, acertando a tmpora 
de John Amos Jackson. Ele caiu como uma ave abatida a tiro.
    Foi ento que avistei Bart. Estava na sala, tentando arrastar o enorme retrato a leo para um lugar seguro.
    - Mame - soluava ele. - Preciso salvar Mame. No tenha medo, Mame, vou tirar voc daqui, pois sou to valente como Jory... to
#292
valente como ele... No posso deixar voc ser queimada. John Amos estava mentindo. Ele no sabe o que Deus quer. No sabe...
    - Bart - chamou minha av, com uma voz muito semelhante  de Mame. - Estou aqui. Voc pode me salvar e no apenas o retrato.
    Avanou, mancando muito. Creio que tropeou e torceu o tornozelo, pois a cada passo fazia uma careta de dor.
    - Por favor, Bart, querido, precisamos sair desta casa.
    Ele sacudiu a cabea.
    - Tenho que salvar Mame! Voc no  Mame! 
    - Mas eu sou - disse outra voz, vindo de outra porta.
    Arregalei os olhos - ao ver Mame agarrando-se debilmente ao portal, implorando a Bart:
    - Querido, largue o retrato e todos ns sairemos juntos daqui.
    Bart olhou de Mame para nossa av, ainda agarrado ao enorme e pesado quadro que ele jamais teria fora suficiente para arrastar daquela casa.
    - Vou salvar Mame, mesmo que ela me deteste - murmurou ele consigo mesmo, tentando puxar o pesado retrato. - j no me
importo que ela goste mais de Jory e Cindy. Preciso fazer uma coisa boa. Ento, todos sabero que no sou mau, nem maluco.
    Mame correu para ele, cobrindo-lhe de beijos o rostinho sujo. A sala se encheu de fumaa.
    - Jory! - gritou minha av. - Chame os bombeiros! Leve Bart daqui. Eu levarei sua me.
    Mas Mame no queria ir; parecia ignorar o perigo de permanecer numa casa cheia de fumaa, com fogo no poro. Enquanto eu
discava zero, para falar com a telefonista e comunicar o que se passava, fornecendo-lhe o endereo da manso, Mame ajoelhou-se e
abraou Bart com fora.
    - Bart, meu querido, se voc no consegue aceitar Cindy como irm e viver feliz com ela, eu a mandarei embora.
    Os dedos de Bart se afrouxaram no retrato  medida que seus olhos se esbugalharam.
    - No mandar, no...
    - Sim, juro que mandarei. Voc  meu filho, nascido do meu amor por seu pai...
    - Voc amava meu verdadeiro pai? - perguntou Bart, incrdulo. - Amava-o de verdade, apesar de seduzi-lo e mat-lo?
    Soltei um gemido e corri para agarrar Bart.
    - Venha, Bart. Vamos cair fora daqui enquanto  possvel.
    - Bart, v com Jory - disse minha av. - Eu cuidarei de sua me.
#293
    L estava a porta lateral que Bart usava para entrar na casa s escondidas. Arrastei-o para l, olhando para trs e vendo Mame ser puxada por minha av. Mame 
parecia prestes a desmaiar, de modo que minha av era quase forada a carreg-la.
     Quando me afastei correndo da casa, forando Bart a juntar-se a Papai sob a rvore onde eu o deixara, vi que Mame desfalecera nos braos da me dela. Quando 
isso aconteceu, ambas tropearam para trs e a fumaa as envolveu.
    - Oh, meu Deus! Cathy ainda est naquela casa? - perguntou Papai, ainda limpando o sangue que no parava de escorrer do profundo corte em sua cabea.
    - Mame vai morrer! Eu sei! - gritou Bart, correndo em direo  casa e obrigando-me a correr no seu encalo.
    Atirei-me para a frente e o derrubei numa jogada de futebol americano. Ele se debateu como um louco.
    - Mame! Tenho que salvar Mame! Solte-me, por favor, Jory! Largue-me!
    - No  preciso voc ir. A me dela vai salv-la - repliquei, olhando por cima do ombro enquanto o segurava e evitava que ele
tornasse a entrar na casa em chamas.
    De repente, Emma e Madame Marisha surgiram no quintal, segurando-me e contendo Bart, conduzindo-nos na direo de Papai,
que conseguira pr-se de p. s cegas, com as mos estendidas para a frente, ele andava para a manso incendiada, gritando:
    - Cathy, onde est voc? Saia dessa casa! Vou busc-la, Cathy!
    Naquele instante, Mame foi violentamente empurrada por uma das largas portas que se abriam para o ptio.
     Corri para peg-la e carreg-la at Papai.
    - Nenhum de vocs dois precisa morrer -declarei, com um soluo na voz. - Sua me salvou pelo menos um dos filhos.
     Mas o ar ecoava com gritos e gemidos. As roupas de minha av estavam em chamas! Como num pesadelo, vi-a bater nas labaredas.
    - Jogue-se no cho e role! - rugiu Papai, soltando Mame to depressa que ela caiu.
    Correu para sua me, abraou-a e rolou com ela pelo cho. Ela arquejava, sufocada, enquanto ele extinguia o fogo. Minha av
lanou ao filho um desorientado olhar de pavor, antes que uma expresso tranqila lhe surgisse no rosto - para ficar.
    Por que ela no mudava de expresso? Papai soltou um grito e, em seguida, colou o ouvido ao peito dela.
    - Mame - soluou ele. - Por favor, no morra antes de me dar uma oportunidade de dizer o que preciso... Mame, no morra...
    Mas ela estava morta. At mesmo eu era capaz de perceber, pela maneira como seus olhos vidrados se mantinham fixos no cu
estrelado da noite de inverno.
#294
    - Foi o corao - disse Papai, parecendo atordoado. - Exatamente como o do pai dela... Tive a impresso que seu corao
ia saltar do peito quando a rolei pelo cho. E agora, est morta. Mas morreu salvando a filha.

JORY

    Todas as sombras que toldaram meus dias de juventude, todas as indagaes e dvidas que eu temia mencionar, tudo foi limpo, como teias de aranha tiradas dos 
cantos.
     Quando voltei do enterro de nossa av, julguei que a vida continuaria como antes, que nada mudaria.
    Algumas coisas mudaram. Parte do peso foi retirado dos ombros de Bart e ele voltou a ser o garotinho calado e obediente, que no conseguia gostar muito de si 
mesmo. Seu psiquiatra disse que ele ultrapassaria gradativamente aquele estgio, se lhe dessem bastante amor e muitos companheiros da mesma idade para brincar.
    Enquanto escrevo estas linhas, posso olhar pela janela aberta e ver Bart brincando com o pnei Shetland que nossos pais lhe deram como presente de Natal.
    Ao menos, ele recebeu "o desejo de seu corao".
    Observo-o com freqncia, vendo a maneira como ele olha para o pnei, como fita o filhote de So Bernardo que Papai tambm lhe deu. Ento, ele vira a cabea 
e olha para as runas da manso. Nunca fala dela, da av de nosso vero perdido. Jamais pronunciamos o nome de John Amos Jackson, nem mencionamos Ma ou Trevo. 
No podemos colocar em risco a sade e felicidade de um garotinho instvel que tenta encontrar seu caminho num mundo que nem sempre  como um conto de fadas.
    No outro dia, passamos por uma verdadeira mulher rabe na rua. Bart se voltou para fit-la com uma expresso tristonha e sonhadora nos olhos escuros. Agora tenho 
certeza de que, seja l o que
ela tenha sido, Bart a amava - portanto, ela no poderia ser to ruim quanto imagino ao ler o livro de Mame. Conseguiu fazer com
que Bart a amasse, apesar de, na mesma poca, John Amos Jackson ter-se aproveitado de um menino vulnervel e quase o levado 
loucura.
    E assim, John Amos Jackson teve o que merecia. Como minha av, ele tambm jaz morto numa sepultura, l na distante Virgnia, o lar de seus ancestrais, que se 
estabeleceram no que os livros de histria chamam de "A Colnia Perdida".
#295
    Todos os seus planos e esquemas foram vos. Se ele conseguir pensar, no lugar onde se encontra atualmente, eu gostaria de saber
o que sente e pensa a respeito do contedo do testamento de minha av. Ser que ele esperneou na cova quando o advogado nos revelou que nossa av legara toda a fortuna 
dos Foxworth a Jory Janus Marquet, Bartholomew Scott Winslow Sheffield e, por espantoso que possa parecer, Cinthya Jane Nickols. E nenhum de ns era, legalmente, 
seu parente consangneo - legalmente. Todo aquele dinheiro ficar depositado num fundo para ns, at que cada um complete vinte e cinco anos de idade. E os administradores 
do fundo so meu pai e minha me.
    Poderamos viver esplendorosamente, se quisssemos, ou se meus pais preferissem, mas continuamos morando na mesma casa de
sequia, com esttuas de mrmore nos fundos, e cada ano o jardim se torna mais frtil e verdejante.
    Atualmente, Bart se conserva escrupulosamente limpo. No se deita para dormir antes que o quarto esteja  perfeitamente arrumado, cada coisa em seu exato lugar. 
Meus pais se entreolham quando ele insiste em fazer isso; vejo-lhes o medo no olhar e tento adivinhar se Malcolm Neal Foxworth era excepcionalmente limpo e metdico.
     Certa manh, pouco depois do Natal, quando j possua o pnei, Bart ditou a lei para Papai e Mame:
    - Se querem conservar Cindy, ento no podem continuar vivendo juntos como marido e mulher, contaminando minha vida com seus pecados. Papai, voc tem que dormir 
no meu quarto, e Mame tem que dormir sozinha pelo resto da vida.
    Nenhum de meus pais disse uma palavra; limitaram-se a fitar Bart at que este corou e lhes deu as costas, murmurando:
    - Sinto muito... no sou Malcolm, sou? Sou apenas eu, ningum importante.

    Bart  um verdadeiro Foxworth, da cabea aos ps, por dentro e por fora. Afirma que voltar a reinar na Nova Foxworth Hall que
construir para si. 
    - E voc pode danar como louco at os quarenta anos! - berrou ele comigo, porque ficou zangado ao ver-me afagar o seu pnei. - Mas no ser to rico como eu! 
Aos quarenta anos, eu poderei comprar e vender voc quantas vezes quiser, pois pernas de
bailarino no valem muito quando envelhecem, e o crebro  mais importante - milhes de vezes mais importante!
    - Serei o maior ator que o mundo j conheceu! - declarou com arrogncia, transformando-se de manso em agressivo s porque tinha nas mos aquele dirio de capa 
vermelha. - E quando me cansar do palco e da tela, dedicarei meu talento ao mundo dos
#296
negcios. E todos os que no me respeitaram como ator aplaudiro de p o meu gnio para ganhar dinheiro!
    Representando, eis tudo o que ele estava fazendo, pois no passava de um garotinho que no falava muito, a no ser consigo mesmo. No obstante, quando fico acordado 
 noite, pensando em tudo o que aconteceu antes de Bart e eu nascermos, concluo que deva existir um motivo para tudo que ocorreu anteriormente. Das runas devem 
brotar rosas, no  mesmo? Preocupo-me com todas as mulheres que Bart seria capaz de pisar para conseguir seu intento. Seria ele to impiedoso quanto nosso bisav, 
apenas para aumentar uma grande fortuna? E quantas sofreriam por causa de um vero, outono e inverno no ano em que completei quatorze anos de idade?
    Amanh, eu o pegarei pela mo e o levarei para o jardim. Pararemos juntos diante da cpia do "Beijo", de Rodin, e, ento, talvez ele compreenda que Deus quis 
que os homens e as mulheres se amassem
fisicamente e que isso no  pecado, mas muito natural.
     Rezo para que um dia Bart veja a vida como eu a encaro: que o amor - no importa a forma ou rtulo com que se apresente - vale o seu preo, por mais elevado 
que seja.
     Diante da opo entre o amor e o dinheiro, eu escolherei O amor. Em primeiro lugar, porm, est a dana. E quando Bart estiver velho e grisalho, sentado em 
Foxworth Hall contando seus bilhes, eu
estarei com minha mulher e filhos,  satisfeito com as lembranas felizes de quando eu era jovem, gracioso, bonito,  danando no palco com as gambiarras em meus olhos, 
o som dos aplausos em meus ouvidos -
e saberei que meu destino foi cumprido.
    Eu, Jory Janus Marquet, levarei avante a tradio da famlia.

BART

    Eles no me conhecem nem me compreendem mais que antes. Jory me olha com piedade, como se eu fosse diferente do resto da raa humana. Sente pena de mim porque 
no gosto do seu tipo de msica, nem de qualquer outro tipo de msica, e as cores no pintam quadros no meu crebro nem me trazem msica aos ouvidos. Ele julga que 
jamais encontrarei prazer em alguma coisa. Mas acharei um modo de sentir prazer. Saberei que futuro ser adequado para mim, pois esse foi o verdadeiro motivo pelo 
qual Deus me enviou minha av, John Amos e Malcolm, como fados que me vieram mostrar o caminho. Vieram mostrar-me como salvar meus pais das eternas fogueiras do 
inferno.
#297
    - Vigio Papai e Mame noite e dia; entro s escondidas no quarto deles, durante a noite, temendo apanh-los em pecado. Mas limitam-se a dormir abraados e, para 
meu alvio, seus globos oculares no se mexem por baixo das plpebras. Mame j no tem pesadelos.  mesa do caf, vejo os olhos de meu pai, parecendo mais azuis 
que nunca, pois ele soltou a "gravata" com que estrangulava a irm.
     Eu os salvei.
   Portanto, Jory sente pena de mim. Um dia, porm, quando formos mais velhos, mais sbios e eu tiver encontrado as palavras
adequadas, contarei a ele algo que Malcolm escreveu em seu dirio:  preciso existir escurido para haver luz.

EPLOGO

    Lembro-me tanto do que aconteceu antes de irmos a Greenglenna sepultar minha me ao lado de seu segundo marido. Foi Bart quem insistiu para que sua av dormisse 
o sono eterno ao lado de seu pai, seu verdadeiro pai, Bartholomew Winslow. Choramos, todos
ns, at mesmo Emma e Madame Marisha. E eu jamais acreditara ver o dia em que Madame M. chorasse por um membro de minha famlia.
    Quando o primeiro torro de terra mida caiu sobre o caixo no fundo da cova, levou-me de volta  poca em que eu tinha doze
anos de idade e Papai estava na sepultura; Mame segurava com fora minha mo e a de Chris; cada um dos gmeos segurava a mo
de um dos irmos mais velhos. E s quando escutei a terra cair sobre o caixo de mogno, gritei algo que prendera dentro de mim durante tanto tempo, soltando-me as 
lgrimas e transformando-me outra vez numa criana necessitada - to necessitada - de agarrar-se aos pais.
    - Mame, eu a perdo! Eu a perdo! Eu ainda a amo! Pode escutar-me de onde est agora? Por favor, meu Deus, faa-a saber
que eu a perdo! 
    Ento, solucei e ca nos braos de meu irmo. Devia ter dito mais a ela no dia de seu enterro, mas Bart estava ali, fitando-me
com severidade, ordenando-me que fosse forte, que abrisse mo do homem a quem eu amava. Contudo, como poderia eu fazer isso,
quando equivaleria a destru-lo?

    Ainda moramos na casa ao lado das runas da manso onde minha me morreu no esforo de salvar-me a vida, mas no  como antes que ela viesse com seu pernicioso 
mordomo, que enchera a cabea de Bart com crenas #298
malucas e lhe dera aquele dirio de Malcolm Foxworth. Eu amo Bart. Deus sabe o quanto eu o amo. Todavia, quando vejo aqueles olhos escuros e impiedosos nas sombras, 
encolho-me
de medo e tento compreender por que tive tanta necessidade de vingana, quando possua Chris para salvar-me.
    Na noite passada, Jory e Melodie danaram uma verso espantosamente linda de "Romeu e Julieta". Estremeci ao ver Bart sorrir cinicamente, como se j tivesse 
vivido um sculo, ou mais, e visto tudo aquilo; como se, no final, fosse ele que conseguiria tudo o que desejava, da mesma forma que sempre encontrava um modo de
tornar-se o centro das atenes gerais.
    Aprendeu sozinho a abrir fechaduras e entrar  noite em nosso quarto, a fim de olhar-nos, enquanto eu simulo dormir e permaneo imvel, com a respirao suspensa, 
at que ele se v. Sinto um medo terrvel de que o mal que existia no ntimo de Malcolm volte a surgir em meu filho caula. E, mais cedo ou mais tarde, a histria 
se repete.
    - Hoje o correio me trouxe uma carta de meu agente literrio - segredei a Madame M. enquanto Jory e Melodie trocavam as roupas
de bal por trajes comuns. - Ele achou um editor que me fez uma oferta pelo livro, o meu primeiro livro. No  uma fortuna, mas
vou aceitar. 
    Madame M. lanou-me outro daqueles olhares prolongados e especulativos, que outrora faziam-me sentir vulnervel e nervosa, como se ela pudesse ver atravs de 
mim.
    - Sim, Catherine, faa o que deve fazer, a despeito das conseqncias ou dos protestos que eu faa - ou qualquer outra pessoa faa.
    Eu sabia a quem ela se referia, pois ele me olhou raivosamente, parecendo dizer-me que eu deveria guardar meus segredos e no
revel-los ao mundo inteiro. Contudo, Bart nao pode comandar todos os meus atos.
    - Voc ser rica e famosa de um modo diferente do que eu imaginei ao v-la com quinze anos - continuou Madame M., que
agora era a minha mais querida confidente. - Pois tudo pode ser conseguido por aqueles que tm o desejo, a energia, a dedicao e a
determinao.
    Sorri nervosamente, temerosa de olhar outra vez para Bart; em vez disso, deixei o olhar em meu filho mais velho, que era o astro da noite. Eu tinha absoluta 
certeza de que, quando meus livros fossem publicados e todos os esqueletos fossem expulsos dos armrios da famlia Foxworth, teria derrubado e aniquilado o fantasma 
de Malcolm Neal Foxworth, que jamais tornaria a levantar-se para dominar minha vida.
    Minhas mos se ergueram nervosamente ao pescoo, para apalparem as prolas invisveis que costumavam adornar o pescoo de minha me, mas nunca o meu - nunca 
o meu. #299
O mal vicejava  sombra escura das mentiras. Era impossvel o mal sobreviver em plena luz brilhante da verdade nua e crua, por mais incrvel que isso possa parecer 
a alguns descrentes.
    Estremecendo, afastei-me um pouco de Bart, chegando mais a Chris, que me passou o brao pelos ombros quando o abracei pela
cintura. Senti-me segura, segura, segura. Agora, eu conseguia olhar para Bart e sorrir; agora, eu podia estender a mo para Cindy e tentar alcanar a mo de Bart...
    Mas ele recuou, recusando-se a tomar parte na corrente que formaria de nossa famlia - um por todos e todos por um.
    Gostaria de concluir dizendo que no choro mais  noite, que deixei de ter pesadelos nos quais via minha av subindo a escada para tentar apanhar-nos em pecados 
que no cometamos. Desejo escrever que s me posso sentir grata pelo fato de as flores do sto terem conseguido brotar dos talos espinhosos, produzindo ao menos 
umas poucas rosas, rosas de verdade, daquelas que desabrocham ao sol.
    Eu gostaria de concluir com estas palavras. Mas no posso. No obstante, tornei-me suficientemente amadurecida e sbia para aceitar as moedas de ouro que me 
so oferecidas e nunca, nunca mais em minha vida, virarei um objeto brilhante para procurar o azinhavre no outro lado.
    Quem procura, acha.

    No sei por que motivo, ergui os olhos. Bart estava outra vez sentado no canto sombrio, segurando nas mos um livro vermelho que parecia encadernado em couro, 
com gravaes douradas. Lia silenciosamente, os lbios formando as palavras de um bisav que ele no chegou a conhecer.
    Estremeci. Pois o dirio de Malcolm fora queimado no incndio. O livro que Bart segurava era uma imitao barata de couro e todas as pginas estavam em branco.
    No que isso fizesse diferena.

FIM
